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quarta-feira, 15 de julho de 2020

Os fados de Nicolino Milano: "Fado Liró" e "Lulu Fado"

 

No início do Século XX, um período marcado pela presença massiva de maestros e compositores portugueses no Rio de Janeiro, o compositor brasileiro Nicolino Milano empreendeu o caminho inverso, conquistando expressivo sucesso comercial em Portugal e mais tarde em França.

Nicolino Milano tornou-se conhecido em Portugal mesmo antes de sua chegada a Portugal. Sousa Bastos, na sua "Carteira do Artista", publicada em Lisboa, em 1898, testemunhava que Nicolino Milano era, na época, um dos mais destacados músicos do Rio de Janeiro.


Nicolino Milano viajou para Lisboa em 1906, actuando como regente do Teatro da Avenida, aquando da representação da revista “A.B.C.”, de Acácio de Paiva e Ernesto Rodrigues. Uma das peças musicais dessa revista tornar-se-ia o grande sucesso popular de Nicolino Milano: o “Fado Liró”.

Em 1909, a companhia do Teatro da Avenida trouxe a “A.B.C.” para o Brasil, estreando no Teatro Apolo do Rio de Janeiro.

"Os Geraldos" na revista "O Malho"

O “Fado Liró”, que "levava a palma ao próprio choro", alcançou também no Brasil considerável sucesso, popularizando-se então, com ritmo de marcha, no carnaval de 1911:

"Guitarra, guitarra geme/que meu peito todo freme/Quando choras pianinho/Não há fado com mais alma/Que o liró, pois leva a palma/Até ao próprio choradinho/As condessas e duquesas/Ao contá-lo pedem meças/Sem receio de perder/Nas areias de Cascais/Tem meu fado encantos tais/Que é da gente endoidecer/Oh! Oh! Oh! Oh!" etc.


O "Fado Liró" foi gravado, entre 1909 e 1913, por Os Geraldos, Mário Pinheiro, Banda Escudero, Almeida Cruz e Moysés Mondadori. E em 1953 foi gravado por Joaquim Pinheiro.
 
E o mais curioso é que em 1912, no ano seguinte ao desse Carnaval em que o fado português de um brasileiro se transformara em marchinha foliona de rua, uma marcha composta pelo português Filipe Duarte para a revista "O país do vinho" – estreada no Teatro Recreio em junho de 1910 e aí reposta em 1911 – transformar-se-ia, abrasileirada, num dos mais constantes sucessos do Carnaval no Brasil a partir daquele ano de 1912: “A Vassourinha”.
 

Nicolino Milano fica na história da música portuguesa e brasileira, sobretudo com "Fado Liró", mas foi com "Lulu-fado" (com o subtítulo "Le Vrai Fado Portugais") - que foi uma criação de L. Duque na sua adaptação para piano ou para piano e canto - que obteve maior reconhecimento internacional, nomeadamente em França e Bélgica e, posteriormente, nos Estados Unidos da América em associação à dança do mesmo nome.

A versão (ou original ?) de "Lulu -Fado" em português, com letra de Guedes d'Oliveira, intitulava-se "Fado Gramacho", tendo sido gravada por Medina de Sousa e coro.



"Lu Lu fado (Le vrai fado portugais)" foi gravada, em 1914, pela Conway's Band (que gravou 169 fonogramas) e pela Prince's Orchestra.

Foi igualmente gravada pela National Promenade Band em 1914 e por Manuel Carvalho (com a International Novelty Orchestra) em 1924.



Maurice Mouvet, norte-americano de ascendência belga, e a esposa Florence Walton terão sido os  criadores do "Lulu-Fado" como estilo de dança como é referido na partitura acima.

Esse estilo de dança foi altamente publicitado, em diversos jornais norte-americanos, sobretudo em 1914, acompanhando assim a tendência de criação de inúmeros estilos de dança no período do Ragtime. Foi inclusive incluido numa série de artigos denominada "How To Do the New Dances".

Uma das críticas que se apontava ao novo estilo "Lulu Fado" é que só existia uma música ("Lulu Fado" de Nicolino Milano) para dançar esse estilo de dança.




