Mostrar mensagens com a etiqueta Opera / Música Clássica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Opera / Música Clássica. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Influência portuguesa na obra de Ernesto Halffter (1905-1989)

 

Ernesto Halffter Escriche (1905-1989) foi um maestro e compositor espanhol que fez parte do "Grupo de los Ocho" (um sub-conjunto da Geração de 27). Ele era o irmão mais novo do compositor Rodolfo Halffter e tio do compositor Cristóbal Halffter.

Ernesto chegou a ser conhecido como o Halffter Português em contraste com o seu irmão Rodolfo Halffter que era conhecido como o Halffter Mexicano,  após se ter exilado no México, durante a ditadura de Franco, enquanto que Ernesto se instalou em Portugal.


Discípulo de Manuel de Falla, assume em 1924 a direcção da Orquestra de Câmara Bética de Sevilha, fundada por Falla. As suas primeiras contribuições para o mundo da música foram "Twilight" (1922), para piano e "Sinfonietta" (1925), para orquestra, com influência do compositor italiano Domenico Scarlatti,que recebeu o Prémio Nacional de Música. E estagia, durante quase um ano, com Maurice Ravel em Paris.

As famosas "Dança da Pastora" e "Dança da Cigana" do Ballet "Sonatina", de 1928, já são dedicadas à namorada, a pianista portuguesa Alice Câmara Santos, com quem se casará nesse mesmo ano.


O seu casamento com a pianista portuguesa Alice Câmara Santos liga-o de forma especial a Portugal e à sua música.  Ernesto Halffter acabou por se identificar totalmente com o folclore e as raízes portuguesas, tendo afirmado que era um grande admirador do fado pela sua profunda e bela essência popular, inimitável e que expressa tão bem a marcante personalidade do povo português.

Em 1934 Halffter tornou-se Director do Conservatório de Música de Sevilha mas, sendo casado com a pianista portuguesa Alice Câmara Santos, optou por viver em Lisboa durante este período até 1954.


Em Lisboa vai continuar o seu trabalho de composição dando origem a alguns títulos de notável inspiração como "Siete canciones populares españolas" (1938) e as mais evidentes provas da sua lusofilia musical como "Rapsódia Portuguesa para piano e orquestra" (1939) e "Seis canciones portuguesas" (1943), com base em canções populares portuguesas.

Uma das tendências da década de 30 do século XX foi a aproximação entre a atitude "folclorizante" e a exigência "classicizante" dos músicos mais avançados. Ernesto Halffter, após se instalar em Lisboa, dá um novo impulso ao aproveitamento, com técnica erudita, de temas populares.


"Rapsódia Portuguesa para piano e orquestra" (1939), composta, durante a Guerra Civil Espanhola, em homenagem a Maurice Ravel, tornou-se uma das peças mais significativas da música espanhola contemporânea.

"Rapsódia Portuguesa" mereceu o seguinte comentário de Fernando Lopes-Graça: "pelo facto de se inspirar no folclore, não cai no pitoresco fácil e superficial" e consegue, "sem habilidades pedantes ... uma unidade e uma lógica rigorosas", encerrando "uma lição que muito pode contribuir para a resolução do problema da ... criação erudita [portuguesa]"



"Seis canciones portuguesas" (1940/41) baseava-se em canções populares portuguesas: "Ai, que linda moça", "Gerinaldo", "Don Solidon", "Água do Rio que lá vai","Escolher noivo" e "Minha mãe me deu um lenço".

 "Ai, que linda moça", que é o tema mais conhecido, foi interpretado por cantores de elevado renome como José Carreras ou Teresa Berganza.


Fontes: Página oficial / wikipedia / "Da música na história de Portugal" de Manuel Pedro Ferreira / Blog "Pessoas en Madrid"

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Guilhermina Suggia (1885-1950), uma violoncelista de renome internacional


Guilhermina Augusta Xavier de Medin Suggia (1885-1950) era filha de Augusto Suggia, violoncelista, formado no Real Conservatório de Lisboa e músico na orquestra do Real Teatro de S. Carlos, que foi convidado a dar aulas nas escolas da Santa Casa da Misericórdia de Matosinhos.

Aos 5 anos pediu ao pai que a ensinasse a tocar violoncelo. Aos 7 anos fez a sua estreia, na Assembleia de Matosinhos, acompanhada ao piano pela irmã Virgínia.


