quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

"Estudiantina Portuguesa" (1950)


"Estudiantina Portuguesa" é um pasacalles (ou fado-marcha) da autoria do Maestro José Padilla que fez parte da opereta espanhola "La Hechicera en Palacio", protagonizada pela cantora argentina Celia Gámez no início da década de 50.


"La hechicera en palacio"

A opereta “La hechicera en palacio”, com letras de Arturo Rigel e Francisco Ramos de Castro e música de José Padilla, foi estreada em 23 de Novembro de 1950 e permaneceu em cartaz, sempre com casa cheia, até Junho de 1952.

A história decorre no país fictício de Taringia, que se prepara para celebrar o centenário da sua fundação, mas tudo se complica com a grave doença grave de Rei Cornélio V, que só poderia ser salvo pelas artes da bela feiticeira Patrícia

Uma dos números do espectáculo era um tema cómico que seria interpretado por Pepe Barcenas e Olvido RodriguezCélia Gámez ouviu a canção, aproximou-se do Maestro Padilla e disse-lhe: "Isso não pode ser um número cómico, este número é uma bomba ... e eu vou cantar. " 

Arturo Rigel e Francisco Ramos de Castro escreveram uma nova letra e o resultado foi uma das músicas mais importantes da Revista Espanhola, o tema “Estudiantina portuguesa” que foi sucesso em toda a Espanha, tendo sido interpretado por quatro ocasiões na noite de estreia.

(Mais informações em Blog "La Revista Musical")


Kelly Family

"Estudiantina Portuguesa" foi um dos primeiros singles dos Kelly Family, grupo irlandês, sedeado na Alemanha, que obteve bastante sucesso inclusive em Portugal durante a década de 90.



A influência do Fado na revista à espanhola

A revista à espanhola incorporou influências do fados desde os anos quarenta. O exemplo mais importante é, sem dúvida, o famoso "Estudiantina Português" da revista "La Hechicera en Palacio" (1950), que também combina ritmos de Marchiña, mas também é de destacar o fado / pasodoble de "Isleña de las  Azores" de "Ana Maria" (1954 ) ou o fado / fox  de "Niña Isabel" de "Sueños de Viena" (1943).

Outros exemplos

Existem outros temas com referência a Portugal, no âmbito do estilo Pasacalle Estudiantina, como são o caso de “Morena de Portugal” (1968), com letra de Juan G. García Escobar e música de J. Cortina, e "Portuguesiña" (1972), com letra de Bazán e música de Cuenca y Algarra.

Fontes: Portugaltunas, wikipedia, Tunolândia


Letra

Somos cantores de la tierra lusitana,
traemos canciones de los aires y del mar,
vamos llenando los balcones y ventanas
de melodías del antiguo Portugal.

Oporto riega en vino rojo sus laderas,
de flores rojas va cubierto el litoral,
verde es el Tajo, verdes son sus dos riberas,
los dos colores de la enseña nacional.

Por qué tu tierra toda es un encanto?
Por qué, por qué, se maravilla quién te ve?
Ay Portugal! Por qué te quiero tanto?
Por qué, por qué te envidian todos? Ay! por qué?

Será que tus mujeres son hermosas,
será, será que el vino alegra el corazón,
será que huelen bien tus lindas rosas será,
será que estás bañada por el Sol.

Videos: Celia Gámez / Concha Velasco / Kelly Family / John Kelly


segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

“Lejos de Lisboa” de Pasión Vega (2003)


Apesar de Portugal ser em Espanha um vazio, existe uma minoria informada, que não só se interessa, como aprecia o ignorado vizinho. Para alguma elite é mesmo um distintivo de bom gosto.

Na cultura portuguesa encontram figuras e ambientes que promovem nos media e alguns encontram fontes de inspiração artística. É o caso de Pasión Vega que, no seu álbum “Banderas de nadie”, apresenta "Lejos de Lisboa", um tema alusivo a Lisboa, com laivos de toada fadista.

“Lejos de Lisboa”

A música foi composta por Ernesto Halffter (1905-1989) para uma letra popular portuguesa (anónima), com o título original “Ai, qué linda moça”.