Foi igualmente publicada no Jornal The Star a forma de dançar o "Lulu Fado" na série "How to dance the Modern Dances" pelo autor de "Social Dancing of Today"John Murry Anderson.


Melvin M. Franklin, coreógrafo norte-americano de origem alemã, foi o criador do estilo de dança "Lulu Fada" em 1915 (ou em 1914 segundo outras fontes), que seria uma variante do "Lulu Fado", incluído em "Famous Dancers Collection".


Foi igualmente criado o Lulu Foxtrot, em 1917, por Robert T. Almond, que combinava o Foxtrot com o Lulu Fado (que seria "a portuguese one-step /polka), ambos de 1914.


Nicolino Milano, que ficou igualmente famoso por compor outros estilos de música (nomeadamente os Hinos do Pará e de Pernambuco e a marcha do centenário) compôs igualmente o "Fado do Cigarro" mais conhecido por ter uma partitura da autoria de Stuart Carvalhais.


Links: "Fado Liró" por Mário Pinheiro  e Joaquim Ramos  / "Lulu Fado" (instrumental) / Lulu fado (dança) / Lulu Fado (ampico Lexington) / "Lulu fada"

Fontes/Mais informações:  Marcelo Bonavides / Meloteca / Wikipedia / Revista Brasil-Europa / "Diálogos luso-brasileiros no Acervo José Moças da Universidade de Aveiro" de Pedro Aragão/ Dança (1)(2)(3)(4)(5)(6) /  Discografia (EUA)(Brasil)(Rolos de Piano) / "A música popular no romance brasileiro" de José Ramos Tinhorão / Dicionário

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Guilhermina Suggia (1885-1950), uma violoncelista de renome internacional


Guilhermina Augusta Xavier de Medin Suggia (1885-1950) era filha de Augusto Suggia, violoncelista, formado no Real Conservatório de Lisboa e músico na orquestra do Real Teatro de S. Carlos, que foi convidado a dar aulas nas escolas da Santa Casa da Misericórdia de Matosinhos.

Aos 5 anos pediu ao pai que a ensinasse a tocar violoncelo. Aos 7 anos fez a sua estreia, na Assembleia de Matosinhos, acompanhada ao piano pela irmã Virgínia.


Quando tinha 13 anos, conheceu Pablo Casals, então com 21 anos,  quando o jovem músico catalão fez parte de um sexteto que abrilhantou as noites do Casino de Espinho no Verão de 1898.

Pablo Casals sugeriu a Augusto Suggia dar lições a Guilhermina uma vez por semana durante a sua permanência em Espinho. E assim foi, todas as semanas Augusto e Guilhermina rumavam no comboio em direcção a Espinho.


Guilhermina Suggia parte para Leipzig em 1901 com uma bolsa de estudo concedida pela Rainha D. Amélia para estudar no Conservatório de Leipzig – conhecido pela exigência de ensino e pela exigência na selecção de alunos – com o professor Julius Klengel.

Em Dezembro de 1902 – um ano depois da chegada a Leipzig - Guilhermina Suggia, com 17 anos tornou-se a primeira mulher a tocar, como solista, na Gewandhaus, e o solista mais novo. Tocou o Concerto para violoncelo e Orquestra de Volkmann.


No final da actuação, o público, de pé, aplaudiu e gritou veementemente “Bis”. A insistência foi tal que Arthur Nikisch quebrou as normas rígidas e mandou repetir o concerto na íntegra.

Tinham sido abertas as portas de todos os grandes centros musicais do mundo e Guilhermina Suggia não mais deixaria de ser solicitada a tocar.


Em 1906 reencontrou-se com Pablo Casals, e decidem começar uma vida em comunhão. Vivem em Paris, na Villa Molitor e convivem com os maiores artistas do seu tempo. Compositores dedicam-lhes obras. As críticas são muito favoráveis ao que era considerado o maior par de violoncelistas do momento.

Muitas vezes essas críticas punham Suggia em primeiro lugar e isso era menos agradável para Casals, habituado a ser considerado o maior violoncelista. A vida entre os dois começou a ser um pouco atormentada e no final de 1913, o casal separa-se.


No início de 1914, Suggia parte para Londres e aí recomeça uma vida nova. Rapidamente é notada por toda a gente do meio musical e convive com os maiores intelectuais do tempo. Toca sempre, estuda incessantemente sem mostrar sinais de cansaço.

