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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Obras de Júlio Diniz, "Pupilas do Senhor Reitor" e "Fidalgos da Casa Mourisca", adaptadas à TV Brasileira


Em Portugal, o teatro radiofónico surgiu nos anos 1930 na Emissora Nacional, do Estado, mas o primeiro folhetim só surgiu após a Segunda Guerra. Nem por acaso foi "As Pupilas do Senhor Reitor", com base na famosa novela oitocentista de Júlio Dinis.

A radionovela começa também a ter espaço na rádio brasileira na década de 40, quando fazem sucesso várias histórias romanceadas, em capítulos, não só no horário chamado nobre, o nocturno, mas também pela manhã às 9 h, quando era emitida a novela “As pupilas do Senhor Reitor” e, logo depois, “Os Fidalgos da Casa Mourisca”.

As duas radionovelas eram gravadas, devido aos custos para realizar uma radionovela. As agências de publicidade produziam as novelas no Rio de Janeiro ou em São Paulo, gravavam e distribuíam as cópias para outras emissoras do país.


O filme português “As Pupilas do Senhor Reitor" de Perdigão Queiroga (de 1961) foi igualmente divulgado no Brasil, através da adaptação brasileira de Anselmo Duarte e Miguel Pinheiro, tendo nos principais papéis actores brasileiros, como Anselmo Duarte (Daniel) e Marisa Prado (Margarida) e actores portugueses como Isabel de Castro (Clara), Américo Coimbra (Pedro), Silva Araújo (reitor), António Silva (João da esquina), Raul de Carvalho (José das Dornas) e Humberto Madeira (doutor João Semana).


"As Pupilas do Senhor Reitor" (TV Record, 1970)

A convite de Dionísio Azevedo, Lauro César Muniz vai para a TV Record em 1970, para adaptar “As Pupilas do Senhor Reitor”, um romance de aldeia, conforme Júlio Diniz o define. Imbuído da sua experiência de cidade de interior, de Guará, injectou a sua vivência da província, da infância, mas manteve o ambiente e a tradição portuguesa do Minho, mantendo a história no século XIX.

O romance em tom de crónica é muito certinho. O autor da novela criou muitas situações, muitos personagens, para fazer cerca de 280 capítulos! Os cultores de Júlio Diniz não se queixaram.


Com direcção de Dionísio Azevedo e Nilton Travesso, a novela foi exibida entre 23 de março de 1970 e 6 de março de 1971, inicialmente às 19h, em 279 capítulos tendo sido um grande sucesso de audiência (numa época em que a TV Globo já liderava), o que motivou a alteração do seu horário para as 20 h.

A adaptação do texto do escritor português Júlio Dinis, tratava dos conflitos dos moradores locais: um médico (João Semana, interpretado por Sérgio Mambert) que perde o posto para outro mais jovem, recém-formado (Daniel), e o envolvimento das “pupilas” Clara (Georgia Gomide) e Margarida (Márcia Maria), que estão sob o cuidado do reitor Padre Antônio (Donísio Azevedo), com os irmãos Daniel (Agnaldo Rayol) e Pedro das Dornas (Fúlvio Stefanini) .


A novela era toda gravada num estúdio da Record, no Aeroporto de São Paulo, com todo o requinte que a emissora poderia empregar na época. Sem locações (exteriores). Era um estúdio muito grande onde foi reconstituída uma praça, com fachadas das casas. De forma engenhosa, as fachadas eram retiradas e apareciam os interiores das casas. Quase nunca fizeram cenas exteriores.

No terceiro mês de apresentação da telenovela, a atriz Geórgia Gomide deixou "As Pupilas do Senhor Reitor". Sua personagem, "Clara", do núcleo de protagonistas, passou a ser interpretada por Maria Estela. A mudança fez com que a personagem Margarida (interpretada por Márcia Maria) ganhasse maior destaque e assumisse o papel de protagonista.

Segundo arquivos da Unicamp, é a telenovela de maior audiência da história da Record em todos os tempos. Obteve média geral de 20 pontos na audiência, com capítulos que ultrapassaram os 30 pontos de média.


