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sábado, 15 de dezembro de 2018

Chaby Pinheiro entre Portugal e o Brasil (início do século XX)

Revista "Ilustração Portuguesa" (1923)

Foi com a peça "Casa de Bonecas" de Ibsen que Chaby Pinheiro (1873-1933) fez a primeira das 28 travessias ao Atlântico. O actor conta no seu livro de memórias que, naquele tempo, a chegada de uma companhia portuguesa no Brasil era um grande acontecimento: "em geral, ia uma por ano; o máximo duas – uma de comédia, outra de opereta - que foi o que aconteceu então, indo depois de nós a Companhia de Sousa Bastos, do Trindade".

Estrearam no Rio de Janeiro, no Teatro Santana (hoje Carlos Gomes). A peça ficou em cartaz por 33 noites consecutivas e, segundo Chaby, "todo o Rio intelectual e artístico foi admirar a peça do Ibsen, na interpretação portuguesa".

No prazo de uma semana, Chaby diz ter conhecido pessoalmente as maiores celebridades das letras, artes e do jornalismo.
Parceira com Aura Abranches (1919)

No segundo mês no Rio, apresentaram as peças "Teresa de Raquin" (com base na obra de Zola), "O Cabelo Branco", "O Lenço Branco", além dos monólogos do repertório de Chaby.

Com este programa, o actor afirma que os jornais cariocas o elegeram como destaque da companhia.

No terceiro mês, a companhia encena a peça "A Lagartixa", recusada pela Companhia Sousa Bastos, recém-chegada ao Rio. Chaby interpretava um pequeno papel, porém os risos que provocava no público faziam o teatro vir abaixo. Por essa razão, o actor afirma que não existem pequenos papéis.

Do Rio, a companhia seguiu para São Paulo, onde apresentou o "Kean", de Alexandre Dumas, pai.

Revista "Ilustração Portuguesa" (1919)

Após a temporada em São Paulo, desceram para Santos, onde permanecem por 30 dias. Durante esse período, Chaby diz ter relido obras de autores portugueses e construído conhecimento das obras brasileiras de Machado de Assis e Coelho Neto, uma clara ocorrência da circulação cultural existente entre o Brasil e Portugal.

De Santos, seguiram para Buenos Aires e, mesmo apresentando as peças em português, impressionaram o público argentino com os cenários, pois, segundo Chaby, as companhias que passavam por lá não se importavam com a montagem dos espectáculos.

Os críticos argentinos destacaram a interpretação e a dicção do actor, tanto em verso quanto em prosa. E é sempre citada a questão do seu físico de 140 quilos não interferir na elegância e no desempenho dos seus personagens.


De Buenos Aires, seguiram para Montevidéu, e novamente para o Brasil, até chegar a Pelotas. De lá, seguiram novamente para o Rio, onde Chaby deu apoio a Serra, um actor português que actuava na opereta brasileira "A Viúva Clark", de Artur Azevedo, com Hermínia Adelaide como protagonista e João Silva. Ficaram em cartaz no Rio e em São Paulo com a peça "Mancha que limpa", por alguns meses, antes de regressarem a Portugal.

É igualmente dado destaque, no seu livro de memórias, a duas digressões ao Brasil, sendo que numa delas percorreu as regiões Norte e Nordeste, e na outra o Sul do país. Numa dessas digressões, o actor desempenhou o papel de director de cena (encenador) ao lado de Eduardo Brasão, o que, segundo Chaby, foi um grande passo na sua própria carreira.

O actor regressou à companhia Rosas & Brasão, por duas ocasiões, sendo que, na segunda, permaneceu por onze anos. Após esse tempo, organizou, juntamente com Aura Abranches, a companhia Aura-Chaby, com a qual fez outra notável digressão pelo Brasil, onde permaneceu por mais de um ano, seguindo posteriormente para a Argentina.


Companhia Leopoldo Fróes - Chaby Pinheiro (1928)

Em 1927 é constituída a Companhia Leopoldo Fróes–Chaby Pinheiro, em parceria com o actor brasileiro Leopoldo Froes. Nessa temporada, a companhia apresentou sete peças, sendo uma delas, encenação de um texto brasileiro: "o Gigolô". Essa digressão pelo Brasil teve grande êxito, segundo críticas de jornais transcritas no livro de memórias. Uma das críticas considera Chaby como a maior expressão artística do teatro lusitano.

