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sexta-feira, 15 de maio de 2020

Guilhermina Suggia (1885-1950), uma violoncelista de renome internacional


Guilhermina Augusta Xavier de Medin Suggia (1885-1950) era filha de Augusto Suggia, violoncelista, formado no Real Conservatório de Lisboa e músico na orquestra do Real Teatro de S. Carlos, que foi convidado a dar aulas nas escolas da Santa Casa da Misericórdia de Matosinhos.

Aos 5 anos pediu ao pai que a ensinasse a tocar violoncelo. Aos 7 anos fez a sua estreia, na Assembleia de Matosinhos, acompanhada ao piano pela irmã Virgínia.


Quando tinha 13 anos, conheceu Pablo Casals, então com 21 anos,  quando o jovem músico catalão fez parte de um sexteto que abrilhantou as noites do Casino de Espinho no Verão de 1898.

Pablo Casals sugeriu a Augusto Suggia dar lições a Guilhermina uma vez por semana durante a sua permanência em Espinho. E assim foi, todas as semanas Augusto e Guilhermina rumavam no comboio em direcção a Espinho.


Guilhermina Suggia parte para Leipzig em 1901 com uma bolsa de estudo concedida pela Rainha D. Amélia para estudar no Conservatório de Leipzig – conhecido pela exigência de ensino e pela exigência na selecção de alunos – com o professor Julius Klengel.

Em Dezembro de 1902 – um ano depois da chegada a Leipzig - Guilhermina Suggia, com 17 anos tornou-se a primeira mulher a tocar, como solista, na Gewandhaus, e o solista mais novo. Tocou o Concerto para violoncelo e Orquestra de Volkmann.


No final da actuação, o público, de pé, aplaudiu e gritou veementemente “Bis”. A insistência foi tal que Arthur Nikisch quebrou as normas rígidas e mandou repetir o concerto na íntegra.

Tinham sido abertas as portas de todos os grandes centros musicais do mundo e Guilhermina Suggia não mais deixaria de ser solicitada a tocar.


Em 1906 reencontrou-se com Pablo Casals, e decidem começar uma vida em comunhão. Vivem em Paris, na Villa Molitor e convivem com os maiores artistas do seu tempo. Compositores dedicam-lhes obras. As críticas são muito favoráveis ao que era considerado o maior par de violoncelistas do momento.

Muitas vezes essas críticas punham Suggia em primeiro lugar e isso era menos agradável para Casals, habituado a ser considerado o maior violoncelista. A vida entre os dois começou a ser um pouco atormentada e no final de 1913, o casal separa-se.


No início de 1914, Suggia parte para Londres e aí recomeça uma vida nova. Rapidamente é notada por toda a gente do meio musical e convive com os maiores intelectuais do tempo. Toca sempre, estuda incessantemente sem mostrar sinais de cansaço.

Convive com os intelectuais do The Bloomsbury Group. Dora Carrington é uma apaixonada pela arte de Suggia. Virgínia Woolf fala de Suggia no seu Diário – curiosamente a edição portuguesa corta essa passagem.

Augustus John pinta Suggia. Durante o tempo dedicado a essa pintura, Suggia posava sempre tocando Bach. Das mãos deste pintor saiu o famoso quadro “Madame Suggia”, que faz parte do acervo da Tate Gallery e o quadro “Guilhermina Suggia”, no Museu Nacional de Cardiff.

 


Em Londres, Suggia conhece o magnata Sir Eduard Hudson, que lhe ofereceu o violoncelo Montagnana e comprou o Castelo de Lindesfarne para lhe oferecer. Era um castelo que estava abandonado, restaurou-o e nele fez uma sala, com um estrado, onde Suggia gostava de tocar.

O casamento entre eles chegou a ser anunciado nos jornais ingleses. Mas em 1923, numa viagem que fez ao Porto com a mãe, conheceu aquele que viria a ser o seu marido. De volta a Inglaterra, desfez o seu casamento com o magnata e devolveu-lhe o castelo. Hoje este castelo é monumento Nacional e mantém a mesma sala que havia sido de Suggia, com um violoncelo em sua homenagem.

