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terça-feira, 15 de setembro de 2020

Ercília Costa, a primeira fadista com projecção internacional


Ercília Costa (Costa de Caparica, 1902-1985) foi uma actriz de revista, compositora e fadista portuguesa. Foi a primeira fadista portuguesa de projecção internacional, a primeira a fazer uma digressão no estrangeiro. 

Popular na primeira metade do século XX, tempos em que recebeu as alcunhas de "Sereia peregrina do Fado", "Santa do Fado" e "Toutinegra do Fado", o seu nome é hoje pouco recordado, visto que as gravações discográficas que realizou são anteriores à década de 1950, altura em que o disco gravado começou a popularizar-se em solo luso. 

 

Foi a estrela de maior fulgor na década de 30 e de início dos anos 40, chegando a actuar em França, Espanha, Estados Unidos  da América (em 1939 e 1947), Brasil (1936-1937, 1938 e 1945), Uruguai e Argentina, onde encantou plateias e colheu excelente crítica. 

Em 1936 inicia uma série de espectáculos no Brasil, integrada na Companhia de Revista Adelina Abranches-Eva Stachino, actuando no Teatro República, no Rio de Janeiro, na revista "Peixe Espada" e no Cassino Antárctica, em São Paulo, na revista “Sol de nossa Terra”.

 

Além dos inúmeros espectáculos, cantou ao microfone da Emissora Nacional Brasileira e no maior teatro do Brasil, o Teatro República. 

No final de 1936 regressa ao Brasil para participar, ainda com a "Companhia de Revista Adelina Abranches-Eva Stachino", nas revistas “Arraial” e “Ai Ló”. 

Actuou no início de 1937 nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo bem como na emissora nacional brasileira P.R.E. 8, antes de regressar a Portugal em Fevereiro de 1937.

 

Ainda em 1937, Ercília Costa viaja até Paris para actuar na Exposição Universal de Paris, numa récita de gala no Grande Teatro dos Campos Elísios, em Paris, a convite do Secretariado de Propaganda Nacional (S.P.N.). E participa igualmente numa emissão da Rádio-Parisiènne. 

Em 1938 participa em Portugal na Opereta “Coração de Alfama”, que posteriormente é apresentada no Brasil no teatro Recreio também com a participação da fadista. Ainda nesse ano faz parte do elenco da peça “Oláré quem brinca” no Teatro Recreio e depois no Alhambra, na Cinelândia no Rio de Janeiro.

Também em 1938 conseguiu um contrato para a Argentina, com a Alubra Rádio Films de Buenos Aires, sendo acompanhada pelo cantor luso-brasileiro Manoel Monteiro e pelos músicos António Rodrigues e Gonçalves Dias.


Em 1939 desloca-se aos Estados Unidos, a convite do Secretariado de Propaganda Nacional - e do embaixador de Portugal João Bianchi -  para actuar, conjuntamente com Carlos Ramos, num espectáculo no Pavilhão Português da "Feira Mundial de Nova Iorque". 

A esta actuação na grande exposição de Nova Iorque seguem-se dez meses de actuações por 26 Estados, nomeadamente na Califórnia onde actua com grande sucesso em Los Angeles e em Hollywood, onde conheceu artistas como Bing Crosby, Gary Cooper, Carmen Miranda e outros astros de Hollywood.

Recebeu um convite para cantar na Universidade de Oakland, Califórnia. Trajando roupas típicas da terra portuguesa, encantou e obteve uma consagração. Não houve um só professor, nem sequer um aluno que a deixasse de aplaudir, a ponto de oferecerem-lhe um almoço, no qual tomaram parte os cônsules português e brasileiro. 


Em 1945 realiza a sua terceira digressão no Brasil, actuando como vedeta internacional da Companhia brasileira Jararaca - Ratinho - Alda Garrido e participando, durante quinze meses, em espectáculos em teatros, cinemas e estações de rádio.

