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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Partituras de Fado do início do Século XX


A editora espanhola "Berrocal Libros Antiguos" disponibilizou, em 2016, um catálogo ilustrado de música popular dos séculos XIX e XX composto por 118 partituras. O repertório é muito variado e está organizado da seguinte forma: Hinos e marchas militares (12), Habaneras (3), Canção espanhola (30), Tangos (9), Fox-trot (10), Fados (9), Zortzicos (2), Cuplés (2), Zarzuela (8), Opereta (6), Boleros (1), Clássico (3), Valsas (8), Vários (15).

A designação “fado” poderia ser genericamente aplicada pelos compositores para designar alguns números cantados em Revistas, coincidindo, por vezes, com o termo “canção”.  Geralmente, as capas incluíam o título, o nome do compositor, uma designação da tipologia (“fado-marcha”, “fado-slow”, “fado-fox” entre outras), e uma frase apelativa ao consumidor, referindo o contexto no qual foi popularizada a canção (teatro de revista, opereta, rádio, cinema).

As sub-designações que figuravam paralelamente nas edições de fado remetem para tipologias de dança, sendo de notar o hibridismo de estilos e a emulação da música de dança anglo-saxónica e latino-americana.

 1 - "Quem canta seu mal espanta" (1920). Música e letra. 

Música de Prudencio Muñoz (1877-1925), compositor espanhol, natural de Málaga, que foi autor de diversas obras para Teatro musical. Edição da partitura de Manuel Villar (8 pp.).

Existe uma gravação deste tema pela Seleccion de Profesores da Oquestra de Madrid.



Link: audio (instrumental / pianola)

 2 - "Lulu - Fado" - "Le vrai fado portugais”.

Da autoria do Compositor Brasileiro Nicolino Milano (1876-1962), que esteve imigrado em Portugal no início do Século XX. Editions Edouard Salabert, 1920 (8 pp.)



3 - "Um fado triste" para piano

Composição portuguesa da autoria de J. Duarte da Silva (dedicado “Ao meu prezado amigo Manoel Simões Vaz). Editores Sassetti & C.ª (8 pp.)


4 - "Fado 31"

Famoso fado de Alves Coelho. É referido na partitura que se trata de uma criação da gentil artista Purita Mignon. Letra espanhola de Biorito e Ribé, Música de Alves Coelho . Ed. Unión Musical Española (4 pp.)


"O 31" foi um caso de enorme sucesso, na medida em que se manteve em cena durante cerca de uma década (de 1913 a 1922), em vários teatros de Portugal e do Brasil, actualizando-se sucessivamente quer no que diz respeito a elencos e vedetas, quer no que concerne aos próprios textos.



 À semelhança de outras canções editadas, do "Fado do 31" foi realizada uma versão em castelhano com vista a exportação

Publicitadas exclusivamente pela capa, a edição portuguesa apresenta a fotografia da actriz Maria Vitória, que celebrizou esse fado no teatro e a edição espanhola conta com a fotografia de uma outra intérprete (Purita Mignon, com letra de Biorito e Ribé), adaptando-se desta forma ao sistema de vedetas desse país.


O "Fado Maria Victória" de Alves Coelho foi igualmente adaptado por Biorito e Ribé.



5 - "Fado Liró". Canção popular portuguesa.

Letra de Nan de Allariz (Alfredo Fernández) (1875-1927), Adapt. De L. Rais . Edição de Faustino Fuentes, 1920 (8 pp.)

Edição francesa "Edouard Salabert"

O "Fado Liró" é de autoria do compositor e músico brasileiro Nicolino Milano (na partitura é referido que se trata do 3º fado do autor). Foi composta em 1905, e no ano seguinte, Nicolino viajou para Portugal, onde participou da montagem da revista teatral ABC, com a sua música, que passou a integrar a letra de Acácio de Paiva.


Em 1909, essa companhia de teatro vai actuar no Brasil e aí começa a se destacar, sendo gravada na voz da dupla "Os Geraldos"(1909) e Mário Pinheiro (1910), entre outros.


6 - "Fí - Fí" . Fado Greco - lusitano.

Opereta bufa em três actos. Adaptação de Miguel Mihura e González del Toro da Opereta de Henri Christiné, com música de Celestino Roig (12 pp.)

"Fado Greco - lusitano" é uma das primeiras composições desta adaptação espanhola. 