Fontes/Mais informações: Virgílio Marques (Associação Guilhermina Suggia) / Hemeroteca digital / Tarisio / Instituto Camões / Revista "Arte musical" / RTP (livro de Henri Goudrin) /  Cais da memória


A primeira biografia em francês da violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia (1885-1950) chegou às livrarias francesas a 05 de março de 2015 com o título "La Suggia - L`Autre Violoncelliste", da autoria de Henri Gourdin.

O escritor francês disse à Lusa que o objetivo é fazer descobrir uma "personalidade injustamente desconhecida" em França, depois de ele próprio a ter descoberto quando escreveu uma biografia do violoncelista Pablo Casals, com quem Suggia viveu sete anos em Paris (de 1906 a 1913).

"Ela foi a primeira mulher a tocar violoncelo ao mais alto nível e a fazer carreira. Não foi fácil porque, na altura, o violoncelo era considerado um instrumento masculino. Ela teve de lutar contra esses preconceitos. Foi o charme da sua personalidade e a sua música que acabaram por convencer o público", explicou o autor.


Henri Gourdin destacou que "o que é impressionante nesta história é que a conquista do violoncelo pela mulher tenha sido feita por uma portuguesa, ainda que, na altura, Portugal fosse um país católico, onde a separação dos sexos era mais restrita do que noutro lado qualquer". "Foi ela, uma portuguesa, que veio dar o exemplo aos franceses, aos ingleses, aos alemães e ao mundo inteiro. É extraordinário", continuou.

A capa do livro - que apresenta Suggia a tocar violoncelo de vestido vermelho e de olhos fechados - parte de um quadro de Augustus John, "o pintor das estrelas, que pintou as grandes personalidades artísticas e políticas da sua época" e que a representou "numa postura de diva", tendo contribuído para a criação de "uma lenda".


 A "lenda" perpetuou-se, porque os instrumentos que Suggia tocou ficaram "para sempre conhecidos como o `Stradivarius Suggia e o `Montagnana Suggia`", e porque ela "legou os seus sete violoncelos a alunos e institutos, tendo os dois mais célebres - o `Montagnana` e o `Stradivarius` - sido vendidos para fundar os prémios Suggia, atribuídos anualmente a jovens violoncelistas", e garantir a sua formação.

Entre os distinguidos, contam-se, entre outros, Jacqueline du Pré, Rohan de Saram, Robert Cohen, Steven Isserlis, Raphael Wallfisch e Julian Lloyd Webber.

 Fontes: Lusa / RTP


sexta-feira, 15 de março de 2019

A influência Portuguesa no Teatro Brasileiro e as Rotas de Teatro entre Portugal e Brasil


O teatro brasileiro foi construído a partir da presença de actores portugueses, que abundaram nos palcos brasileiros até as primeiras décadas do século XX. Actores como Furtado Coelho, Lucinda Simões, Cristiano de Sousa, José Ricardo, Palmira Bastos, Adelina Abranches, Chaby Pinheiro, empresários como Sousa Bastos e Visconde de São Luís Braga, sentiam-se tão à vontade no Rio de Janeiro quanto em Lisboa, “repartindo fraternalmente as suas temporadas entre os dois países”.

O público de Lisboa não era suficiente para justificar mais de quatro dias de espectáculo por semana, pelo que as digressões ao Porto e ao Brasil se tornavam uma importante fonte de rendimento.

Lucinda Simões e Furtado Coelho

Cláudia Sales Oliveira escreveu um artigo acerca das digressões de actores portugueses no Brasil, durante os séculos XIX e XX. Utilizando relatos de actores como Lucinda Simões (que foi casada com Furtado Coelho), Eduardo Brasão, Adelina Abranches, entre outros, a autora comenta que um dos possíveis motivos para essas temporadas em outro país era o excesso de oferta de peças de declamação em Portugal, que não atraíam um grande público.

Além disso, a temporada teatral dos principais teatros de Lisboa (D. Maria II, Ginásio, Príncipe Real e D. Amélia) acabava em maio, só retornando em outubro. Nesse "meio tempo", os actores se juntavam em outros trabalhos, inclusive nas viagens para o Brasil, com elencos diferentes e apresentando seu “capital” que eram os repertórios.

