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domingo, 15 de abril de 2018

O sucesso internacional de Madalena Iglésias (1959-1972)


Madalena Iglésias nasceu a 24 de outubro de 1939 na freguesia de Santa Catarina, em Lisboa, filha de mãe espanhola (oriunda de Pontevedra na Galiza) e pai português. No ano de 1954 estreia-se em simultâneo na televisão e na Emissora Nacional.

O seu primeiro contrato internacional foi assinado em 1959, tendo actuado em Espanha  no Cabalgata de Fin de Semana, um conhecido programa de Bobby Deglan na Rádio Voz de Madrid. Foram dez espectáculos, tendo participado igualmente em três espectáculos na televisão espanhola (RTVE). E em 1960 foi contratada pela Rádio Barcelona onde actuou ao lado de Jacqueline François e de Tony Dallara.


Vai pela primeira vez a França em 1960 e actua na televisão francesa no programa do cantor Charles Trenet e no programa "Paris Club" apresentado pelo cantor Luís Mariano. Actua igualmente no Marcadet Place e festeja os 21 anos em Paris. E teve direito a fotografia e três colunas no conhecido jornal francês Le Figaro. Voltaria mais tarde à Rádio Televisão Francesa para o programa "Paris de Nuit".

Mas o seu maior sucesso foi na Venezuela, onde actuou sucessivamente entre 1961 e 1972. A primeira actuação que ali realizou em 1961, valeu-lhe um êxito estrondoso e um contrato excelente: 48 actuações. Na Rádio de Caracas actuou em 15 espectáculos incluídos no “show” de Vitor Saume. Outros quinze na “boite” Pasaponga. Dez no “Coney Island” (espectáculos de 1h30 min cada) e mais quatro no Centro Português e no Centro Amigos da Madeira. E ao regressar a Portugal, depois de uma ausência de vários meses, Madalena Iglésias trazia consigo um alto galardão: o “Bolivar de Ouro”.



Em 1962 representou Portugal no Festival de Benidorm, a convite da nossa Emissora Nacional , e voltou à Venezuela, onde não ficou só pelos “shows” de Vitor Saume (actuações de 15 minutos no "El Show de las Doce") e Aldemaro Romero (actuações de 1 hora). Não actuou apenas nas “boîtes” Miranda e Pasapoga. Não ouviu apenas os aplausos do Centro Português. Em digressão pelo Interior, Madalena Iglésias levou o seu nome e a canção nacional a Maracay, Barquisimeto, La Guaira e Valência. E obtém diversos prémios, entre os quais: “18 Caciques de Ouro”, em 1962, e  “Guaicaipuro de Ouro" e 2º "Bolivar de Ouro" em 1963.


Conquistada definitivamente a Venezuela, Madalena iria nos anos seguintes ao Brasil, Colômbia e Panamá. No Rio de Janeiro, em S. Paulo, Belo Horizonte, Recife, Belém do Pará, nos “shows” de Cassio Moniz,  Ronald Golias, Noite de Gala, Elizeth Cardoso, Hebe Camargo (na TV Tupi, onde se cruzou com o cantor português Tristão da Silva), Luís Jatobá, César de Alencar (TV Rio) e Noite Social (na TV Marajoará do Pará). E ainda no programa "Portugal em sua casa" da Rádio Metropolitana e programa "Caravela da Saudade" de Alberto Maria Andrade no canal 2 da TV Cultura.

Obtém o prémio de melhor artista do ano em Belém do Pará (Troféu Carajá e Troféu Imperador, ambos da TV Marajoará) e a “Rosa de Ouro” conquistada no Rio de Janeiro, indo receber em 1963 o prémio atribuído pela TV Continental (Canal 9).



Na Colômbia actua na Rádio TV Caracol, no Grill "La Bamba" e "Boite" "Ás de Copas".

E no Panamá actua no Club Portobelo, num contrato inicial de 7 dias que se prolongará por 3 semanas, e é convidada do Canal 2 e do Canal 4 (no show de Blanquita Amaro). .