Após Paco Gordillo, agente de Pasión, ter assistido à interpretação de “Lejos de Lisboa” pela soprano María Bayo, decidiram contactar a família de Halffter a demonstrar o interesse pelo tema, tendo sido feita a adaptação para castelhano, mantendo-se o título original.

“Ai, qué linda moça” foi uma das seis canções portuguesas baseadas em textos populares (de 1940-41), que foram gravadas, em 1999, na sua versão em português pela soprano María José Montiel, acompanhado ao piano por Miguel Zanetti.

Fontes: Edmundo Tavares, Carles Garcia

Video

Letra

La melancolía de calles perdidas que huelen a mares,
gente que camina y luces de luna de barcos que parten.
Si cierro los ojos puedo ver las calles por donde anduvimos
y escuchar canciones que hablan del destino que nunca tuvimos.

Poemas del aire vendrán hasta aquí
lejos de Lisboa y lejos de ti.
Amor recordado, tristeza sin fin,
Lejos de Lisboa y lejos de ti.

La ropa tendida al sol de la tarde, banderas de nadie;
Las calles en cuesta que suben a un cielo de azules que arden.
Plazas con palomas, puestos de claveles y de rosas blancas,
la ciudad antigua guarda la memoria de un tiempo que escapa.

Poemas del aire vendrán hasta aquí
lejos de Lisboa y lejos de ti.
Amor recordado, tristeza sin fin,
Lejos de Lisboa y lejos de ti.

Amor recordado, tristeza sin fin,
lejos de Lisboa y lejos de ti.

(Popular portuguesa/Versão espanhola: Pablo Guerrero/Música: Ernesto Halffter) Editions Max Eschig, París

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

"Ojalá" de Sole Giménez (2004)


Sole Gimenez, antiga vocalista do grupo espanhol "Presuntos Implicados", iniciou em 2004 a sua carreira a solo com o álbum "Ojalá" no qual recreava algumas das "canções da sua vida", entre as quais se destacava a versão em castelhano do tema "Oxalá" dos Madredeus.

A escolha do título do álbum terá sido resultante da cantora ter pensado, aquando da primeira audição do original do grupo português, que aquele poderia ser um tema que gostaria de incluir num eventual disco de versões.

Registo audio: "Ojalá"


Ojalá” es un disco de versiones en clave electrónica con un repertorio ecléctico pero coherente donde Sole revisa canciones de gran belleza, desde Marvin Gaye a Eric Clapton, Madredeus o Piratas  un compendio de hermosas melodías que en este disco conquistan nuevos espacios sonoros.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

"Formiga bossa nova" de Adriana Partimpim (2004)


Quem introduziu a formiga na bossa nova ?

Em 2004 a cantora brasileira Adriana Calcanhotto gravou [com a colaboração de António Chaínho] a música "Formiga Bossa Nova" no disco "Adriana Partimpim", disco idealizado para as crianças, no qual a artista usa o heterónimo de Adriana Partimpim (seu apelido na infância).

A música "Formiga Bossa Nova" foi musicada pelo compositor português Alain Oulman, responsável por alguns dos maiores sucessos de Amália Rodrigues.

A melodia foi construída sobre o poema do poeta também português Alexandre O'Neill (Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill de Bulhões) fundador do Movimento Surrealista de Lisboa.

O poema que deu origem a canção é intitulado "Velha Fábula em Bossa Nova". A letra é esta:

"Minuciosa formiga / não tem que se lhe diga:/ leva a sua palhinha /asinha, asinha. /Assim devera eu ser /e não esta cigarra / que se põe a cantar / e me deita a perder. /Assim devera eu ser: /de patinhas no chão, / formiguinha ao trabalho / e ao tostão ./ Assim devera eu ser / se não fora / não querer. / (-Obrigado,formiga! / Mas a palha não cabe / onde você sabe...) .

Como este mundo é redondo e Platão já anunciava o Eterno Retorno, vale lembrar que em 1969, pela etiqueta ColumbiaVC, foi editado um single gravado especialmente por Amália Rodrigues com esta canção.

Como vemos, Amália Rodrigues já introduzira a formiga na Bossa Nova. Confira o áudio

Fonte: Rádio Educativa (Brasil):

Drop of Jupiter

Aqueles que conhecem o último álbum editado pela brasileira Adriana Calcanhoto, de certo já ouviram o tema "Formiga Bossa Nova".

