domingo, 15 de dezembro de 2019

"Los Diamantes de la Corona" em versão zarzuela de Francisco Asenjo Barbieri (1854)


"Los Diamantes de la Corona" é uma zarzuela em três actos de Francisco Asenjo Barbieri (1823-1894) estreada em Madrid em 1854. Baseia-se no libreto de Francisco Camprodón que, por sua vez, se inspirou no libreto de Eugène Scribe e Jules-Henri Vernoy de Saint-Georges para a ópera cómica homónima de Daniel-François Esprit Auber.

Trata-se de uma zarzuela cujo enredo se passa no século XVIII em Portugal e que trata das peripécias de uma senhora — Catalina — que é líder de um grupo de bandidos, mas que é, afinal, a futura rainha de Portugal.


A acção tem lugar em Portugal, no final do século XVIII. A rainha ainda é menor, pelo que o poder é exercido por um Conselho de Regência. Perto de Coimbra, um grupo de bandidos e falsificadores assalta o marquês de Sandoval, que se enamora da bela Catalina, cabecilha dos assaltantes.

Igualmente apaixonada e em troca do seu silêncio, Catalina permite a libertação do marquês, que vai desposar Diana, filha do conde de Campomayor, ministro da Justiça do Conselho de Regência.


No epílogo desta zarzuela, Catalina acaba por tornar-se rainha de Portugal, casar com o marquês, perdoar a Rebolledo, seu número dois no grupo, e tornar possível o amor de Diana e Sebastián.

A música de "Los Diamantes de la Corona" é a versão espanhola da ópera homónima de François-Esprit Auber, o que não a impede de ser considerada "uma das produções mais interessantes de Barbieri, devido à capacidade para se adaptar a todas as circunstâncias da acção e da psicologia dos personagens, bem como pela unidade que obtém com uma música hispânica".

Fontes: wikipedia / TNSC / Fanáticos da Ópera

 

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Uma futura Rainha Aventureira em "Os Diamantes da Coroa" (1841)



"Les diamants de la Couronne" é uma ópera cómica em três actos, com libreto de Eugène Scribe e música de Daniel-François-Esprit Auber. A peça decorre em 1777 em Portugal, sendo os dois primeiros actos em Coimbra e o terceiro acto em Lisboa.

No enredo a futura rainha de Portugal, D. Maria, resolve substituir os diamantes pertencentes à Coroa Portuguesa por cópias fiéis feitas de cristais lapidados, com o objectivo de saldar a dívida de Portugal. Entre os personagens é de realçar o Conde de Campo Mayor, o regente, a sua filha Diana, D. Sebastião de Aveiro, jovem oficial, Reboleddo, o falsário, e Catalina, sua suposta neta (que será a futura rainha D. Maria).
 

Em 1777, durante os últimos tempos de reinado de José I e da menoridade de Maria Francisca, sua filha e futura rainha, Portugal enfrentava uma severa crise financeira e agrícola, sua população sofria com a fome e com o frio. A situação se agravava dia a dia e a miséria do povo inquietava Maria Francisca.

Como solução para o problema, a futura rainha de Portugal resolveu substituir os diamantes pertencentes à Coroa Portuguesa por cópias fiéis feitas de cristais lapidados, com a ajuda de um falsário, conhecido como Rebolledo, que ela havia conhecido nas prisões da Inquisição.


Maria Francisca acompanhou cuidadosamente o trabalho de Rebolledo e quando as cópias das joias ficaram prontas ela as colocou no lugar das verdadeiras, as quais tinham grande valor, o suficiente para recuperar as finanças do país.

A futura rainha de Portugal disfarçou-se, então, de chefe de um bando de contrabandista, passando-se por uma mulher da região da Boémia, de nome Catharina, estratégia para poder negociar as pedras da Coroa sem macular a casa real com contravenções.


Assim como havia sido planeado, a venda das pedras preciosas trouxe grandes somas aos caixas do Estado, possibilitando que Portugal conseguisse superar a difícil situação na qual se encontrava. O que não se esperava é que a futura Rainha seria desmascarada.

Este é o enredo da ópera-cómica "Les diamants de la Couronne", de Eugène Scribe, com música de Daniel-François-Esprit Auber, submetido ao parecer censório do Conservatório Dramático Brasileiro, pelo director da Compagnie Lyrique Française, em 1846. A intenção era apresentar a peça no Teatro de São Francisco, um dos pequenos teatros do Rio de Janeiro. Mas, a peça não agradou em nada ao grupo de censores.