Ainda em 1921, o "Jornal das Moças" referia a existência de concorrência desleal por parte das companhias estrangeiras:  "Como se sabe essas 'troupes' [estrangeiras] têm a despesa muito menor que as nacionais, pois trazem as suas peças montadas e o seu guarda-roupa feito, o que não acontece com as nossas que são obrigadas à despesa dos cenários, roupas e adereços. E o que é interessante é que as nossas companhias, com a despesa muito maior, pagam os mesmos impostos que as estrangeiras".

Eduardo Brazão


Eduardo Brazão, um dos mais importantes actores portugueses da segunda metade do Séc. XIX, actuou pela primeira vez no Brasil em 1870, país onde ganharia enorme prestígio e se deslocaria regularmente ao longo dos anos.

A convite de Furtado Coelho, actuou no Rio de Janeiro, no Theatro de Furtado Coelho, durante 10 meses ao lado de Emília Adelaide, fazendo, entre outras peças, a "Calumnia", "Capitão Montambuche", "Jogo", "Mocidade de Fígaro", "Pupílas do Senhor Reitor" e "Cornélio Guerra".

No Outono de 1876, Eduardo Brazão volta ao Brasil, sendo convidado a ir a Pernambuco com Joaquim de Almeida, representar na Companhia da actriz brasileira Isménia dos Santos. Posteriormente seguiu viagem para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na empresa de José António do Vale.



O actor é novamente convidado para actuar no Brasil em Junho de 1879, numa companhia de Pernambuco. Levando consigo o "Kean", de Alexandre Dumas, bem como "Os Fidalgos da Casa Mourisca" de Júlio Dinis e a "Morgadinha de Val'Flor" de Pinho Chagas. Seguiram-se representações no Pará (Teatro da Paz) e no Maranhão.
Regressa ao Brasil em 1880, obtendo um grande sucesso quer no Rio de Janeiro, quer em Campinas, Santos e São Paulo, onde a crítica o crisma de actor moderno.

A Eduardo Brazão se deve a representação em português das tragédias de Shakespeare, que assim podem ser apreciadas pelo público menos instruído, visto que, até essa altura, só eram exibidas em Portugal e no Brasil por Companhias estrangeiras.


José António Vale (actor Valle)



Foi ao Brasil e representou no Rio de Janeiro, no teatro de S. Luiz, de que era empresário Furtado Coelho, nas comédias "O Mestre Jerónimo" e "Quem o feio ama". Agradou imenso, recebendo fartos aplausos, ganhando logo as maiores simpatias. Obteve um sucesso no papel de Vasco da mágica "A Pera de Satanás".

Não tardou, que se tornasse empresário, e tanto se insinuou no meio teatral, que era ele quem "dava leis" a todos os teatros do Rio de Janeiro. Foi ele quem levou para ali a actriz Ana Cardoso, os actores Silva Pereira, Silveira e outros.

Percorreu com a sua companhia todo o Brasil, estando em S. Paulo, Santos, Campinas, Rio Grande do Sul, etc., sendo sempre muito aplaudido.

Estreou no Brasil o género dramático, representando o "Paralítico", o "Centenário", e a "Criança de 90 anos". Chegou-lhe depois a hora da adversidade, o que ordinariamente sucede a todos os empresários, e Vale resolveu voltar a Lisboa.

Emília Adelaide Pimentel


O acontecimento artístico mais importante da temporada de 1877-1878, em São Paulo, foi a vinda da Companhia Dramática Portuguesa, dirigida pela empresária Emília Adelaide , uma das actrizes mais importantes de Portugal e que actuou no Brasil ao lado de Eduardo Brazão, que se preocupava em apresentar ao público um repertório de nada menos que cinquenta peças da dramaturgia francesa, italiana e, evidentemente, portuguesa. Como exemplo, pode-se citar "A filha do ar", de Eduardo Garrido, de longe o autor mais encenado nos palcos de São Paulo no século XIX.

Foi em 1912 no Teatro São José, do italiano Pascoal Segreto, que se estreou “Forrobodó”, a “burleta” de Luís Peixoto e Carlos Bettencourt, com música de Chiquinha Gonzaga. O espectáculo foi um marco divisor de águas para o teatro brasileiro: a partir daí, a linguagem popular brasileira entrou em cena. Nos palcos brasileiros, até então, falava-se com acento português para plateias habituadas a esta prosódia (forma de falar).