Quando tinha 13 anos, conheceu Pablo Casals, então com 21 anos,  quando o jovem músico catalão fez parte de um sexteto que abrilhantou as noites do Casino de Espinho no Verão de 1898.

Pablo Casals sugeriu a Augusto Suggia dar lições a Guilhermina uma vez por semana durante a sua permanência em Espinho. E assim foi, todas as semanas Augusto e Guilhermina rumavam no comboio em direcção a Espinho.


Guilhermina Suggia parte para Leipzig em 1901 com uma bolsa de estudo concedida pela Rainha D. Amélia para estudar no Conservatório de Leipzig – conhecido pela exigência de ensino e pela exigência na selecção de alunos – com o professor Julius Klengel.

Em Dezembro de 1902 – um ano depois da chegada a Leipzig - Guilhermina Suggia, com 17 anos tornou-se a primeira mulher a tocar, como solista, na Gewandhaus, e o solista mais novo. Tocou o Concerto para violoncelo e Orquestra de Volkmann.


No final da actuação, o público, de pé, aplaudiu e gritou veementemente “Bis”. A insistência foi tal que Arthur Nikisch quebrou as normas rígidas e mandou repetir o concerto na íntegra.

Tinham sido abertas as portas de todos os grandes centros musicais do mundo e Guilhermina Suggia não mais deixaria de ser solicitada a tocar.


Em 1906 reencontrou-se com Pablo Casals, e decidem começar uma vida em comunhão. Vivem em Paris, na Villa Molitor e convivem com os maiores artistas do seu tempo. Compositores dedicam-lhes obras. As críticas são muito favoráveis ao que era considerado o maior par de violoncelistas do momento.

Muitas vezes essas críticas punham Suggia em primeiro lugar e isso era menos agradável para Casals, habituado a ser considerado o maior violoncelista. A vida entre os dois começou a ser um pouco atormentada e no final de 1913, o casal separa-se.


No início de 1914, Suggia parte para Londres e aí recomeça uma vida nova. Rapidamente é notada por toda a gente do meio musical e convive com os maiores intelectuais do tempo. Toca sempre, estuda incessantemente sem mostrar sinais de cansaço.

Convive com os intelectuais do The Bloomsbury Group. Dora Carrington é uma apaixonada pela arte de Suggia. Virgínia Woolf fala de Suggia no seu Diário – curiosamente a edição portuguesa corta essa passagem.

Augustus John pinta Suggia. Durante o tempo dedicado a essa pintura, Suggia posava sempre tocando Bach. Das mãos deste pintor saiu o famoso quadro “Madame Suggia”, que faz parte do acervo da Tate Gallery e o quadro “Guilhermina Suggia”, no Museu Nacional de Cardiff.

 


Em Londres, Suggia conhece o magnata Sir Eduard Hudson, que lhe ofereceu o violoncelo Montagnana e comprou o Castelo de Lindesfarne para lhe oferecer. Era um castelo que estava abandonado, restaurou-o e nele fez uma sala, com um estrado, onde Suggia gostava de tocar.

O casamento entre eles chegou a ser anunciado nos jornais ingleses. Mas em 1923, numa viagem que fez ao Porto com a mãe, conheceu aquele que viria a ser o seu marido. De volta a Inglaterra, desfez o seu casamento com o magnata e devolveu-lhe o castelo. Hoje este castelo é monumento Nacional e mantém a mesma sala que havia sido de Suggia, com um violoncelo em sua homenagem.

Fontes/Mais informações: Virgílio Marques (Associação Guilhermina Suggia) / Hemeroteca digital / Tarisio / Instituto Camões / Revista "Arte musical" / RTP (livro de Henri Goudrin) /  Cais da memória


A primeira biografia em francês da violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia (1885-1950) chegou às livrarias francesas a 05 de março de 2015 com o título "La Suggia - L`Autre Violoncelliste", da autoria de Henri Gourdin.

O escritor francês disse à Lusa que o objetivo é fazer descobrir uma "personalidade injustamente desconhecida" em França, depois de ele próprio a ter descoberto quando escreveu uma biografia do violoncelista Pablo Casals, com quem Suggia viveu sete anos em Paris (de 1906 a 1913).

"Ela foi a primeira mulher a tocar violoncelo ao mais alto nível e a fazer carreira. Não foi fácil porque, na altura, o violoncelo era considerado um instrumento masculino. Ela teve de lutar contra esses preconceitos. Foi o charme da sua personalidade e a sua música que acabaram por convencer o público", explicou o autor.