O cantor Manoel Taveira radicado no Brasil (que editou um disco com algumas músicas da novela) interpretava um monossilábico ajudante de barbeiro que só conseguia fazer frases completas quando cantava.

O cantor Dino Meira, então radicado no Brasil, fazia o papel de cantor do Porto e interpretou o tema “Caminhos da minha vida”, uma espécie de jazz português, na trilha sonora complementar – canções interpretadas pelos actores.

A actriz portuguesa Maria José Vilar canta, nessa trilha sonora complementar, “Dá-me um beijo”, vira composto sob medida para a intérprete de Elvira, a esposa do Marceneiro Rogério.

 
"Os Fidalgos da Casa Mourisca" (Rede Record e TV Rio, 1972)

"Os Fidalgos da Casa Mourisca" foi uma telenovela brasileira exibida pela Rede Record entre 2 de maio e 2 de setembro de 1972, às 19h, em 107 capítulos.

Baseada no romance homónimo de Júlio Diniz, foi adaptada por Dulce Santucci e dirigida por Randal Juliano.

Foi uma tentativa fracassada de reeditar o sucesso de "As Pupilas do Senhor Reitor", do mesmo escritor.


Rodolfo Mayer, no papel de Dom Luís, e Geraldo Del Rey e Ademir Rocha no papel dos filhos de Dom Luís, Jorge e Maurício, eram os Fidalgos do título, destacando-se igualmente as actrizes Maria Estela (no papel de Berta, uma plebeia que se casava com um dos filhos) e Laura Cardoso (que interpretara o papel de Tereza em "Pupilas do Senhor Reitor" como Gabriela).


"As Pupilas do Senhor Reitor" (SBT, 1994)

"Remake" da novela de 1970, da Record, escrita por Lauro César Muniz. Exibida de 6 de dezembro de 1994 a 8 de julho de 1995, em 185 capítulos (originalmente às 19h45), foi escrita por Muniz e adaptada por Ismael Fernandes e Bosco Brasil, novamente sob a direcção de Nilton Travesso.

A novela tinha como protagonistas Juca de Oliveira (Padre Antônio - Senhor Reitor), Débora Bloch (Margarida), Luciana Braga e Eduardo Moscovis Moscovis (Daniel das Dornas), Tuca Andrada (Pedro das Dornas) e Elias Gleizer (Sr. José das Dornas).


O tema de abertura era "Canção do mar", na voz de Dulce Pontes, que a tornou conhecida por todo o  Brasil.

A personagem da atriz Lucinha Lins, Magali do Porto, é uma cantora famosa de Portugal que visita Póvoa do Varzim e dá um show ao ar livre para os habitantes da cidade, e canta o clássico "Ai, Mouraria!"

Apesar do excelente trabalho de arte e direção, a novela não conseguiu cativar tanto o público e a audiência caiu.


(Novela da Record)

Opereta "Os Fidalgos da Casa Mourisca" (1940)

O compositor, instrumentista e regente J. Aimberê (José Aimberê de Almeida) nasceu em Anápolis (atual Analândia) SP em 9/4/1904 e faleceu no Rio de Janeiro RJ em 24/11/1944. Além da opereta "Noite de reis" (1928), foi autor das músicas das operetas "Tutu marambaia" (1939), libreto de Batista Júnior e Belisário Couto, e em 1940, de "Os fidalgos da casa mourisca", libreto de Costa Junior.

Fontes/Mais informações: Wikipédia (Pupilas 1970. Os Fidalgos da Casa Mourisca, Pupilas 1994) / Tudo isso e TV / E10blog / Biografia de Lauro César Muniz / Revistacal / Recreio Brasil / Novelas do Brasil (Os Fidalgos da Casa Mourisca) / Teledramaturgia / Astros em Revista  / ufrgs (rádio cearense) / Opereta

Rádio novela "Fidalgos da Casa Mourisca" em cartaz na Tupi (1943)
Póvoa do Varzim (Erro da revista)





Trio de fofoqueiras em destaque na produção da SBT

A SBT utilizou as cenas ousadas de Francisquinha para alavancar as audiências 



quinta-feira, 15 de maio de 2014

Raúl Ruiz realiza "Mistérios de Lisboa" com base no livro homónimo de Camilo Castelo Branco (2010)


“Mistérios de Lisboa” tem realizador chileno mas em tudo o resto é bem português. Tudo começou com o célebre romance de Camilo Castelo Branco, publicado em fascículos em meados do século XIX.