Leopoldo Froes


O palco brasileiro passou a adquirir fisionomia própria, por volta de 1914, “servindo Leopoldo Froes, que se fizera actor ainda em Portugal, de elo entre o velho teatro luso-brasileiro e o novo teatro mais caracteristicamente nacional que se pretendia formar.”

A colaboração com elencos portugueses, o sotaque, a boa colocação dos pronomes, a maneira de vestir e a nostalgia fizeram com que Fróes fosse considerado por Alcântara Machado mais actor português que brasileiro.

A actriz Fernanda Montenegro sempre afirmou que era de uma geração influenciada pelos actores portugueses. "Havia uma escola em que marcações e diálogos obedeciam às regras usadas em Portugal, sendo até a pronúncia portuguesa imposta a quem seguisse uma carreira de teatro no Brasil".

Empreza Theatral José Loureiro  



O Rio de Janeiro recebe frequentemente companhias artísticas portuguesas, italianas, francesas e espanholas. Actuando no mercado teatral carioca desde 1913, o empresário português José Loureiro (1880-1949) torna-se o grande agente das companhias portuguesas nessa época.

Em 1924, só no Rio de Janeiro, estão sob sua tutela três teatros: o Lírico, o Palácio e o República que apresentam espectáculos dos mais variados géneros, como teatro declamado, ópera, opereta, revistas e "vaudevilles".

Em dada altura, José Loureiro, associado a Walter Mochi e a Faustino da Rosa, tinha em exploração dezassete teatros da América do Sul, por onde passaram as melhores companhias teatrais Portuguesas. Dentro de Portugal, ficaram célebres as suas colaborações com Chaby Pinheiro e Beatriz Costa e os grandes espectáculos da Companhia Velasco e da Companhia Ba-Ta-Clan.



Exemplos de Peças de teatro de autores portugueses (1926-1968)

Os documentos do Arquivo Miroel Silveira, referentes à censura prévia ao teatro no Estado de São Paulo entre 1926 e 1968, fornecem um panorama da influência portuguesa no teatro de São Paulo durante a primeira metade do século XX, a qual se revela em peças de teatro de 127 autores lusitanos, a maioria das quais foi encenada na década de 30 por companhias amadoras e profissionais de Portugal e do Brasil.

a) Autores clássicos da literatura portuguesa de várias épocas, como Gil Vicente, Antônio José da Silva, o Judeu, Antônio Ferreira, Almeida Garrett, Júlio Dinis são encenados principalmente por grupos amadores e estudantis.

b) Autores contemporâneos como João Bastos, Luiz Galhardo, Dom João da Câmara. Este grupo é o mais numeroso e encenado por companhias profissionais, amadoras e de circo-teatro, principalmente nas décadas de 30 e 40 do século passado.

c) Autores que emigraram para o Brasil. São casos como o de Chianca de Garcia, que já era cineasta e dramaturgo em Portugal, mas se radicou no Brasil, ou o de Eurico Silva, que imigrou ainda criança e só depois entrou para a carreira artística, através da companhia de Procópio Ferreira, tornando-se um prolífico autor de teatro, com 33 processos em seu nome no Arquivo Miroel Silveira, além de guionista de rádio e cinema.

Fontes/Mais informações:  "A dramaturgia Portuguesa" nos Palcos Paulistanos" de Edson Santos Silva  / Ângela de Castro Reis (1) / Enciclopédia Itaú Cultural  / "Portugueses do Brasil e Brasileiros de Portugal" de Leonor Xavier / "Rotas de Teatro - Entre Portugal e Brasil" de  Maria Helena Werneck e Ângela de Castro Reis / "Dicionário do Cinema Português 1895-1961" de Jorge Leitão de Barros  / "Teatro Português nos Palcos e Jornais Brasileiros: censura e crítica" de José Ismar Petrola Jorge Filho / "Teatro de Revista em Trânsito" de Marilda Santana/ wikipedia (José Loureiro / Eduardo Brazão / ...) / "Ribaltas e Gambiarras" (Eduardo Brazão) / Homenagem a Eduardo Brazão / "As digressões ao Brasil nas memórias de actores portugueses (sécs. XIX-XX)" (por Claudia Sales Oliveira) (1) /  "Carteira do Artista" de Souza Bastos / Arqnet (José António do Vale ) /
"Brasil  & Portugal: teatro, música, artistas e tal" de Thais Matarazzo (1) / "Artistas de Outras Eras" de Lafayette da Silva