Convive com os intelectuais do The Bloomsbury Group. Dora Carrington é uma apaixonada pela arte de Suggia. Virgínia Woolf fala de Suggia no seu Diário – curiosamente a edição portuguesa corta essa passagem.

Augustus John pinta Suggia. Durante o tempo dedicado a essa pintura, Suggia posava sempre tocando Bach. Das mãos deste pintor saiu o famoso quadro “Madame Suggia”, que faz parte do acervo da Tate Gallery e o quadro “Guilhermina Suggia”, no Museu Nacional de Cardiff.

 


Em Londres, Suggia conhece o magnata Sir Eduard Hudson, que lhe ofereceu o violoncelo Montagnana e comprou o Castelo de Lindesfarne para lhe oferecer. Era um castelo que estava abandonado, restaurou-o e nele fez uma sala, com um estrado, onde Suggia gostava de tocar.

O casamento entre eles chegou a ser anunciado nos jornais ingleses. Mas em 1923, numa viagem que fez ao Porto com a mãe, conheceu aquele que viria a ser o seu marido. De volta a Inglaterra, desfez o seu casamento com o magnata e devolveu-lhe o castelo. Hoje este castelo é monumento Nacional e mantém a mesma sala que havia sido de Suggia, com um violoncelo em sua homenagem.

Fontes/Mais informações: Virgílio Marques (Associação Guilhermina Suggia) / Hemeroteca digital / Tarisio / Instituto Camões / Revista "Arte musical" / RTP (livro de Henri Goudrin) /  Cais da memória


A primeira biografia em francês da violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia (1885-1950) chegou às livrarias francesas a 05 de março de 2015 com o título "La Suggia - L`Autre Violoncelliste", da autoria de Henri Gourdin.

O escritor francês disse à Lusa que o objetivo é fazer descobrir uma "personalidade injustamente desconhecida" em França, depois de ele próprio a ter descoberto quando escreveu uma biografia do violoncelista Pablo Casals, com quem Suggia viveu sete anos em Paris (de 1906 a 1913).

"Ela foi a primeira mulher a tocar violoncelo ao mais alto nível e a fazer carreira. Não foi fácil porque, na altura, o violoncelo era considerado um instrumento masculino. Ela teve de lutar contra esses preconceitos. Foi o charme da sua personalidade e a sua música que acabaram por convencer o público", explicou o autor.


Henri Gourdin destacou que "o que é impressionante nesta história é que a conquista do violoncelo pela mulher tenha sido feita por uma portuguesa, ainda que, na altura, Portugal fosse um país católico, onde a separação dos sexos era mais restrita do que noutro lado qualquer". "Foi ela, uma portuguesa, que veio dar o exemplo aos franceses, aos ingleses, aos alemães e ao mundo inteiro. É extraordinário", continuou.

A capa do livro - que apresenta Suggia a tocar violoncelo de vestido vermelho e de olhos fechados - parte de um quadro de Augustus John, "o pintor das estrelas, que pintou as grandes personalidades artísticas e políticas da sua época" e que a representou "numa postura de diva", tendo contribuído para a criação de "uma lenda".


 A "lenda" perpetuou-se, porque os instrumentos que Suggia tocou ficaram "para sempre conhecidos como o `Stradivarius Suggia e o `Montagnana Suggia`", e porque ela "legou os seus sete violoncelos a alunos e institutos, tendo os dois mais célebres - o `Montagnana` e o `Stradivarius` - sido vendidos para fundar os prémios Suggia, atribuídos anualmente a jovens violoncelistas", e garantir a sua formação.

Entre os distinguidos, contam-se, entre outros, Jacqueline du Pré, Rohan de Saram, Robert Cohen, Steven Isserlis, Raphael Wallfisch e Julian Lloyd Webber.

 Fontes: Lusa / RTP


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Uma futura Rainha Aventureira em "Os Diamantes da Coroa" (1841)



"Les diamants de la Couronne" é uma ópera cómica em três actos, com libreto de Eugène Scribe e música de Daniel-François-Esprit Auber. A peça decorre em 1777 em Portugal, sendo os dois primeiros actos em Coimbra e o terceiro acto em Lisboa.