É talvez a música de que mais gosto do Adriana Partimpim. Como curiosa que sou, pesquisei o autor da poema, e qual não foi o meu espanto quando encontrei o nome de Alexandre O’Neill ? Mais interessante ainda foi descobrir que este poema foi musicado por Alain Oulman para Amália Rodrigues, e a canção editada em 1970, no LP "Com que voz".

Curiosidade: o tema foi igualmente regravado nos discos ao vivo de Cristina Branco e Entre aspas.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Clã participam em colectânea brasileira (2006)

O disco "Eu Não Sou Cachorro Mesmo" da editora brasileira "Allegro discos" reúne 15versões de canções brasileiras (brega) da década de '70. Aos Clã coube a versão do tema "Tortura de Amor" de Waldick Soriano que, curiosamente, está incluído no disco "Uma noite no Bataclan" relativa à banda sonora da novela Gabriela.

Quem quiser, pode ouvir este excelente tema no MySpace oficial dos Clã. O tema esteve igualmente em destaque no site do famoso jornalista, escritor e divulgador musical Nelson Motta (sintonia fina.uol.com.br).

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket


Opinião (Brasil)

"Destaque para “Tortura de Amor”, interpretada pelo Clã, que com o sotaque lusitano parece mais dramática do que de costume e “Impossível acreditar que perdi você”, refeita por Lula Queiroga e Banda"

(Fonte: Showlivre)

[Acedam a] http://www.myspace.com/clamusic… Myspace dos Clã, grupo lírico-rock da cidade do intrigante Porto, a Belo Horizonte de Portugal…. Uma vez neste sítio, cliquem na magistral “Tortura de Amor”… Sim, a mais melosa das cachorras canções do menestrel Valdick Soriano interpretada por ela, Manuela Azevedo, a voz dos Clã, tão suave como um veleiro e tão linda como a Verdade pronunciada no outono"

(Fonte: Blogueisso)

Opinião do Clã

"Foi um convite muito simpático da editora Allegro Discos", diz Manuela Azevedo. "Fizemos uma versão de uma música chamada 'Tortura de Amor', de Waldick Soriano. É uma coisa muito pimba, mas sofisticada. Romântica."

"Não é uma coisa muito comum", comenta Hélder Gonçalves, e ainda menos porque "a primeira música do disco, e o 'single' de apresentação, é a nossa. Os brasileiros vão achar muito estranho, porque não percebem nada do que dizemos." Ou nem tanto. "A primeira vez que estivemos no Brasil", conta Manuela Azevedo, "no final do espectáculo houve muita gente que me veio perguntar se eu estava a cantar com sotaque brasileiro. Pode ser por causa do sotaque do Porto, que é mais aberto..."

Entrevista ao jornal Ponto Final (Macau), 14/10/2006 (Fonte: cla.no.sapo.pt)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Cumplicidades Patu Fu-Clã


As colaborações entre os Clã e os Pato Fu começaram em 2005, quando Manuela Azevedo emprestou a sua voz ao tema "Boa Noite Brasil", da banda brasileira. Desde então, John Ulhoa (dos Pato Fu) escreveu a letra de "Carrossel dos Esquisitos" (tema incluído em Rosa Carne dos Clã) e Fernanda Takai (Pato Fu) cantou em "Amuo", de Cintura , mais recente álbum dos Clã.

Fonte: Blitz

Video: "Boa Noite Brasil"

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Cumplicidades Arnaldo Antunes-Clã


Arnaldo Antunes, autor de diversas letras dos Clã ("H2omem", "Eu ninguém", "Seja Como For" e "Vamos esta noite") editou em 2006 o álbum "Qualquer", que contou com a colaboração de Hélder Gonçalves e de Manuela Azevedo na co-autoria dos temas "Qualquer" e "Num Dia".

O artista brasileiro colaborou igualmente com o grupo português em actuações ao vivo, nomeadamente em "H2omem" e "Consumado".

