sexta-feira, 31 de outubro de 2008

"Fado Fantastico" de Urs Richle (2001)

"Pode-se ouvir os Blues. Pode-se dançar o Tango. Mas tem de se sentir o Fado"

Urs Richle é um escritor suíço nascido em 1965 em Wattwil, tendo publicado, em 2001, o romance "Fado Fantástico" que conta a história de Francisco Fantástico um imigrante que vive ilegalmente em Genéve (Suiça) durante 14 anos. Após contar o seu paradeiro ao filho António, este decide visitá-lo em Géneve, contudo uma tragédia irá atingir esta família.

Fonte: LiteraturKritik

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Fado através do mundo

A propósito de algum sururu em fóruns de discussão sobre fado acerca do destaque que é dado a artistas não portugueses que cantam no filme «Fados», de Carlos Saura - artistas como Lila Downs, Chico Buarque ou Lura -, enchi-me de coragem para meter a minha colherada em defesa do fado e da sua interpretação ou re-interpretação por parte de cantores e cantoras estrangeiros, com o «argumento», se tal fosse preciso, de que o fado é uma forma musical como outra qualquer e de que não é necessário nascer em Alfama ou beber uns copos no Bairro Alto - ou, no caso de Coimbra, ir carpir mágoas amorosas para a Quinta das Lágrimas -, para que o fado possa ser interpretado, ou reinterpretado, por quem o quiser. Ah, e a questão da alma, da saudade, etc, etc...

Coisas menores, acho eu: já ouvi verdadeiro rock feito no Porto, excelente hip-hop feito na Amadora, já ouvi a Petra - dos Nobody's Bizness - a cantar blues como muito pouca gente e uns almadenses de nome Melech Mechaya a fazer klezmer como se fossem judeus de gema.

Vai daí, decidi deixar aqui vários nomes - mais do que aqueles que estava à espera quando iniciei a pesquisa - de cantores e cantoras estrangeiras, e também de intérpretes de guitarra portuguesa, que fazem do fado a sua música ou uma das suas músicas de eleição. Goste-se ou não - e isso já depende de cada um dos seus ouvintes -, é importante dar com eles: quase todos têm sites ou estão no myspace. Procurem-nos, por favor.

Japão

No Japão - onde a diva Amália Rodrigues deixou sementes, fruto das suas históricas actuaçõe por lá - há, pelo menos, duas cantoras de fado: Hideko Tsukida e Marie Mine. Ambas são neste momento acompanhadas, na guitarra portuguesa, por Masahiro Iizumi, que começou por tocar tango em guitarra clássica mas, desde há alguns anos, desenvolveu um estilo próprio na guitarra portuguesa.

Brasil

No Brasil, para além do fado fazer parte da «ementa» de muitos locais de reunião de portugueses, cantores importantes como Caetano Veloso, Fáfá de Belém, Ney Matogrosso ou o já referido Chico Buarque (o maravilhoso «Fado Tropical») interpretaram fados. E Vinicius de Moraes compôs para Amália.

Guitarras portuguesas

Há guitarras portuguesas espalhadas um pouco por todo o mundo, nas mãos de vários músicos - Jimmy Page, dos recém-ressuscitados Led Zeppelin, que ao consta nunca a conseguiu tocar por ser «muito difícil», mas também alguns mais corajosos como músicos do grupo argentino La Chicana ou do grupo belga Timna, que acompanhou a cantora Ghalia Benali num Intercéltico do Porto, há alguns anos atrás.

França

Em França há alguns luso-franceses a aventurar-se no fado: a já conhecida e respeitada cantora Bévinda, o jovem intérprete de guitarra portuguesa Philippe de Sousa e até um acordeonista que adapta fados para o seu instrumento: Toucas. Mas mais surpreendente é o caso de uma cantora franco-argelina, Alima, cantora do grupo Monkomarok, que a solo diz cantar um «fado franco-algérien», evocando influências de Steve Reich e... dos Madredeus.

E.U.A.

Luso-americana, e agora radicada em Lisboa, a cantora e actriz californiana Michelle Pereira é um caso paradigmático de muita gente que se deixou apaixonar pelo fado. Actriz de algum sucesso nos Estados Unidos (pode ser vista, por exemplo, no filme «Os Dez Mandamentos - O Musical», ao lado de Val Kilmer, e chegou a entrar na série «Friends), há alguns anos veio estudar o fado para Portugal e por cá ficou.

Espanha

Na Catalunha, o grupo EnFado - o nome diz tudo -, de Lérida/Lleida, existe desde 2002 e é um quarteto composto por Càrol Blàvia (voz), Raquel Garcia (violino e guitarra clássica), Carles Garrofé (guitarra clássica) e Gus Garcia (baixo acústico), cujas influências são Dulce Pontes, Mísia, Kátia Guerreiro, Mariza, Amália Rodrigues e... Maria del Mar Bonet.

Itália

Em Itália, desde há muitos anos que o intérprete de guitarra portuguesa Marco Poeta é conhecido. Recentemente, e já com um álbum editado, criou o projecto O'Fado (na foto), no qual conta com os famosos cantores Eugenio Finardi e Francesco Di Giacomo e com a jovem cantora Elisa Ridolfi, Michele Ascolese (guitarra acústica) e Paolo Galassi (baixo acústico). Também de Itália é outro intérprete de guitarra portuguesa, Loris Donatelli.