"Phi Phi" é uma famosa opereta francesa com música de Henri Christiné e libreto de Albert Willemetz e Fabien Sollar.


7 - "Ay-ay-ay"

Célebre canção crioula cantada pelo notável tenor Tito Schipa (Raffaele Attilio Amedeo Schipa, Lecce, 1888 - Nova York, 1965) que foi um tenor lírico italiano de renome internacional) (4 pp.)

Será das partituras com menor ligação ao Fado pois inclusive foi gravada noutros estilos musicais.


8 - "Fado Apache".

Criação de Raquel Meller (de seu nome Francisca Marqués López, também conhecida por Argentinita) (1888-1962) que foi durante os anos 20 e 30 do Século XX a artista espanhola de maior êxito internacional.

"O Fado Apache" tinha letra de Enderiz e música de Monreal e Martra. Ed. Ildefonso Alier (8 pp.)

Foi igualmente interpretado por Paquita Garzon 
 

9 - "Caixa da guitarra". Fado. 

Criação e grande êxito de Mary Focela (Mari-Focela) com letra de Leopoldo G. Blat e Copérnico Olver e música de Pedro Palau (8 pp.).

Estreou em "El relicario", um dos cuplés mais famosos de todos os tempos.

 


Fontes/Mais informações: Berrocal / "A Edição de Música Impressa enquanto Agente de Mediatização do Fado: O Caso do Fado do 31" de Gonçalo Antunes de Oliveira, João Silva e Leonor Losa em Revista Etno-Folk / Marcelo Bonavides (sobre Nicolino Milano)

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Maria Callas em Lisboa na peça "Lisbon Traviata"


Maria Callas, então a mais famosa cantora de Ópera do mundo, estreou-se em Lisboa, em Março de 1958, a cantar "La Traviata", de Verdi. Decorria a temporada de ópera do São Carlos. Ao seu lado estava um tenor ainda desconhecido, Alfredo Kraus. A gravação de uma das récitas de São Carlos tornou-se célebre e é uma referência fundamental.

Terrence McNally, dramaturgo premiado com nem mais nem menos do que quatro Tonys, escreveu em 1985 "The Lisbon Traviata", em que explora a obsessão por Callas e por esta gravação. A peça acabou por ter algum sucesso em Nova Iorque e em Londres.


A acção decorre no presente (de então) e a peça foi considerada ousadíssima, viviam-se os primeiros e conturbados tempos da SIDA, Rock Hudson, o primeiro nome mundialmente conhecido a sofrer da doença, morreu nesse ano. Todas as quatro personagens da peça são gays, duas delas, Stephen e Mike, numa relação de anos que agoniza nos seus últimos dias, quando já surge no horizonte uma terceira pessoa para Mike, um rapazinho mais novo de seu nome Paul (fixem este nome), que, diz-nos o autor, está a meio da casa dos vinte.

O pretexto para a peça é o facto de ter acabado de surgir no mercado uma nova Traviata com a Callas (fui verificar, o disco foi lançado em 1980), uma gravação pirata da sua célebre Violetta de 27 de Março de 1958 em Lisboa, no Teatro de S. Carlos.


O primeiro acto decorre em casa de Mendy, a seguir a um jantar em que tem Stephen como convidado. Stephen calha a mencionar a "Traviata de Lisboa", que acabou de comprar, e a partir daí Mendy fica posseso, num frenesi insuportável, quer à viva força ir buscar o disco, morre se não o ouvir quanto antes.

Stephen recusa firmemente, Mike está na casa de ambos e recebe nessa noite o seu novo namorado. Que nasceu em Portugal, filho de portugueses, que poderá (ou não, e é isso que Mendy tenta desesperadamente tirar a limpo) ter sido levado pelo avô a ver a "Traviata de Lisboa", no Teatro San Marco — leram bem. E que se chama Paul Della Rovere — também leram bem.

Fontes/Mais informações: "A Gota de Rantanplan" / wikipedia / Hemeroteca digital   Noticias magazine / Flama / Século ilustrado (em "iconografia" / valkirio
 
"O Século Ilustrado" (1958)

Revista Flama (1958)
Quando os erros estão no original ...

sábado, 15 de junho de 2019

Portugal e as portuguesas em Tirso de Molina (1583-1640)


Tirso de Molina (pseudónimo de Frei Gabriel Teller) foi o autor espanhol que mais vezes, e com maior ternura, se referiu a Portugal.