Opinião dos Clã:

"O Arnaldo é um poeta, é um escritor e um músico que nós admiramos já há muito tempo. Foi, justamente por admirá-lo muito que, na altura em que estávamos a construir o material para o álbum, pensávamos que era bestial se tivéssemos uma letra dele. Como chegou entretanto, à EMI, o Paulo Junqueira, vindo do Brasil, achámos que podia ser a pessoa indicada para nos dizer se era possível ou não sonhar uma coisa destas."

"Artisticamente encontrámos alguns traços comuns com o Arnaldo que é um tipo que trabalha muitíssimo bem, muito responsável, sempre interessado, muito simples, muito humilde... Também descobrimos que é um poeta muito amado em São Paulo. Nos dois concertos que demos, sempre que apresentávamos a música e dizíamos que tinha letra de Arnaldo Antunes, a ovação era magistral."

Fontes: clan-blog, cla.no.sapo

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Eça de Queirós na obra de Marisa Monte (2000)


A famosa cantora brasileira Marisa Monte lançou em 2000 o tema "Amor I Love You", com música e letra de Carlinhos Brown e Marisa Monte.

O tema termina com um trecho do livro "O Primo Basílio", de Eça de Queirós, lido por Arnaldo Antunes, o qual descreve, de forma poética, o modo como Luísa ficou ao receber o bilhete de seu primo Basílio.


Devaneio literário

Já reparou na homenagem feita no clipe de "Amor, I love you", de Marisa Monte? Trata-se de uma referência feita a partir de uma citação colocada na canção. Declamado por Arnaldo Antunes, o trecho remete a uma das obras máximas de Eça de Queirós: "O Primo Basílio". O vídeo, dirigido por Breno Silveira, relê o clássico do autor português tendo os dois cantores/compositores mencionados actuado como os principais personagens desta famosa história.

Ganhador de vários prêmios na época de seu lançamento, "Amor, I love you" vale-se principalmente da bela fotografia e direção de arte para recontar essa história, numa singela homenagem. Leia o livro, assista ao clip e faça a sua comparação.


Extracto da letra (Eça de Queirós)

Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente!
Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades,
e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido;
sentia um acréscimo de estima por si mesma,
e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante,
onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia um êxtase,
e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!"

Links: Video, Linguística

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Cinema brasileiro recria "Primo Basílio" de Eça de Queirós (2007)


O realizador brasileiro Daniel Filho adaptou ao cinema, em 2007, o famoso romance de Eça de Queirós "Primo Basílio", sendo a acção transposta para a cidade de São Paulo de 1958.


Sinopse

A história se passa em São Paulo, em 1958. Luísa (Débora Fallabella) é uma jovem romântica, frágil e sonhadora, casada com Jorge (Reynaldo Gianecchini), um engenheiro envolvido na construção da nova capital nacional, Brasília. O casal faz parte da alta sociedade de São Paulo.

Quando Jorge é chamado para Brasília a trabalho, Luísa reencontra seu primo Basílio (Fábio Assunção), sua paixão da juventude. Ela está entediada, sozinha em casa com as empregadas Juliana (Glória Pires) e Joana. Mas seu tédio não dura muito, pois o primo começa a visitá-la. E Basílio é pouco discreto sobre suas intenções e não demora muito para que ele conquiste Luísa com as histórias de suas viagens pela Europa. (...)


Curiosidade

Daniel Filho também dirigiu a mini-série homónima que foi produzida pela Rede Globo em 1988.

Fontes: wikipedia, página oficial

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

"Crime do Padre Amaro" no México dos nossos dias (2002)



Depois de três longas-metragens, a adaptação de um clássico oitocentista lançou o realizador mexicano Carlos Carrera nos EUA (nomeação para melhor filme em língua estrangeira). Tudo por causa de Eça. Tudo por causa de "O Crime do Padre Amaro".


A escolha de Eça de Queirós

Antes de "O Crime do Padre Amaro" já tinha lido "A Relíquia". Gosto muito da forma como Eça aponta críticas à sociedade sua contemporânea e da sua construção de personagens, neste caso, personagens vis, cheias de ambições. O encontro com o livro foi casual e como tenho forte formação católica, interessei-me particularmente por fazer este filme.

Sabia que o filme poderia ser considerado como uma espécie de falta de respeito, porque a cultura é algo vivo. Mas o filme não é o livro. Por outro lado, a minha obra provocou uma maior curiosidade sobre os livros de Eça. Sobretudo no México, onde foram sabotadas três edições de "O Crime do Padre Amaro".