Canadá

De Toronto, no Canadá, há notícias de um grupo, 15, liderado por Catarina Cardeal (voz) e Mike Siracusa (guitarra), que dá concertos de fado/blues. Dos 15 fazem também parte John Yelland (contrabaixo), Lou Bartolomucci (guitarra acústica e eléctrica) e Claudio Vena (viola d'arco e acordeão).

Finalmente - e obrigado Luís Rei pela dica -, também do Canadá vem um dos nomes mais surpreendentes: a cantora indo-canadiana Kiran Ahluwalia, que no seu último álbum, «Wanderlust», mistura poesia urdu com fado e blues saharianos. Na gravação do álbum, Kiran contou com a participação de José Manuel Neto (em guitarra portuguesa) e Ricardo Cruz (baixo acústico).

Se calhar, isto é apenas a ponta de um iceberg que está a crescer. E ainda bem! A ouvir sem preconceitos...

Nota: E aqui mais alguns acrescentos, fruto de pesquisas posteriores e, principalmente, da valiosa contribuição de leitores do blog "Raízes e Antenas": a fadista catalã Névoa, a francesa Jenyfer, o luso-francês Lúcio Bamond, a brasileira Joanna (com um dos seus álbuns inteiramente dedicado ao fado), a mexicana Marcela Ortiz Aznar, a polaca Marzena Nieczuja-Urbanska, a holandesa Nynke Laverman e a croata Jelena Radan.

Fonte: António Pires

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Hideko Tsukida, a fadista que veio do Japão

Nascida em Tóquio, em 1951, Hideko descobriu um disco de Amália Rodrigues em 1982 e ficou encantada com o fado. Em 1988, após dois espectáculos em Osaka, a fadista japonesa veio para Portugal, a fim de frequentar um curso de língua portuguesa para estrangeiros, na Faculdade de Letras de Lisboa. E a paixão pelo fado aumentou.

Conheceu então Amália na capital portuguesa. Participou em programas de televisão e noutros encontros musicais. Conta já com diversos álbuns, nomeadamente “Saudade” (1990) e "Obrigada Amália" (2000).

Teve a oportunidade de cantar acompanhada de Carlos Paredes, em Tóquio, e por Carlos Gonçalves e Lello Nogueira, em Lisboa. Em 1993, a grande paixão da artista japonesa pelo fado levou-a a constituir o Tsukida Hideko Club de Fado, que tem mais de 400 associados.

Fonte: Público / DN

Mais informações: Página Oficial, Videos

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Palavras portuguesas no Japão

Várias palavras portuguesas passaram para o japonês, a maior parte das quais no curto período entre 1543 e 1624, entre a chegada dos primeiros portugueses ao Japão e a proibição pelo regime Tokugawa da sua entrada no Japão.

Geografia

Zerusaren - Jerusalém
Afurika - África
Ajiya - Ásia
Ejiputo - Egipto
Girisha - Grécia
Igirisu - Inglaterra
Isupania (Isupaniya) - Espanha
Itariya - Itália
Jagatara - Jacarta
Oranda - Holanda
Porutogaru - Portugal
Shamu - Sião
Yoroppa - Europa

Religião

Adan - Adão
Amen - Amen
Bateren, patere, hatere - Padre
Bauchizumo - Baptismo
Ēsu - Jesus
Iruman - Irmão
Karisu - Cálice
Kirisuto - Cristo
Medai - Medalha
Misa - Missa
Pappa - Papa
Santa - Santa
Santamaria - Santa Maria
Yudaya - Judeu
Santome (agora Tozan) - São Tomé (recebido de)


“Alimentação”

Bisukouto - Biscoito
Kahii, Kohii - Café
Karumera - Caramelo
Kashuu - Caju
Kasutera (Kasutēra) - Bolo-de-Castela (pão-de-ló)
Kokoa - Cacau
Konpeito - Confeito
Marumero (Marumeru) - Marmelo
Pan - Pão
Sarada - Salada
Tenpura - Tempora ou tempero
Koppu - Copo

Vestuário

Birodo - Veludo
Botan - Botão
Jiban - Gibão
Kappa - Capa
Meriyasu - Meias
Shuchin - Cetim


Diversos

Rimbo - Limbo
Rasha - Raxa
Baiyon - Baião
Beranda - Varanda
Biidama - Vidro-dama
Buranko - Balanço
Kapitan - Capitão
Isopo - Esopo
Joro - Jorro
Kanāru - Canal
Han-hora - Cânfora
Kantera - Candeia, candela
Karuta - Carta
Órgão - Orugan
Sēzaru - César
Shabon - Sabão
Terebinteina - Terebintina

Fonte: aikedai

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Os portugueses em “A Lenda de Suriyothai“ (Tailândia) (2001)

Teve de acontecer um tsunami na Ásia para que os portugueses regressassem ao Sri Lanka e à Indonésia. Em Galle, apenas ficou de pé o que resta do forte português, e tiveram de ser os habitantes com apelidos como Silva, Sousa e Pereira a relembrar-nos que o nome da cidade vem do facto de os barcos portugueses terem ali chegado ao nascer do Sol, quando os galos cantavam.