A narrativa longa e folhetinesca de “Mistérios de Lisboa”, actualmente reunida num volume de cerca de 600 páginas, está na base do mais recente filme do chileno Raúl Ruiz produzido por Paulo Branco e que está a recolher os mais rasgados elogios que um filme português alguma vez recebeu na imprensa internacional.



A história envolve paixões arrebatadas, duelos mortais, identidades misteriosas e negócios tenebrosos, com a acção distribuída por Portugal, França, Itália e Brasil. O elenco é de luxo e conta nas personagens principais com Adriano Luz, Maria João Bastos, Ricardo Pereira, Albano Jerónimo e Afonso Pimentel, à frente de um conjunto de actores que integra estrelas internacionais como Léa Seydoux ou Melvil Poupaud.

O sucesso internacional tem sido verdadeiramente esmagador com uma recepção elogiosa em publicações como o “New York Times”, “Les Inrockuptibles”, “Cahiers du Cinéma”, “Le Figaro”, “Libération”, “Paris Match” ou “Le Monde”.


Prémios

Prémio de melhor realizador (Concha de Prata) no Festival de San Sebastián 2010 (Espanha)

Prémio da Crítica na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2010 (Brasil)

Prémio Louis-Delluc de melhor filme de 2010 (França)

Satellite Award para Melhor Filme Estrangeiro de 2011

International Press Academy Melhor Filme de Língua Estrangeira de 2011 – Toronto Film Critics’ Circle

32nd London Critics’ Prémio Panorama – Panorama of European Cinema – Athens

Melhor Filme do Ano – 2010 – no CANAL +; LES INROCKUPTIBLES e CAHIERS DU CINEMA

No Top 10 de 2011 para o Village Voice, The New York Times, Film Comment, Indiewire, Slant


Raul Ruiz e Portugal

Ao longo da sua impressionante carreira, o realizador chileno, radicado em França desde 1973 (após o golpe de Estado de Augusto Pinochet no Chile) criou uma grande cumplicidade com o produtor Paulo Branco, que teve início logo a partir dos anos 80, trabalhando com ele, primeiro em Portugal e depois também em França.

Foram oito, as longas‐metragens de Raúl Ruíz filmadas em Portugal, e catorze, os filmes produzidos ou co‐produzidos por Paulo Branco. Desses filmes, três passaram pela competição na Selecção Oficial do Festival de Cannes. Ruiz filmara já várias vezes com Paulo Branco, nomeadamente "A ilha do Tesouro" e "Os destinos de Manuel", ambos de 1985.

Em Portugal, o cineasta rodou também "Combat d'un amour em songe", de 2000, "Fado majeur et mineur" (1995), "Point de fuite" (1984), "La ville dês pirates" (1983), "Les trois couronnes du matelot" (1983) e "Le Territoire" (1982).


A última aventura portuguesa de Raúl Ruiz, "Os Mistérios de Lisboa", resultou da oferta dos três volumes do romance de Camilo Castelo Branco ao cineasta, pelo produtor Paulo Branco. "Há anos que insistia com Paulo Branco para fazer um filme em português", disse o realizador em Lisboa aquando da apresentação da obra.



"Linhas de Wellington" de Valeria Sarmento (2011)

“Tive a sorte de trabalhar com ele ao longo de 35 anos, de ser seu amigo”, acrescenta. Paulo Branco  que estava a trabalhar em “vários projectos” com Ruiz quando a morte do realizador ocorreu a meio da rodagem de “As Linhas de Torres Vedras”, que viria a ser concluído por Valeria Sarmento, companheira do realizador chileno.


Raúl Ruiz cultivava uma “ligação muito grande” a Portugal e este novo filme era um regresso ao século XIX português, depois de "Mistérios de Lisboa".

