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sábado, 15 de dezembro de 2018

Chaby Pinheiro entre Portugal e o Brasil (início do século XX)

Revista "Ilustração Portuguesa" (1923)

Foi com a peça "Casa de Bonecas" de Ibsen que Chaby Pinheiro (1873-1933) fez a primeira das 28 travessias ao Atlântico. O actor conta no seu livro de memórias que, naquele tempo, a chegada de uma companhia portuguesa no Brasil era um grande acontecimento: "em geral, ia uma por ano; o máximo duas – uma de comédia, outra de opereta - que foi o que aconteceu então, indo depois de nós a Companhia de Sousa Bastos, do Trindade".

Estrearam no Rio de Janeiro, no Teatro Santana (hoje Carlos Gomes). A peça ficou em cartaz por 33 noites consecutivas e, segundo Chaby, "todo o Rio intelectual e artístico foi admirar a peça do Ibsen, na interpretação portuguesa".

No prazo de uma semana, Chaby diz ter conhecido pessoalmente as maiores celebridades das letras, artes e do jornalismo.
Parceira com Aura Abranches (1919)

No segundo mês no Rio, apresentaram as peças "Teresa de Raquin" (com base na obra de Zola), "O Cabelo Branco", "O Lenço Branco", além dos monólogos do repertório de Chaby.

Com este programa, o actor afirma que os jornais cariocas o elegeram como destaque da companhia.

No terceiro mês, a companhia encena a peça "A Lagartixa", recusada pela Companhia Sousa Bastos, recém-chegada ao Rio. Chaby interpretava um pequeno papel, porém os risos que provocava no público faziam o teatro vir abaixo. Por essa razão, o actor afirma que não existem pequenos papéis.

Do Rio, a companhia seguiu para São Paulo, onde apresentou o "Kean", de Alexandre Dumas, pai.

Revista "Ilustração Portuguesa" (1919)

Após a temporada em São Paulo, desceram para Santos, onde permanecem por 30 dias. Durante esse período, Chaby diz ter relido obras de autores portugueses e construído conhecimento das obras brasileiras de Machado de Assis e Coelho Neto, uma clara ocorrência da circulação cultural existente entre o Brasil e Portugal.

De Santos, seguiram para Buenos Aires e, mesmo apresentando as peças em português, impressionaram o público argentino com os cenários, pois, segundo Chaby, as companhias que passavam por lá não se importavam com a montagem dos espectáculos.

Os críticos argentinos destacaram a interpretação e a dicção do actor, tanto em verso quanto em prosa. E é sempre citada a questão do seu físico de 140 quilos não interferir na elegância e no desempenho dos seus personagens.


De Buenos Aires, seguiram para Montevidéu, e novamente para o Brasil, até chegar a Pelotas. De lá, seguiram novamente para o Rio, onde Chaby deu apoio a Serra, um actor português que actuava na opereta brasileira "A Viúva Clark", de Artur Azevedo, com Hermínia Adelaide como protagonista e João Silva. Ficaram em cartaz no Rio e em São Paulo com a peça "Mancha que limpa", por alguns meses, antes de regressarem a Portugal.

É igualmente dado destaque, no seu livro de memórias, a duas digressões ao Brasil, sendo que numa delas percorreu as regiões Norte e Nordeste, e na outra o Sul do país. Numa dessas digressões, o actor desempenhou o papel de director de cena (encenador) ao lado de Eduardo Brasão, o que, segundo Chaby, foi um grande passo na sua própria carreira.

O actor regressou à companhia Rosas & Brasão, por duas ocasiões, sendo que, na segunda, permaneceu por onze anos. Após esse tempo, organizou, juntamente com Aura Abranches, a companhia Aura-Chaby, com a qual fez outra notável digressão pelo Brasil, onde permaneceu por mais de um ano, seguindo posteriormente para a Argentina.


Companhia Leopoldo Fróes - Chaby Pinheiro (1928)

Em 1927 é constituída a Companhia Leopoldo Fróes–Chaby Pinheiro, em parceria com o actor brasileiro Leopoldo Froes. Nessa temporada, a companhia apresentou sete peças, sendo uma delas, encenação de um texto brasileiro: "o Gigolô". Essa digressão pelo Brasil teve grande êxito, segundo críticas de jornais transcritas no livro de memórias. Uma das críticas considera Chaby como a maior expressão artística do teatro lusitano.