Dificilmente se encontrará uma cena mais empolgante para o cinema épico, porém o gigantesco espólio da expansão portuguesa ainda não foi descoberto pelos grandes estúdios. Parece-me que esta devia ser uma prioridade cultural, até porque fomos os primeiros europeus e, durante mais de meio século, os únicos europeus em quase todos os lugares distantes.

Assim, foi uma surpresa gratificante o visionamento do épico A Lenda de Suriyothai, o maior êxito de sempre do cinema tailandês. Francis Ford Coppola deu uma ajudinha na montagem, agilizando a narrativa, mas o realizador, Chatri Cholerm Yukol, fez um trabalho digno e investigou devidamente a história. Para quem se dê ao trabalho de escutar os seus comentários, constatará que a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto é uma das suas principais fontes, sobretudo nas cenas das batalhas. E mais agradável ainda é ver como a imagem que os tailandeses têm dos portugueses é tão positiva.

Eram mercenários, mercadores, médicos jesuítas, que até trouxeram a varíola, mas estão em todo o lado. Fazem parte das pinturas, das paisagens, dos mapas. Embora poucos, são mais do que os chineses, e aparecem sempre junto aos canhões e espingardas, que estão por todo o lado, nestas guerras entre a Tailândia e a Birmânia. Veja-se com particular interesse os pequenos canhões adaptados ao dorso dos elefantes, os antepassados dos tanques modernos. Não há ali qualquer laivo de interferência ou colonização portuguesa, nem sequer religiosa, apenas nos fica uma enorme saudade por uma época em que o Mundo era jovem e apenas os nossos antepassados eram testemunhas de outros povos. E esta grandeza, só nossa, ninguém nos pode tirar, por muito dela que nos tenhamos esquecido.

De resto, a história reporta-se à heróica rainha Suriyothai, que deu a vida para salvar o marido. (…)

Fonte: Luísa Alves / Docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Universidade Nova de Lisboa (Revista Premiere nº 64, Fevereiro de 2005)

Mais informações

Em 1548, quem reinava no Sião era o rei Maha Chakapat. Seis meses apenas tinham decorrido sobre a sua regência, quando os birmaneses invadiram o seu território. O rei Chakapat, como era sua obrigação, conduziu o exército real ao encontro dos invasores, montado no seu elefante de guerra. Às mulheres não era permitido combater. No entanto, a rainha Suriyothai, imbuída pelo amor ao seu marido, disfarçou-se de homem e igualmente partiu no seu próprio elefante. Durante a batalha, o elefante do rei Chakapat tombou devido às imensas feridas, e o monarca esteve em sério risco de ser morto. No entanto, a corajosa Suriyothai interpôs-se entre o marido e as tropas birmanesas, sendo morta e desta forma, salvando a vida do seu marido. (…)

Uma nota que nos enobrece nesta película (ou talvez não) será a análise incidental à presença portuguesa no Sião, com vários mercenários nossos conterrâneos a combater do lado dos tailandeses e a serem pagos a peso de ouro. O detalhe histórico é extremamente cuidado, e isso nota-se nas suas armaduras e restante armamento, embora nunca seja explorado no sentido de os vermos a falar a nossa língua-mãe, e até ter uma personagem interventiva.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Os portugueses em "Shogun" de James Clavell (1975)


Nascido em Sidney, Austrália, em 1924, James Clavell notabilizou-se pelos seus romances que envolvem a história do oriente, em especial o Japão.

Em "Shogun" temos um retrato do Japão feudal e o processo da construção do estado-nação com as diferenças comportamentais no século XVII entre japoneses e europeus.

Entre os europeus destacam-se diversos navegadores e jesuítas portugueses e espanhóis, nomeadamente o piloto Vasco Rodrigues, Frei Alvito e Frei Domingo.


O frei Alvito terá sido inspirado no jesuíta João Rodrigues, o intérprete, e, eventualmente, em Dom Luís Cerqueira, conhecido como o Bispo do Alvito.

"Shogun" foi adaptado, com grande sucesso, para uma série de TV em 1980, sendo o personagem Vasco Rodrigues interpretado pelo actor inglês John Rhys-Davies, o qual foi nomeado para o Emmy de melhor actor secundário.

Rhys-Davies voltou a interpretar o mesmo personagem numa curta-metragem portuguesa intitulada "The Gold Cross" (2000).

Fontes: Eduardo Cruz / C4pt0m3nt3 / IMdb 

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

"Rodrigues, O Intérprete" de Michael Cooper (1994)


Michael Cooper, jesuíta inglês, escreveu a biografia deste português de quem diz 'Poucos homens tiveram vida mais aventurosa.'

É o argumento perfeito para um filme onde o intrépito Rodrigues seria, certamente, a personagem de sonho a disputar pelos actores da nossa praça.

Sinopse

João Rodrigues, padre jesuíta que viveu entre os séculos XVI e XVII, chegou ao Japão com apenas 16 anos e depressa adquiriu um profundo conhecimento da língua japonesa, que o iria tornar conhecido como O Intérprete. Deste modo, ganhou os favores de Hideyoshi, o shogun reinente no japão nos finais do século XVI, e conseguir interceder em favor da causa portuguesa.

A figura histórica

João Rodrigues, missionário jesuíta, viveu no Japão entre 1577 e 1610 e serviu Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi como intérprete, ganhando assim o epíteto de «Tçuzu», como aliás é conhecido entre os historiadores e conhecedores da sua obra.