Henri Gourdin destacou que "o que é impressionante nesta história é que a conquista do violoncelo pela mulher tenha sido feita por uma portuguesa, ainda que, na altura, Portugal fosse um país católico, onde a separação dos sexos era mais restrita do que noutro lado qualquer". "Foi ela, uma portuguesa, que veio dar o exemplo aos franceses, aos ingleses, aos alemães e ao mundo inteiro. É extraordinário", continuou.

A capa do livro - que apresenta Suggia a tocar violoncelo de vestido vermelho e de olhos fechados - parte de um quadro de Augustus John, "o pintor das estrelas, que pintou as grandes personalidades artísticas e políticas da sua época" e que a representou "numa postura de diva", tendo contribuído para a criação de "uma lenda".


 A "lenda" perpetuou-se, porque os instrumentos que Suggia tocou ficaram "para sempre conhecidos como o `Stradivarius Suggia e o `Montagnana Suggia`", e porque ela "legou os seus sete violoncelos a alunos e institutos, tendo os dois mais célebres - o `Montagnana` e o `Stradivarius` - sido vendidos para fundar os prémios Suggia, atribuídos anualmente a jovens violoncelistas", e garantir a sua formação.

Entre os distinguidos, contam-se, entre outros, Jacqueline du Pré, Rohan de Saram, Robert Cohen, Steven Isserlis, Raphael Wallfisch e Julian Lloyd Webber.

 Fontes: Lusa / RTP


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Vianna da Motta (1868-1948), um dos maiores pianistas do seu tempo


José Vianna da Motta, considerado o maior pianista português de sempre, e um dos maiores do seu tempo, nasceu na ex-colónia portuguesa de São Tomé.

Pouco tempo depois, viajou para Lisboa com os seus pais, José António da Motta, um farmacêutico, e Inês de Almeida Vianna, onde veio a estudar no Conservatório Nacional de Lisboa, então designado Conservatório Real de Lisboa.


Revelou cedo uma grande proficiência para a música, particularmente para o piano, tendo composto a sua primeira peça musical com 5 anos de idade.

Por iniciativa do seu pai, foi levado à corte em 1874 tendo com isso obtido o patrocínio dos seus estudos pelo rei D. Fernando II e sua esposa, a Condessa de Edla.


Até 1882, apresentou-se várias vezes não só em recitais privados mas também em recitais públicos, nomeadamente no Salão da Trindade.

Durante esse período, compôs dezenas de obras - sobretudo para piano solo - dos mais variados géneros: valsas, mazurcas, polcas, marchas, fantasias, etc.


Após concluir os seus estudos no Conservatório Nacional em 1882, partiu para Berlim, custeado pelo real mecenas, ingressando no Conservatório Scharwenka onde teve aulas de piano com Xaver Scharwenka e aulas de composição com o irmão Philipp Scharwenka.

Estudou paralelamente com Carl Schaeffer, membro da Sociedade Wagneriana que exerceu grande influência em Vianna da Motta, a julgar pelo conteúdo dos seus diários.


No verão de 1885, frequentou um estágio de piano de Franz Liszt em Weimar tendo por isso sido um dos últimos alunos do mestre húngaro. Parte dessa experiência é relatada por Vianna da Motta nas suas obras literárias "A Vida de Liszt" e "Música e músicos alemães: Recordações, ensaios, críticas".

Em 1887, frequentou o curso de interpretação de Hans von Bülow em Frankfurt am Main, experiência descrita por Vianna da Motta na sua correspondência e posteriormente publicada na obra literária "Nachtrag zu Studien bei Hans von Büllow von Theodor Pfeiffer".

Com as Lemke, em casa de quem vivia em Berlim. Casou com Gerdel em 1897

Viana da Mota iniciou a sua carreira profissional em 1886, tendo dado mais de mil concertos por todo o mundo - muitos dos quais perante presidentes, Reis e Imperadores - sendo particularmente elogiado, pela imprensa e pela crítica, nas suas interpretações de Bach, Beethoven e Liszt.


Em 1888 realizou a sua primeira digressão europeia, acompanhando o violinista Pablo Sarasate em Copenhaga e Helsínquia e o violinista Tivadar Nachez em Moscovo e S. Petersburgo.