Festival de Aranda do Douro

Em 1964 participa no Festival de Aranda del Duero, alcançando o 1º lugar com o tema "Sonha" da autoria de Carlos Canelhas. Este festival era uma extensão do  Festival de Benidorm.

Os promotores deste festival lembraram-se de fazer um concurso luso-castelhano, com canções em ambos os idiomas tendo como justificação o facto de Aranda se situar no Alto Douro espanhol (na Província de Burgos) e o rio atravessar ambos os países.

Visita Angola e Moçambique no ano de 1964, actuando em Moçambique com o Conjunto de Renato SiIva.


E numa co-produção entre RTP e BBC são gravados em Lisboa 13 programas de variedades "Noite de Estrelas" com participação do maestro Edmund Ross.


O ano de 1966 foi um dos mais importantes da carreira da Madalena Iglésias. Vence o Festival RTP da Canção com "Ele e Ela", novamente da autoria de Carlos Canelhas, que alcançou o 13º lugar no Festival da Eurovisão que se realizou no Luxemburgo.

A versão em espanhol, "El y Ella", é editada em Espanha, França e Holanda e é igualmente regravada pela jovem cantora espanhola Marichela.


E nesse mesmo ano é convidada para participar no III Festival de la Canción de Mallorca, em Palma de Maiorca. Neste festival participaram muitos artistas de prestigio internacional como Alberto Cortez, Marty Cossens, Nicola di Bari, Tony Dallara e Massiel, entre outros, num total de 26 canções.


Neste certame Madalena Iglésias representou Espanha com o tema "Vuelo 502" da autoria de Morell e Ceratto, acompanhada por Los 4 de la Torre, que conquistou o prémio Instituto de Cultura Hispânica para a melhor canção hispano-americana e foi editado num EP pela editora Belter.

Los De La Torre eram um grupo de Barcelona que chegou a ser formado por quatro irmãos de apelido De La Torre (inicialmente eram conhecidos como Los 4 de la Torre). O seu maior sucesso foi "Vuelo 502" que ficou em segundo lugar do Festival de Maiorca, mas teve tanto êxito que quase "eclipsou" o tema vencedor do certame.

Actores a fazer playback no programa "Escala em Hi FI"

Ainda em 1966 actua no Festival da Canção do Mediterrâneo, em representação da Espanha, com o tema "Septiembre", tendo-se classificado em 2º lugar.

Em 1967 efectua vários espectáculos no Canadá, com produção de Johnny Lombardi (nomeadamente com a participação do grande cantor italiano Domenico Modugno), e Estados Unidos da América (em cidades como San Diego, San Francisco, Nova Iorque, Newark ou Boston. Em Danbuty actua com António Calvário).

São editados vários temas, orquestrados por Adolfo Ventas, em 1968, através da editora Belter, para promoção internacional da cantora.


Em 1968 foi a cantora portuguesa presente na primeira edição das Olimpíadas da Canção da Grécia.

Eram 32 participantes oriundos de 17 países. Madalena Iglésias concorreu com o tema "Tu vais voltar", com letra de Francisco Nicholson e música de Jorge Costa Pinto, que se classificou em 4º lugar, obtendo igualmente uma Medalha de Prata.


Madalena Iglésias foi igualmente a representante portuguesa no III Festival Internacional da Canção Popular do Rio de Janeiro de 1968, com o tema "Poema da Vida" com letra de António José e música de Joaquim Luiz Gomes, tendo-lhe sido atribuído uma Menção de Simpatia.

Em 1969 retorna ao Brasil, actuando na TV Tupi  (São Paulo), TV Brasília, TV Record (São Paulo), TV Excelsior (Rio de Janeiro), TV Globo (Rio de Janeiro) e TV Belo Horizonte).

Em 1970 participa no Festival Internacional de Split na então Jugoslávia, tendo interpretado  duas canções, um original, "Mar Solidão", com poema de Vasco de Lima Couto e música de Jorge Costa Pinto, e uma versão de uma canção jugoslava.