Das peças representadas é de realçar "O Leão da Estrela", que deu origem ao clássico do cinema português com António Silva, e "O Conde Barão" (ambas da autoria de Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e João Bastos) e "O Café do Felisberto" (do autor brasileiro Gastão Tojeiro), no qual o comediante português se limitou a fazer um papel relativamente curto e sem importância (o patrão do "garçon" Alberto), tendo no entanto o prazer de arrancar numa cena curta, magistralmente representada, uma ovação tão vigorosa quanto a que Fróes recebia no final da peça.

Fontes: "Chaby Pinheiro e o fluxo cultural entre Brasil e Portugal" de Richard Bertolin de Oliveira e Albeto Ferreira da Rocha Junior (adaptado) / Blog "Histórias de Cinema" (parceria com Leopoldo Fróes) / Revista "Ilustração Portuguesa" (fotos) / wikiwand


terça-feira, 15 de março de 2016

Colónias portuguesas em "Exile" (1917) e "Burn" (1969)


"Exile" (1917)

Filme realizado por Maurice Tourneur para a Jesse L. Lasky Feature Play Co. (com distribuição da Paramount), protagonizado por Wyndham Standing (no papel de Vincento Perez) e Madame Olga Petrova (como Claudia Perez), sendo o argumento da autoria de Charles E. Whittaker, com base no livro "Exile, An Outpost of Empire" de Dolf Wyllarde (publicado em 1916).

Vincento Perez (interpretado por Wyndham Standing), governador da colónia portuguesa de Exile (na Arábia), é um homem sem escrúpulos e brutal que é odiado pelos nativos. Algo megalómano, Perez tenta controlar o mercado da seda, enviando uma carta ao engenheiro Harvey Richmond a revelar os seus planos.


Harvey ameaça divulgar as intenções de Perez, o que a ser publicado significaria a ruína de Perez, pelo que este decide enviar a sua esposa Claudia para o quarto de Harvey para o seduzir e tentar resgatar a carta.

Claudia entrega a carta ao marido, mas abandona-o. Depois de muito abuso, os nativos revoltam-se  contra o governador que é linchado pela multidão. Claudia é resgatada por Harvey e os dois enfrentam um futuro feliz juntos.

Entre os outros personagens que poderão ter origem portuguesa poderemos destacar Charles Martin como Manuel D'Alfrache.

Fontes: TCM / Wikipedia / America.pink 


"Burn !" ("Queimada !") (1969)

Filme italiano rodado em inglês sob direção de Gillo Pontecorvo com Marlon Brando no papel de Sir William Walker. O guião original referia-se a uma ilha espanhola, mas foi alterado para Portugal porque Espanha passava por um regime militar e o realizador tinha receio do filme ser censurado.

Grande parte dos personagens mantiveram os seus nomes espanhóis, como José Dolores em vez do correcto José das Dores. Assim o filme pode ser apontado como um exemplo de estereotipização étnica e linguística relativamente a Espanha e Portugal.


A acção decorre no século XIX quando um representante inglês é enviado para uma ilha (ficcional) do Caribe, que tem o sugestivo nome de "Queimada" (aludindo a um sangrento episódio do seu passado), que se encontra sob domínio português, para incentivar uma revolta para favorecer os negócios da coroa inglesa. Dez anos depois ele retorna, para depor quem ele colocou no poder, pois o momento económico exige um novo quadro político na região.

Fontes: Wikipedia / Youtube / Blog "Memória sindical"

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Os luso-americanos no cinema de Hollywood (II) - cinema mudo


A época do cinema mudo foi a que apresentou uma maior presença de luso-americanos, no entanto nos filmes “Martin Eden” (1914) e “Footfalls” (1921) os personagens de origem luso-americana na literatura passaram a não ter qualquer ligação a Portugal nas adaptações cinematográficas.

“Martin Eden” (1914)

Em “Martin Eden”, com base num dos romances mais autobiográficos de Jack London (publicado em 1909), a senhoria de Martin, enquanto este era um aspirante a escritor na zona de San Francisco, chamava-se Maria Silva, uma viúva trabalhadora com muitos filhos (entre as quais Mary, de 8 anos, e Teresa de 9) a quem Martin oferece uma quinta quando se torna rico.

No livro de Jack London a personagem tinha raízes portuguesas (1), mas passou a ser italiana no filme produzido pela Bosworth Film co. em 1914.