O primeiro pedido de licença para a apresentação de "Les diamants de la Couronne" num teatro do Rio de Janeiro foi feito ao Conservatório Dramático pela Compagnie Dramatique Française, em 1844. Já supondo que a história narrada na peça pudesse causar problemas para a sua aprovação, o director do teatro francês substituiu o local onde os eventos ocorriam, colocando a Suécia no lugar de Portugal. A artimanha não funcionou, a peça foi censurada.

Depois da proibição inicial, outro pedido de avaliação foi feito em 27 de setembro de 1846, quando a Compagnie Lyrique Française, sediada no Rio de Janeiro, submete novamente (sem sucesso) a peça à censura do Conservatório, agora sem modificar em nada o libreto de Scribe, pedido que causa maior frenesi nos censores.

Adaptação para TV (1999)

Entendidas as possibilidades oferecidas pelo censor, o director da companhia francesa submete outra vez a peça à análise, em dezembro de 1846. Mas, agora, os acontecimentos narrados na peça se passam na Dinamarca, em 1387, no final do reinado de Waldemar III e de sua filha Margarida, distanciando a possibilidade de ligação histórica da família real brasileira de um acto de contravenção, mesmo que esse acto fosse objecto de uma peça teatral e não em de texto historiográfico. Para os censores, isso bastou para isentar a peça da acusação de imoralidade. Para garantir que a ilusão do teatro não subverta a História de Portugal, o empresário responsável pelo espectáculo ainda se compromete a modificar o vestuário, colocando todos os artistas com trajes da Idade Média, sem nenhuma referência à cultura e aos costumes portugueses.

Fonte: Denise Scandarolli  (em "Café História") (adaptado)

Foi igualmente adaptado para Zarzuela:

Adaptação para Zarzuela

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Tristão da Cunha em "Jessonda" de Louis Spohr (1823)


"Jessonda" é uma grande ópera (Gross Opera) de Louis Spohr com libreto em alemão de Eduard Gehe. A acção decorre na India, sendo de realçar dois personagens portugueses, o Coronel Pedro Lopez e o General Tristan d'Acunha.

Nesta ópera, a heroína Jessonda, viúva do rajá, deve ser queimada até a morte em sua pira funerária. Antes do casamento, ela se apaixonara por um general português.

Um jovem brâmane, Nadori, é enviado do templo hindu para levar Jessonda ao seu destino final, contudo ele acaba por se apaixonar por Amazili, irmã de Jessonda.

As forças portuguesas acampadas fora da cidade são lideradas por Tristan d'Acunha, que jurou que os costumes indianos serão preservados.

Nadori prometeu salvar Jessonda e Tristan agora descobre que ela é seu amor perdido há muito tempo. A violação indiana da trégua permite que Tristan aja e Jessonda é resgatada a qualquer momento, antes que Dandau, o chefe brâmane, possa realizar o sacrifício pretendido.


Fonte: wikipedia ("Jessonda")

domingo, 15 de setembro de 2019

Desencontros amorosos em "L'Hôtellerie portugaise" ("A Hospedaria Portuguesa") (1798)



"L'Hôtellerie portugaise" é uma ópera cómica em um acto de Luigi Cherubin, representada pela primeira vez em Paris, no teatro Feydeau, em Julho de 1798. Com libreto de Giulio Confalonieri adaptado da peça de Etienne Aignan .

A ópera foi um insucesso contudo foi novamente encenada a partir da década de 40 do século XX.
A acção decorre em 1640 numa Hospedaria localizada numa cidade portuguesa, na fronteira entre Espanha e Portugal.

Gabriella tenta alcançar seu amado Don Carlos em Lisboa, com a ajuda da empregada Inês, sendo perseguidas pelo tutor de Gabriella, Don Roselbo, que é apaixonado pela jovem. Os quatro personagens acabam por se encontrar na Hospedaria do título.


Um mal-entendido convence o proprietário da pousada, Rodrigo, que Gabriella é a esposa de um vigário espanhol expulso de Lisboa após um motim: pensando que ele está tentando escapar e que Don Carlos quer capturá-la, ele decide protegê-la e tudo faz para que os dois amantes não se encontrem.

Gabriella acaba nas mãos de Roselbo, mas a situação é resolvida quando a identidade dos personagens é esclarecida, e Don Carlos consegue mostrar um documento que termina a protecção de Don Roselbo de Gabriella e os dois jovens podem se reunir alegremente.

Fonte: wikipedia ("Hôtellerie ...")