Entre os dois filmes, avançam as invasões francesas para primeiro plano. Adriano Luz, Albano Jerónimo e Léa Seydoux são alguns dos actores que transitam entre as duas histórias, aos quais se juntam John Malkovich e Mathieu Amalric.

Fontes: wikipedia / página oficial / boas notícias / cinema.sapo / visão.sapo / público / alfama films 


terça-feira, 15 de abril de 2014

Novela "Paixões Proibidas" com base na obra de Camilo (2006)


“Paixões Probidas” é uma telenovela luso-brasileira, co-produzida pela RTP e pela Rede Bandeirantes, da autoria do brasileiro Aimar Labaki, tendo por base três obras do escritor português Camilo Castelo Branco: “Amor de Perdição”, “Mistérios de Lisboa” e “O livro negro do Padre Dinis”.


A novela decorre em quatro localidades diferentes: Lisboa, Coimbra, Rio de Janeiro e na pequena Vila de Resende, interior do Brasil. As gravações em exteriores foram realizadas nos dois países (em Portugal em localidades como Lisboa, Coimbra e Sintra) e as gravações em estúdio, no Rio de Janeiro.

Os co-produtores pretendiam realizar uma obra que se adequasse ao gosto dos públicos brasileiro e português, já que a exibição de “Paixões Proibidas” seria praticamente simultânea e contava no seu elenco com actores brasileiros e portugueses, contudo a telenovela não teve sucesso em ambos os países.

O elenco português incluiu actores como São José Correia, Virgílio Castelo (que foi igualmente um dos directores da novela), Leonor Seixas, Ana Bustorff, Carlos Vieira, Pedro Lamares, Nuno Pardal, Henrique Viana, Natália Luiza e Julie Sargeant.


Sinopse 

Três histórias de amor têm como cenário os conturbados anos iniciais do século XIX na cidade do Rio de Janeiro, na pequena Vila de Resende (interior do Brasil), em Coimbra e Lisboa.

Simão e Teresa (interpretados pelos jovens actores Brasileiros Miguel Thiré e Anna Sophia Folch), filhos de famílias divididas por ódios que atravessam os anos, apaixonam-se perdidamente e este amor vai desdobrar-se em diversas tragédias e aventuras.


O padre Dinis (Virgílio Castelo) é um homem misterioso que tem mais três identidades - um poeta fidalgo, um vingador encapuzado e um duque francês, que dedica a sua vida a ajudar os jovens amantes e os injustiçados, tentando assim purgar a sua culpa por erros do passado. O padre luta ainda contra o amor que sente por Antónia Valente, uma mulher que dedica a vida ao padre e à procura da sua filha, roubada ainda no berço.

Alberto de Miranda (o actor brasileiro Felipe Camargo) é um ex-corsário que fez riqueza com a pirataria, mas que agora sonha com uma nova vida, como um respeitado empresário. Em Portugal, se envolve com Elisa de Mandeville (São José Correia), a Duquesa de Ponthieu, e ao chegar ao Brasil, tenta se regenerar por amor a Eugênia Valente. No entanto, seus segredos serão ameaçados pela duquesa, que quer vingança por ter sido trocada.

Todos vivem “Paixões Proibidas” e não imaginam que os seus destinos estão prestes a se cruzar…


Curiosidades

Após a bem-sucedida reposição da novela “Mandacaru”, originalmente exibida na Rede Manchete, a Band (Rede Bandeirantes) investia numa telenovela de época contando com os mesmo artifícios de produção: nudez, violência e uma requintada produção de época. Todavia, a história não obteve o sucesso esperado.

O primeiro título pensado para a novela foi "Amor de Perdição", depois "Amores Proibidos", até chegar no definitivo "Paixões Proibidas".

A história decorre num período de tempo em que as pessoas circulavam com facilidade entre Portugal e Brasil - graças à Carreira das Índias que ligava Lisboa, Rio de Janeiro e Goa - e assume-se como um retrato do antigo Império.