Até 1893 acompanhou alguns dos mais importantes cantores da época como Amalie Joachim ou o português Francisco D'Andrade.


Fez a sua primeira digressão americana em 1892, ano em que visitou Nova Iorque. Ali conheceu Ferruccio Busoni através de Arthur Friedheim, também aluno de Liszt.


Tocou pela primeira vez no Brasil em 1896, numa digressão com o violinista português Bernardo Moreira de Sá.

Voltou várias vezes à América do Sul, tendo sido muito aplaudido nos seus recitais em Buenos Aires, uma das cidades onde se apresentou mais vezes em público.


Tocou igualmente em França, Espanha, Inglaterra, Itália, Uruguai, Marrocos, etc.

Com o início da Primeira Guerra Mundial, Vianna da Motta viu-se obrigado a abandonar a sua residência em Berlim e, em 1915, instalou-se em Genebra. Aí dirigiu a classe de virtuosidade da Escola Superior de Música até 1917, ano em que regressou definitivamente a Portugal.

 

Na Alemanha foi-lhe concedido o título de "Hofpianist" (pianista da Corte) por Carlos Eduardo de Saxe-Coburgo-Gota.

Foi Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (28 de junho de 1920), Grande-Oficial da Ordem Militar de Cristo (19 de abril de 1930) e Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (2 de junho de 1938).


Considerado o iniciador de uma escola de carácter nacional no capítulo da música instrumental e orquestral, Vianna da Motta inspirado na nossa música, deu a muitas das suas composições um verdadeiro colorido nacional, exemplo disso são, entre outras, obras como as “Cenas portuguesas”, as “Rapsódias portuguesas” ou a “Balada” para piano, o Quarteto de cordas em Sol M, ou a Sinfonia “À Pátria” op.13, a sua obra-prima.

Fontes: wikipedia / Instituto Camões / Edições AVA / Arquivo RTP  / Blog de José Eduardo Martins /  Jornal "Público"  / José Poças (sobre a Correspondência com Margarethe Lemke)

Em Londres com Guilhermina Suggia em 1924
 

domingo, 15 de março de 2020

Os "fabulosos" irmãos D'Andrade (2) - Francisco D'Andrade

 

Francisco Augusto D'Andrade (1856-1921) foi um barítono português que cantou papéis principais em óperas em toda a Europa, incluindo cinco anos como o principal barítono no Real Italian Opera em Londres e treze anos no Berlin Hofoper.

Os seus 35 anos de vida artística constituíram uma série ininterrupta de êxitos em toda a Europa. No seu vasto repertório figuravam mais de 50 óperas das mais famosas. Cantava em seis línguas. A sua interpretação no “Don Giovanni” de Mozart fez escola na Alemanha e foi unanimemente considerada paradigmática, tendo mesmo sido pintado no desempenho dessa personagem por Max Slevogt em 1902, 1903 e 1912 (em quadro patente na Alte Nationalgalerie em Berlim).


No blog “Operapertutti” é relatado a seguinte estória: "Há muitos anos, ao visitar em Salzburgo a casa de Mozart, deparei com um quadro retratando um cantor português, Francisco de Andrade. Com curiosidade, perguntei ao guia a razão pela qual um cantor português figurava ali, e a resposta foi simples: «Foi considerado, na sua época, o melhor "D.João" a nível mundial»".

Tal como o irmão, Francisco começou como actor amador. Atraído pela carreira musical partiu em 1881, com o irmão, para Itália para se dedicarem inteiramente à arte lírica, tendo tido como orientadores o tenor Corrado Miraglia , e após a morte de Miraglia, no final desse ano, o barítono Sebastiano Ronconi .



Estreou-se em 1882 em Sanremo, cantando “Amonastro” da “Aida” de Verdi, no Teatro Principe Amedeo em Sanremo. Nos anos seguintes, cantou em casas de ópera de Portugal, Espanha e Itália, incluindo o Teatro Costanzi, em Roma, onde interpretou o Conde de Luna, no “Il Trovatore” de Verdi, e Severo, na primeira apresentação de “Poliuto” de Donizetti.

Os irmãos foram contratados em 1884 pela casa de ópera de Aix-les-Bains, e posteriormente por casas de ópera em Itália, mas uma grave epidemia de cólera em Itália levou os dois irmãos a regressar a Lisboa.