E Tirso de Molina é o poeta estrangeiro em cujas obras, com maior entusiasmo, constância e gentileza se cantam as portuguesas! Era tal a sua devoção por elas que - prova de extrema admiração - escolheu, de entre todas as suas heroínas, uma portuguesa, a encantadora Seraphina de "El Vergonzoso en palácio", para colocar em seus lábios o elogio da arte do teatro, segundo os novos cânones libérrimos com que Lope de Vega a emancipara da clássica rigidez greco-romana.


A lusofilia de Tirso de Molina é evidente em D. Beatriz Silva. É na boca do rei D. João II de Castela que o dramaturgo põe a célebre frase: “Beatriz, mulher tão bela, só a merece Deus”.

Essa predilecção por temas lusitanos é igualmente evidente em “Las Quinas de Portugal”em que o tema é a personalidade histórica de D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, e a formação da nacionalidade portuguesa.


No total de 86 comédias que o catálogo do seu teatro, publicado em 1907 por Cotarelo y Morí, lhe atribui, interessam a Portugal nada menos de onze. Dessas onze, sete passam-se em terras portuguesas, a saber : "El Vergonzoso en palácio" ("O envergonhado no paço"), "Siempre ayuda la verdade", "Averiguelo Vargas", "Las Quinas de Portugal" ("Quinas de Portugal"), dois actos de "El Amor médico" ("Médica por Amor"), um acto de "Dona Beatriz da Silva" e várias cenas de "La Gallega Marí-Hernandez".

"Escarmiento para el cuerdo" é a dramatização do conhecido episódio do naufrágio de Sepúlveda. "Antona Garcia" alude à batalha de Toro, essa pequena Aljubarrota espanhola. E nas duas restantes, que são "El Burlador de Sevilla y Convidado de piedra" e a segunda parte de "La Santa Juana", há importantes referências a Portugal.


O interesse por Portugal não resultou da sua viagem a Portugal em 1619 pois “El Vergonzo en Palácio” é uma comédia toda portuguesa, no argumento, personagens e lugar de acção. E em 1613 já era evidente a apologia a D. Afonso de Albuquerque em “Santa Juana”.

Tirso de Molina faz decorrer a sua comédia "Averiguelo Vargas" em Portugal, durante a menoridade de D. Afonso V, ou seja durante a regência de D. Pedro, o morto infeliz de Alfarrobeira. Entram na peça, além do rei e do regente, os infantes D. Diniz e D. Duarte, a infanta D. Filipa, D. Afonso de Abrantes, prior do Crato, Ramiro, Sancha, etc.


Na comédia "El Amor médico", cuja acção decorre em grande parte na douta Coimbra, Tello, o gracioso, previne seu amo D. Gaspar sobre o recato com as mulheres portuguesas que não saem de casa até se casarem, nem aos domingos à missa.

Outra das comédias com temática portuguesa é "Siempre ayuda la verdade". Passa-se em Lisboa, no reinado de D. Pedro I, e é das mais frisantes demonstrações do conceito que o autor formava do ciúme português e da fidelidade e constância das portuguesas no amor, a respeito do qual uma das suas personagens, Alberto Vator, irmão do rei da Polónia, confessa que fora um erro ter, em coisas de amor, um competidor português.

Fontes/Mais informações: "Portugal e as Portuguesas Tirso de Molina" de Manuel de Sousa Pinto (1) / "Lusofilia de Tirso de Molina" de José Maria Viqueira Barreiro (1) (2) / Linkgua 

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Portugal e os portugueses no Teatro de Lope de Vega (1562-1635)



São abundantes os temas e os motivos portugueses no teatro espanhol do "Siglo de Oro". A noção de espanhol como algo contrastante com o português ainda não existia na época nos territórios que compõem o actual Estado Espanhol.

Há ainda que ter em conta que o apogeu da comédia espanhola, representado por autores como Lope de Vega, Calderón de la Barca ou Tirso de Molina, coincide largamente com a época da dinastia filipina (entre 1580-1640).