A telenovela retrata a sociedade brasileira nos anos anteriores à vinda da família real portuguesa para o Brasil, em 1808. Em paralelo, mostrou a resistência portuguesa à invasão das tropas de Napoleão Bonaparte. Nunca, até então, uma telenovela havia retratado essa época tão importante para a história brasileira.

Fontes: wikipedia / PravdaRTP / Band ; Video: abertura/genérico

 
 
 
 
 

sábado, 15 de março de 2014

Jarbas Junior aborda temáticas portuguesas em “Navio Português” (2004) e “A Espada de Camões” (2012)


O escritor cearense Jarbas Junior publicou em 2004 a epopeia moderna “Navio Português”, que abrange um conjunto de poesias identificadas com os justos e nobres anseios da lusofonia.

"Navio Português" é bem a prova desse mérito, pela grandeza do tema e pela força literária com que se apresenta. Nele as ressonâncias de Camões e de Fernando Pessoa são mais do que simples influências: lembram contactos mediúnicos …, revelações telepáticas – como é sugerido no prefácio que, mais do que uma introdução, é verdadeiro canto de amor a Portugal.

Nem poderia ser diferente: “Navio Português” é, todo ele, uma celebração da terra lusitana, “o país que coube numa nau”, segundo o primoroso achado do poeta. Jarbas Junior traz a lume um rosário de cantos e acalantos em louvor à terra lusitana, onde celebra os seus heróis e poetas, evoca os imperecíveis feitos de Vasco da Gama, Camões, Cabral, e descortina em luminosa metáfora os cenários esplêndidos das paisagens ibéricas.


“A Espada de Camões”

“A Espada de Camões” narra, de uma forma ficcional, a vida e aventuras do maior poeta português. O livro de Jarbas Junior apresenta Camões "de modo incomum, como aventureiro de terras e mares, em ritmo alucinante, com enredo de estilo cinematográfico, envolvente, dinâmico, cativante".

O romance “A Espada de Camões” surge para revelar ao mundo as aventuras e proezas de um herói que foi poeta; oferecendo assim, aos leitores de todas as idades, um modelo de virtudes e conduta moral a ser seguido.


Não se trata de uma biografia e sim de um romance, onde ficção e realidade se misturam a bel prazer do autor, que até consegue salvar de um fim ingrato a bela Dinamene, desaparecida após um naufrágio na costa da África, quando se perderam também diversos manuscritos do grande poeta lusitano.

No livro, a bela chinesa continua viva, mas Camões não sabe. Ela, também, pensa que ele desapareceu no mar, até que chega às suas mãos um exemplar de “Os Lusíadas”, publicado dez anos após o naufrágio. Mas… Tem sempre um mas… Ela está casada com outro, o capitão do galeão espanhol que a salvou e mora em Madrid.

Do porte de um Dante, Virgílio, Cervantes – Camões se vê cercado por uma caterva de nobres invejosos, que impedem seu acesso à corte e tentam roubar seu precioso manuscrito…

Fontes: Casa do Ceará / Thesaurus / Nosrevista / Márcio Catunda / Edmilson Caminha / Google books


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Imagens e influências portuguesas na obra poética de Manuel Bandeira


Desde Camões, vê-se clara a influência lusitana na poesia brasileira – como demonstra o estudo de Gilberto Mendonça Telles (1973): "Camões e a poesia brasileira".

O poeta brasileiro Manuel Bandeira, que foi um dos maiores símbolos do modernismo brasileiro – tendo sido recitado por Ronald de Carvalho o poema “Os sapos”, em 1922, na conhecidíssima semana de arte moderna, terá sido aquele em que, nas palavras de Jorge de Sena, esse "veio profundo foi mais permanente".

É aliás inegável a profunda influência da poesia lusa em Manuel Bandeira. O próprio refere Camões, António Nobre, Eugénio de Castro, como tendo feito parte da sua formação e das suas fontes inspiradoras.


Manuel Bandeira reconheceu, no seu “Itinerário de Pasárgada” (1954), a enorme influência que a literatura portuguesa teve na sua formação e na criação da sua obra poética; não só Camões, cuja lírica lamentou ter apenas descoberto tardiamente: “o gosto que tomei a Camões, cujos principais episódios de “Os Lusíadas” sabia de cor (…). O que ainda hoje lamento é não ter tomado então conhecimento da lírica do maior poeta de nosso idioma.