A Revista "A Cena Muda" dá destaque à cantora portuguesa realçando que "é a terceira vez que vem ao Brasil para trabalhar em nossos palcos, o que bem justifica sua aceitação pelo povo brasileiro. Das vezes anteriores ela acompanhou elencos portugueses. Agora porem, trabalha numa companhia bem nossa, onde pontificam quatro cômicos popularíssimos".


As suas primeiras gravações discográficas datam de 1929, altura em que se deslocou a Madrid para gravar para a Odeon, integrando uma comitiva constituída por Berta Cardoso, Joaquim Campos e Cecília de Almeida, sendo todos os fadistas acompanhados pela guitarra portuguesa às mãos de Armandinho e pela viola de Georgino de Sousa. 

Posteriormente terá também edições discográficas em Portugal, bem como no Brasil e nos Estados Unidos. 

No Teatro República, no Rio de Janeiro, terá sido descerrada uma lápide em sua homenagem comemorativa da sua passagem pelo Rio de Janeiro. 

No Brasil realizou-se uma exposição de fotografias suas intitulada "A Maga do Fado que o Brasil não esquece".

Fontes: Museu do Fado  / Tese de Cátia Sofia Ferreira Tuna "Não sei se canto se rezo" / Videograma de Nunes Forte  / "Enciclopédia Fadista Luso-Brasileira" com coordenação de Thais Matarazzo / Página do FB do livro "Ercília Costa - Sereia Peregrina do Fado" + Entrevista de Germano Campos a Jorge Trigo aquando da sua edição (I)(II) / Revista "A Cena Muda" / Gandaia.info / Nunes Fortes (youtube) / David Ferreira a cantar (I) / wikipedia



quarta-feira, 15 de julho de 2020

Os fados de Nicolino Milano: "Fado Liró" e "Lulu Fado"

 

No início do Século XX, um período marcado pela presença massiva de maestros e compositores portugueses no Rio de Janeiro, o compositor brasileiro Nicolino Milano empreendeu o caminho inverso, conquistando expressivo sucesso comercial em Portugal e mais tarde em França.

Nicolino Milano tornou-se conhecido em Portugal mesmo antes de sua chegada a Portugal. Sousa Bastos, na sua "Carteira do Artista", publicada em Lisboa, em 1898, testemunhava que Nicolino Milano era, na época, um dos mais destacados músicos do Rio de Janeiro.


Nicolino Milano viajou para Lisboa em 1906, actuando como regente do Teatro da Avenida, aquando da representação da revista “A.B.C.”, de Acácio de Paiva e Ernesto Rodrigues. Uma das peças musicais dessa revista tornar-se-ia o grande sucesso popular de Nicolino Milano: o “Fado Liró”.

Em 1909, a companhia do Teatro da Avenida trouxe a “A.B.C.” para o Brasil, estreando no Teatro Apolo do Rio de Janeiro.

"Os Geraldos" na revista "O Malho"

O “Fado Liró”, que "levava a palma ao próprio choro", alcançou também no Brasil considerável sucesso, popularizando-se então, com ritmo de marcha, no carnaval de 1911:

"Guitarra, guitarra geme/que meu peito todo freme/Quando choras pianinho/Não há fado com mais alma/Que o liró, pois leva a palma/Até ao próprio choradinho/As condessas e duquesas/Ao contá-lo pedem meças/Sem receio de perder/Nas areias de Cascais/Tem meu fado encantos tais/Que é da gente endoidecer/Oh! Oh! Oh! Oh!" etc.


O "Fado Liró" foi gravado, entre 1909 e 1913, por Os Geraldos, Mário Pinheiro, Banda Escudero, Almeida Cruz e Moysés Mondadori. E em 1953 foi gravado por Joaquim Pinheiro.
 
E o mais curioso é que em 1912, no ano seguinte ao desse Carnaval em que o fado português de um brasileiro se transformara em marchinha foliona de rua, uma marcha composta pelo português Filipe Duarte para a revista "O país do vinho" – estreada no Teatro Recreio em junho de 1910 e aí reposta em 1911 – transformar-se-ia, abrasileirada, num dos mais constantes sucessos do Carnaval no Brasil a partir daquele ano de 1912: “A Vassourinha”.
 