Das peças representadas é de realçar "O Leão da Estrela", que deu origem ao clássico do cinema português com António Silva, e "O Conde Barão" (ambas da autoria de Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e João Bastos) e "O Café do Felisberto" (do autor brasileiro Gastão Tojeiro), no qual o comediante português se limitou a fazer um papel relativamente curto e sem importância (o patrão do "garçon" Alberto), tendo no entanto o prazer de arrancar numa cena curta, magistralmente representada, uma ovação tão vigorosa quanto a que Fróes recebia no final da peça.

Fontes: "Chaby Pinheiro e o fluxo cultural entre Brasil e Portugal" de Richard Bertolin de Oliveira e Albeto Ferreira da Rocha Junior (adaptado) / Blog "Histórias de Cinema" (parceria com Leopoldo Fróes) / Revista "Ilustração Portuguesa" (fotos) / wikiwand


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Beatriz Costa - Vedeta em Portugal e no Brasil


A actriz portuguesa Beatriz Costa (1907-1996) efectuou cinco digressões ao Brasil (1924, 1929, 1937, 1939 e 1950) e fixou residência no Rio de Janeiro durante grande parte da década de 1940, quando organiza uma Companhia de Teatro de Revista com o actor brasileiro, de origem espanhola, Oscarito (Companhia de Revistas Beatriz Costa com Oscarito – 1942/1945).

Em 1924, ela já estava actuando no Teatro Maria Vitória de Lisboa, na revista "Rés Vês", ainda como corista. No dia 24 de julho  embarcou, com a Companhia Portuguesa de Revistas do Teatro Eden de Lisboa, em parceria de António de Macedo (director artístico da Companhia) com José Loureiro (empresário português que detinha vários teatros no Brasil, como o República), no navio Lutetia rumo ao Brasil.

A companhia apresentava como elementos principais as actrizes Lina Demoel, Zulmira Miranda, Carmen Martins e Julieta de Almeida e os actores Álvaro Pereira e Jorge Gentil.


Esta primeira temporada da Companhia Portuguesa de Revistas dura quatro meses (de 7 de agosto a 8 de dezembro), sendo apresentados no teatro República um total de nove espectáculos de revistas inéditas e em "reprise" dentre as quais estão "Fado corrido", "Tiro ao alvo", "Chá com torradas", "Piparote", "Aqui d’El-Rei", "Rez-Vez", "O 31", "Tic-Tac" e "De capote e lenço".

No dia 9 de dezembro, Beatriz Costa seguiu com a companhia para uma temporada nas cidades de São Paulo e Santos retornando novamente para uma nova temporada, no Rio de Janeiro de onde parte para Portugal em 14 de junho de 1925.

No entanto, não foi dessa vez que Beatriz Costa ficou no Brasil. Voltando a Portugal, com reputação, de grande artista, passou por várias companhias ao lado de renomados artistas, como Nascimento Fernandes, Manoel de Oliveira e Eva Stachino, quando obteve grande popularidade com o número "D. Chica e Sr. Pires", ao lado de Álvaro Pereira.


Em 1927, talvez influenciada pelo furor que o corte à la garçonne (popularizado por Margarida Max e Louise Brooks) provocou, Beatriz Costa estreou no cinema, com um novo corte de cabelo que se tornaria sensação entre as mulheres: o franjão.

A partir daí, como se diz em Portugal, toda a gente sabe o que significa ter uma franja à Beatriz Costa.


A sua segunda visita ao Brasil foi com a companhia portuguesa de Eva Stachino, em 1929. Novamente, a imprensa portuguesa noticiou o sucesso da actriz, relembrando sua passagem pela América do Sul.

Em solo brasileiro, o grupo apresentou as revistas "Pó de Maio", "Lua de Mel", "Meia-noite", "Carapinhada" e "A Mouraria", entre outras.

"Minha Noite de Núpcias" (1931)

Após a tournée ao Brasil, Beatriz Costa foi escolhida pelos homens da Paramount para encarnar o papel de Clara Bow em "Minha Noite de Núpcias", versão portuguesa de "Her Wedding Night" de Frank Tuttle (1930), rodada em Paris nos estúdios de Joinville sob direcção do realizador brasileiro Alberto Cavalcanti.

O filme teve sucesso em Portugal e no Brasil, destacando-se, nos principais papéis, ao lado de Beatriz Costa,o actor brasileiro Leopoldo Froes e o actor português Estevão Amarante.