Editou LPs no Brasil, México e Venezuela

Em 1971 é convidada a participar no I Festival Mundial de Onda Nueva, em Caracas, Venezuela, com o tema "Para falar de esperança", com letra de Francisco Nicholson e música de  Jorge Costa Pinto (música).

E participa igualmente no Festival de la Canción del Atlantico, pela terceira vez em representação de Espanha. Este festival teve lugar em Puerto de la Santa Cruz em Tenerife num evento em que Madalena representou o país vizinho a convite de Augusto Algueró (pai) defendendo o tema "No puedo renunciar" com letra de Cholo Baltasar.

Actuação na Radio Caracas TV (Foto de Carias Sisco/Arq.MLde Carvalho)

Casou-se em 1972, abandonou a carreira artística e foi viver para a Venezuela onde chegou a ter um programa na televisão na Radio Caracas Television (RCTV).

Grávida de oito meses, ainda fez um programa no Canal 4 da televisão venezuelana mas deixou de actuar até os seus filhos terem cinco anos de idade. Depois, voltou a actuar esporadicamente na televisão venezuelana, mas já seria tarde para retomar a carreira.


A sua biógrafa, Maria de Lourdes de Carvalho afirmou recentemente, em declarações à agência Lusa, que a intérprete de "Ele e Ela" protagonizou "umas das mais interessantes carreiras da música portuguesa, que se afirmou não só cá, como internacionalmente, apesar das suas actuações além-fronteiras serem pouco conhecidas dos portugueses".

A pretexto do eventual apoio por parte do Estado Novo, Madalena Iglésias referiu: "Nunca tive ajuda de nenhum meio do Governo. Trabalhei na televisão porque não havia outro sítio. Não fiz nenhum espectáculo em que o SNI (Serviço Nacional de Informação) me tivesse apoiado. A carreira no exterior devo-a aos espanhóis, e lamento muito que isso choque o nosso patriotismo".

Outras curiosidades: Tinha um agente para a América Latina (Sr. José Rodriguez da Hispaven). Agentes em Espanha: Agência de Emílio Santamaria e Agência Internacional Francisco Bermudez. A sua editora, desde 1966, era a editora catalã Belter (uma das duas editoras que apostava na gravação de artistas portugueses, a outra era a madrilena Marfer).

Fontes/Mais informações: Fotobiografia (Maria Lourdes de Carvalho) / Revista Flama (em Blog Largo dos Correios) / wikipedia / facebook  / Blog dos Festivais da Canção (Aranda do Douro)(Maiorca)(Mediterrâneo)(Grécia) (Rio Janeiro)(Split)(Onda Nueva) / Macua / DN / RTP / "Vuelo 502" (actores fazendo playback no programa Escala en Hi Fi) / Revista Juvenil Serenata / Sobre o Festival de Aranda do Douro








domingo, 20 de outubro de 2013

"Kanimambo": de Moçambique para o Mundo


Uma Casa Portuguesa“ tem pouco de moçambicano. Mas “Kanimambo”, igualmente com música de Artur Fonseca e letra de Reinaldo Ferreira e Matos Sequeira, “já tem qualquer coisa de africano, naquela versão retro-luso-treto-africana, como os 'portugas' que tentam dançar a marrabenta”.

João Maria Tudella alcançou em 1959 o seu primeiro êxito como cançonetista, interpretando, no Rádio Clube de Moçambique, a canção "Kanimambo".

Com “Kanimambo” fará carreira em Portugal continental e algum sucesso nos Estados Unidos e na América do Sul. Defendendo sempre o seu estatuto de amador, é igualmente convidado para uma digressão ao Brasil.
 

 “Kanimambo” (obrigado num dialecto moçambicano) ficou como um símbolo dos últimos e melhores momentos da soberania portuguesa em Moçambique e ainda hoje, à beira Índico, é talvez a mais conhecida canção moçambicana.

Além do original, cantado por João Maria Tudela, existe uma outra versão, mais kitsch, cantada pelos Catita Brothers.