Nicolino Milano fica na história da música portuguesa e brasileira, sobretudo com "Fado Liró", mas foi com "Lulu-fado" (com o subtítulo "Le Vrai Fado Portugais") - que foi uma criação de L. Duque na sua adaptação para piano ou para piano e canto - que obteve maior reconhecimento internacional, nomeadamente em França e Bélgica e, posteriormente, nos Estados Unidos da América em associação à dança do mesmo nome.

A versão (ou original ?) de "Lulu -Fado" em português, com letra de Guedes d'Oliveira, intitulava-se "Fado Gramacho", tendo sido gravada por Medina de Sousa e coro.



"Lu Lu fado (Le vrai fado portugais)" foi gravada, em 1914, pela Conway's Band (que gravou 169 fonogramas) e pela Prince's Orchestra.

Foi igualmente gravada pela National Promenade Band em 1914 e por Manuel Carvalho (com a International Novelty Orchestra) em 1924.



Maurice Mouvet, norte-americano de ascendência belga, e a esposa Florence Walton terão sido os  criadores do "Lulu-Fado" como estilo de dança como é referido na partitura acima.

Esse estilo de dança foi altamente publicitado, em diversos jornais norte-americanos, sobretudo em 1914, acompanhando assim a tendência de criação de inúmeros estilos de dança no período do Ragtime. Foi inclusive incluido numa série de artigos denominada "How To Do the New Dances".

Uma das críticas que se apontava ao novo estilo "Lulu Fado" é que só existia uma música ("Lulu Fado" de Nicolino Milano) para dançar esse estilo de dança.




Foi igualmente publicada no Jornal The Star a forma de dançar o "Lulu Fado" na série "How to dance the Modern Dances" pelo autor de "Social Dancing of Today"John Murry Anderson.


Melvin M. Franklin, coreógrafo norte-americano de origem alemã, foi o criador do estilo de dança "Lulu Fada" em 1915 (ou em 1914 segundo outras fontes), que seria uma variante do "Lulu Fado", incluído em "Famous Dancers Collection".


Foi igualmente criado o Lulu Foxtrot, em 1917, por Robert T. Almond, que combinava o Foxtrot com o Lulu Fado (que seria "a portuguese one-step /polka), ambos de 1914.


Nicolino Milano, que ficou igualmente famoso por compor outros estilos de música (nomeadamente os Hinos do Pará e de Pernambuco e a marcha do centenário) compôs igualmente o "Fado do Cigarro" mais conhecido por ter uma partitura da autoria de Stuart Carvalhais.


Links: "Fado Liró" por Mário Pinheiro  e Joaquim Ramos  / "Lulu Fado" (instrumental) / Lulu fado (dança) / Lulu Fado (ampico Lexington) / "Lulu fada"

Fontes/Mais informações:  Marcelo Bonavides / Meloteca / Wikipedia / Revista Brasil-Europa / "Diálogos luso-brasileiros no Acervo José Moças da Universidade de Aveiro" de Pedro Aragão/ Dança (1)(2)(3)(4)(5)(6) /  Discografia (EUA)(Brasil)(Rolos de Piano) / "A música popular no romance brasileiro" de José Ramos Tinhorão / Dicionário

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Uma futura Rainha Aventureira em "Os Diamantes da Coroa" (1841)



"Les diamants de la Couronne" é uma ópera cómica em três actos, com libreto de Eugène Scribe e música de Daniel-François-Esprit Auber. A peça decorre em 1777 em Portugal, sendo os dois primeiros actos em Coimbra e o terceiro acto em Lisboa.

No enredo a futura rainha de Portugal, D. Maria, resolve substituir os diamantes pertencentes à Coroa Portuguesa por cópias fiéis feitas de cristais lapidados, com o objectivo de saldar a dívida de Portugal. Entre os personagens é de realçar o Conde de Campo Mayor, o regente, a sua filha Diana, D. Sebastião de Aveiro, jovem oficial, Reboleddo, o falsário, e Catalina, sua suposta neta (que será a futura rainha D. Maria).
 