(1) "Ele pagava 2 dólares e meio por semana de renda por um pequeno quarto que pertencia a uma senhoria portuguesa, uma viúva trabalhadora e algo agreste, que ia aumentando a sua ninhada de alguma forma, e afogando a tristeza e fadiga num galão de vinho que adquiria na loja da esquina"


“The Paliser Case” ("Caso Paliser") de 1920

Um dos primeiros filmes mudos, a abordar a comunidade lusa (neste caso de Nova Iorque), foi “The Paliser Case” de 1920, dirigido por William Parke, adaptado do livro policial de Edgar Saltus (publicado em 1919).

O filme conta a história de Cassy Cara (interpretada por Pauline Frederick), que é uma jovem aspirante a cantora de ópera,  filha de Angelo Cara, um violinista de origem portuguesa (2), com uma deficiência física (3), que é acusada de matar o homem por quem se apaixonara, que está noivo de uma jovem da alta sociedade.


(2) No romance de Edgar Saltus, Angelo é descrito como sendo natural de Lisboa, tendo emigrado ainda jovem para a América.

(3) "Nós somos portugueses" diz Cassy, "ou pelo menos o meu pai é. Ele tocava no Metropolitan. Mas pôs-se a 'jeito' e numa noite em que regressava de uma casa privada, onde actuara, foi atacado por duas pessoas que o empurraram.

Cassy e Angelo Cara
Cassy está apaixonada por Keith Lennox, que está noivo de Margaret Austen, uma jovem da alta-sociedade. Margaret rompe com o noivado por julgar, erradamente, que Keith teria uma relação com Cassy. Mas, entretanto, Cassy fica noiva de Monty Paliser, sacrificando a sua felicidade pessoal por causa do seu mesquinho pai.

Cassy descobre que as intenções de Paliser não eram as melhores e que a cerimónia do seu casamento foi falsa, pois o padre era o jardineiro de Paliser disfarçado. Cassy abandona Paliser e relata a sua humilhação a Lennox.


Paliser acaba por ser assassinado à facada e as suspeitas recaem sobre Lennox. Para protege-lo, Cassy confessa que é autora do crime.

No fim descobre-se que o autor do crime foi o pai de Cassy, o violinista português, que acaba por morrer de ataque de coração.



“The Forbidden thing” de 1920

O primeiro filme realizado por Alain Dway para a Associated Productions foi adaptado de um conto de Mary Mears, publicado na revista Metropolitan Magazine em Abril de 1920.

“The Forbidden thing” conta a história de Abel Blake, um puritano da Nova Inglaterra (New England), que está apaixonado por Joan, mas que se deixa seduzir por Glory Prada, uma jovem portuguesa interpretada por Marcia Manon, descobrindo mais tarde que esta lhe era infiel.

Outros personagens de origem portuguesa são José Silva (proprietário de um circo ambulante que se envolve com Glory e que acaba por a matar) e Joe Portega, interpretados pelos actores Jack Roseleigh e Arthur Thalasso.



“Outside the Law” (1921)

“Outside the Law”, filme mudo de 1921, realizado por Tod Browning para a Universal Pictures, com argumento de Lucien Hubbard e Tod Browning.

Relata a história de um crime que decorre em San Francisco, sendo o filme protagonizado por Lon Chaney (o homem das mil caras) que interpreta dois papeis, um criminoso de origem portuguesa, “Black Mike” Sylva, e Ah Wing, de etnia chinesa.


"Footfalls" (1921)

Em “Footfalls” (William Fox Studios, filme mudo de 1921), tendo por base uma história de Wilbur Daniel Steele (que ganhou o prémio O. Henry Memorial Award em 1920), o protagonista era natural de São Miguel, Açores, na obra literária, com o improvável nome de Boaz Negro.

Boaz é um sapateiro cego da Nova Inglaterra que tem a capacidade de identificar as pessoas pelos seus passos. O seu filho chamava-se Manuel. Mas na adaptação cinematográfica passam a se chamar Hiram Scudder, o pai, e Tommy, o filho.

Tommy é suspeito de matar um empregado bancário, que era hóspede do seu pai, mas é o empregado bancário que acaba por ser identificado pelo protagonista como sendo o autor do crime (pois afinal o morto não era o empregado bancário).