 Se excluirmos as tragédias “Nise lastimosa” e “Nise laureada” de Fr. Jerónimo Bermúdez, sobre Inés de Castro, Lope de Vega foi o primeiro autor espanhol que se interessou por personagens e temáticas portugueses. O tema foi estudado, em 1936, por Hipólito Raposo, que identificou na obra do comediógrafo espanhol catorze ou quinze obras dramáticas dedicadas a “figuras e factos portugueses, sem contar com outras obras onde há alusões laudatórias ou irónicas à nossa gente.

 

Esta vertente “lusista” iniciou-se com duas comédias de Lope de Vega: “La tragedia del Rey D. Sebastián y bautismo del príncipe de Marruecos" (de 1595-1603) – cujo protagonista era D. Sebastião, sobrinho de Filipe II, que ainda era rei nessa época - e “Don Manuel de Sosa y naufrágio prodigioso y príncipe trocado" (1598-1600).

Lope de Vega dedicou outras comédias a temáticas portuguesas ou ambientadas em Portugal: “El duque de Viseo”, “La fortuna adversa del infante don Fernando de Portugal”, “El más galán portugués, duque de Berganza”, “El príncipe perfecto”, “La intención castigada”, “El guante de doña Blanca”, “El primer rey de Castilla”, “Burlas y enredos de Benito”, “La lealtad en el agravio”, ou “El Brasil restituído” (que põe em cena a oposição das forças conjuntas luso-castelhanas à invasão de Salvador de Bahia pelos holandeses em 1624), entre outras.


“El Duque de Viseo" é nem mais nem menos que a trágica e aliciante dramatização das querelas entre D. João II e a grande nobreza, saldadas entre1483 e 1484 pela degolação do duque de Bragança (Guimarães na peça, o que não está errado) e pelo assassínio, às mãos do próprio rei, de D. Diogo, seu primo e cunhado.

Composta antes de 1610, a comédia talvez tenha até sido objecto de sobressaltos de um lado e de outro da fronteira e nesses nem o próprio dramaturgo estava interessado . Seria, então, para serenar os ânimos que Lope praticamente se desdisse quando, ainda antes de 1614, escreveu e fez representar “El Príncipe Perfecto”.


Na peça “El Más Galán Portugués, Duque de Verganza” (de 1610-17), ambientada no reinado de Afonso V no Século XIV, o protagonista é D. Jaime, o impetuoso e ciumento filho de D. Fernando (condenado à morte por D. João II em "El Duque de Viseo".

Fontes/Mais informações: “D. Sebastião e Alcácer Quibir em duas comédias espanholas do Siglo de Oro: La Tragedia del Rey Don Sebastián y del Príncipe de Marruecos, de Lope de Vega, e Comedia Famosa del Rey Don Sebastián, de Luis Vélez de Guevara” de António Apolinário Lourenço / “Portugal e os portugueses no palco espanhol: a visão de Lope de Vega” de Maria del Rosario Leal Bonmati / "Lope de Vega y Portugal" de Joaquin Entrambasaguas / “Simpatias, inimizades e algumas confusões: D. João II no teatro de Lope de Vega” de Maria Idalina Resina Rodrigues / "Portugal en el teatro español del siglo XVII" de José Ares Montes
 


segunda-feira, 15 de abril de 2019

Ester Leão (1892-1971) - uma portuguesa no Teatro Brasileiro



Ester Leão aceitou em 1931 o convite para participar na temporada portuguesa da peça "Deus lhe Pague" de Joracy Camargo, produzida pela companhia do brasileiro Procópio Ferreira, interpretando o principal papel feminino, Nancy, mulher do Mendigo Filósofo.

Finda a carreira do espectáculo no nosso país, a actriz envolve-se na sua digressão por terras de Vera Cruz, de onde nunca mais voltou. O retumbante sucesso da actriz nos palcos brasileiros e o "abastardamento da vida teatral portuguesa, que a censura fascista e a desorganização empresarial condenavam à mediocridade e ao conservadorismo", foi o que bastou para que ela cedesse aos vários e insistentes apelos para que assumisse a direcção do Teatro do Estudante do Brasil (TEB).


Em dez anos de dedicação ao TEB, Ester Leão, para além de ter tido influência na formação de muitos actores brasileiros, produziu alguns dos melhores espectáculos daquela época, a partir de textos clássicos e modernos.