Em 1777, durante os últimos tempos de reinado de José I e da menoridade de Maria Francisca, sua filha e futura rainha, Portugal enfrentava uma severa crise financeira e agrícola, sua população sofria com a fome e com o frio. A situação se agravava dia a dia e a miséria do povo inquietava Maria Francisca.

Como solução para o problema, a futura rainha de Portugal resolveu substituir os diamantes pertencentes à Coroa Portuguesa por cópias fiéis feitas de cristais lapidados, com a ajuda de um falsário, conhecido como Rebolledo, que ela havia conhecido nas prisões da Inquisição.


Maria Francisca acompanhou cuidadosamente o trabalho de Rebolledo e quando as cópias das joias ficaram prontas ela as colocou no lugar das verdadeiras, as quais tinham grande valor, o suficiente para recuperar as finanças do país.

A futura rainha de Portugal disfarçou-se, então, de chefe de um bando de contrabandista, passando-se por uma mulher da região da Boémia, de nome Catharina, estratégia para poder negociar as pedras da Coroa sem macular a casa real com contravenções.


Assim como havia sido planeado, a venda das pedras preciosas trouxe grandes somas aos caixas do Estado, possibilitando que Portugal conseguisse superar a difícil situação na qual se encontrava. O que não se esperava é que a futura Rainha seria desmascarada.

Este é o enredo da ópera-cómica "Les diamants de la Couronne", de Eugène Scribe, com música de Daniel-François-Esprit Auber, submetido ao parecer censório do Conservatório Dramático Brasileiro, pelo director da Compagnie Lyrique Française, em 1846. A intenção era apresentar a peça no Teatro de São Francisco, um dos pequenos teatros do Rio de Janeiro. Mas, a peça não agradou em nada ao grupo de censores.


O primeiro pedido de licença para a apresentação de "Les diamants de la Couronne" num teatro do Rio de Janeiro foi feito ao Conservatório Dramático pela Compagnie Dramatique Française, em 1844. Já supondo que a história narrada na peça pudesse causar problemas para a sua aprovação, o director do teatro francês substituiu o local onde os eventos ocorriam, colocando a Suécia no lugar de Portugal. A artimanha não funcionou, a peça foi censurada.

Depois da proibição inicial, outro pedido de avaliação foi feito em 27 de setembro de 1846, quando a Compagnie Lyrique Française, sediada no Rio de Janeiro, submete novamente (sem sucesso) a peça à censura do Conservatório, agora sem modificar em nada o libreto de Scribe, pedido que causa maior frenesi nos censores.

Adaptação para TV (1999)

Entendidas as possibilidades oferecidas pelo censor, o director da companhia francesa submete outra vez a peça à análise, em dezembro de 1846. Mas, agora, os acontecimentos narrados na peça se passam na Dinamarca, em 1387, no final do reinado de Waldemar III e de sua filha Margarida, distanciando a possibilidade de ligação histórica da família real brasileira de um acto de contravenção, mesmo que esse acto fosse objecto de uma peça teatral e não em de texto historiográfico. Para os censores, isso bastou para isentar a peça da acusação de imoralidade. Para garantir que a ilusão do teatro não subverta a História de Portugal, o empresário responsável pelo espectáculo ainda se compromete a modificar o vestuário, colocando todos os artistas com trajes da Idade Média, sem nenhuma referência à cultura e aos costumes portugueses.

Fonte: Denise Scandarolli  (em "Café História") (adaptado)

Foi igualmente adaptado para Zarzuela:

Adaptação para Zarzuela

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Temas, situações e personagens ligados à história de Portugal ou à sociedade portuguesa em "A Hospedaria Portuguesa" e outras obras


O livro de Antero Palma-Carlos, “Os Médicos, a Ópera e a História”, contém referências desenvolvidas e evocações seleccionadas de óperas, portuguesas ou não, relacionadas com temários, situações e personagens ligados à história de Portugal ou à sociedade portuguesa: "Vasco da Gama - L'Africaine" de Meyerber, "Jessonda" de Spohr, "Il Guarany" de António Carlos Gomes, "D. Sebastien Roi du Portugal" de Donizetti, “L'Hotellerie Portugaise” de Cherubini, “Blimunda” de Corghi ou “Les Diamands de la Couronne” de Auber.