Em 1933 a sua imagem é eternizada em "A Canção de Lisboa" de José Cottinelli Telmo, um dos primeiros filmes sonoros realizados em Portugal.

O filme é estreado Brasil, no Cinema Odéon, em Dezembro de 1933, permanecendo em cartaz até 7 de janeiro de 1934. E posteriormente é reposto no Cinema Alhambra (em fevereiro) e noutros cinemas como o Floresta (em maio), o Nacional (em junho) e o Popular (em setembro).

Em outubro é exibido no cinema gratuito do Auditorium do Rio de Janeiro, no decurso da Feira Internacional de Amostras (entrada 1$000). E em 1937 é exibido no Grande festival do Centro Recreativo Braz de Pina.



Em 1936 é um dos destaques da lendária revista "Arre Burro" (que viria a ser um dos seus maiores sucessos em Portugal e no Brasil) e faz parte do elenco de "O Trevo de Quatro Folhas", dirigido por Chianca de Garcia, com a participação do actor brasileiro Procópio Ferreira (no seu primeiro papel no cinema) e do actor português Nascimento Fernandes.

O filme é estreado em Portugal (em 1936) e no Brasil (1937).


Em 1937 retorna ao Brasil agora com a sua própria companhia (Companhia Portuguesa de Revistas com Beatriz Costa), contratada pelo empresário José Loureiro, que, segundo diria mais tarde, “foi o degrau para a minha independência”.

No Rio de Janeiro, ela se apresenta no Teatro República sucessivamente nas revistas: "Arre, Burro!", "Estrelas de Portugal", "O Liró", "O Santo António", "Sardinha Assada" e "Água, Vae…"
  

O Jornal "A Batalha" assinala na sua edição de 15 de outubro de 1937 a “reprise” da revista “Arre Burro !” (depois de quatro semanas de “êxito ruidoso”), que terá sido reclamada insistentemente por mais de mil pessoas que escreveram cartas e enviaram telegramas quer para Beatriz Costa quer para a empresa do Theatro República.

Actua igualmente no Teatro Casino Antárctica em São Paulo sob direcção artística de Rosa Matheus e direcção musical do maestro António Lopes.


Em maio de 1939 parte novamente para o Brasil com a sua companhia (Companhia Portuguesa de Revistas Beatriz Costa). Julgava-se que por alguns meses, mas a guerra que rebenta na Europa no Outono  mantém-na do outro lado do Atlântico durante cerca de 9 anos, a qual considerou os melhores anos da sua vida.

No período em que esteve no Brasil (1939-1947),  trabalhou durante 2 anos no Casino da Urca, no Rio de Janeiro, formou Companhia com Oscarito, actuou em diversas cidades, mas sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo, fez amizade com alguns relevantes intelectuais brasileiros (como Jorge Amado) e casa, a 18 de fevereiro de 1947, no México, com o arménio Edmundo Gregorian.


Na primeira temporada, ainda sob a gerência do empresário José Loureiro, de junho a outubro de 1939, no Teatro República, no Rio de Janeiro, apresentam nove peças de teatro de revista, em espectáculos por sessões, todos os dias às 20h e 22h, com "matiné" aos sábados às 16h e às 15h, aos domingos. Além de se apresentar com sua companhia no Rio de Janeiro, faz incursões teatrais às cidades de São Paulo e Campinas.

Beatriz participa em três grandes campanhas publicitárias numa nova estratégia comercial que envolvia a imprensa, o rádio e o cinema. A primeira delas é uma promoção da Sociedade Rádio Nacional – PRE-8 e do jornal "A Noite" para um concurso popular de caricaturas da actriz, cujos traços devem ressaltar a sua famosa franja.

Após o encerramento do prazo do concurso, uma exposição com os 135 desenhos originais do concurso é inaugurada em 25 de maio nas instalações da Rádio Nacional.


Em 1939 é estreado no Brasil o filme português "Aldeia da roupa branca", de Chianca de Garcia, com Beatriz Costa no papel de protagonista.

A imprensa da época assinalou a presença do realizador português no Rio de Janeiro aquando da estreia no cinema Odeon, sendo referido o sucesso do filme em Inglaterra, Espanha, Suécia e Noruega (sendo o primeiro filme falado em língua portuguesa que atravessa essas fronteiras) . Chianca de Garcia radicou-se no Brasil onde realizou os filmes "Pureza" (1940) e "Vinte horas de sonho" (1941).

