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sábado, 15 de março de 2014

Jarbas Junior aborda temáticas portuguesas em “Navio Português” (2004) e “A Espada de Camões” (2012)


O escritor cearense Jarbas Junior publicou em 2004 a epopeia moderna “Navio Português”, que abrange um conjunto de poesias identificadas com os justos e nobres anseios da lusofonia.

"Navio Português" é bem a prova desse mérito, pela grandeza do tema e pela força literária com que se apresenta. Nele as ressonâncias de Camões e de Fernando Pessoa são mais do que simples influências: lembram contactos mediúnicos …, revelações telepáticas – como é sugerido no prefácio que, mais do que uma introdução, é verdadeiro canto de amor a Portugal.

Nem poderia ser diferente: “Navio Português” é, todo ele, uma celebração da terra lusitana, “o país que coube numa nau”, segundo o primoroso achado do poeta. Jarbas Junior traz a lume um rosário de cantos e acalantos em louvor à terra lusitana, onde celebra os seus heróis e poetas, evoca os imperecíveis feitos de Vasco da Gama, Camões, Cabral, e descortina em luminosa metáfora os cenários esplêndidos das paisagens ibéricas.


“A Espada de Camões”

“A Espada de Camões” narra, de uma forma ficcional, a vida e aventuras do maior poeta português. O livro de Jarbas Junior apresenta Camões "de modo incomum, como aventureiro de terras e mares, em ritmo alucinante, com enredo de estilo cinematográfico, envolvente, dinâmico, cativante".

O romance “A Espada de Camões” surge para revelar ao mundo as aventuras e proezas de um herói que foi poeta; oferecendo assim, aos leitores de todas as idades, um modelo de virtudes e conduta moral a ser seguido.


Não se trata de uma biografia e sim de um romance, onde ficção e realidade se misturam a bel prazer do autor, que até consegue salvar de um fim ingrato a bela Dinamene, desaparecida após um naufrágio na costa da África, quando se perderam também diversos manuscritos do grande poeta lusitano.

No livro, a bela chinesa continua viva, mas Camões não sabe. Ela, também, pensa que ele desapareceu no mar, até que chega às suas mãos um exemplar de “Os Lusíadas”, publicado dez anos após o naufrágio. Mas… Tem sempre um mas… Ela está casada com outro, o capitão do galeão espanhol que a salvou e mora em Madrid.

Do porte de um Dante, Virgílio, Cervantes – Camões se vê cercado por uma caterva de nobres invejosos, que impedem seu acesso à corte e tentam roubar seu precioso manuscrito…

Fontes: Casa do Ceará / Thesaurus / Nosrevista / Márcio Catunda / Edmilson Caminha / Google books


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Imagens e influências portuguesas na obra poética de Manuel Bandeira


Desde Camões, vê-se clara a influência lusitana na poesia brasileira – como demonstra o estudo de Gilberto Mendonça Telles (1973): "Camões e a poesia brasileira".

O poeta brasileiro Manuel Bandeira, que foi um dos maiores símbolos do modernismo brasileiro – tendo sido recitado por Ronald de Carvalho o poema “Os sapos”, em 1922, na conhecidíssima semana de arte moderna, terá sido aquele em que, nas palavras de Jorge de Sena, esse "veio profundo foi mais permanente".

É aliás inegável a profunda influência da poesia lusa em Manuel Bandeira. O próprio refere Camões, António Nobre, Eugénio de Castro, como tendo feito parte da sua formação e das suas fontes inspiradoras.


Manuel Bandeira reconheceu, no seu “Itinerário de Pasárgada” (1954), a enorme influência que a literatura portuguesa teve na sua formação e na criação da sua obra poética; não só Camões, cuja lírica lamentou ter apenas descoberto tardiamente: “o gosto que tomei a Camões, cujos principais episódios de “Os Lusíadas” sabia de cor (…). O que ainda hoje lamento é não ter tomado então conhecimento da lírica do maior poeta de nosso idioma.

Do Camões lírico apenas sabia o que vinha nas antologias escolares”, mas todos os outros com os quais manteve sempre estreitos laços, mesmo nos tempos mais radicais do primeiro modernismo brasileiro.