Mas acrescenta mais uma larga dezena de títulos de obras de compositores portugueses e estrangeiros também apresentadas no Teatro de São Carlos e no Coliseu dos Recreios, de temário português, independentemente da nacionalidade do compositor. E essas, curiosamente, tanto englobam óperas como cantatas e composições diversas de música e cena, cobrindo os séculos de História e a variedade imensa de compositores e escritores, desde os citados mas também por exemplo escritores e compositores como Ruy Coelho (compositor e maestro português), Azio Corghi, Marcos Portugal (que nasceu em Portugal e faleceu no Brasil), João Arroio (autor de "Amor de Perdição", natural do Porto), Daniel Auber, Barahona Fragoso (de Cuba no Alentejo) e tantos mais!...

Fonte: Duarte Ivo Cruz  (adaptado)


"L'Hôtellerie portugaise" ("A Hospedaria Portuguesa") (1798)




"Jessonda" (1823)


"Les Diamants de La Couronne" ("Os Diamantes da Coroa") (1841)


"Dom Sebastião" (1843)


"L'africaine" ("A Africana") (1865)


"Il Guarany" (1870)



"Il Guarany" (em português, "O Guarani") é uma das óperas do compositor brasileiro Antônio Carlos Gomes. É uma ópera ballo em quatro actos,  com libreto em italiano de Antônio Scalvini, com  base no famoso romance homónimo de José de Alencar.

Estreou no Teatro Scala de Milão, em Itália, em 19 de março de 1870, com grandioso sucesso. A ópera "Il Guarany" tem como maior destaque a sua abertura.


Entre os personagens de origem portuguesa é de  realçar Don Álvaro, (aventureiro português), D. Antônio de Mariz, (velho fidalgo português) e Cecília (filha de Don Antônio).

"Blimunda" (1989)
 

Fontes: wikipedia ("Hôtellerie ..." / "Jessonda" / "Les diamants ..." / "Il Guarany")

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Ester Leão (1892-1971) - uma portuguesa no Teatro Brasileiro



Ester Leão aceitou em 1931 o convite para participar na temporada portuguesa da peça "Deus lhe Pague" de Joracy Camargo, produzida pela companhia do brasileiro Procópio Ferreira, interpretando o principal papel feminino, Nancy, mulher do Mendigo Filósofo.

Finda a carreira do espectáculo no nosso país, a actriz envolve-se na sua digressão por terras de Vera Cruz, de onde nunca mais voltou. O retumbante sucesso da actriz nos palcos brasileiros e o "abastardamento da vida teatral portuguesa, que a censura fascista e a desorganização empresarial condenavam à mediocridade e ao conservadorismo", foi o que bastou para que ela cedesse aos vários e insistentes apelos para que assumisse a direcção do Teatro do Estudante do Brasil (TEB).


Em dez anos de dedicação ao TEB, Ester Leão, para além de ter tido influência na formação de muitos actores brasileiros, produziu alguns dos melhores espectáculos daquela época, a partir de textos clássicos e modernos.

"Os Romanescos" de Edmond Rostand, "Leonor de Mendonça" de Gonçalves Dias e "O Jesuíta" de José Alencar foram os três primeiros de uma longa série de sucessos. O mais popular foi sem dúvida o que ela encenou para a estreia daquela que viria a ser considerada por muitos como a maior actriz brasileira de sempre: Cacilda Becker.

Com o mesmo texto ("Três Mil Metros de Altitude", com o título alterado para "Alegres Canções da Montanha"), ela lançaria mais tarde outro nome maior do outro lado do Atlântico: Fernanda Montenegro.


Ester Leão era uma mulher severa, rigorosa no trabalho, mas sempre muito bem-humorada e solidária com as equipas que dirigiu ou integrou, quer como professora, actriz ou encenadora.