Outros actores: Adelaide do Amaral, Amélia Vieira, Eugênia Câmara, Maria Velutti (1), Medina de Sousa, Mercedes Blasco (1), Rosa Damasceno, Virgínia


Adelina Abranches como brasileira

sábado, 15 de dezembro de 2018

Chaby Pinheiro entre Portugal e o Brasil (início do século XX)

Revista "Ilustração Portuguesa" (1923)

Foi com a peça "Casa de Bonecas" de Ibsen que Chaby Pinheiro (1873-1933) fez a primeira das 28 travessias ao Atlântico. O actor conta no seu livro de memórias que, naquele tempo, a chegada de uma companhia portuguesa no Brasil era um grande acontecimento: "em geral, ia uma por ano; o máximo duas – uma de comédia, outra de opereta - que foi o que aconteceu então, indo depois de nós a Companhia de Sousa Bastos, do Trindade".

Estrearam no Rio de Janeiro, no Teatro Santana (hoje Carlos Gomes). A peça ficou em cartaz por 33 noites consecutivas e, segundo Chaby, "todo o Rio intelectual e artístico foi admirar a peça do Ibsen, na interpretação portuguesa".

No prazo de uma semana, Chaby diz ter conhecido pessoalmente as maiores celebridades das letras, artes e do jornalismo.
Parceira com Aura Abranches (1919)

No segundo mês no Rio, apresentaram as peças "Teresa de Raquin" (com base na obra de Zola), "O Cabelo Branco", "O Lenço Branco", além dos monólogos do repertório de Chaby.

Com este programa, o actor afirma que os jornais cariocas o elegeram como destaque da companhia.

No terceiro mês, a companhia encena a peça "A Lagartixa", recusada pela Companhia Sousa Bastos, recém-chegada ao Rio. Chaby interpretava um pequeno papel, porém os risos que provocava no público faziam o teatro vir abaixo. Por essa razão, o actor afirma que não existem pequenos papéis.

Do Rio, a companhia seguiu para São Paulo, onde apresentou o "Kean", de Alexandre Dumas, pai.

Revista "Ilustração Portuguesa" (1919)

Após a temporada em São Paulo, desceram para Santos, onde permanecem por 30 dias. Durante esse período, Chaby diz ter relido obras de autores portugueses e construído conhecimento das obras brasileiras de Machado de Assis e Coelho Neto, uma clara ocorrência da circulação cultural existente entre o Brasil e Portugal.

De Santos, seguiram para Buenos Aires e, mesmo apresentando as peças em português, impressionaram o público argentino com os cenários, pois, segundo Chaby, as companhias que passavam por lá não se importavam com a montagem dos espectáculos.

Os críticos argentinos destacaram a interpretação e a dicção do actor, tanto em verso quanto em prosa. E é sempre citada a questão do seu físico de 140 quilos não interferir na elegância e no desempenho dos seus personagens.


De Buenos Aires, seguiram para Montevidéu, e novamente para o Brasil, até chegar a Pelotas. De lá, seguiram novamente para o Rio, onde Chaby deu apoio a Serra, um actor português que actuava na opereta brasileira "A Viúva Clark", de Artur Azevedo, com Hermínia Adelaide como protagonista e João Silva. Ficaram em cartaz no Rio e em São Paulo com a peça "Mancha que limpa", por alguns meses, antes de regressarem a Portugal.

É igualmente dado destaque, no seu livro de memórias, a duas digressões ao Brasil, sendo que numa delas percorreu as regiões Norte e Nordeste, e na outra o Sul do país. Numa dessas digressões, o actor desempenhou o papel de director de cena (encenador) ao lado de Eduardo Brasão, o que, segundo Chaby, foi um grande passo na sua própria carreira.