O biógrafo brasileiro de Pessoa, José Paulo Cavalcanti Filho , na sua monumental obra "Fernando Pessoa, uma quase autobiografia", além de aproximar o poeta português dos leitores brasileiros, estreita os laços entre o escritor lusitano e os poetas modernistas do Brasil, como Vinícius, Drummond e Bandeira – realçando semelhanças nos versos e nos temas.

Ao assumir as influências lusitanas, Manuel Bandeira não trai o ideal de uma cultura autenticamente brasileira, talvez, por entender que elas devem ser tomadas, juntamente com as indígenas e africanas, como fonte para construção de nossa identidade. O poeta em questão, ao se posicionar de maneira mais flexível e à margem do movimento, acaba por não se contradizer como acontece com a maioria dos modernistas de 22.

Livro de Gilberto Mendonça Telles (1973)

"A Camões"

Quando n’alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de Beleza.

Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente

Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.

O soneto “A Camões” está presente no primeiro livro de Manuel Bandeira, "A cinza das horas" (1917). Para esta homenagem a Camões, o autor utiliza-se da intertextualidade , tão em voga na poesia moderna e muito frequente em Manuel Bandeira, e dela vai se servir para reescrever outras tantas formas clássicas, atitude que podemos entender como mais uma maneira do poeta de cultivar e preservar a tradição.



Em "Mafuá do malungo" (1948) aparecem três outras referências ao poeta: nas poesias “Portugal, meu avozinho” e “Improviso”; e em “Ad Instar Delphini”, invocando o poeta: “Camões, valei-me! Adamastor, Magriço”.

 É importante acrescentar que Camões, ao contrário do que se podia esperar, foi homenageado pela maioria dos poetas modernistas brasileiros, acerca da presença de Camões no Modernismo brasileiro, Gilberto M. Teles diz o seguinte: “Tinha-se a impressão de que o Modernismo ia também combater Camões, que trazia para a época dupla conotação de passado: o da Literatura e o do colonialismo português.

Mas a surpresa é que, com excepção apenas do actualíssimo João Cabral de Melo Neto (...), todos os poetas modernistas pagaram seu tributo à obras de Camões, transformando-a, lírica e épica, em temas de poesia e através de alusões, paráfrases, parábolas, através de todas as formas de referência, procuraram homenagear Camões (...).” e explica tal ocorrência pelo fato de que entendiam “que Camões estava acima dos nacionalismos e das ideologias de esquerda ou de direita. (...) Camões é sentido como génio, autor universal, e podia, portanto ser festejado sem isso implicar “colonialismo literário” (...).”

Viagem de 1957 de Craveiro Lopes ao Brasil (1)

"Craveiro dá-me uma rosa"

Craveiro, dá-me uma rosa!
Mas não qualquer, General:
Que eu quero, Craveiro, a rosa
Mais linda de Portugal!

Não me dês rosa de sal.
Não me dês rosa de azar.
Não me dês, Craveiro, rosa
Dos jardins de Salazar!
A Portugal mando um cravo.
Mas não qualquer, General:
Mando o cravo mais bonito
Da minha terra natal!

Este é outro poema presente no "Mafuá do malungo" e em que Manuel Bandeira dirige-se ao General Craveiro Lopes, quando este visitou o Brasil, referindo-se à falta de liberdade que imperava em Portugal .

Viagem de 1957 (2)

Tal qual “Portugal, meu avozinho” o poema acima é desenvolvido em redondilhas maiores e dividido em quartetos. Além das coincidências formais, em “Craveiro, dá-me uma rosa”, o poeta sugere um vínculo entre os dois países, através da troca cultural, “a rosa” pelo “cravo”, que por serem caracterizados pela beleza, podem simbolizar as artes.

Enfim, um elo de amizade e cultura entre dois países irmãos que só pode estabelecer-se pelas vias culturais e jamais pela política obscurantista de então, que, pela sua miopia, só visam ao progresso alicerçado em ideais estéreis, chegando, como se pode constatar hoje, a lugar nenhum.


"Improviso"

Glória aos poetas de Portugal.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garret, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
- Glória a Teixeira de Pascoais.