“Kanimambo” foi igualmente gravado pelo alemão  Horst Wende e a sua orquestra (versão instrumental), no seu álbum "Africana", que incluía versões de diversas canções de sabor africano, e pelo grupo galego “Los Españoles” num dos seus E.P. (Extended Play).


Los Españoles

Los Españoles foram um grupo vocal e instrumental formado por cinco jovens provenientes de La Coruña, León e Pontevedra que, sem perder as suas características hispânicas, possuíam um  repertório internacional que lhes permitiu ter algum sucesso, nas décadas de 50 e 60, em diversos países europeus, como França, Holanda, Alemanha e Suécia.

Além de "Kanimambo", gravaram "Moçambique", um outro sucesso de João Maria Tudella, com letra de Matos Sequeira e música de Artur da Fonseca, bem como versões do "Fado das Queixas", da autoria de Frederico de Brito e José Carlos Rocha, e "De degrau em degrau" de Jerónimo Bragança e Nóbrega e Sousa.



Fontes: Estado sentido / Ratosreturn / wikipedia

Agradecimento: João Carlos Callixto

Video: Horst Wende / Los Españoles ("Moçambique")

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O cinema que nos une: as co-produções entre Portugal e Espanha


A primeira co-produção de que se tem conhecimento remonta ao ano de 1924, quando o realizador português Reinaldo Ferreira dirige em Espanha o filme "El Botones del Ritz". O filme foi inteiramente filmado em Lisboa, embora seja protagonizado apenas por actores espanhóis.

Dez anos depois, em 1934, a imprensa especializada fala da constituição de um consórcio Luso-espanhol de produção de filmes entre a Ibérica Filmes de Barcelona, e o bloco H. da Costa de Portugal. O contacto dessa relação era Arthur Duarte, contratado como assistente geral de produção da Ibérica Filmes. 


Esta colaboração tinha como objectivo ajudar os técnicos portugueses a aprenderem. O único filme que coincide com estas características, é a produção da Ibéria Filmes "Una Semana de Felicidad" realizada por Max Nossech, e entre os seus interpretes pode-se encontrar os portugueses Tony D'Algy (como protagonista) e o próprio Arthur Duarte.

Arthur Duarte (creditado como Arturo Duarte) continuou colaborando com a produtora espanhola, aparecendo o seu nome como ajudante de realização e actor (num papel secundário) no filme "Aventura Oriental", igualmente realizado por Max Nosseck em 1935.

(Leitão de Barros)

Arthur Duarte também será ajudante de realização na seguinte colaboração entre ambos os países, "Bocage/Las Tres Gracias", filme realizado por Leitão de Barros para a produtora espanhola Hispano-Portugués e para a portuguesa Sociedade Universal de Superfilmes.

Este filme terá duas versões, uma protagonizada apenas por portugueses e outra só por espanhóis. As duas versões serão igualmente filmadas nos estúdios da Tobis Portuguesa em Lisboa. A versão portuguesa terá sua estreia em 1 de Dezembro de 1936. Uma das finalidades das duas versões será a sua exportação para o mercado Hispano-americano. O filme alcançará um enorme êxito no Brasil, ao se estrear em meados de 1937. O mesmo êxito terá em 1938 ao se estrear na Argentina no dia 22 de Novembro. Invulgar será dizer que em Espanha o filme só terá sua estreia em 4 de Março de 1940.


Leitão de Barros, já em 1930, no período de introdução do cinema sonoro, advogava um cinema nacional com versões espanholas, procurando dessa forma atingir “todos os povos de língua portuguesa e espanhola, ou sejam Portugal, Brasil, Espanha, América Latina e as respectivas colónias”

Todavia, foi só nos inícios dos anos quarenta, em plena Segunda Guerra Mundial, que, no seguimento das iniciativas particulares, parece existir a procura de um acordo político formal de co-produção cinematográfica entre as duas nações ibéricas.