O actor regressou à companhia Rosas & Brasão, por duas ocasiões, sendo que, na segunda, permaneceu por onze anos. Após esse tempo, organizou, juntamente com Aura Abranches, a companhia Aura-Chaby, com a qual fez outra notável digressão pelo Brasil, onde permaneceu por mais de um ano, seguindo posteriormente para a Argentina.


Companhia Leopoldo Fróes - Chaby Pinheiro (1928)

Em 1927 é constituída a Companhia Leopoldo Fróes–Chaby Pinheiro, em parceria com o actor brasileiro Leopoldo Froes. Nessa temporada, a companhia apresentou sete peças, sendo uma delas, encenação de um texto brasileiro: "o Gigolô". Essa digressão pelo Brasil teve grande êxito, segundo críticas de jornais transcritas no livro de memórias. Uma das críticas considera Chaby como a maior expressão artística do teatro lusitano.

Das peças representadas é de realçar "O Leão da Estrela", que deu origem ao clássico do cinema português com António Silva, e "O Conde Barão" (ambas da autoria de Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e João Bastos) e "O Café do Felisberto" (do autor brasileiro Gastão Tojeiro), no qual o comediante português se limitou a fazer um papel relativamente curto e sem importância (o patrão do "garçon" Alberto), tendo no entanto o prazer de arrancar numa cena curta, magistralmente representada, uma ovação tão vigorosa quanto a que Fróes recebia no final da peça.

Fontes: "Chaby Pinheiro e o fluxo cultural entre Brasil e Portugal" de Richard Bertolin de Oliveira e Albeto Ferreira da Rocha Junior (adaptado) / Blog "Histórias de Cinema" (parceria com Leopoldo Fróes) / Revista "Ilustração Portuguesa" (fotos) / wikiwand


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Beatriz Costa - Vedeta em Portugal e no Brasil


A actriz portuguesa Beatriz Costa (1907-1996) efectuou cinco digressões ao Brasil (1924, 1929, 1937, 1939 e 1950) e fixou residência no Rio de Janeiro durante grande parte da década de 1940, quando organiza uma Companhia de Teatro de Revista com o actor brasileiro, de origem espanhola, Oscarito (Companhia de Revistas Beatriz Costa com Oscarito – 1942/1945).

Em 1924, ela já estava actuando no Teatro Maria Vitória de Lisboa, na revista "Rés Vês", ainda como corista. No dia 24 de julho  embarcou, com a Companhia Portuguesa de Revistas do Teatro Eden de Lisboa, em parceria de António de Macedo (director artístico da Companhia) com José Loureiro (empresário português que detinha vários teatros no Brasil, como o República), no navio Lutetia rumo ao Brasil.

A companhia apresentava como elementos principais as actrizes Lina Demoel, Zulmira Miranda, Carmen Martins e Julieta de Almeida e os actores Álvaro Pereira e Jorge Gentil.


Esta primeira temporada da Companhia Portuguesa de Revistas dura quatro meses (de 7 de agosto a 8 de dezembro), sendo apresentados no teatro República um total de nove espectáculos de revistas inéditas e em "reprise" dentre as quais estão "Fado corrido", "Tiro ao alvo", "Chá com torradas", "Piparote", "Aqui d’El-Rei", "Rez-Vez", "O 31", "Tic-Tac" e "De capote e lenço".

No dia 9 de dezembro, Beatriz Costa seguiu com a companhia para uma temporada nas cidades de São Paulo e Santos retornando novamente para uma nova temporada, no Rio de Janeiro de onde parte para Portugal em 14 de junho de 1925.

No entanto, não foi dessa vez que Beatriz Costa ficou no Brasil. Voltando a Portugal, com reputação, de grande artista, passou por várias companhias ao lado de renomados artistas, como Nascimento Fernandes, Manoel de Oliveira e Eva Stachino, quando obteve grande popularidade com o número "D. Chica e Sr. Pires", ao lado de Álvaro Pereira.


Em 1927, talvez influenciada pelo furor que o corte à la garçonne (popularizado por Margarida Max e Louise Brooks) provocou, Beatriz Costa estreou no cinema, com um novo corte de cabelo que se tornaria sensação entre as mulheres: o franjão.