Do Camões lírico apenas sabia o que vinha nas antologias escolares”, mas todos os outros com os quais manteve sempre estreitos laços, mesmo nos tempos mais radicais do primeiro modernismo brasileiro.


O biógrafo brasileiro de Pessoa, José Paulo Cavalcanti Filho , na sua monumental obra "Fernando Pessoa, uma quase autobiografia", além de aproximar o poeta português dos leitores brasileiros, estreita os laços entre o escritor lusitano e os poetas modernistas do Brasil, como Vinícius, Drummond e Bandeira – realçando semelhanças nos versos e nos temas.

Ao assumir as influências lusitanas, Manuel Bandeira não trai o ideal de uma cultura autenticamente brasileira, talvez, por entender que elas devem ser tomadas, juntamente com as indígenas e africanas, como fonte para construção de nossa identidade. O poeta em questão, ao se posicionar de maneira mais flexível e à margem do movimento, acaba por não se contradizer como acontece com a maioria dos modernistas de 22.

Livro de Gilberto Mendonça Telles (1973)

"A Camões"

Quando n’alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de Beleza.

Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente

Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.

O soneto “A Camões” está presente no primeiro livro de Manuel Bandeira, "A cinza das horas" (1917). Para esta homenagem a Camões, o autor utiliza-se da intertextualidade , tão em voga na poesia moderna e muito frequente em Manuel Bandeira, e dela vai se servir para reescrever outras tantas formas clássicas, atitude que podemos entender como mais uma maneira do poeta de cultivar e preservar a tradição.



Em "Mafuá do malungo" (1948) aparecem três outras referências ao poeta: nas poesias “Portugal, meu avozinho” e “Improviso”; e em “Ad Instar Delphini”, invocando o poeta: “Camões, valei-me! Adamastor, Magriço”.

 É importante acrescentar que Camões, ao contrário do que se podia esperar, foi homenageado pela maioria dos poetas modernistas brasileiros, acerca da presença de Camões no Modernismo brasileiro, Gilberto M. Teles diz o seguinte: “Tinha-se a impressão de que o Modernismo ia também combater Camões, que trazia para a época dupla conotação de passado: o da Literatura e o do colonialismo português.

Mas a surpresa é que, com excepção apenas do actualíssimo João Cabral de Melo Neto (...), todos os poetas modernistas pagaram seu tributo à obras de Camões, transformando-a, lírica e épica, em temas de poesia e através de alusões, paráfrases, parábolas, através de todas as formas de referência, procuraram homenagear Camões (...).” e explica tal ocorrência pelo fato de que entendiam “que Camões estava acima dos nacionalismos e das ideologias de esquerda ou de direita. (...) Camões é sentido como génio, autor universal, e podia, portanto ser festejado sem isso implicar “colonialismo literário” (...).”

Viagem de 1957 de Craveiro Lopes ao Brasil (1)

"Craveiro dá-me uma rosa"

Craveiro, dá-me uma rosa!
Mas não qualquer, General:
Que eu quero, Craveiro, a rosa
Mais linda de Portugal!

Não me dês rosa de sal.
Não me dês rosa de azar.
Não me dês, Craveiro, rosa
Dos jardins de Salazar!
A Portugal mando um cravo.
Mas não qualquer, General:
Mando o cravo mais bonito
Da minha terra natal!

Este é outro poema presente no "Mafuá do malungo" e em que Manuel Bandeira dirige-se ao General Craveiro Lopes, quando este visitou o Brasil, referindo-se à falta de liberdade que imperava em Portugal .

Viagem de 1957 (2)

Tal qual “Portugal, meu avozinho” o poema acima é desenvolvido em redondilhas maiores e dividido em quartetos. Além das coincidências formais, em “Craveiro, dá-me uma rosa”, o poeta sugere um vínculo entre os dois países, através da troca cultural, “a rosa” pelo “cravo”, que por serem caracterizados pela beleza, podem simbolizar as artes.