Após esse período, Francisco D'Andrade e o irmão foram contratados para o Théâtre Privé d'Opéra em Moscovo, na Rússia, para a temporada 1885-1886. Francisco D'Andrade iniciou, então, em 1888, uma colaboração de cinco anos com o Real italiano Opera em Londres. Durante esse tempo, ele cantou uma ampla gama de papéis principais de barítono, incluindo os papéis principais em "Rigoletto" e "Don Giovanni".

Continuou a actuar pela Europa como cantor e recitalista convidado, mas fixou residência na Alemanha, onde, em 1894, recebeu a Grande Medalha de Ouro de Artes e Ciências de William II de Württemberg .


Francisco tinha uma casa em Bad Harzburg , que se tornou um centro não oficial da cultura Portuguesa na Alemanha e cantou regularmente com a Ópera de Frankfurt entre 1891 e 1910, bem como em outras grandes casas de ópera alemãs. E em 1906 tornou-se um membro oficial da Berlim Hofoper, onde já actuava desde 1889. E em 1901 cantou no Festival de Salzburgo na Áustria.

Francisco D'Andrade voltou para Lisboa durante a I Guerra Mundial, mas regressou para a Alemanha, e para a Berlim Hofoper, após a guerra terminar em 1918, tendo falecido em Berlim, em 1921, com 65 anos.

Fontes/Mais informações: wikipedia  / "O grande livro dos Portugueses" (Circulo de Leitores) / Blog da rua 9 / Ilustração Portuguesa / Revista Brasil-Portugal / Arqnet / youtube (audio) / forgotten operasingers / ipernity / operapertutti   


Sobre António D'Andrade

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Os "fabulosos" irmãos D'Andrade (1) - António D'Andrade


António D'Andrade (1854-1942) foi um famoso tenor português que actuou muitas vezes com o seu irmão mais novo, o barítono Francisco D'Andrade.

Começou como actor teatral amador. Dotado de agradável voz de tenor, tornou-se discípulo de Joaquim Casimiro. Em 1881 os irmãos foram para a Itália para estudarem com o tenor Corrado Miraglia e, posteriormente, após a morte de Miraglia, com o barítono Sebastiano Ronconi.

Estreou-se em Itália, em Varese, em 1882, no papel de Fernando, em “La Favorita” de Donizetti. Em 1882 o compositor Ponchielli, então no auge da sua fama, escolheu-o para protagonista de “Promessi Sposi”, contracenando com a esposa do autor da Ópera, a cantora Brambila Ponchielli.


Nos anos seguintes cantou em vários teatros italianos, incluindo o Teatro Dal Verme (Milan), Teatro Regio (Turim), Teatro Rossini (Veneza) e o Teatro Metastasio (Prato). No Teatro dal Verme em 1884, interpretou o papel de Roberto na primeira versão de “Le Villi” de Puccini e Sandro em “Marcellina” de Alberto Favara Mistretta.

Os dois irmãos foram contratados em 1884 pela casa de ópera de Aix-les-Bains , tendo António interpretado com grande sucesso os papéis de Manrico em “Il Trovatore”, Gennaro em “Lucrezia Borgia”, e os papéis principais em “Faust” e “Marchetti” de Ruy Blas.

Os empresários do Teatro Comunale, em Trieste, e do Teatro Regio, de Turim, ofereceram-lhe contratos lucrativos para a temporada de 1885, mas uma grave epidemia de cólera em Itália levou os dois irmãos a regressar a Lisboa.


Posteriormente, António D'Andrade e o irmão foram contratados para o Théâtre Privé d'Opéra em Moscovo para a temporada 1885-1886. Durante esse período, actuou também em São Petersburgo e Varsóvia. Mais tarde, em 1886, D’Andrade actuou com o Real italiano Opera em Londres, no papel de Radamés, em “Aida”, Don José em “Carmen“ e o papel principal em “Lohengrin”.

Teve a sua época áurea entre 1882 e 1992, tendo continuado a cantar como artista convidado em várias cidades europeias, bem como no Teatro São Carlos, de Lisboa, onde participou, em 1888, conjuntamente com o seu irmão na estreia mundial da ópera de “Donna Bianca” do autor português Alfredo Keil. António interpretou Aben-Afan e Francisco ficou com o papel de Adaour.

Em 1900, António D'Andrade interrompe a sua carreira por motivo de surdez.