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Temas, situações e personagens ligados à história de Portugal ou à sociedade portuguesa em "A Hospedaria Portuguesa" e outras obras


O livro de Antero Palma-Carlos, “Os Médicos, a Ópera e a História”, contém referências desenvolvidas e evocações seleccionadas de óperas, portuguesas ou não, relacionadas com temários, situações e personagens ligados à história de Portugal ou à sociedade portuguesa: "Vasco da Gama - L'Africaine" de Meyerber, "Jessonda" de Spohr, "Il Guarany" de António Carlos Gomes, "D. Sebastien Roi du Portugal" de Donizetti, “L'Hotellerie Portugaise” de Cherubini, “Blimunda” de Corghi ou “Les Diamands de la Couronne” de Auber.

Mas acrescenta mais uma larga dezena de títulos de obras de compositores portugueses e estrangeiros também apresentadas no Teatro de São Carlos e no Coliseu dos Recreios, de temário português, independentemente da nacionalidade do compositor. E essas, curiosamente, tanto englobam óperas como cantatas e composições diversas de música e cena, cobrindo os séculos de História e a variedade imensa de compositores e escritores, desde os citados mas também por exemplo escritores e compositores como Ruy Coelho (compositor e maestro português), Azio Corghi, Marcos Portugal (que nasceu em Portugal e faleceu no Brasil), João Arroio (autor de "Amor de Perdição", natural do Porto), Daniel Auber, Barahona Fragoso (de Cuba no Alentejo) e tantos mais!...

Fonte: Duarte Ivo Cruz  (adaptado)


"L'Hôtellerie portugaise" ("A Hospedaria Portuguesa") (1798)




"Jessonda" (1823)


"Les Diamants de La Couronne" ("Os Diamantes da Coroa") (1841)


"Dom Sebastião" (1843)


"L'africaine" ("A Africana") (1865)


"Il Guarany" (1870)



"Il Guarany" (em português, "O Guarani") é uma das óperas do compositor brasileiro Antônio Carlos Gomes. É uma ópera ballo em quatro actos,  com libreto em italiano de Antônio Scalvini, com  base no famoso romance homónimo de José de Alencar.

Estreou no Teatro Scala de Milão, em Itália, em 19 de março de 1870, com grandioso sucesso. A ópera "Il Guarany" tem como maior destaque a sua abertura.


Entre os personagens de origem portuguesa é de  realçar Don Álvaro, (aventureiro português), D. Antônio de Mariz, (velho fidalgo português) e Cecília (filha de Don Antônio).

"Blimunda" (1989)
 

Fontes: wikipedia ("Hôtellerie ..." / "Jessonda" / "Les diamants ..." / "Il Guarany")

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Maria Callas em Lisboa na peça "Lisbon Traviata"


Maria Callas, então a mais famosa cantora de Ópera do mundo, estreou-se em Lisboa, em Março de 1958, a cantar "La Traviata", de Verdi. Decorria a temporada de ópera do São Carlos. Ao seu lado estava um tenor ainda desconhecido, Alfredo Kraus. A gravação de uma das récitas de São Carlos tornou-se célebre e é uma referência fundamental.

Terrence McNally, dramaturgo premiado com nem mais nem menos do que quatro Tonys, escreveu em 1985 "The Lisbon Traviata", em que explora a obsessão por Callas e por esta gravação. A peça acabou por ter algum sucesso em Nova Iorque e em Londres.


A acção decorre no presente (de então) e a peça foi considerada ousadíssima, viviam-se os primeiros e conturbados tempos da SIDA, Rock Hudson, o primeiro nome mundialmente conhecido a sofrer da doença, morreu nesse ano. Todas as quatro personagens da peça são gays, duas delas, Stephen e Mike, numa relação de anos que agoniza nos seus últimos dias, quando já surge no horizonte uma terceira pessoa para Mike, um rapazinho mais novo de seu nome Paul (fixem este nome), que, diz-nos o autor, está a meio da casa dos vinte.

O pretexto para a peça é o facto de ter acabado de surgir no mercado uma nova Traviata com a Callas (fui verificar, o disco foi lançado em 1980), uma gravação pirata da sua célebre Violetta de 27 de Março de 1958 em Lisboa, no Teatro de S. Carlos.


O primeiro acto decorre em casa de Mendy, a seguir a um jantar em que tem Stephen como convidado. Stephen calha a mencionar a "Traviata de Lisboa", que acabou de comprar, e a partir daí Mendy fica posseso, num frenesi insuportável, quer à viva força ir buscar o disco, morre se não o ouvir quanto antes.