Tomamos como ponto de partida o poema “Improviso”, também do livro "Mafuá do malungo". O poema composto em octossílabos, -empregados na poesia cortesã da Idade Média e calcada em moldes provençais, “que até meados do século findo, e ainda depois, os poetas de Portugal e do Brasil geralmente não o consideraram digno de ser contemplado em suas composições.”- , cujo título “Improviso” remete ao gênero largamente praticado na Idade Média sob a forma de epigramas, madrigais e quadrinhas musicadas.

Manuel Bandeira para saudar os poetas portugueses, utilizou-se de uma estrutura clássica com o mesmo despojamento com que se utilizava dos versos livres, o que se verifica nos dois poemas citados e como se verificará nos três próximos poemas.

Em seu “Improviso”, o poeta faz referência a alguns dos principais nomes da Literatura Portuguesa de todos os tempos. Seguindo a ordem cronológica, glorifica e coloca em um plano divino os poetas reconhecidos como ícones, dos quais não só literatos portugueses, como também os brasileiros, receberam e recebem influências.


"A Antônio Nobre"

Tu que penaste tanto e em cujo canto
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto faz correr o pranto:
Com que magoado olhar, magoado espanto

Revejo em teu destino o meu destino!
Essa dor de tossir bebendo o ar fino,
A esmorecer e desejando tanto...

Mas tu dormiste em paz como as crianças.
Sorriu a Glória às tuas esperanças
E beijou-te na boca... O lindo som!

Quem me dará o beijo que cobiço?
Foste conde aos vinte anos... Eu, nem isso...

Eu, não terei a Glória... nem fui bom.

"A Antônio Nobre” é outro soneto do livro "A cinza das horas", em que também podemos observar a intertextualidade. Há uma referência clara de Manuel Bandeira ao segundo terceto do soneto formado de decassílabos, sem título, presente no capítulo “Sonetos - 3”, da única obra de Antônio Nobre, Só; a estrofe é a seguinte: “O meu Condado, o meu condado, sim!/ Porque eu já fui um poderoso Conde,/ Naquela idade em que se é conde assim...” .


Massaud Moisés faz as seguintes observações acerca de “A Antonio Nobre”: “de silhueta Parnasiano Simbolista, e fruto da coincidência entre a moléstia de Manuel Bandeira e do poeta português, traduz uma predileção estética da juventude, a poesia de Manuel Bandeira constitui uma espécie de diário íntimo, registro lírico dum dia-a-dia em que a arte era o prato obrigatório.” Aqui, mais uma vez, podemos constatar a influência de um poeta lusitano, Antonio Nobre é uma constante na obra de Manuel Bandeira, verificáveis em seu coloquialismo e penumbrismo .

Em “A Antonio Nobre”, Manuel Bandeira expressa sua homenagem ao poeta que o emociona “E cujo pranto faz correr o pranto”, e com quem se identifica “Revejo em teu destino o meu destino!”; porém a “Glória” de ter morrido ainda jovem não “sorriu” a Manuel Bandeira, que lamenta, com sua habitual modéstia, não ter tido a mesma sorte, nem o mesmo talento: “Eu, não terei a Glória.nem fui bom.”


Jaime Cortesão

Honra ao que, bom português,
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.

Para finalizar a presente exposição sobre as homenagens de Manuel Bandeira a poetas portugueses, temos uma quadrinha em redondilhas maiores que o poeta dedica a Jaime Cortesão, presente em "Mafuá do malungo". (...)

Fontes/Mais informações: Blog da Professora Eleandra Lelli (texto principal) /  "Camões e a Poesia Brasileira" de Gilberto Mendonça Teles / Tese de Maria da Natividade Esteves Gonçalves / Felipe Garcia de Medeiros

domingo, 30 de setembro de 2012

"Crónica do Rei Pasmado" de Gonzalo Torrente Ballester (1989)


O escritor galego Gonzalo Torrente Ballester constrói, em pouco menos de 200 páginas, uma narrativa (*) bem humorada e repleta de críticas à pretensa moral e bons costumes da Igreja, com uma premissa imaginativa

(*) «sherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado» é como o autor lhe chama.

São numerosos os personagens e os factos históricos discretamente transfigurados ao longo da estória que os “institui pela palavra”. A começar pelo “rei pasmado”: Filipe IV (terceiro de Portugal), então com os seus 20 anos de idade e 4 ou 5 de reinado.
 