"Os Romanescos" de Edmond Rostand, "Leonor de Mendonça" de Gonçalves Dias e "O Jesuíta" de José Alencar foram os três primeiros de uma longa série de sucessos. O mais popular foi sem dúvida o que ela encenou para a estreia daquela que viria a ser considerada por muitos como a maior actriz brasileira de sempre: Cacilda Becker.

Com o mesmo texto ("Três Mil Metros de Altitude", com o título alterado para "Alegres Canções da Montanha"), ela lançaria mais tarde outro nome maior do outro lado do Atlântico: Fernanda Montenegro.


Ester Leão era uma mulher severa, rigorosa no trabalho, mas sempre muito bem-humorada e solidária com as equipas que dirigiu ou integrou, quer como professora, actriz ou encenadora.

Para além da sua inestimável colaboração como professora no TEB e, mais tarde, no Teatro Universitário, e para além ainda de algumas das suas memoráveis criações como intérprete, o que fica sobretudo de seu para a história das artes cénicas brasileiras é o honroso título de Rainha do Teatro que conquistou pelas suas geniais encenações, de que são exemplos mais brilhantes os espectáculos "Romeu e Julieta" de Shakespeare, "Castro" de António Ferreira, "A Dama da Madrugada" de Casona, "O Pai" de Strindberg e "A Morte de Um Caixeiro Viajante" de Arthur Miller.


Para além de ter sido actriz e encenadora nas mais prestigiadas estruturas de produção brasileiras dos dois primeiros terços do século XX, entre as quais se destacam o Teatro de Arte, o Teatro Duse, e as Companhias de Eva Todor, Alma Flora e Luís Iglésias Freire, Ester Leão foi também pioneira do ensino de dicção, corrigindo a voz não só de actores, mas também de ministros e deputados, entre os quais figurava Carlos Lacerda, um dos mais férreos opositores ao ditador Getúlio Vargas.

Fontes: "Entres mares e palcos - notas sobre Esther Leão (1892-1971) - Uma portuguesa no Teatro Brasileiro" (livro "Dramaturgia em Cena") / Facebook  / Blog "Mulheres Ilustres" (Fabulásticas) / Ângela de Castro Reis (1) / Enciclopédia Itaú Cultural / Museu da TV / "Portugueses do Brasil e Brasileiros de Portugal" de Leonor Xavier 

sexta-feira, 15 de março de 2019

A influência Portuguesa no Teatro Brasileiro e as Rotas de Teatro entre Portugal e Brasil


O teatro brasileiro foi construído a partir da presença de actores portugueses, que abundaram nos palcos brasileiros até as primeiras décadas do século XX. Actores como Furtado Coelho, Lucinda Simões, Cristiano de Sousa, José Ricardo, Palmira Bastos, Adelina Abranches, Chaby Pinheiro, empresários como Sousa Bastos e Visconde de São Luís Braga, sentiam-se tão à vontade no Rio de Janeiro quanto em Lisboa, “repartindo fraternalmente as suas temporadas entre os dois países”.

O público de Lisboa não era suficiente para justificar mais de quatro dias de espectáculo por semana, pelo que as digressões ao Porto e ao Brasil se tornavam uma importante fonte de rendimento.

Lucinda Simões e Furtado Coelho

Cláudia Sales Oliveira escreveu um artigo acerca das digressões de actores portugueses no Brasil, durante os séculos XIX e XX. Utilizando relatos de actores como Lucinda Simões (que foi casada com Furtado Coelho), Eduardo Brasão, Adelina Abranches, entre outros, a autora comenta que um dos possíveis motivos para essas temporadas em outro país era o excesso de oferta de peças de declamação em Portugal, que não atraíam um grande público.

Além disso, a temporada teatral dos principais teatros de Lisboa (D. Maria II, Ginásio, Príncipe Real e D. Amélia) acabava em maio, só retornando em outubro. Nesse "meio tempo", os actores se juntavam em outros trabalhos, inclusive nas viagens para o Brasil, com elencos diferentes e apresentando seu “capital” que eram os repertórios.

Ainda em 1921, o "Jornal das Moças" referia a existência de concorrência desleal por parte das companhias estrangeiras:  "Como se sabe essas 'troupes' [estrangeiras] têm a despesa muito menor que as nacionais, pois trazem as suas peças montadas e o seu guarda-roupa feito, o que não acontece com as nossas que são obrigadas à despesa dos cenários, roupas e adereços. E o que é interessante é que as nossas companhias, com a despesa muito maior, pagam os mesmos impostos que as estrangeiras".