Para além da sua inestimável colaboração como professora no TEB e, mais tarde, no Teatro Universitário, e para além ainda de algumas das suas memoráveis criações como intérprete, o que fica sobretudo de seu para a história das artes cénicas brasileiras é o honroso título de Rainha do Teatro que conquistou pelas suas geniais encenações, de que são exemplos mais brilhantes os espectáculos "Romeu e Julieta" de Shakespeare, "Castro" de António Ferreira, "A Dama da Madrugada" de Casona, "O Pai" de Strindberg e "A Morte de Um Caixeiro Viajante" de Arthur Miller.


Para além de ter sido actriz e encenadora nas mais prestigiadas estruturas de produção brasileiras dos dois primeiros terços do século XX, entre as quais se destacam o Teatro de Arte, o Teatro Duse, e as Companhias de Eva Todor, Alma Flora e Luís Iglésias Freire, Ester Leão foi também pioneira do ensino de dicção, corrigindo a voz não só de actores, mas também de ministros e deputados, entre os quais figurava Carlos Lacerda, um dos mais férreos opositores ao ditador Getúlio Vargas.

Fontes: "Entres mares e palcos - notas sobre Esther Leão (1892-1971) - Uma portuguesa no Teatro Brasileiro" (livro "Dramaturgia em Cena") / Facebook  / Blog "Mulheres Ilustres" (Fabulásticas) / Ângela de Castro Reis (1) / Enciclopédia Itaú Cultural / Museu da TV / "Portugueses do Brasil e Brasileiros de Portugal" de Leonor Xavier 

sexta-feira, 15 de março de 2019

A influência Portuguesa no Teatro Brasileiro e as Rotas de Teatro entre Portugal e Brasil


O teatro brasileiro foi construído a partir da presença de actores portugueses, que abundaram nos palcos brasileiros até as primeiras décadas do século XX. Actores como Furtado Coelho, Lucinda Simões, Cristiano de Sousa, José Ricardo, Palmira Bastos, Adelina Abranches, Chaby Pinheiro, empresários como Sousa Bastos e Visconde de São Luís Braga, sentiam-se tão à vontade no Rio de Janeiro quanto em Lisboa, “repartindo fraternalmente as suas temporadas entre os dois países”.

O público de Lisboa não era suficiente para justificar mais de quatro dias de espectáculo por semana, pelo que as digressões ao Porto e ao Brasil se tornavam uma importante fonte de rendimento.

Lucinda Simões e Furtado Coelho

Cláudia Sales Oliveira escreveu um artigo acerca das digressões de actores portugueses no Brasil, durante os séculos XIX e XX. Utilizando relatos de actores como Lucinda Simões (que foi casada com Furtado Coelho), Eduardo Brasão, Adelina Abranches, entre outros, a autora comenta que um dos possíveis motivos para essas temporadas em outro país era o excesso de oferta de peças de declamação em Portugal, que não atraíam um grande público.

Além disso, a temporada teatral dos principais teatros de Lisboa (D. Maria II, Ginásio, Príncipe Real e D. Amélia) acabava em maio, só retornando em outubro. Nesse "meio tempo", os actores se juntavam em outros trabalhos, inclusive nas viagens para o Brasil, com elencos diferentes e apresentando seu “capital” que eram os repertórios.

Ainda em 1921, o "Jornal das Moças" referia a existência de concorrência desleal por parte das companhias estrangeiras:  "Como se sabe essas 'troupes' [estrangeiras] têm a despesa muito menor que as nacionais, pois trazem as suas peças montadas e o seu guarda-roupa feito, o que não acontece com as nossas que são obrigadas à despesa dos cenários, roupas e adereços. E o que é interessante é que as nossas companhias, com a despesa muito maior, pagam os mesmos impostos que as estrangeiras".

Eduardo Brazão


Eduardo Brazão, um dos mais importantes actores portugueses da segunda metade do Séc. XIX, actuou pela primeira vez no Brasil em 1870, país onde ganharia enorme prestígio e se deslocaria regularmente ao longo dos anos.

A convite de Furtado Coelho, actuou no Rio de Janeiro, no Theatro de Furtado Coelho, durante 10 meses ao lado de Emília Adelaide, fazendo, entre outras peças, a "Calumnia", "Capitão Montambuche", "Jogo", "Mocidade de Fígaro", "Pupílas do Senhor Reitor" e "Cornélio Guerra".