“My son” (1925)

“My son” (First Nacional, filme mudo de 1925), com Alla Nazimova no papel de Ana Silva. Com base numa peça de Martha M. Stanley.

(Mais informações)


“The Yankee Clipper” (1927)

"The Yankee Clipper” (DeMille Pictures, filme mudo de 1927), realizado por Rupert Julian, adaptado de uma história de Denison Clift, relata uma corrida de barco desde a China até Boston, entre um norte-americano, Hal Winslow, e um inglês, Richard, que é o principal vilão da história.


Outro dos vilões é um dos homens da tripulação, conhecido como Portuguese Joe (interpretado por Walter Long), que além de ser um dos responsáveis por um motim, também tem interesse romântico por Jocelyn, que era noiva de Richard, mas que acaba por se enamorar por Winslow.


“Beware of Blondes” (1928)

Em “Beware of Blondes” (Columbia Pictures, filme mudo de 1928), realizado por George B. Seitz, que decorre num barco a vapor que transporta uma esmeralda preciosa para o Hawaii, que vai ser alvo de tentativa de roubo. O actor Harry Semels interpreta o papel de Portugee Joe, um dos personagens suspeitos que vão a bordo.

Fontes/Mais informações: Geoffrey L. Gomes "Cinematic portayals of Portuguese-Americans" / Mamie Caro / The moving Picture world

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Imagens e influências portuguesas na obra poética de Manuel Bandeira


Desde Camões, vê-se clara a influência lusitana na poesia brasileira – como demonstra o estudo de Gilberto Mendonça Telles (1973): "Camões e a poesia brasileira".

O poeta brasileiro Manuel Bandeira, que foi um dos maiores símbolos do modernismo brasileiro – tendo sido recitado por Ronald de Carvalho o poema “Os sapos”, em 1922, na conhecidíssima semana de arte moderna, terá sido aquele em que, nas palavras de Jorge de Sena, esse "veio profundo foi mais permanente".

É aliás inegável a profunda influência da poesia lusa em Manuel Bandeira. O próprio refere Camões, António Nobre, Eugénio de Castro, como tendo feito parte da sua formação e das suas fontes inspiradoras.


Manuel Bandeira reconheceu, no seu “Itinerário de Pasárgada” (1954), a enorme influência que a literatura portuguesa teve na sua formação e na criação da sua obra poética; não só Camões, cuja lírica lamentou ter apenas descoberto tardiamente: “o gosto que tomei a Camões, cujos principais episódios de “Os Lusíadas” sabia de cor (…). O que ainda hoje lamento é não ter tomado então conhecimento da lírica do maior poeta de nosso idioma.

Do Camões lírico apenas sabia o que vinha nas antologias escolares”, mas todos os outros com os quais manteve sempre estreitos laços, mesmo nos tempos mais radicais do primeiro modernismo brasileiro.


O biógrafo brasileiro de Pessoa, José Paulo Cavalcanti Filho , na sua monumental obra "Fernando Pessoa, uma quase autobiografia", além de aproximar o poeta português dos leitores brasileiros, estreita os laços entre o escritor lusitano e os poetas modernistas do Brasil, como Vinícius, Drummond e Bandeira – realçando semelhanças nos versos e nos temas.

Ao assumir as influências lusitanas, Manuel Bandeira não trai o ideal de uma cultura autenticamente brasileira, talvez, por entender que elas devem ser tomadas, juntamente com as indígenas e africanas, como fonte para construção de nossa identidade. O poeta em questão, ao se posicionar de maneira mais flexível e à margem do movimento, acaba por não se contradizer como acontece com a maioria dos modernistas de 22.

Livro de Gilberto Mendonça Telles (1973)

"A Camões"

Quando n’alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de Beleza.

Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente

Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.

O soneto “A Camões” está presente no primeiro livro de Manuel Bandeira, "A cinza das horas" (1917). Para esta homenagem a Camões, o autor utiliza-se da intertextualidade , tão em voga na poesia moderna e muito frequente em Manuel Bandeira, e dela vai se servir para reescrever outras tantas formas clássicas, atitude que podemos entender como mais uma maneira do poeta de cultivar e preservar a tradição.



Em "Mafuá do malungo" (1948) aparecem três outras referências ao poeta: nas poesias “Portugal, meu avozinho” e “Improviso”; e em “Ad Instar Delphini”, invocando o poeta: “Camões, valei-me! Adamastor, Magriço”.