(Arthur Duarte)

Deste modo, em Janeiro de 1941, Manuel Garcia Viñolas, o responsável pelo Departamento Nacional de Cinematografia espanhola, encontra-se com António Ferro (director do Secretariado de Propaganda Nacional/SPN), ficando assente “o estudo imediato de todas as possibilidades de trabalho em comum e de permuta cinematográfica entre Portugal e Espanha”, que será “submetido à aprovação dos dois Governos e de que resultará um acordo de altíssimo alcance e importância”

Em finais de 1943, começa desta forma uma colaboração cinematográfica contínua, sucedendo-se as co-produções ou, pelo menos, as versões em ambas as línguas: o húngaro Ladislau Vadja, radicado em Espanha, assina a realização de O Diabo são Elas”, “Três Espelhos” ou “Viela – Rua Sem Sol”, enquanto Arthur Duarte filma em Madrid “Es Peligroso Asomarse el Exterior”, “El Huesped del Cuarto Trece” e “Fuego 218”.


Nas palavras de Leitão de Barros, em entrevista dada ao Diário Popular em 11 de Dezembro de 1944: “Tanto Portugal como a Espanha ganham com a iniciativa de fazer filmes destinados aos dois mercados de antemão garantidos”.

Apesar de terem existido vários filmes produzidos neste sistema, poucos mereceram o apoio estatal, excepção feita a “Inês de Castro” (1945), de Leitão de Barros, uma co-produção apoiada por António Ferro, através do SPN, e por Garcia Viñolas, pelo Departamento Nacional de Cinematografia Espanhola.


Para Maria do Carmo Piçarra, este era o filme através do qual Ferro e Viñolas “esperavam que a então apregoada Irmandade Ibérica viesse a traduzir-se num acordo político de co-produção cinematográfica”. Contudo, apesar da estreia de gala, no S. Luís, com a presença do Presidente da República, e de em Espanha ter sido considerado de interesse nacional, a verdade é que o filme não produziu o efeito político esperado, de criação de um regime concertado de co-produções, e a cooperação contínua, mas em moldes puramente particulares.

Esta colaboração, que trouxe uma certa actividade aos estúdios portugueses, termina por volta de 1949, quando a indústria deixa de ter dinheiro, apesar da lei que entretanto saíra, e quando a Espanha, “à medida que ia entrando noutros mercados, [se desinteressou] dessas versões duplas para Portugal”.



De referir ainda as obras portuguesas de realizadores espanhóis experimentados, mas de segunda categoria, como “Cais do Sodré” e “Os Vizinhos do Rés-do-Chão” (ambos filmes portugueses do realizador espanhol Alejandro Perla), “A Mantilha de Beatriz” e “Não há Rapazes Maus” (de Eduardo Maroto, sendo o segundo uma produção portuguesa e o primeiro uma co-produção), “Sol e Toiros” (produção portuguesa do realizador José Buchs), “Senhora de Fátima” e “Rainha Santa” (de Rafael Gil, sendo o primeiro uma produção espanhola e o segundo uma co-produção).

O intercâmbio português também se cifrou na passagem para Espanha de diversos actores portugueses, como Milú, António Vilar, Virgílio Teixeira ou Raul de Carvalho.


Rino Lupo

Ainda no tempo do cinema mudo, “Os Lobos” (1923), produzido e dirigido pelo cineasta italiano Rino Lupo, foi exibido com relativo êxito, não só em Portugal, como também na França, no Brasil, na Itália, na Espanha e na Romênia.  Rino Lupo rodou no Porto o primeiro filme galego, “Carmiña, Flor de Galicia” (1926).



Fontes/Mais informações:  Fotblog de Paulo Borges (1)(2) / Tese de Carla Patrícia Silva Ribeiro “O alquimista de sínteses – António Ferro” / O cinema que nos une. As co-produções na Península (Alejandro Pachón) / Panorama do Cinema Espanhol (Cinemateca, Luís de Pina, José de Matos-Cruz) / Salazar vai ao cinema (Maria do Carmo Piçarra) / Enciclopédia do Cinema Espanhol /Blog Do Porto e não só /  Blog Filmes Portugueses

domingo, 30 de setembro de 2012

"Crónica do Rei Pasmado" de Gonzalo Torrente Ballester (1989)


O escritor galego Gonzalo Torrente Ballester constrói, em pouco menos de 200 páginas, uma narrativa (*) bem humorada e repleta de críticas à pretensa moral e bons costumes da Igreja, com uma premissa imaginativa

(*) «sherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado» é como o autor lhe chama.