No Outono de 1876, Eduardo Brazão volta ao Brasil, sendo convidado a ir a Pernambuco com Joaquim de Almeida, representar na Companhia da actriz brasileira Isménia dos Santos. Posteriormente seguiu viagem para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na empresa de José António do Vale.



O actor é novamente convidado para actuar no Brasil em Junho de 1879, numa companhia de Pernambuco. Levando consigo o "Kean", de Alexandre Dumas, bem como "Os Fidalgos da Casa Mourisca" de Júlio Dinis e a "Morgadinha de Val'Flor" de Pinho Chagas. Seguiram-se representações no Pará (Teatro da Paz) e no Maranhão.
Regressa ao Brasil em 1880, obtendo um grande sucesso quer no Rio de Janeiro, quer em Campinas, Santos e São Paulo, onde a crítica o crisma de actor moderno.

A Eduardo Brazão se deve a representação em português das tragédias de Shakespeare, que assim podem ser apreciadas pelo público menos instruído, visto que, até essa altura, só eram exibidas em Portugal e no Brasil por Companhias estrangeiras.


José António Vale (actor Valle)



Foi ao Brasil e representou no Rio de Janeiro, no teatro de S. Luiz, de que era empresário Furtado Coelho, nas comédias "O Mestre Jerónimo" e "Quem o feio ama". Agradou imenso, recebendo fartos aplausos, ganhando logo as maiores simpatias. Obteve um sucesso no papel de Vasco da mágica "A Pera de Satanás".

Não tardou, que se tornasse empresário, e tanto se insinuou no meio teatral, que era ele quem "dava leis" a todos os teatros do Rio de Janeiro. Foi ele quem levou para ali a actriz Ana Cardoso, os actores Silva Pereira, Silveira e outros.

Percorreu com a sua companhia todo o Brasil, estando em S. Paulo, Santos, Campinas, Rio Grande do Sul, etc., sendo sempre muito aplaudido.

Estreou no Brasil o género dramático, representando o "Paralítico", o "Centenário", e a "Criança de 90 anos". Chegou-lhe depois a hora da adversidade, o que ordinariamente sucede a todos os empresários, e Vale resolveu voltar a Lisboa.

Emília Adelaide Pimentel


O acontecimento artístico mais importante da temporada de 1877-1878, em São Paulo, foi a vinda da Companhia Dramática Portuguesa, dirigida pela empresária Emília Adelaide , uma das actrizes mais importantes de Portugal e que actuou no Brasil ao lado de Eduardo Brazão, que se preocupava em apresentar ao público um repertório de nada menos que cinquenta peças da dramaturgia francesa, italiana e, evidentemente, portuguesa. Como exemplo, pode-se citar "A filha do ar", de Eduardo Garrido, de longe o autor mais encenado nos palcos de São Paulo no século XIX.

Foi em 1912 no Teatro São José, do italiano Pascoal Segreto, que se estreou “Forrobodó”, a “burleta” de Luís Peixoto e Carlos Bettencourt, com música de Chiquinha Gonzaga. O espectáculo foi um marco divisor de águas para o teatro brasileiro: a partir daí, a linguagem popular brasileira entrou em cena. Nos palcos brasileiros, até então, falava-se com acento português para plateias habituadas a esta prosódia (forma de falar).

Leopoldo Froes


O palco brasileiro passou a adquirir fisionomia própria, por volta de 1914, “servindo Leopoldo Froes, que se fizera actor ainda em Portugal, de elo entre o velho teatro luso-brasileiro e o novo teatro mais caracteristicamente nacional que se pretendia formar.”

A colaboração com elencos portugueses, o sotaque, a boa colocação dos pronomes, a maneira de vestir e a nostalgia fizeram com que Fróes fosse considerado por Alcântara Machado mais actor português que brasileiro.