Fontes/Mais informações: wikipedia / toponímia de Lisboa / "O grande livro dos Portugueses" (Circulo de Leitores) / Ipernity
 
No papel de "Poliuto" de Donizetti

Sobre Francisco D'Andrade 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Luísa Todi (1753-1833), uma cantora para a eternidade


Luísa Rosa de Aguiar, conhecida como Luísa Todi, e também por La Todi, foi a meio-soprano portuguesa mais célebre de todos os tempos. Luísa, ainda com muito pouca idade, acompanhou seu pai, um professor de música, na vinda para Lisboa, juntamente com suas irmãs. Cedo entrou no mundo musical.

Foi, porém, o seu casamento, em 1769, apenas com 16 anos, com o italiano Francesco Todi, rabequista da Real Câmara e do Teatro do Bairro Alta que, conhecendo bem os seus recursos vocais e talento dramático, a entusiasmou para o teatro lírico, trazendo-lhe depois a internacionalização e a consagração.


Estreou-se em 1771 na corte portuguesa de D. Maria I e cantou no Porto entre 1772 e 1777, quando partiu para Londres para actuar no King's Theatre, sem particular aplauso por parte dos ingleses.

Em 1778 está em Paris e Versalhes, participando nos famosos "Concerts Spirituels" em Paris, onde foi considerada a melhor cantora estrangeira que actuou em França.

Em 1780 é aclamada em Turim, no Teatro Régio, tendo assinado um contrato como prima-dona, e em 1780 era já considerada pela crítica como uma das melhores vozes de sempre.


Brilhou na Áustria, na Alemanha e na Rússia. Veio a Portugal em 1783 para cantar na corte portuguesa. Regressou a Paris aos "Concerts Spirituels" tendo ficado célebre o "duelo" com outra cantora famosa de nome Gertrudes Mara. A crítica e o público dividiu-se.

Convidada, parte com o marido e filhos para a corte de Catarina II da Rússia, em São Petersburgo (1784 a 1788), que a presenteou com jóias fabulosas. Em agradecimento o casal Todi escreveu para a imperatriz a opera "Pollinia".

Pintura a óleo por Vigée-Le Braun (1785)

Curiosamente, porém, contava o Conde Walaweski, no seu "Romance de uma Imperatriz" que Catarina tinha uma audição defeituosa e nem sequer apreciava especialmente a música, embora não o confessasse geralmente.

Quanto às relações entre a Imperatriz e a Cantora, diz o mesmo autor que a primeira contava que por vezes encontrava Madame Todi em passeio. "Ela beija-me as mãos e eu beijo-a na face; os nossos cães farejam-se, ela toma o seu debaixo do braço, eu chamo os meus e seguimos os nossos caminhos".

Apesar desta aparente indiferença, o certo é que a Czarina não dava a qualquer pessoa a importância de a "Beijar na face". E, além disso, acrescentava que "quando canta, ouço-a, aplaudo-a e sentimo-nos bem a conversar as duas".

Berlim aplaudiu-a quando ia a caminho da Rússia e no regresso, Luísa Todi foi convidada por Frederico Guilherme II da Prússia, que lhe deu aposentos no palácio real, carruagem e os seus próprios cozinheiros, sem falar do principesco contrato, tendo ali permanecido de 1787 a 1789.

Participa  novamente nos "Concerts Spirituels", em 1789, sendo apelidada por alguns críticos como a melhor cantora do seu tempo. Regressando à Prússia poucas semanas antes do início da Revolução Francesa.


Em 1790 inicia uma digressão triunfante pela Alemanha. Diversas cidades alemãs a aplaudiram como Mainz, Hanôver e Bona, onde Beethoven a terá ouvido. Cantou ainda em Veneza, Génova, Pádua, Bérgamo e Turim. O período que esteve em Itália, na época de  1790/1791, ficou conhecido como "O ano da Todi". De 1792 a 1796 encantou os madrilenos novamente. Em 1799 terminou a sua carreira internacional em Nápoles.

Luísa Todi tinha a capacidade invulgar de cantar com a maior perfeição e expressão em francês, inglês, italiano e alemão. No livro de Anton Reicha, "Tratado da Melodia" Luísa Todi foi considerada "A cantora de todas as centúrias" melhor dizendo "Uma cantora para a eternidade".

Fontes:  Ruas de Lisboa / wikipedia / Cantores de Ópera Portugueses, 1º volume”, Mário Moreau / Blog Luísa Todi / "Alto: the voice of bel canto" /  Grandes Portugueses