 É importante acrescentar que Camões, ao contrário do que se podia esperar, foi homenageado pela maioria dos poetas modernistas brasileiros, acerca da presença de Camões no Modernismo brasileiro, Gilberto M. Teles diz o seguinte: “Tinha-se a impressão de que o Modernismo ia também combater Camões, que trazia para a época dupla conotação de passado: o da Literatura e o do colonialismo português.

Mas a surpresa é que, com excepção apenas do actualíssimo João Cabral de Melo Neto (...), todos os poetas modernistas pagaram seu tributo à obras de Camões, transformando-a, lírica e épica, em temas de poesia e através de alusões, paráfrases, parábolas, através de todas as formas de referência, procuraram homenagear Camões (...).” e explica tal ocorrência pelo fato de que entendiam “que Camões estava acima dos nacionalismos e das ideologias de esquerda ou de direita. (...) Camões é sentido como génio, autor universal, e podia, portanto ser festejado sem isso implicar “colonialismo literário” (...).”

Viagem de 1957 de Craveiro Lopes ao Brasil (1)

"Craveiro dá-me uma rosa"

Craveiro, dá-me uma rosa!
Mas não qualquer, General:
Que eu quero, Craveiro, a rosa
Mais linda de Portugal!

Não me dês rosa de sal.
Não me dês rosa de azar.
Não me dês, Craveiro, rosa
Dos jardins de Salazar!
A Portugal mando um cravo.
Mas não qualquer, General:
Mando o cravo mais bonito
Da minha terra natal!

Este é outro poema presente no "Mafuá do malungo" e em que Manuel Bandeira dirige-se ao General Craveiro Lopes, quando este visitou o Brasil, referindo-se à falta de liberdade que imperava em Portugal .

Viagem de 1957 (2)

Tal qual “Portugal, meu avozinho” o poema acima é desenvolvido em redondilhas maiores e dividido em quartetos. Além das coincidências formais, em “Craveiro, dá-me uma rosa”, o poeta sugere um vínculo entre os dois países, através da troca cultural, “a rosa” pelo “cravo”, que por serem caracterizados pela beleza, podem simbolizar as artes.

Enfim, um elo de amizade e cultura entre dois países irmãos que só pode estabelecer-se pelas vias culturais e jamais pela política obscurantista de então, que, pela sua miopia, só visam ao progresso alicerçado em ideais estéreis, chegando, como se pode constatar hoje, a lugar nenhum.


"Improviso"

Glória aos poetas de Portugal.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garret, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
- Glória a Teixeira de Pascoais.

Tomamos como ponto de partida o poema “Improviso”, também do livro "Mafuá do malungo". O poema composto em octossílabos, -empregados na poesia cortesã da Idade Média e calcada em moldes provençais, “que até meados do século findo, e ainda depois, os poetas de Portugal e do Brasil geralmente não o consideraram digno de ser contemplado em suas composições.”- , cujo título “Improviso” remete ao gênero largamente praticado na Idade Média sob a forma de epigramas, madrigais e quadrinhas musicadas.

Manuel Bandeira para saudar os poetas portugueses, utilizou-se de uma estrutura clássica com o mesmo despojamento com que se utilizava dos versos livres, o que se verifica nos dois poemas citados e como se verificará nos três próximos poemas.

Em seu “Improviso”, o poeta faz referência a alguns dos principais nomes da Literatura Portuguesa de todos os tempos. Seguindo a ordem cronológica, glorifica e coloca em um plano divino os poetas reconhecidos como ícones, dos quais não só literatos portugueses, como também os brasileiros, receberam e recebem influências.


"A Antônio Nobre"

Tu que penaste tanto e em cujo canto
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto faz correr o pranto:
Com que magoado olhar, magoado espanto

Revejo em teu destino o meu destino!
Essa dor de tossir bebendo o ar fino,
A esmorecer e desejando tanto...

Mas tu dormiste em paz como as crianças.
Sorriu a Glória às tuas esperanças
E beijou-te na boca... O lindo som!

Quem me dará o beijo que cobiço?
Foste conde aos vinte anos... Eu, nem isso...

Eu, não terei a Glória... nem fui bom.