Certa noite, depois de uma visita “às meninas”, o jovem soberano não consegue tirar da cabeça o corpo da cortesã Marfisa.

Os severos costumes impostos pela inquisição impedem o Rei de manter um relacionamento intimo com a Rainha. Com o apoio de um padre jesuíta, um português chamado Almeida, o único dos presentes que justificou os devaneios do Rei, o Rei vai procurar rodear esta difícil situação.





Sinopse

A partir do pasmo extasiado do rei ao ver pela primeira vez uma mulher nua, e ao querer ver nua também a rainha, toda uma intriga se tece na corte, metendo nobres, inquisidores, uma afamada meretriz, um jesuíta português, a superiora do convento; toda uma tela de uma obra que bem justifica o qualificativo de pitoresca, num divertimento de primeira água.




Sucesso no Cinema (1991)

As aventuras do «rei pasmado» foram adaptadas ao cinema, num filme dirigido por Imanol Uribe, em que a figura do desenvolto jesuíta padre Almeida é interpretada pelo actor português Joaquim de Almeida.

O filme – uma co-produção hispano-franco-portuguesa - foi rodado em Espanha (Toledo, Ávila, Madrid, El Escorial, Salamanca) e em Guimarães (no coração histórico).

Videos: (1) (2) (3)




Padre Almeida (interpretado por Joaquim de Almeida)

"Nem todos os da procissão entraram, só os que tinham assento no Supremo, quer como membros titulares quer como teólogos convidados; ou seja, consultores, e entre estes figurava um jesuíta português, o padre Almeida, bastante novo ainda, mas de rosto queimado pelos sóis brasileiros.

O padre Almeida estava de passagem por Madrid: tinham-no destinado a capelão secreto de uma casa de Inglaterra, porque o outro capelão tinha sido justiçado, o que era o mesmo que admitir que não restava muito tempo de vida ao padre Almeida; mas não parecia acabrunhado nem entristecido, nem tão-pouco entusiasmado com o seu futuro martírio: comportava-se com naturalidade, muito mais do que os seus companheiros, apesar da reputação de teólogo sábio que o seu reitor proclamava na carta de apresentação para o Inquisidor-mor com que justificava a sua presença."




O padre Almeida chocava um pouco entre os restantes clérigos, porque usava por cima da sotaina um colarinho à francesa, e porque, ao desabotoá-la por causa do calor, se lhe tinham visto meias pretas e calção. Mas, como estrangeiro, não lho levavam a mal.

"O padre Almeida, sim. O padre Almeida é português, e sabe mais das coisas do mar do que Vossas Mercês".




D. Francisca de Távora

A rivalidade entre o rei e o o Conde de Villamediana (que terá inspirado a Gonzalo Torrente Ballester o seu da Peña Andrada) foi motivada pela inocente doña Francisca de Tavora, filha do português D. Martim Alonso de Castro, general das galeras de Portugal  e vice-rei da Índia, que o Rei também cortejava.




O Rei elogia a forma de dançar de D. Francisca, que o informa que aprendeu a dançar “em todas as ilhas perdidas desses mares onde os homens e as mulheres dançam, mas muito especialmente no Norte de Portugal“

D. Francisca de Távora (ou D. Paca, como é igualmente é identificada) foi interpretada no filme pela actriz espanhola Eulalia Ramón, que dança a chacona.





Camões e Ronsard

Deve ser essa doidivanas de Dona Paca de Távora.
O conde respondeu-lhe com uma ligeira inclinação de cabeça.
- É mui formosa, Majestade.
- A Rainha não nutre simpatia por ela.
- É natural, senhor. Uma refinada francesa e uma exuberante portuguesa não estão
destinadas a entender-se. É como se Vossa Majestade comparasse Camões com Ronsard.
- De Camões li muitos versos, mas a esse outro nunca o ouvi nomear.
- Certamente, senhor, Sua Majestade a Rainha sabê-lo-á de cor.

Fontes: Edição digital do livro / A minha estante / Passamos como o rio / El Pais / Tese Erica Myeko Ohara  


 

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Referência ao Adamastor e a Portugal em "Com que roupa" de Noel Rosa (1930)

No final de 1929, Noel Rosa compôs "Com que roupa ?", samba que retrata a pobreza, a fome e a miséria. Um tema original, até revolucionário para a época, fazendo alusão a uma característica marcadamente brasileira: a de se gozar da própria desgraça, levando a vida de forma divertida, dentro da filosofia do "rir para não chorar".