Stephen recusa firmemente, Mike está na casa de ambos e recebe nessa noite o seu novo namorado. Que nasceu em Portugal, filho de portugueses, que poderá (ou não, e é isso que Mendy tenta desesperadamente tirar a limpo) ter sido levado pelo avô a ver a "Traviata de Lisboa", no Teatro San Marco — leram bem. E que se chama Paul Della Rovere — também leram bem.

Fontes/Mais informações: "A Gota de Rantanplan" / wikipedia / Hemeroteca digital   Noticias magazine / Flama / Século ilustrado (em "iconografia" / valkirio
 
"O Século Ilustrado" (1958)

Revista Flama (1958)
Quando os erros estão no original ...

sábado, 15 de junho de 2019

Portugal e as portuguesas em Tirso de Molina (1583-1640)


Tirso de Molina (pseudónimo de Frei Gabriel Teller) foi o autor espanhol que mais vezes, e com maior ternura, se referiu a Portugal.

E Tirso de Molina é o poeta estrangeiro em cujas obras, com maior entusiasmo, constância e gentileza se cantam as portuguesas! Era tal a sua devoção por elas que - prova de extrema admiração - escolheu, de entre todas as suas heroínas, uma portuguesa, a encantadora Seraphina de "El Vergonzoso en palácio", para colocar em seus lábios o elogio da arte do teatro, segundo os novos cânones libérrimos com que Lope de Vega a emancipara da clássica rigidez greco-romana.


A lusofilia de Tirso de Molina é evidente em D. Beatriz Silva. É na boca do rei D. João II de Castela que o dramaturgo põe a célebre frase: “Beatriz, mulher tão bela, só a merece Deus”.

Essa predilecção por temas lusitanos é igualmente evidente em “Las Quinas de Portugal”em que o tema é a personalidade histórica de D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, e a formação da nacionalidade portuguesa.


No total de 86 comédias que o catálogo do seu teatro, publicado em 1907 por Cotarelo y Morí, lhe atribui, interessam a Portugal nada menos de onze. Dessas onze, sete passam-se em terras portuguesas, a saber : "El Vergonzoso en palácio" ("O envergonhado no paço"), "Siempre ayuda la verdade", "Averiguelo Vargas", "Las Quinas de Portugal" ("Quinas de Portugal"), dois actos de "El Amor médico" ("Médica por Amor"), um acto de "Dona Beatriz da Silva" e várias cenas de "La Gallega Marí-Hernandez".

"Escarmiento para el cuerdo" é a dramatização do conhecido episódio do naufrágio de Sepúlveda. "Antona Garcia" alude à batalha de Toro, essa pequena Aljubarrota espanhola. E nas duas restantes, que são "El Burlador de Sevilla y Convidado de piedra" e a segunda parte de "La Santa Juana", há importantes referências a Portugal.


O interesse por Portugal não resultou da sua viagem a Portugal em 1619 pois “El Vergonzo en Palácio” é uma comédia toda portuguesa, no argumento, personagens e lugar de acção. E em 1613 já era evidente a apologia a D. Afonso de Albuquerque em “Santa Juana”.

Tirso de Molina faz decorrer a sua comédia "Averiguelo Vargas" em Portugal, durante a menoridade de D. Afonso V, ou seja durante a regência de D. Pedro, o morto infeliz de Alfarrobeira. Entram na peça, além do rei e do regente, os infantes D. Diniz e D. Duarte, a infanta D. Filipa, D. Afonso de Abrantes, prior do Crato, Ramiro, Sancha, etc.


Na comédia "El Amor médico", cuja acção decorre em grande parte na douta Coimbra, Tello, o gracioso, previne seu amo D. Gaspar sobre o recato com as mulheres portuguesas que não saem de casa até se casarem, nem aos domingos à missa.

Outra das comédias com temática portuguesa é "Siempre ayuda la verdade". Passa-se em Lisboa, no reinado de D. Pedro I, e é das mais frisantes demonstrações do conceito que o autor formava do ciúme português e da fidelidade e constância das portuguesas no amor, a respeito do qual uma das suas personagens, Alberto Vator, irmão do rei da Polónia, confessa que fora um erro ter, em coisas de amor, um competidor português.