Para além de intérprete, foi um dos autores e coordenador do Vocábulo da Lingoa de Japam, primeiro dicionário de japonês-português editado em 1603, da Arte da Língua de Japam (1608), Arte Breve da Língua de Japam (1620), A História da Igreja de Japam (1634). É sem dúvida uma figura referencial nos primórdios das relações luso-nipónicas nos séculos XVI e XVII.

Prémio Literário "Rodrigues, o Intérprete"

O Prémio Literário «Rodrigues, o Intérprete» foi instituído em 1990, com base num fundo doado pelo antigo intérprete da Embaixada de Portugal em Tóquio, Jorge Midorikawa. Através desse galardão premeiam-se anualmente obras editadas no Japão, em japonês, sobre temas relacionados com Portugal ou autores portugueses e traduções de obras portuguesas.

Fonte: webboom, Os meus livros

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Personagens e amigos portugueses na obra de Jorge Amado


Uma das minhas diversões durante o trabalho duro e difícil do romance é colocar nomes de amigos nos personagens: a um frade cachopeiro e mandrião baptizei com o nome de Nuno Lima de Carvalho [jornalista português], todo o contrário: burro-de-carga no trabalho, não respeita domingo nem feriado, ex-seminarista casto permanece pudico e só reza missa no altar de Santa Clarinda, esposa e mártir.

Natário da Fonseca, jagunço e capitão da Guarda Nacional, herdou o prenome de um pasteleiro, notabilidade de Viana do Castelo, siô Manuel Natário, o dos pães-de-ló.


Manuel Natário

Manuel Natário, o dono da pastelaria, diz-nos que "até gostou" de ser jagunço no livro: "Ele fez aquilo com muito gosto". E porque a amizade entre os dois não permitia melindres. Nem amuos. Mas o verdadeiro retrato do amigo minhoto, deixou-o Amado na dedicatória que lhe fez em Tocaia Grande: "Manuel Natário, capitão de doces e salgados, comandante do pão-de-ló, mestre do bem-comer".

"[Jorge Amado] viu na Senhora d'Agonia a sua Iemanjá. E Viana fez de Jorge Amado e sua mulher seus cidadãos honorários. Mas a peregrinação também se fez ao Santuário de Manuelzinho Natário. Zélia e Jorge Amado não se rogaram. Ficaram mesmo fregueses. Fez mais.

Passou à posteridade chamando-o para a personagem mais importante de seu último romance, "Tocaia Grande", na figura destemida de Capitão Natário. E não se ficou por aqui. Com os paladares avivados, quis que o Presidente Sarney e D. Marly no Palácio da Alvorada, provassem deste pão-de-ló de Viana. E foram muitos pãos-de-ló que emigraram até Brasília pela mão de Lima de Carvalho e Jorge Amado"


Nuno Lima de Carvalho

Nuno Lima de Carvalho conta à Antena1 que conheceu o escritor em 1980 e acompanhou-o nas suas viagens por Portugal. Este galerista português inspirou a personagem de um frade que namorava com uma freira às escondidas. Apareço como um frade cachopeiro, Frei Nuno de Santa Maria, que ia celebrar missa todos os dias a um Convento, onde tinha lá uma freirinha que se entretinha depois com ele atrás da torre da igreja.

Conheceu Jorge Amado na casa de José Franco, artista popular de Mafra.


José Franco

Segundo Zélia Gattai na sua autobiografia, Jorge Amado conheceu José Franco, quando visitou a aldeia típica na companhia de Beatriz Costa e Francisco Lyon de Castro nos fins dos anos 60, tornando-se grandes amigos a partir daí. Jorge Amado visitava José Franco, a quem chamava queridinho, sempre que se deslocava a Portugal e a sua casa em Salvador é decorada com peças do artista português.


Álvaro Salema

Em "Navegação de Cabotagem" (apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei", Jorge Amado faz referência a muitos amigos portugueses, como Álvaro Salema que descreve como «O homem mais modesto, o mais tímido, o mais corajoso, o mais leal, o mais digno, Álvaro Salema. Em silêncio se retirou de cena, pouco antes do final da tragicomédia, personificava a decência, já não tinha lugar no palco.»

Álvaro Salema publicou em 1982 o livro "Jorge Amado: o homem e a obra presença em Portugal". Nesta obra é abordado o que representou a obra de Jorge Amado em Portugal, antes e depois de ser considerado um escritor "maldito", excomungado, proibido, e a influência que ela exerceu sobre várias gerações. E é acrescentado também o que é o portuguesismo de Jorge Amado no sentido da sua ligação a Portugal, do que ele já conhece do país e da sua gente.


Arroz doce

A receita de arroz doce utilizada por Zélia Gattai foi-lhe dada por Elisa Salema, esposa do escritor português Álvaro Salema. Segundo o livro organizado por Paloma Jorge Amado, come-se arroz-doce nas obras “Cacau“, “Jubiabá“, “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e “O Sumiço da Santa“.


Lisboa - Luanda - Bahia

Em Navegação de Cabotagem, quando evoca a sua ida a Angola a convite de Agostinho Neto, em 1979, diz que ao percorrer as ruas de Luanda ou de Lisboa não se sente no estrangeiro – «Luanda, uma das faces da Bahia, a outra é Lisboa». 