De fevereiro a abril de 1940, a actriz faz uma "tournée" ao Rio Grande do Sul apresentando-se nas cidades de Porto Alegre e Pelotas.

Entre outubro de 1940 e fevereiro de 1941, contratada pelo empresário Joaquim Rolla, realiza espectáculos no Grill do Cassino da Urca junto a Grande Otelo e outros artistas nacionais e internacionais.


Em 1941, actua nas casas de diversões do empresário Felix Rocque, em Belém, no Pará. Ainda no mesmo ano, participa em programas de rádios e grava discos na RCA Victor e na Columbia interpretando marchas, sambas e canções típicas portuguesas.

O seu primeiro disco incluía a marcha "Não te cases Beatriz", de Antônio Almeida, Alberto Ribeiro e Arlindo Marques Jr., em dueto com Leo Vilar, com acompanhamento do conjunto de Benedito Lacerda e do grupo vocal Anjos do Inferno e "Beatrizinha", temas que faziam parte da banda sonora do filme "Portuguesinha" de Chianca de Garcia (que foi rodado no Brasil, com Beatriz Costa como protagonista, mas não chegou a ser concluído).

O disco incluía igualmente gravações de canções como "Tiroliro", "A Cachopa Não é Sopa" e "Ai! Joaquim".


Referência à exibição em Portugal de "Portuguesinha" que não chegou a ser concluído

Em 1942, a actriz constitui a Companhia de Revistas Beatriz Costa com Oscarito, em parceria com o empresário português Celestino Moreira, que actuou inicialmente no Teatro República e posteriormente no Teatro João Caetano, onde permaneceu até 1945.

A companhia inclui no seu repertório revistas, operetas e "burletas" (comédias musicais ligeiras). A estratégia empresarial é atingir não só o público brasileiro, mas principalmente os espectadores de nacionalidade portuguesa, distantes de seu país de origem e repletos de sentimento nostálgico pela pátria longínqua (pois as companhias portuguesas estavam impedidas de se deslocar ao Brasil devido à guerra).

Em 1945, no intervalo da peça "A Cobra tá Fumando" foi inaugurada no "hall" do Teatro João Caetano uma placa de bronze oferecida a Beatriz Costa e Oscarito pelos cronistas e autores teatrais em homenagem aos 19 meses de triunfos dos dois actores.


Em setembro de 1942, O Globo publica uma entrevista de Bandeira Duarte com Beatriz Costa com a sugestiva manchete: "Beatriz nasceu duas vezes". Na ocasião, a actriz declara: "Eu nasci em Portugal [...] Mas a Beatriz Costa que vocês conhecem nasceu aqui, no Brasil. Foi baptizada num palco brasileiro... O primeiro punhado de sal português e a primeira salva de palmas brasileira são as minhas duas certidões de nascimento, dando-me direito a duas pátrias".

Em 1950 realiza a sua última digressão ao Brasil, com direcção geral de Chianca de Garcia, na Revista "Mão Bôba" no novo Teatro Carlos Gomes, mas a crítica não é tão positiva devido à menor qualidade dos textos.




Considerada uma sedutora de plateias, Beatriz Costa divertiu o público carioca e se afirmou como uma profissional da alegria, como ela mesma se intitulou num dos seus livros autobiográficos.

Do alto de seu 1,53 m de altura, a vedeta dos dois países somou o amor do público português ao do brasileiro e construiu uma trajectória digna de respeito.

Fontes/Mais informações: Aplauso  / Christine Medeiros  (1)(2) / Blog "Histórias do Cinema" / Dicionário do Cinema Português de Jorge Leitão Ramos / Blog "Mulheres Ilustres" Fabulásticas / Miguel Catarino (discos) / Heloísa Helena Paulo (cinema)  / Citi


 

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Aventura de Amália no teatro brasileiro


Em Setembro de 1944, Amália fez a sua estreia no Brasil no Casino de Copacabana, o local de maior prestígio da América latina, nesses anos de guerra. Mas não se apresenta apenas como cantora: preparam para a sua aparição um espectáculo, "Numa Aldeia Portuguesa", cantando seis fados, dois com orquestra e os outros com o conjunto de guitarras de Fernando de Freitas, que viajara com ela para a acompanhar a rigor, tudo isto numa moldura muito bonita e com dois vestidos riquíssimos, umas casaquinhas com vastas saias em tons de vermelho escuro, um bordado a ouro e o outro a veludo preto, com vastos xailes bordados e até um avental ostentando o escudo nacional.