Fontes/Mais informações: "Portugal e as Portuguesas Tirso de Molina" de Manuel de Sousa Pinto (1) / "Lusofilia de Tirso de Molina" de José Maria Viqueira Barreiro (1) (2) / Linkgua 

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Portugal e os portugueses no Teatro de Lope de Vega (1562-1635)



São abundantes os temas e os motivos portugueses no teatro espanhol do "Siglo de Oro". A noção de espanhol como algo contrastante com o português ainda não existia na época nos territórios que compõem o actual Estado Espanhol.

Há ainda que ter em conta que o apogeu da comédia espanhola, representado por autores como Lope de Vega, Calderón de la Barca ou Tirso de Molina, coincide largamente com a época da dinastia filipina (entre 1580-1640).

 Se excluirmos as tragédias “Nise lastimosa” e “Nise laureada” de Fr. Jerónimo Bermúdez, sobre Inés de Castro, Lope de Vega foi o primeiro autor espanhol que se interessou por personagens e temáticas portugueses. O tema foi estudado, em 1936, por Hipólito Raposo, que identificou na obra do comediógrafo espanhol catorze ou quinze obras dramáticas dedicadas a “figuras e factos portugueses, sem contar com outras obras onde há alusões laudatórias ou irónicas à nossa gente.

 

Esta vertente “lusista” iniciou-se com duas comédias de Lope de Vega: “La tragedia del Rey D. Sebastián y bautismo del príncipe de Marruecos" (de 1595-1603) – cujo protagonista era D. Sebastião, sobrinho de Filipe II, que ainda era rei nessa época - e “Don Manuel de Sosa y naufrágio prodigioso y príncipe trocado" (1598-1600).

Lope de Vega dedicou outras comédias a temáticas portuguesas ou ambientadas em Portugal: “El duque de Viseo”, “La fortuna adversa del infante don Fernando de Portugal”, “El más galán portugués, duque de Berganza”, “El príncipe perfecto”, “La intención castigada”, “El guante de doña Blanca”, “El primer rey de Castilla”, “Burlas y enredos de Benito”, “La lealtad en el agravio”, ou “El Brasil restituído” (que põe em cena a oposição das forças conjuntas luso-castelhanas à invasão de Salvador de Bahia pelos holandeses em 1624), entre outras.


“El Duque de Viseo" é nem mais nem menos que a trágica e aliciante dramatização das querelas entre D. João II e a grande nobreza, saldadas entre1483 e 1484 pela degolação do duque de Bragança (Guimarães na peça, o que não está errado) e pelo assassínio, às mãos do próprio rei, de D. Diogo, seu primo e cunhado.

Composta antes de 1610, a comédia talvez tenha até sido objecto de sobressaltos de um lado e de outro da fronteira e nesses nem o próprio dramaturgo estava interessado . Seria, então, para serenar os ânimos que Lope praticamente se desdisse quando, ainda antes de 1614, escreveu e fez representar “El Príncipe Perfecto”.


Na peça “El Más Galán Portugués, Duque de Verganza” (de 1610-17), ambientada no reinado de Afonso V no Século XIV, o protagonista é D. Jaime, o impetuoso e ciumento filho de D. Fernando (condenado à morte por D. João II em "El Duque de Viseo".

Fontes/Mais informações: “D. Sebastião e Alcácer Quibir em duas comédias espanholas do Siglo de Oro: La Tragedia del Rey Don Sebastián y del Príncipe de Marruecos, de Lope de Vega, e Comedia Famosa del Rey Don Sebastián, de Luis Vélez de Guevara” de António Apolinário Lourenço / “Portugal e os portugueses no palco espanhol: a visão de Lope de Vega” de Maria del Rosario Leal Bonmati / "Lope de Vega y Portugal" de Joaquin Entrambasaguas / “Simpatias, inimizades e algumas confusões: D. João II no teatro de Lope de Vega” de Maria Idalina Resina Rodrigues / "Portugal en el teatro español del siglo XVII" de José Ares Montes
 


segunda-feira, 15 de abril de 2019

Ester Leão (1892-1971) - uma portuguesa no Teatro Brasileiro



Ester Leão aceitou em 1931 o convite para participar na temporada portuguesa da peça "Deus lhe Pague" de Joracy Camargo, produzida pela companhia do brasileiro Procópio Ferreira, interpretando o principal papel feminino, Nancy, mulher do Mendigo Filósofo.

Finda a carreira do espectáculo no nosso país, a actriz envolve-se na sua digressão por terras de Vera Cruz, de onde nunca mais voltou. O retumbante sucesso da actriz nos palcos brasileiros e o "abastardamento da vida teatral portuguesa, que a censura fascista e a desorganização empresarial condenavam à mediocridade e ao conservadorismo", foi o que bastou para que ela cedesse aos vários e insistentes apelos para que assumisse a direcção do Teatro do Estudante do Brasil (TEB).