Eduardo Brazão


Eduardo Brazão, um dos mais importantes actores portugueses da segunda metade do Séc. XIX, actuou pela primeira vez no Brasil em 1870, país onde ganharia enorme prestígio e se deslocaria regularmente ao longo dos anos.

A convite de Furtado Coelho, actuou no Rio de Janeiro, no Theatro de Furtado Coelho, durante 10 meses ao lado de Emília Adelaide, fazendo, entre outras peças, a "Calumnia", "Capitão Montambuche", "Jogo", "Mocidade de Fígaro", "Pupílas do Senhor Reitor" e "Cornélio Guerra".

No Outono de 1876, Eduardo Brazão volta ao Brasil, sendo convidado a ir a Pernambuco com Joaquim de Almeida, representar na Companhia da actriz brasileira Isménia dos Santos. Posteriormente seguiu viagem para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na empresa de José António do Vale.



O actor é novamente convidado para actuar no Brasil em Junho de 1879, numa companhia de Pernambuco. Levando consigo o "Kean", de Alexandre Dumas, bem como "Os Fidalgos da Casa Mourisca" de Júlio Dinis e a "Morgadinha de Val'Flor" de Pinho Chagas. Seguiram-se representações no Pará (Teatro da Paz) e no Maranhão.
Regressa ao Brasil em 1880, obtendo um grande sucesso quer no Rio de Janeiro, quer em Campinas, Santos e São Paulo, onde a crítica o crisma de actor moderno.

A Eduardo Brazão se deve a representação em português das tragédias de Shakespeare, que assim podem ser apreciadas pelo público menos instruído, visto que, até essa altura, só eram exibidas em Portugal e no Brasil por Companhias estrangeiras.


José António Vale (actor Valle)



Foi ao Brasil e representou no Rio de Janeiro, no teatro de S. Luiz, de que era empresário Furtado Coelho, nas comédias "O Mestre Jerónimo" e "Quem o feio ama". Agradou imenso, recebendo fartos aplausos, ganhando logo as maiores simpatias. Obteve um sucesso no papel de Vasco da mágica "A Pera de Satanás".

Não tardou, que se tornasse empresário, e tanto se insinuou no meio teatral, que era ele quem "dava leis" a todos os teatros do Rio de Janeiro. Foi ele quem levou para ali a actriz Ana Cardoso, os actores Silva Pereira, Silveira e outros.

Percorreu com a sua companhia todo o Brasil, estando em S. Paulo, Santos, Campinas, Rio Grande do Sul, etc., sendo sempre muito aplaudido.

Estreou no Brasil o género dramático, representando o "Paralítico", o "Centenário", e a "Criança de 90 anos". Chegou-lhe depois a hora da adversidade, o que ordinariamente sucede a todos os empresários, e Vale resolveu voltar a Lisboa.

Emília Adelaide Pimentel


O acontecimento artístico mais importante da temporada de 1877-1878, em São Paulo, foi a vinda da Companhia Dramática Portuguesa, dirigida pela empresária Emília Adelaide , uma das actrizes mais importantes de Portugal e que actuou no Brasil ao lado de Eduardo Brazão, que se preocupava em apresentar ao público um repertório de nada menos que cinquenta peças da dramaturgia francesa, italiana e, evidentemente, portuguesa. Como exemplo, pode-se citar "A filha do ar", de Eduardo Garrido, de longe o autor mais encenado nos palcos de São Paulo no século XIX.

Foi em 1912 no Teatro São José, do italiano Pascoal Segreto, que se estreou “Forrobodó”, a “burleta” de Luís Peixoto e Carlos Bettencourt, com música de Chiquinha Gonzaga. O espectáculo foi um marco divisor de águas para o teatro brasileiro: a partir daí, a linguagem popular brasileira entrou em cena. Nos palcos brasileiros, até então, falava-se com acento português para plateias habituadas a esta prosódia (forma de falar).

Leopoldo Froes


O palco brasileiro passou a adquirir fisionomia própria, por volta de 1914, “servindo Leopoldo Froes, que se fizera actor ainda em Portugal, de elo entre o velho teatro luso-brasileiro e o novo teatro mais caracteristicamente nacional que se pretendia formar.”