Quanto à melodia, é simples, contagiante e possui uma história curiosa: desde os tempos de colégio, Noel tinha o hábito de parodiar o Hino Nacional; é possível que inconscientemente tenha utilizado essa melodia sem se dar conta do plágio. Quem lhe preveniu quanto ao risco de apreensão da música pela censura foi o maestro Homero Dornellas, que foi quem alterou a melodia e passou-a para a pauta.


Depois de lançado, "Com que roupa ?" imediatamente passou a fazer parte do cotidiano carioca, da linguagem, das conversas. Noel não contava com tamanho sucesso, caso contrário, não teria vendido os direitos sobre a música ao cantor e locutor Ignácio Guimarães, o Ximbuca, por cento e oitenta mil réis. Ximbuca ficou tão empolgado em ser o dono do samba, que resolveu gravá-lo também.

Noel, então, decidiu acrescentar outros versos (Seu português...), pensando sempre num país explorado, na pobreza, usando a sua boa dose de humor e ironia. O Adamastor citado é, na verdade, o nome de um navio português, que homenageia o titã cantado por Luís de Camões em Os Lusíadas. Para a gravação de Ximbuca, Noel preferiu alterar os versos da terceira estrofe; ao invés de Meu terno já virou estopa ele coloca Meu paletó....


Noel costumava inventar outras estrofes para "Com que roupa ?" e cantá-las em programas de rádio, mas nenhuma delas foi gravada. (...)

O compositor foi muitas vezes procurado por repórteres para que contasse a história de "Com que roupa ?" e, a cada entrevista, dava uma versão diferente. Numa de suas versões, explicou que teve inspiração quando precisava ir a uma festa, mas, literalmente, não tinha roupa alguma, pois sua mãe, para lhe poupar a saúde, havia escondido todas as suas vestimentas, para que assim não saísse para a boemia.


Em outra entrevista, declarou que não gostava da música, pois ela havia sido feita para o povo e as músicas de que ele mais gostava eram feitas para ele mesmo. Também chegou a dizer que a música havia sido feita pensando naqueles dias em que você é convidado para um programa, mas não tem dinheiro, então, você pergunta, com que roupa ?


Letra alternativa

Agora vou mudar minha conduta
Eu vou pra luta
Pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com força bruta
Pra poder me reabilitar
Pois esta vida não está sopa
E eu pergunto com que roupa?
Com que roupa que eu vou?
Pro samba que você me convidou
Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou
Agora eu não ando mais fagueiro
Pois o dinheiro
Não é fácil de ganhar
Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro
Não consigo ter nem pra gastar
Eu já corri de vento em popa
Mas agora com que roupa?
Eu hoje estou pulando como sapo
Pra ver se escapo
Desta praga de urubu
Já estou coberto de farrapo
Eu vou acabar ficando nu
Meu paletó virou estopa
Eu nem sei mais com que roupa ?

Seu português agora foi-se embora
Já deu o fora
E levou seu capital
Esqueceu quem tanto amava outrora
Foi no Adamastor pra Portugal
Pra se casar com uma cachopa

E agora com que roupa ?


Gravações

Gravada originalmente na Parlophone em 1930 pelo próprio Noel Rosa, acompanhado por Bando Regional, e lançada em discos 78 rpm.

Outras gravações conhecidas são as de Inácio Guimarães Loyola (1931), Aracy de Almeida (1951), Trio Surdina, Marília Batista (1963), Nélson Gonçalves (1967), Elza Soares (1967), Helena de Lima (1969), Martinho da Vila (1970), Os Três Moraes (1973), Maria Creuza (1974), Doris Monteiro, Paulo Marques, Sambistas da Guanabara, Turma da Bossa, Banda do Canecão, Luiz Bandeira, Grupo 10.001 & Vocal Documenta, Rosinha de Valença, MPB-4 (1987), Zezé Motta, Guiba, Zizi Possi, Gilberto Gil (1991), Marco Neves (1995), Ivan Lins (1997), Caetano Veloso & Zeca Pagodinho, entre outras.