Em dez anos de dedicação ao TEB, Ester Leão, para além de ter tido influência na formação de muitos actores brasileiros, produziu alguns dos melhores espectáculos daquela época, a partir de textos clássicos e modernos.

"Os Romanescos" de Edmond Rostand, "Leonor de Mendonça" de Gonçalves Dias e "O Jesuíta" de José Alencar foram os três primeiros de uma longa série de sucessos. O mais popular foi sem dúvida o que ela encenou para a estreia daquela que viria a ser considerada por muitos como a maior actriz brasileira de sempre: Cacilda Becker.

Com o mesmo texto ("Três Mil Metros de Altitude", com o título alterado para "Alegres Canções da Montanha"), ela lançaria mais tarde outro nome maior do outro lado do Atlântico: Fernanda Montenegro.


Ester Leão era uma mulher severa, rigorosa no trabalho, mas sempre muito bem-humorada e solidária com as equipas que dirigiu ou integrou, quer como professora, actriz ou encenadora.

Para além da sua inestimável colaboração como professora no TEB e, mais tarde, no Teatro Universitário, e para além ainda de algumas das suas memoráveis criações como intérprete, o que fica sobretudo de seu para a história das artes cénicas brasileiras é o honroso título de Rainha do Teatro que conquistou pelas suas geniais encenações, de que são exemplos mais brilhantes os espectáculos "Romeu e Julieta" de Shakespeare, "Castro" de António Ferreira, "A Dama da Madrugada" de Casona, "O Pai" de Strindberg e "A Morte de Um Caixeiro Viajante" de Arthur Miller.


Para além de ter sido actriz e encenadora nas mais prestigiadas estruturas de produção brasileiras dos dois primeiros terços do século XX, entre as quais se destacam o Teatro de Arte, o Teatro Duse, e as Companhias de Eva Todor, Alma Flora e Luís Iglésias Freire, Ester Leão foi também pioneira do ensino de dicção, corrigindo a voz não só de actores, mas também de ministros e deputados, entre os quais figurava Carlos Lacerda, um dos mais férreos opositores ao ditador Getúlio Vargas.

Fontes: "Entres mares e palcos - notas sobre Esther Leão (1892-1971) - Uma portuguesa no Teatro Brasileiro" (livro "Dramaturgia em Cena") / Facebook  / Blog "Mulheres Ilustres" (Fabulásticas) / Ângela de Castro Reis (1) / Enciclopédia Itaú Cultural / Museu da TV / "Portugueses do Brasil e Brasileiros de Portugal" de Leonor Xavier 

sexta-feira, 15 de março de 2019

A influência Portuguesa no Teatro Brasileiro e as Rotas de Teatro entre Portugal e Brasil


O teatro brasileiro foi construído a partir da presença de actores portugueses, que abundaram nos palcos brasileiros até as primeiras décadas do século XX. Actores como Furtado Coelho, Lucinda Simões, Cristiano de Sousa, José Ricardo, Palmira Bastos, Adelina Abranches, Chaby Pinheiro, empresários como Sousa Bastos e Visconde de São Luís Braga, sentiam-se tão à vontade no Rio de Janeiro quanto em Lisboa, “repartindo fraternalmente as suas temporadas entre os dois países”.

O público de Lisboa não era suficiente para justificar mais de quatro dias de espectáculo por semana, pelo que as digressões ao Porto e ao Brasil se tornavam uma importante fonte de rendimento.

Lucinda Simões e Furtado Coelho

Cláudia Sales Oliveira escreveu um artigo acerca das digressões de actores portugueses no Brasil, durante os séculos XIX e XX. Utilizando relatos de actores como Lucinda Simões (que foi casada com Furtado Coelho), Eduardo Brasão, Adelina Abranches, entre outros, a autora comenta que um dos possíveis motivos para essas temporadas em outro país era o excesso de oferta de peças de declamação em Portugal, que não atraíam um grande público.

Além disso, a temporada teatral dos principais teatros de Lisboa (D. Maria II, Ginásio, Príncipe Real e D. Amélia) acabava em maio, só retornando em outubro. Nesse "meio tempo", os actores se juntavam em outros trabalhos, inclusive nas viagens para o Brasil, com elencos diferentes e apresentando seu “capital” que eram os repertórios.