"A Antônio Nobre” é outro soneto do livro "A cinza das horas", em que também podemos observar a intertextualidade. Há uma referência clara de Manuel Bandeira ao segundo terceto do soneto formado de decassílabos, sem título, presente no capítulo “Sonetos - 3”, da única obra de Antônio Nobre, Só; a estrofe é a seguinte: “O meu Condado, o meu condado, sim!/ Porque eu já fui um poderoso Conde,/ Naquela idade em que se é conde assim...” .


Massaud Moisés faz as seguintes observações acerca de “A Antonio Nobre”: “de silhueta Parnasiano Simbolista, e fruto da coincidência entre a moléstia de Manuel Bandeira e do poeta português, traduz uma predileção estética da juventude, a poesia de Manuel Bandeira constitui uma espécie de diário íntimo, registro lírico dum dia-a-dia em que a arte era o prato obrigatório.” Aqui, mais uma vez, podemos constatar a influência de um poeta lusitano, Antonio Nobre é uma constante na obra de Manuel Bandeira, verificáveis em seu coloquialismo e penumbrismo .

Em “A Antonio Nobre”, Manuel Bandeira expressa sua homenagem ao poeta que o emociona “E cujo pranto faz correr o pranto”, e com quem se identifica “Revejo em teu destino o meu destino!”; porém a “Glória” de ter morrido ainda jovem não “sorriu” a Manuel Bandeira, que lamenta, com sua habitual modéstia, não ter tido a mesma sorte, nem o mesmo talento: “Eu, não terei a Glória.nem fui bom.”


Jaime Cortesão

Honra ao que, bom português,
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.

Para finalizar a presente exposição sobre as homenagens de Manuel Bandeira a poetas portugueses, temos uma quadrinha em redondilhas maiores que o poeta dedica a Jaime Cortesão, presente em "Mafuá do malungo". (...)

Fontes/Mais informações: Blog da Professora Eleandra Lelli (texto principal) /  "Camões e a Poesia Brasileira" de Gilberto Mendonça Teles / Tese de Maria da Natividade Esteves Gonçalves / Felipe Garcia de Medeiros

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

"Imperador de Portugal" de Selma Lagerlof (1914)


Selma Lagerlöf, nascida em Mårbacka, Suécia, em 20 de Novembro de 1858 foi uma escritora sueca que recebeu em 1909 o Prémio Nobel de literatura.

Em 1914 publicou "Kejsarn av Portugallien" ("Imperador de Portugal").

A obra narra a história de um camponês sueco que enlouquece quando a filha se muda para Estocolmo. Na sua loucura, ele pensa que a filha é imperadora de "Portugália", e ele o imperador desse país quimérico.

Sinopse

"Imperador de Portugal" é a história de um pobre camponês da Suécia, que acabou por enlouquecer com o facto de a filha ir para Estocolmo para ganhar o dinheiro necessário ao pagamento de uma dívida de família.

O homem passou a aguardar quase diariamente, no embarcadouro, o regresso da filha. E um dia em que lhe fizeram algumas insinuações sobre os verdadeiros motivos da ausência da menina, Jan declarou:

«Quando a Imperatriz Clara de Portugal chegar aqui ao embarcadouro, com uma coroa de oiro na cabeça… veremos se te atreves a dizer-lhe na cara o que hoje me disseste a mim». A partir de então, o homem tornou-se Johannes de Portugal!



Há quem admita que "O Imperador de Portugal" tenha tido por inspiração a vida de Joshua Abraham Norton, um estranho personagem de San Francisco, que em 1859 se auto-intitulou Norton I, Imperador destes Estados Unidos e Protector do México, chegando a cunhar moeda, a corresponder-se com a Rainha Vitória sendo sempre tratado com deferência pelos seus conterrâneos.

Fonte: Estúdio do livro

O livro foi adaptado ao cinema (em 1925 e 1944) e televisão (em 1992).

"No reino da Quimera" (1925)

Filme mudo realizado em 1925, nos E.U.A., por Victor Sjöstrom, com o título original de "The Tower of Lies", com interpretação de actores de elevado prestígio como Lon Chaney e Norma Shearer.

"Keijsarn av Portugallien" (1944) 

Filme sueco de Gustaf Molander protagonizado por Victor Sjöstrom (que realizara o filme de 1925).

 


"Keijsarn av Portugallien" (1992)

Adaptação para televisão de Lars Molin com interpretações de Ingvar Hirdwall, Gunilla Nyroos, Per Oscarsson e Rolf Lassgärd.