No enredo a futura rainha de Portugal, D. Maria, resolve substituir os diamantes pertencentes à Coroa Portuguesa por cópias fiéis feitas de cristais lapidados, com o objectivo de saldar a dívida de Portugal. Entre os personagens é de realçar o Conde de Campo Mayor, o regente, a sua filha Diana, D. Sebastião de Aveiro, jovem oficial, Reboleddo, o falsário, e Catalina, sua suposta neta (que será a futura rainha D. Maria).
 

Em 1777, durante os últimos tempos de reinado de José I e da menoridade de Maria Francisca, sua filha e futura rainha, Portugal enfrentava uma severa crise financeira e agrícola, sua população sofria com a fome e com o frio. A situação se agravava dia a dia e a miséria do povo inquietava Maria Francisca.

Como solução para o problema, a futura rainha de Portugal resolveu substituir os diamantes pertencentes à Coroa Portuguesa por cópias fiéis feitas de cristais lapidados, com a ajuda de um falsário, conhecido como Rebolledo, que ela havia conhecido nas prisões da Inquisição.


Maria Francisca acompanhou cuidadosamente o trabalho de Rebolledo e quando as cópias das joias ficaram prontas ela as colocou no lugar das verdadeiras, as quais tinham grande valor, o suficiente para recuperar as finanças do país.

A futura rainha de Portugal disfarçou-se, então, de chefe de um bando de contrabandista, passando-se por uma mulher da região da Boémia, de nome Catharina, estratégia para poder negociar as pedras da Coroa sem macular a casa real com contravenções.


Assim como havia sido planeado, a venda das pedras preciosas trouxe grandes somas aos caixas do Estado, possibilitando que Portugal conseguisse superar a difícil situação na qual se encontrava. O que não se esperava é que a futura Rainha seria desmascarada.

Este é o enredo da ópera-cómica "Les diamants de la Couronne", de Eugène Scribe, com música de Daniel-François-Esprit Auber, submetido ao parecer censório do Conservatório Dramático Brasileiro, pelo director da Compagnie Lyrique Française, em 1846. A intenção era apresentar a peça no Teatro de São Francisco, um dos pequenos teatros do Rio de Janeiro. Mas, a peça não agradou em nada ao grupo de censores.


O primeiro pedido de licença para a apresentação de "Les diamants de la Couronne" num teatro do Rio de Janeiro foi feito ao Conservatório Dramático pela Compagnie Dramatique Française, em 1844. Já supondo que a história narrada na peça pudesse causar problemas para a sua aprovação, o director do teatro francês substituiu o local onde os eventos ocorriam, colocando a Suécia no lugar de Portugal. A artimanha não funcionou, a peça foi censurada.

Depois da proibição inicial, outro pedido de avaliação foi feito em 27 de setembro de 1846, quando a Compagnie Lyrique Française, sediada no Rio de Janeiro, submete novamente (sem sucesso) a peça à censura do Conservatório, agora sem modificar em nada o libreto de Scribe, pedido que causa maior frenesi nos censores.

Adaptação para TV (1999)

Entendidas as possibilidades oferecidas pelo censor, o director da companhia francesa submete outra vez a peça à análise, em dezembro de 1846. Mas, agora, os acontecimentos narrados na peça se passam na Dinamarca, em 1387, no final do reinado de Waldemar III e de sua filha Margarida, distanciando a possibilidade de ligação histórica da família real brasileira de um acto de contravenção, mesmo que esse acto fosse objecto de uma peça teatral e não em de texto historiográfico. Para os censores, isso bastou para isentar a peça da acusação de imoralidade. Para garantir que a ilusão do teatro não subverta a História de Portugal, o empresário responsável pelo espectáculo ainda se compromete a modificar o vestuário, colocando todos os artistas com trajes da Idade Média, sem nenhuma referência à cultura e aos costumes portugueses.

Fonte: Denise Scandarolli  (em "Café História") (adaptado)

Foi igualmente adaptado para Zarzuela:

Adaptação para Zarzuela

domingo, 15 de setembro de 2019

Desencontros amorosos em "L'Hôtellerie portugaise" ("A Hospedaria Portuguesa") (1798)



"L'Hôtellerie portugaise" é uma ópera cómica em um acto de Luigi Cherubin, representada pela primeira vez em Paris, no teatro Feydeau, em Julho de 1798. Com libreto de Giulio Confalonieri adaptado da peça de Etienne Aignan .