Videos: Noel Rosa (versão sem referência a Portugal) / Diogo Nogueira (com referência a Portugal)

Fonte: Musicachiado

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

“Língua” de Caetano Veloso e Elza Soares (1984)


“Língua” é uma canção composta por um conjunto de expressões que constroem e refazem a língua portuguesa, revisada pelas inovações brasileiras, diluídas em estrangeirismos e variações regionalistas.

É uma provocação constante e total, que rabisca a língua de Camões e de Fernando Pessoa, arrastando-a pelos vícios da linguagem das praias brasileiras e impostas pela televisão.

Na gravação original, em 1984, Caetano Veloso dividia os refrões com Elza Soares, numa composição que nos arrastava a um samba-enredo que parecia explodir nas avenidas.

“Flor do Lácio sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer o que pode esta língua?”

Letra

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”

Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

(...)

Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?


Gal Costa


Gal Costa - que regravou o tema - aguenta sozinha, em um só fôlego, o desafio de uma das mais complicadas letras do autor, que se ancora nos neologismos que nos parecem instransponíveis.

"O Cinema Falado"

No filme "O Cinema Falado", de Caetano Veloso, é referido que "Não é por acaso que, em português coloquial, Prosa quer dizer conversa, rap, charla, …"



Videos: Caetano & Elza Soares (Video pessoal) / "O Cinema Falado"

Fonte: virtualiaomanifesto

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

"Os Argonautas" de Caetano Veloso (1969)


[Navegar é Preciso] É um texto famoso de Fernando Pessoa, desses que se incorporam à memória cultural de um povo. Cito de memória: "Navegadores antigos tinham um lema: navegar é preciso, viver não é preciso. Quero para mim este lema, adaptando-o à minha vida e à minha missão no mundo: viver não é necessário, o que é necessário é criar."

Para a minha geração, a frase lembrada por Pessoa foi popularizada por Caetano Veloso em sua canção "Os argonautas", no seu "disco branco" saído em 1969, logo após sua prisão pelo regime militar.


Nenhum de nós tinha a menor ideia de quem fosse Fernando Pessoa. Era apenas um nome que Caetano tinha bradado, enfurecido, para a plateia que o vaiava durante sua interpretação de "É proibido proibir", num daqueles festivais.

Com a vaia, o cantor interrompeu o canto e disparou na direcção da plateia um monólogo a plenos pulmões com uns dez minutos de duração, no qual, a certa altura, gritava: "Hoje não tem Fernando Pessoa!" (*)

(*) [Caetano Veloso ia interpretar "É Proibido Proibir" com Os Mutantes, pretendendo, inicialmente, incluir um texto de Fernando Pessoa para homenagear a actriz Cacilda Becker que estava a ser pressionada para rescindir o seu contrato com a televisão]


Fernando Pessoa? Quem diabo é esse cara? Corremos todos para as enciclopédias e descobrimos que era um "poeta modernista português, falecido em 1935". Ficamos mais perplexos ainda. Oi... quer dizer que o Modernismo tinha chegado em Portugal?!

Pensávamos que Portugal tinha estacionado em Camões e Gil Vicente.
Aí saiu um compacto [single] simples, tendo no lado B a faixa "Ambiente de festival", com a vaia do teatro e a diatribe de Caetano, e no lado A a canção "É proibido proibir" ("A mãe da virgem diz que não... e o anúncio da televisão... e estava escrito no portão..."), na qual, a certa altura, brotava a voz surda e angustiada de Caetano recitando: "Esperai! Cai no areal e na hora adversa que Deus concede aos seus..."


Eram os versos do poema "D. Sebastião", na parte III de "Mensagem", único livro publicado em vida por Fernando Pessoa. Até hoje não sei o que diabo têm a ver Dom Sebastião e o slogan "É proibido proibir"; mas foi este talvez o primeiro link "pessoano" na obra de Caetano, retomado depois com "Os argonautas": "O barco... meu coração não aguenta tanta tormenta, alegria, meu coração não contenta..."

Era um fado nostálgico em tom menor, ao som de bandolins, onde se misturavam temas como a navegação sem rumo e o vampirismo ("O barulho do meu dente em tua veia... o sangue, o charco..."). E o refrão, em tom maior ascendente, triunfante: "Navegar é preciso... Viver não é preciso!"