São numerosos os personagens e os factos históricos discretamente transfigurados ao longo da estória que os “institui pela palavra”. A começar pelo “rei pasmado”: Filipe IV (terceiro de Portugal), então com os seus 20 anos de idade e 4 ou 5 de reinado.
 


Certa noite, depois de uma visita “às meninas”, o jovem soberano não consegue tirar da cabeça o corpo da cortesã Marfisa.

Os severos costumes impostos pela inquisição impedem o Rei de manter um relacionamento intimo com a Rainha. Com o apoio de um padre jesuíta, um português chamado Almeida, o único dos presentes que justificou os devaneios do Rei, o Rei vai procurar rodear esta difícil situação.





Sinopse

A partir do pasmo extasiado do rei ao ver pela primeira vez uma mulher nua, e ao querer ver nua também a rainha, toda uma intriga se tece na corte, metendo nobres, inquisidores, uma afamada meretriz, um jesuíta português, a superiora do convento; toda uma tela de uma obra que bem justifica o qualificativo de pitoresca, num divertimento de primeira água.




Sucesso no Cinema (1991)

As aventuras do «rei pasmado» foram adaptadas ao cinema, num filme dirigido por Imanol Uribe, em que a figura do desenvolto jesuíta padre Almeida é interpretada pelo actor português Joaquim de Almeida.

O filme – uma co-produção hispano-franco-portuguesa - foi rodado em Espanha (Toledo, Ávila, Madrid, El Escorial, Salamanca) e em Guimarães (no coração histórico).

Videos: (1) (2) (3)




Padre Almeida (interpretado por Joaquim de Almeida)

"Nem todos os da procissão entraram, só os que tinham assento no Supremo, quer como membros titulares quer como teólogos convidados; ou seja, consultores, e entre estes figurava um jesuíta português, o padre Almeida, bastante novo ainda, mas de rosto queimado pelos sóis brasileiros.

O padre Almeida estava de passagem por Madrid: tinham-no destinado a capelão secreto de uma casa de Inglaterra, porque o outro capelão tinha sido justiçado, o que era o mesmo que admitir que não restava muito tempo de vida ao padre Almeida; mas não parecia acabrunhado nem entristecido, nem tão-pouco entusiasmado com o seu futuro martírio: comportava-se com naturalidade, muito mais do que os seus companheiros, apesar da reputação de teólogo sábio que o seu reitor proclamava na carta de apresentação para o Inquisidor-mor com que justificava a sua presença."




O padre Almeida chocava um pouco entre os restantes clérigos, porque usava por cima da sotaina um colarinho à francesa, e porque, ao desabotoá-la por causa do calor, se lhe tinham visto meias pretas e calção. Mas, como estrangeiro, não lho levavam a mal.

"O padre Almeida, sim. O padre Almeida é português, e sabe mais das coisas do mar do que Vossas Mercês".




D. Francisca de Távora

A rivalidade entre o rei e o o Conde de Villamediana (que terá inspirado a Gonzalo Torrente Ballester o seu da Peña Andrada) foi motivada pela inocente doña Francisca de Tavora, filha do português D. Martim Alonso de Castro, general das galeras de Portugal  e vice-rei da Índia, que o Rei também cortejava.




O Rei elogia a forma de dançar de D. Francisca, que o informa que aprendeu a dançar “em todas as ilhas perdidas desses mares onde os homens e as mulheres dançam, mas muito especialmente no Norte de Portugal“

D. Francisca de Távora (ou D. Paca, como é igualmente é identificada) foi interpretada no filme pela actriz espanhola Eulalia Ramón, que dança a chacona.