A colaboração com elencos portugueses, o sotaque, a boa colocação dos pronomes, a maneira de vestir e a nostalgia fizeram com que Fróes fosse considerado por Alcântara Machado mais actor português que brasileiro.

A actriz Fernanda Montenegro sempre afirmou que era de uma geração influenciada pelos actores portugueses. "Havia uma escola em que marcações e diálogos obedeciam às regras usadas em Portugal, sendo até a pronúncia portuguesa imposta a quem seguisse uma carreira de teatro no Brasil".

Empreza Theatral José Loureiro  



O Rio de Janeiro recebe frequentemente companhias artísticas portuguesas, italianas, francesas e espanholas. Actuando no mercado teatral carioca desde 1913, o empresário português José Loureiro (1880-1949) torna-se o grande agente das companhias portuguesas nessa época.

Em 1924, só no Rio de Janeiro, estão sob sua tutela três teatros: o Lírico, o Palácio e o República que apresentam espectáculos dos mais variados géneros, como teatro declamado, ópera, opereta, revistas e "vaudevilles".

Em dada altura, José Loureiro, associado a Walter Mochi e a Faustino da Rosa, tinha em exploração dezassete teatros da América do Sul, por onde passaram as melhores companhias teatrais Portuguesas. Dentro de Portugal, ficaram célebres as suas colaborações com Chaby Pinheiro e Beatriz Costa e os grandes espectáculos da Companhia Velasco e da Companhia Ba-Ta-Clan.



Exemplos de Peças de teatro de autores portugueses (1926-1968)

Os documentos do Arquivo Miroel Silveira, referentes à censura prévia ao teatro no Estado de São Paulo entre 1926 e 1968, fornecem um panorama da influência portuguesa no teatro de São Paulo durante a primeira metade do século XX, a qual se revela em peças de teatro de 127 autores lusitanos, a maioria das quais foi encenada na década de 30 por companhias amadoras e profissionais de Portugal e do Brasil.

a) Autores clássicos da literatura portuguesa de várias épocas, como Gil Vicente, Antônio José da Silva, o Judeu, Antônio Ferreira, Almeida Garrett, Júlio Dinis são encenados principalmente por grupos amadores e estudantis.

b) Autores contemporâneos como João Bastos, Luiz Galhardo, Dom João da Câmara. Este grupo é o mais numeroso e encenado por companhias profissionais, amadoras e de circo-teatro, principalmente nas décadas de 30 e 40 do século passado.

c) Autores que emigraram para o Brasil. São casos como o de Chianca de Garcia, que já era cineasta e dramaturgo em Portugal, mas se radicou no Brasil, ou o de Eurico Silva, que imigrou ainda criança e só depois entrou para a carreira artística, através da companhia de Procópio Ferreira, tornando-se um prolífico autor de teatro, com 33 processos em seu nome no Arquivo Miroel Silveira, além de guionista de rádio e cinema.

Fontes/Mais informações:  "A dramaturgia Portuguesa" nos Palcos Paulistanos" de Edson Santos Silva  / Ângela de Castro Reis (1) / Enciclopédia Itaú Cultural  / "Portugueses do Brasil e Brasileiros de Portugal" de Leonor Xavier / "Rotas de Teatro - Entre Portugal e Brasil" de  Maria Helena Werneck e Ângela de Castro Reis / "Dicionário do Cinema Português 1895-1961" de Jorge Leitão de Barros  / "Teatro Português nos Palcos e Jornais Brasileiros: censura e crítica" de José Ismar Petrola Jorge Filho / "Teatro de Revista em Trânsito" de Marilda Santana/ wikipedia (José Loureiro / Eduardo Brazão / ...) / "Ribaltas e Gambiarras" (Eduardo Brazão) / Homenagem a Eduardo Brazão / "As digressões ao Brasil nas memórias de actores portugueses (sécs. XIX-XX)" (por Claudia Sales Oliveira) (1) /  "Carteira do Artista" de Souza Bastos / Arqnet (José António do Vale ) /
"Brasil  & Portugal: teatro, música, artistas e tal" de Thais Matarazzo (1) / "Artistas de Outras Eras" de Lafayette da Silva

Outros actores: Adelaide do Amaral, Amélia Vieira, Eugênia Câmara, Maria Velutti (1), Medina de Sousa, Mercedes Blasco (1), Rosa Damasceno, Virgínia


Adelina Abranches como brasileira