Só muitos anos depois é que vi comentários sobre a ambiguidade da frase. "Precisão" pode significar necessidade: navegar é necessário, viver não é necessário. Mas pode significar também exactidão, e aí teríamos: navegar é uma ciência exacta, viver não o é.

O que está muito mais de acordo com os argonautas da Escola de Sagres, com suas bússolas, astrolábios e portulanos. Naufrágios, calmarias e tempestades, no entanto, nos mostram a ingenuidade dessa distinção. Viver e navegar estão submetidos ao mesmo princípio de incerteza. Não nos esqueçamos de que para navegar é preciso viver, não é preciso?

Fonte: Braulio Tavares (Publicado no Jornal da Paraíba, edição de 25 de julho de 2004)


Homenagem à cultura portuguesa

"Os Argonautas" foi interpretado por cantoras como Elis Regina, Maria Betânia e Ângela Maria.

Trata-se de um fado, em homenagem à cultura portuguesa, ao mar e à mítica viagem dos Argonautas comandados por Jasão [em metáfora aos navegadores portugueses].

Há quem tenha notado no modo de cantar de Veloso uma homenagem a Amália Rodrigues e uma homenagem a Fernando Pessoa, com a inclusão do verso "Navegar é preciso, viver não é preciso" que tem origem no general romano Pompeo (106-48 aC) "Navegar é necessário; viver não é necessário".

Além da menção ao mar (que é uma constante em Mensagem), fica claro o conteúdo sebastianista da letra, tal como acontece no livro de Pessoa.

Letra

o barco, meu coração não aguenta
tanta tormenta
alegria, meu coração não contenta
o dia, o marco, meu coração
o porto, não
navegar é preciso
viver não é preciso
o barco, noite no teu tão bonito
sorriso solto perdido
horizonte, madrugada
o riso, o arco, da madrugada
o porto, nada
navegar é preciso
viver não é preciso
o barco, o automóvel brilhante
o trilho solto, o barulho
do meu dente em tua veia
o sangue, o charco, barulho lento
o porto silêncio


"A Mensagem do Tropicalismo"

Uma conferência de Caetano Veloso e Antonio Cicero intitulada "A Mensagem do Tropicalismo", sobre a influência de Mensagem de Fernando Pessoa no movimento tropicalista, inaugurou o ciclo Livres Pensadores na Casa Fernando Pessoa, no dia 4 de Dezembro de 2009.

António Cícero estivera anteriormente no "I Congresso Internacional Fernando Pessoa". Segundo o ensaísta, "Caetano conta que uma das principais influências que sofreu foi de Agostinho da Silva, um professor português, um intelectual, um pensador, que havia emigrado para o Brasil, onde deu aulas, e em cujos ensaios ele reconhecia um certo messianismo que derivava imediatamente de Fernando Pessoa".

Caetano, que leu “Mensagem” na faculdade, impressionara-se sobretudo pelo facto de Fernando Pessoa ser capaz de dar vida digna a esse mito (ao parecer constituir a fundação da língua portuguesa).


Videos

(1) Caetano lê trecho da carta de Pêro Vaz de Caminha interpreta "Os Argonautas"

(2) Elis Regina canta "Os Argonautas" (de Caetano Veloso) no especial Sexta Nobre-Gloco 71/72.

(3) Caetano e Chico - Juntos e ao Vivo

(4) Maria Betânia [a música foi feita para ela cantar]

Outras fontes/mais informações: umbarco.blog / música e memória / fumacas.weblog / yahoo / Mundo pessoa / Caetano en detalle / Lusoleituras

Caetano Veloso colaborou na edição nº1 da revista "Pessoa"

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

“O Clube Dumas” de Arturo Pérez-Reverte (1993)


Um caçador de livros antigos procura os poucos volumes existentes de uma obra cujas imagens podem abrir as próprias portas do Inferno. Acontece é que um desses livros se encontra nas mãos de um coleccionador privado, em Sintra. O “Clube Dumas” transporta-nos para lá.

Uma das epígrafes que encabeça os capítulos [capítulo VII] é retirado de “O Crime da Estrada de Sintra”, de Eça Queiroz e Ramalho Ortigão, revelando um interesse do autor não só pela geografia, como pela literatura lusitana.