Jorge Amado tinha com Portugal uma relação especial. Amigos, muitos – Ferreira de Castro, Álvaro Salema, o Chico, (Francisco Lyon de Castro, o editor que mais obras suas publicou, dono de Publicações Europa-América) Beatriz Costa, Fernando Namora, Mário Soares, Ramalho Eanes, Mimi, a dona do modesto restaurante do Parque Mayer, que Jorge preferia a estabelecimentos de luxo. 


Sangue Português misturado com o brasileiro

E, se nos romances amadianos quase não há referências a Portugal, a situações aí passadas e a personagens portuguesas, a justificação pode ser encontrada na dedicação quase exclusiva do escritor ao universo baiano da região cacaueira e de Salvador, onde, como ele mesmo explica, na época em que se passam as suas histórias, os portugueses não existiam como imigrantes, embora houvesse sangue português misturado com o brasileiro:

"Em Ilhéus o sangue português estava no sangue sergipano, aqui na Bahia no sangue dos mulatos, da gente da Bahia, do povo. Ao lado disso, havia os árabes [...], imigrantes que tinham chegado mais tarde. A Bahia foi a capital do Brasil, uma cidade portuguesa. Os portugueses iam para lá até uma certa época, depois isso deixou de acontecer, os portugueses chegavam às centenas de milhares para o Rio e São Paulo. Mas não para a Bahia. [...] Há na Bahia mil e poucos portugueses, todos ricos – ricos, quer dizer, não «trabalhadores», são pessoas com comodidades(AMADO, 1992, p. 161-162).


Referência a "O Crime do Padre Amaro" em "Gabriela, Cravo e Canela" (1958)

A personagem Malvina luta para escapar do futuro que lhe é reservado. Um futuro que inclui casamento e filhos e não uma faculdade e trabalho, como gostaria. Malvina quer ser livre. A jovem conquista um grau de autonomia incomum ao seu ambiente através da leitura. Compreendemos aqui a leitura como um ato de transgressão das normas, já que ela lê livros considerados proibidos para mulheres.

Entre as obras lidas por Malvina e tidas como “impróprias” pelos frequentadores da Papelaria Modelo, ponto de encontro dos intelectuais de Ilhéus, está "O Crime do Padre Amaro", de Eça de Queirós.

A leitura, apesar de emancipadora, é vista como “degradante”, pela sociedade patriarcalista da cidade onde transcorre o romance. O acto de ler é, para Malvina, libertador e, ao mesmo tempo, transgressor. (...)


Uma passagem do livro sintetiza nossa ideia da emancipação feminina de Malvina através da leitura. Quando a personagem e suas colegas entram na Papelaria Modelo, Malvina escolhe folhear os títulos de Aluísio de Azevedo e Eça de Queirós, enquanto as demais buscam os livros da Biblioteca das Moças.

Uma colega diz a Malvina que na sua casa tem "O Crime do Padre Amaro" e que, ao tentar lê-lo, seu irmão “disse que não era leitura pra moça”. Malvina fica revoltada e revida: “Por que ele pode ler e você não?”. Malvina compra o romance e desencadeia duas reacções, uma instantânea e outra posterior. A primeira são os comentários dos frequentadores da loja. “Essas moças de hoje... até livro imoral elas compram”, diz um homem. A segunda reacção veio do pai de Malvina, o coronel Melk. O pai vai até a loja e pede ao livreiro João Fulgêncio que não venda mais livros para Malvina que não sejam “de colégio” porque “os outros não servem para nada, só servem para desencaminhar”. Como punição pela audácia, Malvina recebe uma sessão de espancamento com rebenque do coronel."


"Os Velhos Marinheiros ou os Capitães de Longo Curso" (1961)

"Vindo ao mundo na cidade da Bahia em 1868 e órfão aos cinco anos, Vasco Moscoso de Aragão foi criado pelo avô materno, o rico comerciante de origem lusa José Moscoso, que o retira da escola com a idade de apenas dez anos e o mete na casa comercial. Todavia, o pupilo não nascera para o comércio (...)

O actor português Joaquim de Almeida interpretou o "Velho Marinheiro" no filme "O Duelo", dirigido em 2015 pelo realizador brasileiro Marcos Jorge.


"Teresa Baptista Cansada de Guerra" (1972)

Uma das personagens, Joana das Folhas, Joana França, era uma negra idosa, viúva de um português [Manuel França] sítio herdado do compadre Antonio Minhoto.


"Farda, Fardão, Camisola de Dormir" (1979)

Jorge Amado escolheu uma militante comunista portuguesa para ser uma das protagonistas femininas de "Farda, Fardão, Camisola de Dormir", um de seus romances menos conhecidos e dos poucos cuja história não se passa na Bahia.

Maria Manuela é uma militante, comunista, esposa do Conselheiro da Embaixada de Portugal (em Paris) e amante do poeta romântico e boémio Antônio Bruno que morre na capital francesa, abrindo-se uma vaga na Academia Brasileira de Letras, facto que vai desencadear uma verdadeira guerra nos meios intelectuais do Rio de Janeiro;

Misturando personagens fictícios a figuras históricas, Jorge Amado reconstitui de retornar à terra natal. É hora, pois, de Serginho dar as costas à sua Cataguases, cortada pelo rio Pomba, em cujas águas o autor parece ter se inspirado para construir uma prosa de fluxo forte intercalado por rápidos e iluminadores flashbacks. Em Portugal, o passar dos anos será demarcado com extrema subtileza pelo afloramento de uma plêiade de idiomatismos lusos na prosa interiorana de Serginho, revelando a mão segura e inventiva de um dos mais bem-sucedidos autores brasileiros contemporâneos.