Ainda em 1921, o "Jornal das Moças" referia a existência de concorrência desleal por parte das companhias estrangeiras:  "Como se sabe essas 'troupes' [estrangeiras] têm a despesa muito menor que as nacionais, pois trazem as suas peças montadas e o seu guarda-roupa feito, o que não acontece com as nossas que são obrigadas à despesa dos cenários, roupas e adereços. E o que é interessante é que as nossas companhias, com a despesa muito maior, pagam os mesmos impostos que as estrangeiras".

Eduardo Brazão


Eduardo Brazão, um dos mais importantes actores portugueses da segunda metade do Séc. XIX, actuou pela primeira vez no Brasil em 1870, país onde ganharia enorme prestígio e se deslocaria regularmente ao longo dos anos.

A convite de Furtado Coelho, actuou no Rio de Janeiro, no Theatro de Furtado Coelho, durante 10 meses ao lado de Emília Adelaide, fazendo, entre outras peças, a "Calumnia", "Capitão Montambuche", "Jogo", "Mocidade de Fígaro", "Pupílas do Senhor Reitor" e "Cornélio Guerra".

No Outono de 1876, Eduardo Brazão volta ao Brasil, sendo convidado a ir a Pernambuco com Joaquim de Almeida, representar na Companhia da actriz brasileira Isménia dos Santos. Posteriormente seguiu viagem para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na empresa de José António do Vale.



O actor é novamente convidado para actuar no Brasil em Junho de 1879, numa companhia de Pernambuco. Levando consigo o "Kean", de Alexandre Dumas, bem como "Os Fidalgos da Casa Mourisca" de Júlio Dinis e a "Morgadinha de Val'Flor" de Pinho Chagas. Seguiram-se representações no Pará (Teatro da Paz) e no Maranhão.
Regressa ao Brasil em 1880, obtendo um grande sucesso quer no Rio de Janeiro, quer em Campinas, Santos e São Paulo, onde a crítica o crisma de actor moderno.

A Eduardo Brazão se deve a representação em português das tragédias de Shakespeare, que assim podem ser apreciadas pelo público menos instruído, visto que, até essa altura, só eram exibidas em Portugal e no Brasil por Companhias estrangeiras.


José António Vale (actor Valle)



Foi ao Brasil e representou no Rio de Janeiro, no teatro de S. Luiz, de que era empresário Furtado Coelho, nas comédias "O Mestre Jerónimo" e "Quem o feio ama". Agradou imenso, recebendo fartos aplausos, ganhando logo as maiores simpatias. Obteve um sucesso no papel de Vasco da mágica "A Pera de Satanás".

Não tardou, que se tornasse empresário, e tanto se insinuou no meio teatral, que era ele quem "dava leis" a todos os teatros do Rio de Janeiro. Foi ele quem levou para ali a actriz Ana Cardoso, os actores Silva Pereira, Silveira e outros.

Percorreu com a sua companhia todo o Brasil, estando em S. Paulo, Santos, Campinas, Rio Grande do Sul, etc., sendo sempre muito aplaudido.

Estreou no Brasil o género dramático, representando o "Paralítico", o "Centenário", e a "Criança de 90 anos". Chegou-lhe depois a hora da adversidade, o que ordinariamente sucede a todos os empresários, e Vale resolveu voltar a Lisboa.

Emília Adelaide Pimentel


O acontecimento artístico mais importante da temporada de 1877-1878, em São Paulo, foi a vinda da Companhia Dramática Portuguesa, dirigida pela empresária Emília Adelaide , uma das actrizes mais importantes de Portugal e que actuou no Brasil ao lado de Eduardo Brazão, que se preocupava em apresentar ao público um repertório de nada menos que cinquenta peças da dramaturgia francesa, italiana e, evidentemente, portuguesa. Como exemplo, pode-se citar "A filha do ar", de Eduardo Garrido, de longe o autor mais encenado nos palcos de São Paulo no século XIX.

Foi em 1912 no Teatro São José, do italiano Pascoal Segreto, que se estreou “Forrobodó”, a “burleta” de Luís Peixoto e Carlos Bettencourt, com música de Chiquinha Gonzaga. O espectáculo foi um marco divisor de águas para o teatro brasileiro: a partir daí, a linguagem popular brasileira entrou em cena. Nos palcos brasileiros, até então, falava-se com acento português para plateias habituadas a esta prosódia (forma de falar).

Leopoldo Froes


O palco brasileiro passou a adquirir fisionomia própria, por volta de 1914, “servindo Leopoldo Froes, que se fizera actor ainda em Portugal, de elo entre o velho teatro luso-brasileiro e o novo teatro mais caracteristicamente nacional que se pretendia formar.”