Adaptação à actualidade

Eu e Vicente Leñero, um escritor católico praticante, famoso no México, começámos a trabalhar no guião e decidimos fazer as mudanças necessárias para que fosse possível adaptar o romance à actualidade. Apesar das transformações, tentámos sempre respeitar a essência da novela, as suas personagens, as situações e a abordagem da hipocrisia.

Foi essa abordagem da hipocrisia e do cinismo que mais contribuíram para a controvérsia gerada pela Igreja. As manifestações, entre outras formas de contestação, acabaram por ser excelentes veículos de publicidade...


Reacções em Portugal

Luís Francisco Rebello, presidente da sociedade portuguesa de autores, pediu ao Governo que recorresse aos tribunais para proibir a exibição do filme em Portugal.

Mesmo entre especialistas na obra de Eça de Queirós não há consenso. Carlos Reis, ainda que admitindo que provavelmente Eça ficaria vaidoso com o facto de saber que um livro seu deu origem a um filme no México, pensa que Eça ficaria insatisfeito do ponto de vista artístico. Já Isabel Pires de Lima pensa que Eça gostaria do filme pois este "respeita o que é essencial no romance que resiste a ser transposto de uma cidade de província de Portugal do século XIX para uma aldeia nos confins do México em pleno século XXI." (Leme, 2003:19).

Fontes: Maria José Oliveira (Público), Paula Cruz

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

"Jangada de Pedra" de Georges Sluizer (2002)


Três homens, duas mulheres, um cão e um velhinho 2CV. A co-produção, em "Jangada de Pedra", vai num "dois cavalos". "Cast" português (Ana Padrão, Diogo Infante), argentino (Federico Luppi), espanhol (Gabino Diego).

À falta de possibilidades orçamentais (mas também à falta de capacidade de delírio, que é o que é permitido sobrar nessas circunstâncias...), George Sluizer contornou o "maravilhoso" da obra de José Saramago, os "efeitos especiais" (fugindo das expectativas intimidantes tipo: "como filmar a separação da Península Ibérica?").

Há menos saga profética e conto-de-fadas, e mais aventura "humana", como se diz: esta é uma história de amizade entre cinco personagens — e um cão. Como todos vão entrando aos poucos para o "dois cavalos", parece que se forma uma espécie de consciência ibérica e uma coincidência ideal entre o multi-nacionalismo do "cast", dos meios de produção, e a parábola a filmar. "Somos todos ibéricos", periféricos e pobres.

Acresce que os (poucos) meios à disposição — o lado artesanal — confere a "Jangada de Pedra", filme, um registo saudavelmente pícaro. (...)

Fontes: IMDb, Vasco Câmara (Cinema 2000)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

"Ensaio sobre a Cegueira" de Saramago adaptado ao cinema (2008)

Parábola sobre os que vêem e os que não vêem, sobre o conhecimento e a ignorância, "Ensaio sobre a Cegueira" chega agora aos ecrãs portugueses.

Com realização do brasileiro Fernando Meirelles ("A Cidade de Deus", "O Fiel Jardineiro"), a adaptação do romance do Nobel português José Saramago é uma grande produção internacional, envolvendo actores como Julianne Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover e Gael García Bernal.


A aceitação de José Saramago

Após ter negado "cerca de 40 vezes" a muitas produtoras a adaptação do seu livro para o cinema, José Saramago cedeu os direitos aos dois homens que um dia o visitaram em casa e que o fizeram render-se «à imagem de duas pessoas sérias».

"Olhei para eles, gostei da cara deles e disse que sim", afirmou José Saramago na conferência de imprensa. Depois do sim a Niv Fichman (produtor) e Don McKellar (argumentista), uma pura coincidência levaria que fosse o cineasta brasileiro Fernando Meirelles a ser convidado para liderar o projecto.

Ele que, em 1996, tinha tentado propor a ideia a Saramago mas, como tantos outros, tinha levado um não como resposta.


A reacção de Saramago

O resultado teve a aprovação de um Saramago emocionado. "Eu já vi o filme, gostei do filme e tenho estranhado estas reacções porque parece que nunca se fez um filme violento. É violento. Tinha de ser", afirmou o Nobel da Literatura.