A ópera foi um insucesso contudo foi novamente encenada a partir da década de 40 do século XX.
A acção decorre em 1640 numa Hospedaria localizada numa cidade portuguesa, na fronteira entre Espanha e Portugal.

Gabriella tenta alcançar seu amado Don Carlos em Lisboa, com a ajuda da empregada Inês, sendo perseguidas pelo tutor de Gabriella, Don Roselbo, que é apaixonado pela jovem. Os quatro personagens acabam por se encontrar na Hospedaria do título.


Um mal-entendido convence o proprietário da pousada, Rodrigo, que Gabriella é a esposa de um vigário espanhol expulso de Lisboa após um motim: pensando que ele está tentando escapar e que Don Carlos quer capturá-la, ele decide protegê-la e tudo faz para que os dois amantes não se encontrem.

Gabriella acaba nas mãos de Roselbo, mas a situação é resolvida quando a identidade dos personagens é esclarecida, e Don Carlos consegue mostrar um documento que termina a protecção de Don Roselbo de Gabriella e os dois jovens podem se reunir alegremente.

Fonte: wikipedia ("Hôtellerie ...")

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Temas, situações e personagens ligados à história de Portugal ou à sociedade portuguesa em "A Hospedaria Portuguesa" e outras obras


O livro de Antero Palma-Carlos, “Os Médicos, a Ópera e a História”, contém referências desenvolvidas e evocações seleccionadas de óperas, portuguesas ou não, relacionadas com temários, situações e personagens ligados à história de Portugal ou à sociedade portuguesa: "Vasco da Gama - L'Africaine" de Meyerber, "Jessonda" de Spohr, "Il Guarany" de António Carlos Gomes, "D. Sebastien Roi du Portugal" de Donizetti, “L'Hotellerie Portugaise” de Cherubini, “Blimunda” de Corghi ou “Les Diamands de la Couronne” de Auber.

Mas acrescenta mais uma larga dezena de títulos de obras de compositores portugueses e estrangeiros também apresentadas no Teatro de São Carlos e no Coliseu dos Recreios, de temário português, independentemente da nacionalidade do compositor. E essas, curiosamente, tanto englobam óperas como cantatas e composições diversas de música e cena, cobrindo os séculos de História e a variedade imensa de compositores e escritores, desde os citados mas também por exemplo escritores e compositores como Ruy Coelho (compositor e maestro português), Azio Corghi, Marcos Portugal (que nasceu em Portugal e faleceu no Brasil), João Arroio (autor de "Amor de Perdição", natural do Porto), Daniel Auber, Barahona Fragoso (de Cuba no Alentejo) e tantos mais!...

Fonte: Duarte Ivo Cruz  (adaptado)


"L'Hôtellerie portugaise" ("A Hospedaria Portuguesa") (1798)




"Jessonda" (1823)


"Les Diamants de La Couronne" ("Os Diamantes da Coroa") (1841)


"Dom Sebastião" (1843)


"L'africaine" ("A Africana") (1865)


"Il Guarany" (1870)



"Il Guarany" (em português, "O Guarani") é uma das óperas do compositor brasileiro Antônio Carlos Gomes. É uma ópera ballo em quatro actos,  com libreto em italiano de Antônio Scalvini, com  base no famoso romance homónimo de José de Alencar.

Estreou no Teatro Scala de Milão, em Itália, em 19 de março de 1870, com grandioso sucesso. A ópera "Il Guarany" tem como maior destaque a sua abertura.


Entre os personagens de origem portuguesa é de  realçar Don Álvaro, (aventureiro português), D. Antônio de Mariz, (velho fidalgo português) e Cecília (filha de Don Antônio).