A colaboração com elencos portugueses, o sotaque, a boa colocação dos pronomes, a maneira de vestir e a nostalgia fizeram com que Fróes fosse considerado por Alcântara Machado mais actor português que brasileiro.

A actriz Fernanda Montenegro sempre afirmou que era de uma geração influenciada pelos actores portugueses. "Havia uma escola em que marcações e diálogos obedeciam às regras usadas em Portugal, sendo até a pronúncia portuguesa imposta a quem seguisse uma carreira de teatro no Brasil".

Empreza Theatral José Loureiro  



O Rio de Janeiro recebe frequentemente companhias artísticas portuguesas, italianas, francesas e espanholas. Actuando no mercado teatral carioca desde 1913, o empresário português José Loureiro (1880-1949) torna-se o grande agente das companhias portuguesas nessa época.

Em 1924, só no Rio de Janeiro, estão sob sua tutela três teatros: o Lírico, o Palácio e o República que apresentam espectáculos dos mais variados géneros, como teatro declamado, ópera, opereta, revistas e "vaudevilles".

Em dada altura, José Loureiro, associado a Walter Mochi e a Faustino da Rosa, tinha em exploração dezassete teatros da América do Sul, por onde passaram as melhores companhias teatrais Portuguesas. Dentro de Portugal, ficaram célebres as suas colaborações com Chaby Pinheiro e Beatriz Costa e os grandes espectáculos da Companhia Velasco e da Companhia Ba-Ta-Clan.



Exemplos de Peças de teatro de autores portugueses (1926-1968)

Os documentos do Arquivo Miroel Silveira, referentes à censura prévia ao teatro no Estado de São Paulo entre 1926 e 1968, fornecem um panorama da influência portuguesa no teatro de São Paulo durante a primeira metade do século XX, a qual se revela em peças de teatro de 127 autores lusitanos, a maioria das quais foi encenada na década de 30 por companhias amadoras e profissionais de Portugal e do Brasil.

a) Autores clássicos da literatura portuguesa de várias épocas, como Gil Vicente, Antônio José da Silva, o Judeu, Antônio Ferreira, Almeida Garrett, Júlio Dinis são encenados principalmente por grupos amadores e estudantis.

b) Autores contemporâneos como João Bastos, Luiz Galhardo, Dom João da Câmara. Este grupo é o mais numeroso e encenado por companhias profissionais, amadoras e de circo-teatro, principalmente nas décadas de 30 e 40 do século passado.

c) Autores que emigraram para o Brasil. São casos como o de Chianca de Garcia, que já era cineasta e dramaturgo em Portugal, mas se radicou no Brasil, ou o de Eurico Silva, que imigrou ainda criança e só depois entrou para a carreira artística, através da companhia de Procópio Ferreira, tornando-se um prolífico autor de teatro, com 33 processos em seu nome no Arquivo Miroel Silveira, além de guionista de rádio e cinema.

Fontes/Mais informações:  "A dramaturgia Portuguesa" nos Palcos Paulistanos" de Edson Santos Silva  / Ângela de Castro Reis (1) / Enciclopédia Itaú Cultural  / "Portugueses do Brasil e Brasileiros de Portugal" de Leonor Xavier / "Rotas de Teatro - Entre Portugal e Brasil" de  Maria Helena Werneck e Ângela de Castro Reis / "Dicionário do Cinema Português 1895-1961" de Jorge Leitão de Barros  / "Teatro Português nos Palcos e Jornais Brasileiros: censura e crítica" de José Ismar Petrola Jorge Filho / "Teatro de Revista em Trânsito" de Marilda Santana/ wikipedia (José Loureiro / Eduardo Brazão / ...) / "Ribaltas e Gambiarras" (Eduardo Brazão) / Homenagem a Eduardo Brazão / "As digressões ao Brasil nas memórias de actores portugueses (sécs. XIX-XX)" (por Claudia Sales Oliveira) (1) /  "Carteira do Artista" de Souza Bastos / Arqnet (José António do Vale ) /
"Brasil  & Portugal: teatro, música, artistas e tal" de Thais Matarazzo (1) / "Artistas de Outras Eras" de Lafayette da Silva

Outros actores: Adelaide do Amaral, Amélia Vieira, Eugênia Câmara, Maria Velutti (1), Medina de Sousa, Mercedes Blasco (1), Rosa Damasceno, Virgínia


Adelina Abranches como brasileira