Enfim, um elo de amizade e cultura entre dois países irmãos que só pode estabelecer-se pelas vias culturais e jamais pela política obscurantista de então, que, pela sua miopia, só visam ao progresso alicerçado em ideais estéreis, chegando, como se pode constatar hoje, a lugar nenhum.


"Improviso"

Glória aos poetas de Portugal.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garret, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
- Glória a Teixeira de Pascoais.

Tomamos como ponto de partida o poema “Improviso”, também do livro "Mafuá do malungo". O poema composto em octossílabos, -empregados na poesia cortesã da Idade Média e calcada em moldes provençais, “que até meados do século findo, e ainda depois, os poetas de Portugal e do Brasil geralmente não o consideraram digno de ser contemplado em suas composições.”- , cujo título “Improviso” remete ao gênero largamente praticado na Idade Média sob a forma de epigramas, madrigais e quadrinhas musicadas.

Manuel Bandeira para saudar os poetas portugueses, utilizou-se de uma estrutura clássica com o mesmo despojamento com que se utilizava dos versos livres, o que se verifica nos dois poemas citados e como se verificará nos três próximos poemas.

Em seu “Improviso”, o poeta faz referência a alguns dos principais nomes da Literatura Portuguesa de todos os tempos. Seguindo a ordem cronológica, glorifica e coloca em um plano divino os poetas reconhecidos como ícones, dos quais não só literatos portugueses, como também os brasileiros, receberam e recebem influências.


"A Antônio Nobre"

Tu que penaste tanto e em cujo canto
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto faz correr o pranto:
Com que magoado olhar, magoado espanto

Revejo em teu destino o meu destino!
Essa dor de tossir bebendo o ar fino,
A esmorecer e desejando tanto...

Mas tu dormiste em paz como as crianças.
Sorriu a Glória às tuas esperanças
E beijou-te na boca... O lindo som!

Quem me dará o beijo que cobiço?
Foste conde aos vinte anos... Eu, nem isso...

Eu, não terei a Glória... nem fui bom.

"A Antônio Nobre” é outro soneto do livro "A cinza das horas", em que também podemos observar a intertextualidade. Há uma referência clara de Manuel Bandeira ao segundo terceto do soneto formado de decassílabos, sem título, presente no capítulo “Sonetos - 3”, da única obra de Antônio Nobre, Só; a estrofe é a seguinte: “O meu Condado, o meu condado, sim!/ Porque eu já fui um poderoso Conde,/ Naquela idade em que se é conde assim...” .


Massaud Moisés faz as seguintes observações acerca de “A Antonio Nobre”: “de silhueta Parnasiano Simbolista, e fruto da coincidência entre a moléstia de Manuel Bandeira e do poeta português, traduz uma predileção estética da juventude, a poesia de Manuel Bandeira constitui uma espécie de diário íntimo, registro lírico dum dia-a-dia em que a arte era o prato obrigatório.” Aqui, mais uma vez, podemos constatar a influência de um poeta lusitano, Antonio Nobre é uma constante na obra de Manuel Bandeira, verificáveis em seu coloquialismo e penumbrismo .

Em “A Antonio Nobre”, Manuel Bandeira expressa sua homenagem ao poeta que o emociona “E cujo pranto faz correr o pranto”, e com quem se identifica “Revejo em teu destino o meu destino!”; porém a “Glória” de ter morrido ainda jovem não “sorriu” a Manuel Bandeira, que lamenta, com sua habitual modéstia, não ter tido a mesma sorte, nem o mesmo talento: “Eu, não terei a Glória.nem fui bom.”


Jaime Cortesão

Honra ao que, bom português,
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.

Para finalizar a presente exposição sobre as homenagens de Manuel Bandeira a poetas portugueses, temos uma quadrinha em redondilhas maiores que o poeta dedica a Jaime Cortesão, presente em "Mafuá do malungo". (...)

Fontes/Mais informações: Blog da Professora Eleandra Lelli (texto principal) /  "Camões e a Poesia Brasileira" de Gilberto Mendonça Teles / Tese de Maria da Natividade Esteves Gonçalves / Felipe Garcia de Medeiros