"Tocaia Grande" (1984)

Jorge Amado esteve ligado por laços afectivos a Viana do Castelo, tendo granjeado muitos amigos – sendo de destacar Manuel Natário, dono da pastelaria "Natário" em Viana do Castelo, e Nuno Lima de Carvalho, Director da Galeria de Arte do Casino Estoril (mas natural de uma freguesia do concelho de Viana do Castelo), imortalizados em “Tocaia Grande” como “Capitão Natário da Fonseca” e “Frei Nuno”, respectivamente.

Sinopse: "Esta é a história da fundação de uma cidade no sul da Bahia numa época em que as plantações de cacau eram adubadas com sangue. A disputa pela terra e pelo domínio político entre os coronéis Boaventura Amaral e Elias Daltro.

Tudo começa quando Natário da Fonseca quer deixar de ser um simples jagunço para virar coronel. Natário se destaca comandando o “grupo” de Boaventura. Com esse destaque, ele ganha a patente de Capitão e, com isso, algumas terras. Natário começa a plantar cacau e incentiva a fundação de uma nova cidade cujo nome será Tocaia Grande, palco de conflitos com os coronéis de Itabuna que querem continuar dominando a região e não admitem a ascenção de Natário."


"O Sumiço da Santa" (1988)

Por causa de "O Sumiço da Santa" voltam nomes de amigos e o gosto de Jorge Amado por integrá-los na ficção, personagens dos seus romances. Neste livro podemos "ler" Luiz Forjaz Trigueiros, António Alçada Baptista, José Carlos Vasconcelos, Fernando Assis Pacheco. É uma forma de homenagear os seus amigos.

"Para receber a imagem preciosa, o director escolhera Edimilson Vaz, jovem e talentoso etnólogo, auxiliar de confiança. Ele próprio não pudera ir, naquele preciso momento presidia concorrida entrevista colectiva com a imprensa falada e escrita (...) presentes jornalistas da Bahia, os correspondentes de importantes órgãos do Sul do país e, para culminar, o enviado de uma cadeia de jornais portugueses, um certo Fernando Assis Pacheco.  


"Navegação de Cabotagem" (1992)

Onde mais e melhor se percebe a importância que Portugal tinha para o escritor e o homem Jorge Amado é no seu livro de memórias, posto que Navegação de Cabotagem está repleto de pequenos fragmentos sobre o país e os seus habitantes.

No conjunto de apontamentos fragmentários e não ordenados cronologicamente que formam essa obra, são mencionados acontecimentos importantes ou comezinhos da história pessoal e profissional do criador de Gabriela, bem como as suas relações afectivas, intelectuais, ideológicas e literárias com os portugueses e Portugal.

Fontes/Mais informações: Jorge Amado, “Navegação de Cabotagem, Apontamentos para um livro de Memórias que jamais escreverei"/  Diário do Minho / RTP / Público / DN / Colóquio 100 anos de Jorge Amado / Arroz doce / Jorge Trabulo Marques / Entrevista a Nuno Lima de Carvalho / A viagem dos Argonautas / Mosqueteiras Literáris (sobre "O Crime do Padre Amaro") Alma Lusa (sobre "O Duelo") / Muxicongo / Estrada dos Livros e Livros e Raquetes (sobre "Farda, Fardão ...")

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Jorge Amado e os ancestrais japoneses (1980)



O prazer de ouvir Luís Forjaz Trigueiros (escritor português) contar histórias, casos, só comparável ao de ler seus contos portugueses. (...)

No tombadilho do navio [durante excursão pelas ilhas gregas] discutiam os dois casais [Forjaz Trigueiros, David Mourão-Ferreira e respectivas esposas], não preciso dizer que acaloradamente, de outra maneira não discutem os portugueses, discutiam poesia, assunto explosivo, sob a vista de um grupo de japoneses postados atentos na amurada.

No auge do debate, um dos japoneses aproxima-se dos polemistas e a eles se dirige:

- Estão falando português, não é verdade ? De onde são ?
- De Portugal, ora pois, somos portugueses – contesta David Mourão.


O rosto nipónico se abre em sorriso brasileiro:

- São portugueses... – anuncia ao grupo na expectativa: - .. são nossos ancestrais.

Nossos ancestrais. Pensando nas epopeias lusas no oriente, coitos monumentais, ignotas descendências, Luís Forjaz deseja saber se ‘por acaso eles têm sangue português nas veias asiáticas, um navegador de passagem na rota das descobertas, quem sabe ?’

- Sangue português ? Nós ? Não. Somos brasileiros nascidos em São Paulo, os portugueses são antepassados dos brasileiros – ensina: - São nossos bisavós.

De todos os brasileiros, com certeza. Filha de pai e mãe italianos, Zélia sente-se em casa na cidade de Lisboa, é estrangeira em Florença, onde nasceu seu pai, no Vêneto, terra de sua mãe.