Saramago no Cinema

É a terceira adaptação ao cinema de uma obra de José Saramago depois de já termos assistido a "A Jangada de Pedra" (George Sluizer) e à curta-metragem de animação "A Maior Flor do Mundo" (Juan Pablo Etcheberry), baseada num conto do escritor e narrada por ele próprio.

Fontes: João Lopes (SIC), Inês Mendes (CM)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Paul Auster roda filma em Portugal (2007)


"A Vida Interior de Martin Frost" do escritor e cineasta Paul Auster, com produção de Paulo Branco, foi rodado nas Azenhas do Mar, perto de Sintra.

O filme parte de uma história de "O Livro das Ilusões", em que um escritor, para fazer face à morte da mulher e dos filhos, resolve entregar-se à escrita de um livro sobre um virtuoso do cinema mudo que desapareceu misteriosamente nos anos 20.

David Thewlis, Michael Imperioli - actor de "Os Sopranos" - Irène Jacob e Sophie Auster dão vida às personagens.

Azenhas do Mar [Sintra]

"No início não íamos com nenhuma ideia feita. Não tinha de ser igual, mas sim dar a ideia que poderia ser em qualquer lugar do mundo. Mas a zona é muito parecida com a Califórnia do Norte. É um clima parecido e a vegetação também. Aquelas árvores à volta da casa eram pinheiros normais, mas o dono da casa cortou os ramos de baixo para parecerem uma espécie de pinheiros ‘guarda-chuva'. E tem um aspecto estranho, dando um efeito quase de outro mundo, e eu queria isso. Quando vi aquela casa e a zona circundante pensei que era perfeita. Depois era isolada. Não queria quaisquer referências ao mundo exterior."

Problemas de som

"Os únicos problemas que tivemos na rodagem foram problemas de som. Quando filmámos fora da casa, ouvia-se de vez em quando galos, cães, aviões e tivemos de interromper várias vezes a rodagem. Um dia descobri que a Força Aérea Portuguesa tinha uma base ali perto. Estávamos a começar a filmar no exterior, quando os aviões militares começaram a circular pela zona durante duas horas. Mas a Diana Coelho, que era a produtora de linha, muito boa no seu trabalho, ligou mesmo para a Força Aérea a pedir que parassem com a manobra para o filme e eles concordaram, o que é incrível! (risos) Nunca tinha visto uma organização militar mudar os seus horários para um filme. Por isso, obrigada."

Fontes: Destak, Edições Asa

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Amália na banda sonora de "Lulu on the Bridge" (1998)


A poucos minutos do final de "Lulu On The Bridge" [realizado pelo escritor e cineasta Paul Auster], ouve-se a voz de Amália Rodrigues que, em "Estranha Forma de Vida", canta "foi por vontade de Deus".

É, talvez, esse o momento crucial do filme onde imagens e banda sonora conspiram para, subliminarmente, revelar a chave desta parábola sobre a possibilidade do milagre (e a improbabilidade de ele ocorrer), os universos perpendiculares, o corpo das mulheres, a luz dos pirilampos na noite, Deus como "trickster" imprevisível e a inexorabilidade do destino, isto é, o fado.

Não haverá muitas dúvidas de que Paul Auster desejou que essa chave permanecesse semi-oculta. É preciso escutar com muita atenção a voz de Amália (em fundo, sob o diálogo), é necessário compreender o que ela canta (e o idioma português não é propriamente um esperanto universal) tal como é indispensável conhecer o que o fado significa.

Mas esse indício — tal como aquele outro fugaz plano em que Harvey Keitel passa junto a uma parede onde, num graffito, se lê "Beware of God" — é apenas um dos vários que Paul Auster dissemina pelo filme para que, quem os souber interpretar, se vá aproximando, a pouco e pouco, dessa modalidade de leitura do mundo como um jogo de acasos irremediavelmente (des)comandado por uma absurda força maior. É nessa exacta medida que "Lulu On The Bridge" pode ser considerado um filme-musical: o seu segredo dissimula-se sob o disfarce cifrado de uma "mera" música incidental.

Fonte: João Lisboa