"Blimunda" (1989)
 

Fontes: wikipedia ("Hôtellerie ..." / "Jessonda" / "Les diamants ..." / "Il Guarany")

terça-feira, 15 de agosto de 2017

100 anos de filmes rodados na Madeira (1) - Décadas de 20, 30 e 50


"Un Giorno a Madera" (1924)

Em 1924 foi rodado na Ilha da Madeira o filme de ficção "Um dia na Madeira" ("Un Giorno a Madera") do realizador italiano Mário Gargiulo, com Livio Pavanelli e Tina Xeo nos principais papéis.

Este filme mudo era uma adaptação do livro "Un Giorno a Madeira, una pagina Dell’Igiene Dell’ Amore" lançado por Paolo Mantegazza em 1876. Traduzido ainda em vida do autor nas principais línguas europeias, este curioso livro consagrou a Madeira no imaginário italiano e europeu de fins de Oitocentos, como a isola dei fiori e dell’amore.


Sinopse

"Emma, personagem dotada de uma espiritualidade e de uma nobreza de carácter dignas das maiores heroínas românticas, procura na Madeira o último reduto de esperança para a cura da doença, ao passo que o seu apaixonado William se vê condenado a expiar na determinação da sua índole britânica a dor da perda da amada, pondo também ele à prova o seu carácter, principal protagonista afinal deste romance".


A produção estrangeira na Madeira intensificou-se a partir da década de 30, com filmes de ficção como: "Porque Mentes, Menina Kate?" (com realização de Georg Jacoby, 1935); "Die Finanzen des Großherzogs" ("As Finanças do Grão-duque" (Gustaf Gründgens, 1934) remake do filme homónimo de Murnau; "O prisioneiro de Corbal" (filme de Karl Grüne de 1935-36); "Les Mutinés de L’ Elseneur" (filme de Pierre Chenal de 1936 com base na obra de Jack London); e "Love Affair" ("Ele e Ela" de Leo McCarey, de 1939).


No campo do documentário é de destacar: "Madeira: A Garden in the Sea" (1931); "Cruising the Mediterranean" (André de la Varre, 1933); "Madeira: Jardim do Oceano" (Dawley, 1933); "From London to Madeira" (de Karl Gr, 1935); "Escala na Madeira" (René Ginet, 1935); e "Madeira: Isle of Romance" (1938).

"Warum lügt Fräulein Käthe?” (1935)


Entre 12 e 20 de novembro de 1934 esteve na Madeira uma equipa cinematográfica alemã da Majestic-Film GmbH, liderada pelo produtor Helmut Eweler e pelo realizador Geog Jacoby,  onde filmaram parte de um filme que estreou nas salas alemãs a 29 de janeiro de 1935, chamado “Porque Mentes, Menina Kate?” no original “Warum lügt Fräulein Käthe?”.

Na ilha da Madeira filmaram, a 15 de novembro, uma série de danças folclóricas madeirenses no “Reid’s Palace Hotel”, “executados pelo grupo de senhoras e cavalheiros, da nossa sociedade elegante”, como dizia o “Diário de Noticias do Funchal” de 16 de novembro de 1934, tendo nos outros dias filmado algumas ruas da cidade do Funchal e cenas do quotidiano madeirense.

"Marriage of Corbal" (1936)

A 10 de dezembro de 1935 chegara ao Funchal a Capitol Film Corporation, uma empresa inglesa, juntamente com mais de 20 pessoas, entre técnicos e actores para a rodagem do filme “The Marriage of Corbal” (ou "The Marriage of Corbal"), realizado por Karl Grune, com argumento de S. Fullman, com base na obra de Rafael Sabatini, ambientado no período da Revolução Francesa.

Parcialmente rodado no Vale da Ribeira Brava, as filmagens terminaram a 26 de dezembro, tendo também empregado cerca de 200 figurantes madeirenses. Com este filme também foi realizado um documentário “From London to Madeira”, onde se retratava as peripécias da viagem da equipa até à Madeira e os bastidores da filmagem na ilha.

"Love Affair" (1939)


"Love Affair", um dos mais importantes filmes românticos do final dos anos 30, foi parcialmente rodado na Madeira, onde vivia a avó do protagonista, o que terá sido motivado pela fama do porto do Funchal na altura dos grandes cruzeiros transatlânticos, com filmagens no Funchal e numa casa de Santa Luzia.



Sinopse

O pintor francês Michel Marnet (Charles Boyer) conhece a cantora americana Terry McKay (Irene Dunne) a bordo de um navio que cruza o Oceano Atlântico.