Fonte: Jorge Amado, “Navegação de Cabotagem - Apontamentos para um livro de Memórias que jamais escreverei"

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Jorge Luís Borges e as suas raízes portuguesas


Jorge Luís Borges (1899-1986), famoso escritor argentino, sempre se orgulhou das suas raízes portuguesas e interessou-se muito pelos antepassados quando visitou o nosso país, em 1921 e 1984. Sabia-se que o seu bisavô, Francisco Borges, saíu um dia de Torre de Moncorvo com destino ao Rio da Prata [Argentina].

Rondaria os vinte e dois anos quando visitou Portugal. Em 1921, Jorge Luís Borges findava uma estadia de três anos em Espanha. É então que chega ao nosso país com o propósito de encontrar esses seus “mayores”, a “vaga gente” do seu sangue.

Cinquenta anos mais tarde, contará numa entrevista como tentou auscultar o paradeiro da família do seu bisavô português. “Quando consultámos a lista telefónica, havia tantos Borges que era como se não existisse nenhum”.

Em Torre de Moncorvo, o escritor dá hoje nome a uma avenida moderna.

Fontes: DNA, Tiago Rodrigues

Os Borges

Nada ou pouco sei dos meus ancestrais
Portugueses, os Borges: vaga gente
Que na minha carne, obscuramente,
Prossegue seus hábitos, temores e rituais.
Ténues como se nunca houvessem existido
E alheios aos trâmites da arte,
Indecifravelmente fazem parte
Do tempo, da terra e do que é esquecido.
Melhore assim. Cumprida a odisseia,
São Portugal, são a famosa gente
Que forçou as muralhas do Oriente
E se deu ao mar e a outro mar de areia.
São o rei que no místico deserto
Se perdeu mas jura estar perto.

(tradução de José Mário Silva)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

"Saudade" de Katherine Vaz (1994)


"Saudade" é o primeiro romance, publicado aos 30 anos, por esta escritora de ascendência portuguesa, natural da Califórnia, a quem agrada o epíteto de "prima americana" das nossas letras.

O livro é centrado na história de uma família dos Açores, contada ao longo de duas gerações. Clara, a personagem principal, surda-muda, emigra para a América, após a morte da mãe. Aí recuperará a voz, mas a sua vida conhecerá momentos de grande violência, física e psicológica.

Uma narrativa "fantástica", entre o assombro e o fascínio, num jogo de múltiplas realidades, onde se enquadram tradições e lendas portuguesas.

Sobre "Saudade", Vamberto Freitas escreveu que se trata de "uma narrativa que provavelmente irá tornar-se paradigmática entre esta geração de escritores lusófonos residentes ou naturais de países fora da nossa tradição linguística e estética":

Para Vamberto, "Saudade" é "um romance profundamente americano mas que já está a ser ensinado nalgumas das nossas universidades como talvez sendo um dos primeiros exemplos duma nova ou outra literatura portuguesa sem fronteiras e sem complexos europeus, um romance da Diáspora portuguesa (e mundial) da segunda metade deste século”. [século XX]

Fontes: webboom, adiaspora

Outros livros

Na obra de Katherine Vaz é igualmente de destacar o romance "Mariana" (1997), baseado na história de Mariana Alcoforado, e dois livros de contos "Fado and other Portuguese Stories" (1997)e "Lady of the Artichokes and Other Portuguese-American Stories" (2008).

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

"Saudades de Rock" dos Extreme (2008)



Em entrevista ao Cotonete, Nuno Bettencourt referiu que «sendo português, "saudades" sempre foi uma palavra especial para mim».

Bettencourt confessou, ainda que «quando regressámos a estúdio percebi que tinha saudades disto (...) e nos últimos dez anos os fãs sempre disseram que sentiam saudades nossas (...) então apresentei o título, mas achei que os rapazes não iriam gostar por ser uma língua diferente, mas eles gostaram».

Fonte: Cotonete


Entrevista ao Cultuga (2019) 

A ideia foi do Gary [risos]!. O Kevin Figueiredo também é português, sim, de Santa Maria. Bom, já se tinha passado 10 anos que a banda não gravava um disco e nós decidimos fazer um acordo. Nós reunimo-nos para pensar no futuro. Se a ideia era fazer um novo disco, tínhamos que fazê-lo naquele momento. Sentíamos saudades do feeling de estar no palco, ao lado dos fãs, e eu contei à banda sobre a palavra saudade, que só existe no vocabulário português. Eles gostaram da ideia!

Recordação de Priscila Roque do Cultuga.com.br 

Guardo uma recordação engraçada da infância. Sempre que assistia ao videoclipe de “Rest in Peace”, da banda norte-americana Extreme, sentia certo orgulho do guitarrista português, Nuno Bettencourt. Isso porque aquele roqueiro, com longos cabelos e que tocava muito bem, tinha nascido na Ilha Terceira (Praia da Vitória), nos Açores.

Eu, mesmo luso-brasileira, achava aquilo tão próximo, já que partilhávamos o mesmo idioma. O que não imaginava é que, tantos anos mais tarde, eu teria a oportunidade de sentar ao lado dele para perguntar um pouco sobre sua verdadeira história com Portugal e ouvir o Nuno Bettencourt falando em português

 Fonte:Cultuga

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

“Ironbound/Fancy Poultry” (1987) de Suzanne Vega e "Murmúrios Urgentes (1994)



Ironbound é o nome de uma zona de Newark (New Jersey) onde reside uma grande comunidade portuguesa. A cantora norte-americana Suzanne Vega incluiu no seu álbum “Solitude Standing” a canção “Ironbound/Fancy Poultry”.