"As nove portas"

Lucas Corso, procura a autenticidade de um dos exemplares de "As nove portas", encadernação de 1666 por Aristide Torchia, a mando do livreiro Varo Borja. Esta procura vai levá-lo aos outros dois exemplares conhecidos.

O segundo encontra-se em Sintra, propriedade do bibliófilo Victor Fargas e o terceiro, em Paris, propriedade da Baronesa Frida Ungern, uma viúva fascinada pelo oculto.

Após o contacto de Corso com os dois proprietários, estes são assassinados e os livros destruídos ou roubados. Não sem antes, Corso poder compará-los e verificar que oito das nove gravuras existentes nos livros, tinham diferenças entre si.

Curiosidades

A colecção de Victor Fargas inclui a 1ª edição - em 4 volumes - de "Os Lusíadas" de Luís de Camões (Ibarra 1789)

"Club Dumas" foi nomeado para os prémios Anthony, Macavity e World Fantasy.

O filme "A nona porta" (1999) de Roman Polanski (1999) foi baseado neste livro de Reverte.

Fontes: Filipe d’Avillez, Revista “Os Meus Livros” (adaptado) / wikipedia / Clorofórmio do Espírito

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Mircea Eliade e Portugal (1941-1945)


Em 1941 Mircea Eliade - um dos autores mais consagrados no que diz respeito à interpretação e ao estudo dos símbolos - foi nomeado secretário de imprensa na capital portuguesa.

Interessou-se pelos clássicos, como Sá de Miranda, Camões e Eça de Queiroz, e empenhou-se em estabelecer elos mais fortes entre os latinos do ocidente e do oriente, impulsionando traduções, conferências e concertos.

Deixou diversas obras ligadas ao nosso país, algumas de forma directa, e uma outra mais curiosa.


Emergiu, há poucos anos, um diário que Eliade terá mantido sobre os seus anos passados em Portugal. Editado em Barcelona, com o título “Diário Português”, este documento importante manteve-se muito tempo sem versão em português.

Enquanto esteve em Portugal, o escritor romeno foi um observador muitas vezes crítico, mas jamais mal-educado ou hostil, de Portugal e dos seus habitantes.

"Lisboa conquistou-me desde o primeiro dia (…). No último ano da minha estadia em Calcutta tinha começado a aprender o português com método e paixão".

Mircea Eliade entrou em contacto com jornalistas portugueses e com o director do então Ministério de Informação e Propaganda António Ferro (1895-1956). Ao mesmo tempo iniciou o estudo da obra de Camões.

Tinha o propósito de escrever um livro sobre Camões e a Índia portuguesa. Este livro, porém, como muitos outros, não passou dum projecto inacabado.


"Salazar e a Revolução Portuguesa" tinha por objectivo inspirar o general Ionescu a seguir o exemplo do português de criar uma ditadura não totalitária. Quem não parece ter gostado da brincadeira, contudo, foi Salazar. A obra só recentemente foi editada em português.

"Salazar, que tinha cometido a 'gaffe' de ordenar luto pela morte de Hitler e tinha sido injuriado na imprensa anglo-americana, corrigiu o erro rompendo as relações com a Alemanha, fechando a Legação e congelando os fundos alemães", anotou Eliade no seu diário, no dia 10 de Maio de 1945.

O escritor romeno conheceu pessoalmente Salazar, que retrata com simpatia ("É menos rígido visto de perto"), mas segundo Corneliu Popa (tradutor da sua obra para português), "não era propriamente fascista".

"É inegável que Eliade tinha simpatias de direita, mas não era um militante surdo e cego. Ele defendia um Estado autoritário, mas não totalitário", disse.


"Os Romenos: Latinos do Oriente" era uma síntese histórica, cultural e espiritual do seu país, tendo avançado a hipótese de haver uma ligação grande entre os actuais habitantes da Roménia e de Portugal, uma vez que teriam sido soldados da Península Ibérica os primeiros latinos a colonizar a Roménia.

Fontes: Filipe d’Avillez, Revista “Os Meus Livros” (adaptado) / Instituto Camões / Nonas Nonas / wikipedia