Foi um enorme sucesso, ia com contrato para quatro semanas e ficou quatro meses. E pediram-lhe que voltasse breve, com um conjunto de seis raparigas bonitas, para fazer uma grande digressão pelo Brasil.

Mal Amália chegou a Lisboa, muito festejada, começou a preparar o regresso ao Brasil, mas como não percebia nada de organizar companhias foi aconselhar-se com Manuel Santos Carvalho. E assim começa a aventura de Amália no teatro brasileiro.

Novos números. Em homenagem a Getúlio Vargas.
 O veterano cómico viu ali uma oportunidade de fazer uma tournée ao Brasil, como se fazia antes, e, apoiado no grande nome de Amália, constituiu uma inteira companhia de revista, com cómicos, desde a sua mulher Ema de Oliveira a Virgínia Soler e ao jovem Humberto Madeira, e até a jovem Celeste Rodrigues, a irmã de Amália, que também já cantava.

Levaram Frederico Valério como director musical e Amadeu do Vale, para abrasileirar os textos das duas obras a apresentar: a revista "Boa Nova" e a opereta "A Rosa Cantadeira".


Quando Amália chegou ao Rio com aquela companhia e sem nenhuma rapariga bonita, Atalaia, o director do Casino de Copacabana ficou espantado, não queria nada daquilo. E então, constituiu-se apressadamente a “Companhia de Revista Amália Rodrigues”, que aportou ao Teatro República, misturada com artistas brasileiros, umas bailarinas, as 20 Boa Nova girls, mais o tenor português Luís Piçarra, fizeram-se cenários e guarda-roupa, tudo novo e muito bonito, e Amadeu do Vale fez uma revista a criticar os costumes brasileiros, que estreou a 20 de Agosto de 1945.

Na TV Excelsior

A crítica detestou, por os portugueses se atreverem a criticar os brasileiros, mas mesmo assim, sobretudo devido a Amália, a revista manteve-se quase dois meses em cena.

Entretanto, para equilibrar as finanças, Amália cantava à segunda-feira, dia de folga dos teatros, no Casino de Copacabana. Cantava o seu reportório e, como Valério e Amadeu do Vale lá estavam, coisas novas, como o "Fado Brasileiro", que ficaria conhecido como o "Fado Xuxu".


E depois da revista, a 17 de Outubro, veio então "A Rosa Cantadeira", com Amália na protagonista, e que foi um sucesso, com o "Fado do Ciúme", a "Marcha da Mouraria", e triunfo supremo, um fado novo que se tornaria num dos êxitos máximos, "Ai, Mouraria", em que a memória da cidade distante se confunde com um amor fugaz, com um bairro e uma rua, ´a Velha Rua da Palma`, e música evocadora de Valério: por força de ter sido escrito em terras distantes.

Foi o único fado de Valério que Amália manteria no seu reportório, até ao fim. Foi com base no seu princípio que Charles Aznavour mais tarde escreveria "Ay, Mourir Pour Toi".

Fontes/Mais informações: "Amália coração independente" (Pavão dos Santos) / Blog "Amália Rodrigues centenário" (1)(2)(3)




Imagens: "Amália Rodrigues centenário" / Jornais brasileiros (Diário de Notícias, Correio da Manhã, Sports) / Teatro em Portugal (Facebook)  / Discogs

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Referência a Vinho Madeira em “Privateering” de Mark Knopfler (2012) e “Have a Madeira My Dear” de Flanders & Swann (1956)


Corsários, mulheres bonitas e vinho Madeira. Estes são os ingredientes de uma nova música de Mark Knopfler, vocalista conhecido dos Dire Straits. A música dá pelo nome de “Privateering”, a qual, curiosamente, dá o nome ao álbum, lançado em Setembro de 2012.

A referência ao vinho Madeira repete-se várias vezes ao longo da música, cuja letra refere a vida aventureira dos corsários ao serviço da coroa britânica. Um corso, ou corsário, era um pirata que através da carta de corso de um governo, era autorizado a pilhar navios de outra nação. Com os corsos, os países podiam enfraquecer os seus inimigos sem suportar os custos relacionados com a manutenção e construção naval.