“tinha visto algumas mulheres portuguesas na zona de Newark, conhecida por Ironbound, em New Jersey, perto do local onde moro [do outro lado do rio para quem vive em Nova York], e elas pareceram-me muito bonitas e femininas e isso fez-me sentir como se estivesse muito longe, num lugar romântico e acolhedor como Portugal."

O livro “Murmúrios Urgentes” de Fátima Castro Silva, antiga colaboradora do jornal Blitz, é dedicado à cantora norte-americana, incluindo entrevistas e traduções das suas letras.

Video (início: 3 min 44 seg)


Excerto da letra (tradução):

“Na secção de Ironbound
Perto da Avenida L
Onde as mulheres portuguesas
Vêm ver o que está à venda.”



“Murmúrios Urgentes” - Depoimento de Manuel Hermínio Monteiro (Assírio & Alvim)

“É um livro muito especial e com uma história. É como se o observador e o observado escrevessem uma só imagem que não seria de espelho por não ser melhor e mais verdadeira. É como as obras de piano para quatro mãos.

A explicar: Fátima Castro Silva gostou de Suzanne Vega. Entrou em contacto com ela. Ela respondeu. A Fátima propôs-lhe um livro. Ela disse-lhe que sim. Começaram a trabalhar. Suzanne Vega entusiasmou-se. Encontram-se em Lisboa, em Londres, em Madrid e finalmente com bastante mais demora em Nova Iorque. Tomaz Rêde fotografou.

A autora de 99.9 Fº faz sugestões. Entrega inéditos da adolescência. Fotografias de miúda. Dialoga com a Fátima, intervém na construção do livro. Acrescenta-lhe novos dados, outras fotografias. Sabei que este não é como os outros livros, nem sequer como os da mesma colecção. É um livro muito especial que revela a surpreendente personalidade de Suzanne Vega. Não chegou a ser subsidiário das suas cantigas. Quem o ler vai gostar muito. […]”


Regravação em 2017

“Ironbound/Fancy Poultry”  foi incluído no álbum "Close-Up, Vol. 2: People & Places" que consiste em regravações do repertório da cantora norte-americana.


Impressões de Portugal

Em Portugal, onde chegou a ser apelidada de "a menina da rádio", o impacto deste álbum ["Solitude Standing" de Suzanne Vega ficou sublinhado pela sua visita ao Palácio de Belém em 1988, a convite do Presidente da República Mário Soares.

Numa entrada do seu diário, datada de dezembro de 1993 e publicada em 2000 no seu website (incluída no livro "The Passionate Eye: The Collected Writings of Suzanne Vega"), a cantora americana recorda o momento, que descreve como inesperado.

Neste texto intitulado "Impressões de Portugal", Suzanne Vega partilha as memórias que guarda de Portugal e dos portugueses, sem esquecer a amabilidade de Mário Soares. "Fui convidada, em 1988, para visitar o Presidente Soares no seu Palácio, o que me surpreendeu porque não estou habituada a este tipo de convites de alta importância", escreveu a artista, acrescentando ainda que "o Presidente foi muito amável, mas não falávamos a língua um do outro. Sorrimos muito".


"Fui com um representante da minha editora, o meu namorado e o meu manager", prossegue o desfile de memórias. "Sentámo-nos uns ao lado dos outros, conversámos durante alguns minutos, tirámos fotografias e depois levantámo-nos e começámos a vaguear pelo palácio, que é tão bonito que parece um museu". Ainda neste registo, Vega refere-se à forma como o público português a recebia, então, nos concertos.

Sobre "Ironbound/Fancy Poultry", música presente em "Solitude Standing" e que começa com uma referência às mulheres portuguesas, a cantora americana nota o seguinte: "Quando toco esse tema, as oito mil pessoas presentes na assistência, seja em Lisboa, Porto ou Cascais, aplaudem, gritam, cantam comigo e, felizes, levantam os braços e festejam".

Fonte: Blitz


Mais informações sobre a ligação a Portugal: The Wandrinstar (David Furtado) + Site oficial 

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

"The Poisoned Kiss and Other Stories from the Portuguese" de Joyce Carol Oates (1975)


Joyce Carol Oates é uma escritora norte-americana, nascida em 1938, que publicou em 1975 uma colectânea de contos a que deu o nome de "The Poisoned Kiss and Other Stories from the Portuguese".

Na nota prévia, a autora refere que os contos foram inspirados pela obra "Azulejos" de um autor imaginário, Fernandes de Briao.

"To the best of my knowledge he has no existence and has never existed, though without his very real guidance I would not have had access to the mystical ‘Portugal’ of the stories - nor would I have been compelled to recognize the authority of a world-view quite antithetical to my own”.

Disfarçada de Fernandes, Joyce Carol Oates descreve "um mapa errático (que) tanto acolhe o rio Lima como a Beira Alta, o Porto e Sintra mas também Lisboa, o Tejo, o Parque Eduardo VII , o Bairro Alto, a Praça de São Pedro de Alcántara (sic) ou o Museu de Arte Antiga, sem esquecer a Catedral de Évora ou Frexo-(sic)-de- Espada-à-Cinta"

Fonte: Carlos Marques, Universidade do Porto (net)

Dica: Alexandra Pereira