Camões e Ronsard

Deve ser essa doidivanas de Dona Paca de Távora.
O conde respondeu-lhe com uma ligeira inclinação de cabeça.
- É mui formosa, Majestade.
- A Rainha não nutre simpatia por ela.
- É natural, senhor. Uma refinada francesa e uma exuberante portuguesa não estão
destinadas a entender-se. É como se Vossa Majestade comparasse Camões com Ronsard.
- De Camões li muitos versos, mas a esse outro nunca o ouvi nomear.
- Certamente, senhor, Sua Majestade a Rainha sabê-lo-á de cor.

Fontes: Edição digital do livro / A minha estante / Passamos como o rio / El Pais / Tese Erica Myeko Ohara  


 

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

"Querido Corto Maltese" de Susana Fortes (1994)


“Querido Corto Maltese” é uma novela da escritora e professora espanhola Susana Fortes, nascida em Pontevedra em 1959.

Sinopse

História de uma jovem que vive a realidade como desejo ou sonho e que conhece um professor maduro, misterioso, o qual identifica desde logo com o lendário Corto Maltese, herói da banda desenhada que povoa as suas fantasias mais íntimas.

Entre Lisboa e Havana

A acção decorre essencialmente em Lisboa (em plena década de 80 do Século XX) e Habana, onde Ana Sottomayor (uma jovem estudante de história muito ingénua, muito sonhadora e com muita imaginação), investigadora sobre o tráfico de escravos, tem uma aventura com "F." que identifica como sendo o herói de banda desenhada Corto Maltese.

Ana é licenciada em historia da América (como Susana Fortes) e vem a Lisboa para investigar no Arquivo Naval de Lisboa documentos relativos à escravatura e ao tráfico de escravos. E nos seus passeios pelo estuário do Tejo imagina a chegado do marinheiro:

“Corto Maltés acudía a esta cita algunas tardes, se ajustaba la gorra, aspiraba una bocanada de humo y desaparecía en la niebla provocándome con una sonrisa enigmática."



A novela foi galardoada com o Prémio “Nuevos Narradores” atribuído pela Escola de Letras de Madrid em conjunto com a Editora Tusquets.

"Quatrocento" (2007)

A personagem Ana Sottomayor é recuperada, por Susana Fortes, no romance histórico "Quattrocento", no qual uma investigadora procura desvendar quem esteve por detrás de um ataque à famíla Medicis.

No seu apartamento de Florença há fotos quer de Lisboa (Castelo de São Jorge) quer de Havana, cenários de "Querido Corto Maltese".

Fontes/Mais informações: wikipedia / Larazon / Pedro Tejada Tello 

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Júlio Iglésias em português


(…) tenho uma afinidade natural [por Portugal] porque o meu pai nasceu na Galiza. Eu também me sinto muito ‘galego’, por muitas razões. E, como costumo repetir nos meus concertos aqui, os meus avôs maternos nasceram em Palma del Condado, em Huelva, muito perto de Portugal.

As minhas raízes estão junto das fronteiras de Portugal, pelo Norte e pelo Sul. Mas é no coração que eu mais sinto Portugal. E se isso não bastasse, ainda há depois a minha filha Isabel, Chabeli, nascida em Cascais, que é uma vila pela qual tenho muito carinho e que conheço bem. Resumindo, amo Portugal.

(…) não receio afirmar que sou o artista que mais tem cantado em português no mundo. O que não deixa de ser lógico para quem olhar para a minha carreira. Cantei em português na China, no Cáucaso, nas margens do Ganges ou em África.

Quando alguém grita num concerto, ‘Júlio, sou português’, canto logo um tema na sua língua. Por exemplo, cantei muitas vezes “Uma casa portuguesa”. (...)

Fonte: Maite Gonzalez e J. Frisuelos in Revista “Visão” (2003)

Júlio Iglésias gravou igualmente uma versão do tema "Coimbra" no álbum "Libra" (1982), o qual foi incluido num EP editado apenas no Brasil.



Video: "Coimbra"