Michel e Ambos estão comprometidos, mas, no entanto, apaixonam-se. Durante uma paragem na Ilha da Madeira (Porto Santo), visitam a avó de Michel, Janou (Maria Ouspenskaya), que "aprova" Terry. O casal marca um encontro no Empire State Building para daí a 6 meses, mas nem tudo corre como desejado.



O título do filme na Áustria refere-se explicitamente a essa paragem no nosso arquipélago: "Ein Spitzentuch von Madeira".


Na década de 50 é de destacar: "Madeira Story", da responsabilidade de uma equipa inglesa, com o apoio de artistas e autoridades madeirenses, estreou-se em Londres; "Moby Dick" (filme de John Huston de 1956), "Sylviane de mes nuits" (Marcel Blistène, 1957), uma série de documentários de Jacques Cousteau e "Windjammer: The Voyage of the Christian Radich" (de Bill Colleran e Louis De Rochemont III, 1958).

"Moby Dick" (1956)


"Moby Dick" é um filme britânico realizado pelo norte-americano John Huston em 1956. O filme começou a ser filmado no País de Gales mas partes do filme foram rodadas no mar em frente ao Caniçal com acção real de caça à baleia, feita por baleeiros da Ilha da Madeira. O filme baseava-se na obra homónima de Herman Melville que curiosamente tinha mais ligação aos Açores do que à Madeira.

Nos créditos iniciais do filme é feito o agradecimento aos "Baleeiros da Madeira pela grande ajuda que deram" ("Whalermen of Madeira for the great help they gave").


Jacques Yves Cousteau

Entre 15 e 20 de agosto de 1956 esteve na Madeira uma missão cientifica francesa, a bordo do navio “Calypso” e chefiada pelo famoso explorador submarino Jacques-Yves Cousteau (1910-1997), tendo nesta estadia aproveitado para fazer cinco filmes, dois dos quais da pesca do peixe espada preta (Aphanopus carbo).

"Sylviane de mês nuits" (1957)

A 7 de novembro de 1956 começam as filmagens na Madeira do filme francês, produzido pela Isis Films, “Sylviane de mes nuits”, escrito e realizado por Marcel Blisténe e protagonizado por Giselle Pascal e Franck Villard, tendo as filmagens terminado a 18 de novembro.


“Windjammer: The Voyage of the Christian Radich” (1958)

Chega à Madeira a 27 de dezembro de 1956 o cineasta norte-americano Louis Rouchemont, com uma equipa de operadores cinematográficos para filmar diversos panoramas da Madeira para um documentário, em “Cinemiracle”, que esteva a realizar usando o navio-escola norueguês “Christian Radich”, a que se dará o titulo de “Windjammer: The Voyage of the Christian Radich”, estreado a 25 de abril de 1958.


Ciclo de cinema "100 Anos de filmes rodados na Madeira"


"100 Anos de filmes rodados na Madeira" é uma mostra de 8 das melhores obras cinematográficas de ficção filmadas no arquipélago de entre as mais de 50 películas realizadas desde 1912. Para além do valor óbvio dos filmes apresentados, alguns deles de grandes mestres do cinema mundial como Leo MacCarey, Raul Ruiz, Barbet Schroeder ou John Huston, esta mostra pretende anunciar a importância da Madeira como “location” para produção audiovisual.

Não só pela beleza das suas paisagens (ver por exemplo o plano fantástico da Serra d’Água em “O prisioneiro de Corbal” ou a perseguição automóvel nas estradas antigas do Seixal em “Os Batoteiros”) mas também pela facilidade de encontrar lugares tão diferentes numa ilha tão pequena, reduzindo assim os custos de produção.

Cena de "O prisioneiro de Corbal"
Fontes/Mais informações: Ana Paula Almeida (Aprender a Madeira e Tese) / Museu Vicentes / Ciclo de cinema / Folha de Sala (1) /  Ando a ler isto, Dejalu4ds e Fnac ("Un Giorno a Madeira")

Videos: "Warum lügt Fräulein Käthe?" / "Prisoner of Corbal" / "Love Affair" / "Moby Dick" (1)(2) / "Winjammer ..."