A actriz Fernanda Montenegro sempre afirmou que era de uma geração influenciada pelos actores portugueses. "Havia uma escola em que marcações e diálogos obedeciam às regras usadas em Portugal, sendo até a pronúncia portuguesa imposta a quem seguisse uma carreira de teatro no Brasil".

Empreza Theatral José Loureiro  



O Rio de Janeiro recebe frequentemente companhias artísticas portuguesas, italianas, francesas e espanholas. Actuando no mercado teatral carioca desde 1913, o empresário português José Loureiro (1880-1949) torna-se o grande agente das companhias portuguesas nessa época.

Em 1924, só no Rio de Janeiro, estão sob sua tutela três teatros: o Lírico, o Palácio e o República que apresentam espectáculos dos mais variados géneros, como teatro declamado, ópera, opereta, revistas e "vaudevilles".

Em dada altura, José Loureiro, associado a Walter Mochi e a Faustino da Rosa, tinha em exploração dezassete teatros da América do Sul, por onde passaram as melhores companhias teatrais Portuguesas. Dentro de Portugal, ficaram célebres as suas colaborações com Chaby Pinheiro e Beatriz Costa e os grandes espectáculos da Companhia Velasco e da Companhia Ba-Ta-Clan.



Exemplos de Peças de teatro de autores portugueses (1926-1968)

Os documentos do Arquivo Miroel Silveira, referentes à censura prévia ao teatro no Estado de São Paulo entre 1926 e 1968, fornecem um panorama da influência portuguesa no teatro de São Paulo durante a primeira metade do século XX, a qual se revela em peças de teatro de 127 autores lusitanos, a maioria das quais foi encenada na década de 30 por companhias amadoras e profissionais de Portugal e do Brasil.

a) Autores clássicos da literatura portuguesa de várias épocas, como Gil Vicente, Antônio José da Silva, o Judeu, Antônio Ferreira, Almeida Garrett, Júlio Dinis são encenados principalmente por grupos amadores e estudantis.

b) Autores contemporâneos como João Bastos, Luiz Galhardo, Dom João da Câmara. Este grupo é o mais numeroso e encenado por companhias profissionais, amadoras e de circo-teatro, principalmente nas décadas de 30 e 40 do século passado.

c) Autores que emigraram para o Brasil. São casos como o de Chianca de Garcia, que já era cineasta e dramaturgo em Portugal, mas se radicou no Brasil, ou o de Eurico Silva, que imigrou ainda criança e só depois entrou para a carreira artística, através da companhia de Procópio Ferreira, tornando-se um prolífico autor de teatro, com 33 processos em seu nome no Arquivo Miroel Silveira, além de guionista de rádio e cinema.

Fontes/Mais informações:  "A dramaturgia Portuguesa" nos Palcos Paulistanos" de Edson Santos Silva  / Ângela de Castro Reis (1) / Enciclopédia Itaú Cultural  / "Portugueses do Brasil e Brasileiros de Portugal" de Leonor Xavier / "Rotas de Teatro - Entre Portugal e Brasil" de  Maria Helena Werneck e Ângela de Castro Reis / "Dicionário do Cinema Português 1895-1961" de Jorge Leitão de Barros  / "Teatro Português nos Palcos e Jornais Brasileiros: censura e crítica" de José Ismar Petrola Jorge Filho / "Teatro de Revista em Trânsito" de Marilda Santana/ wikipedia (José Loureiro / Eduardo Brazão / ...) / "Ribaltas e Gambiarras" (Eduardo Brazão) / Homenagem a Eduardo Brazão / "As digressões ao Brasil nas memórias de actores portugueses (sécs. XIX-XX)" (por Claudia Sales Oliveira) (1) /  "Carteira do Artista" de Souza Bastos / Arqnet (José António do Vale ) /
"Brasil  & Portugal: teatro, música, artistas e tal" de Thais Matarazzo (1) / "Artistas de Outras Eras" de Lafayette da Silva

Outros actores: Adelaide do Amaral, Amélia Vieira, Eugênia Câmara, Maria Velutti (1), Medina de Sousa, Mercedes Blasco (1), Rosa Damasceno, Virgínia


Adelina Abranches como brasileira