O corso (Privateer) surge-nos como um herói aventureiro com uma vida boémia e de luxúria da qual fazia parte o famoso e irresistível Vinho Madeira.


Mas esta não terá sido a única vez que o Vinho Madeira inspirou letras de músicas que se tornaram célebres um pouco por todo o mundo. O famoso duo cómico inglês Flanders and Swann começou a interpretar em 1956 as suas canções em duas revistas, “At the top of a hat” e “At the top of another hat”. “Have a Madeira My Dear” foi celebrizado na primeira dessas revistas e a letra fala de um velho que seduz uma jovem com a ajuda do Vinho Madeira.

A peça estreou-se em 1960 no West End, em Londres e foi um sucesso que percorreu vários continentes até à Austrália e América. Nos Estados Unidos foi um sucesso estrondoso da Brodway.  O refrão Madeira My Dear “ficou no ouvido” um pouco por todo o mundo, particularmente de muitos ingleses e americanos, até aos nossos dias.


"Madeira my Dear" foi igualmente interpretada por muitos outros artistas como Tony Randall ou os holandeses Ted de Braak e Johnny Jordaan.

Fontes: IVBAM / wikipedia / Funtrivia 

Letra de "Privateering"

(...)
To lay with pretty women
to drink Madeira wine
to hear the roller’s thunder
on a shore that isn’t mine
Privateering, we will go
Privateering, Yoh! oh! ho!
Privateering, we will go
Yeah! oh! oh! ho!

Video: Youtube 

Letra de "Have a Madeira My Dear"

She was young, she was pure, she was new, she was nice
She was fair, she was sweet seventeen.
He was old, he was vile, and no stranger to vice
He was base, he was bad, he was mean.
He had slyly inveigled her up to his flat
To view his collection of stamps,
And he said as he hastened to put out the cat,
The wine, his cigar and the lamps:

Have some madeira, m'dear.
You really have nothing to fear.
I'm not trying to tempt you, that wouldn't be right,
You shouldn't drink spirits at this time of night.
Have some madeira, m'dear.
It's really much nicer than beer.
I don't care for sherry, one cannot drink stout,
And port is a wine I can well do without...
It's simply a case of chacun a son gout
Have some madeira, m'dear


Videos: Flanders & Swann / Tony Randall (no Carol Burnett Show) / Ted de Braak (NL)



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

“La Portuguesa” de Ballesteros e Cofiner (1953-1958)


 O fado-canção “La Portuguesa” foi composto para a revista de Zarzuela "Secreto de Estádio", uma revista à espanhola de temática desportiva em dois actos, com libreto de Ignacio Ballesteros e música de Enrique Cofiner.

Estreada no Teatro de La Zarzuela em 2 de julho de 1953, e apresentada como a revista da juventude, do desporto e do bom humor, teve mais de 400 actuações em Madrid, sendo protagonizada por intérpretes como Mayte Pardo ou Elena Maya.


A canção foi igualmente gravada por Enrique Cofiner y sus Chicos com a participação vocal de Pilar Gentil.




E em 1955 foi lançada uma versão em italiano, “La Portoghese”, em ritmo mambo, pela Orchestra Angelini com Carla Boni, com letra em italiano da autoria de Gian Carlo Testoni.

A versão em italiano foi também gravada por artistas como Lidia Martorana, Alberto Pizzigoni e Fatima Robin's com Fred Buscaglione e a sua orquestra.


E em 1958 foi regravada em França por André Claveau (que era conhecido como o Príncipe Branco da Canção Francesa), com letra de Eddy Marnay.

"Aïe ! mon coeur", tinha como subtítulo “La Portuguesa”, apesar de não ser feita qualquer referência direta a Portugal na letra, e foi um dos quatro temas cantados por Claveau na pré-eliminatória em que foi escolhido “Dors, non amour” como a canção representante de França no Festival da Eurovisão de 1958.


A adaptação para francês teve uma imensa repercussão em França, tendo "Aïe ! mon coeur" sido gravado quer por André Claveau, quer por muitos outros artistas como Dalida, Marcel Amont, Suzy Delair, Patrice & Mario, Colette Mars, Nadine Claire, Virginie Reno, Dora Neri, Lucien Jeunesse, Eddie Barclay, Les Cubancitos, ...

 Fontes: discogs / la zarzuela webcindárioredebibliotecacascamwikipedia (Festival 1958) / il discoblo /