A partir daí, como se diz em Portugal, toda a gente sabe o que significa ter uma franja à Beatriz Costa.


A sua segunda visita ao Brasil foi com a companhia portuguesa de Eva Stachino, em 1929. Novamente, a imprensa portuguesa noticiou o sucesso da actriz, relembrando sua passagem pela América do Sul.

Em solo brasileiro, o grupo apresentou as revistas "Pó de Maio", "Lua de Mel", "Meia-noite", "Carapinhada" e "A Mouraria", entre outras.

"Minha Noite de Núpcias" (1931)

Após a tournée ao Brasil, Beatriz Costa foi escolhida pelos homens da Paramount para encarnar o papel de Clara Bow em "Minha Noite de Núpcias", versão portuguesa de "Her Wedding Night" de Frank Tuttle (1930), rodada em Paris nos estúdios de Joinville sob direcção do realizador brasileiro Alberto Cavalcanti.

O filme teve sucesso em Portugal e no Brasil, destacando-se, nos principais papéis, ao lado de Beatriz Costa,o actor brasileiro Leopoldo Froes e o actor português Estevão Amarante.


Em 1933 a sua imagem é eternizada em "A Canção de Lisboa" de José Cottinelli Telmo, um dos primeiros filmes sonoros realizados em Portugal.

O filme é estreado Brasil, no Cinema Odéon, em Dezembro de 1933, permanecendo em cartaz até 7 de janeiro de 1934. E posteriormente é reposto no Cinema Alhambra (em fevereiro) e noutros cinemas como o Floresta (em maio), o Nacional (em junho) e o Popular (em setembro).

Em outubro é exibido no cinema gratuito do Auditorium do Rio de Janeiro, no decurso da Feira Internacional de Amostras (entrada 1$000). E em 1937 é exibido no Grande festival do Centro Recreativo Braz de Pina.



Em 1936 é um dos destaques da lendária revista "Arre Burro" (que viria a ser um dos seus maiores sucessos em Portugal e no Brasil) e faz parte do elenco de "O Trevo de Quatro Folhas", dirigido por Chianca de Garcia, com a participação do actor brasileiro Procópio Ferreira (no seu primeiro papel no cinema) e do actor português Nascimento Fernandes.

O filme é estreado em Portugal (em 1936) e no Brasil (1937).


Em 1937 retorna ao Brasil agora com a sua própria companhia (Companhia Portuguesa de Revistas com Beatriz Costa), contratada pelo empresário José Loureiro, que, segundo diria mais tarde, “foi o degrau para a minha independência”.

No Rio de Janeiro, ela se apresenta no Teatro República sucessivamente nas revistas: "Arre, Burro!", "Estrelas de Portugal", "O Liró", "O Santo António", "Sardinha Assada" e "Água, Vae…"
  

O Jornal "A Batalha" assinala na sua edição de 15 de outubro de 1937 a “reprise” da revista “Arre Burro !” (depois de quatro semanas de “êxito ruidoso”), que terá sido reclamada insistentemente por mais de mil pessoas que escreveram cartas e enviaram telegramas quer para Beatriz Costa quer para a empresa do Theatro República.

Actua igualmente no Teatro Casino Antárctica em São Paulo sob direcção artística de Rosa Matheus e direcção musical do maestro António Lopes.


Em maio de 1939 parte novamente para o Brasil com a sua companhia (Companhia Portuguesa de Revistas Beatriz Costa). Julgava-se que por alguns meses, mas a guerra que rebenta na Europa no Outono  mantém-na do outro lado do Atlântico durante cerca de 9 anos, a qual considerou os melhores anos da sua vida.

No período em que esteve no Brasil (1939-1947),  trabalhou durante 2 anos no Casino da Urca, no Rio de Janeiro, formou Companhia com Oscarito, actuou em diversas cidades, mas sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo, fez amizade com alguns relevantes intelectuais brasileiros (como Jorge Amado) e casa, a 18 de fevereiro de 1947, no México, com o arménio Edmundo Gregorian.


Na primeira temporada, ainda sob a gerência do empresário José Loureiro, de junho a outubro de 1939, no Teatro República, no Rio de Janeiro, apresentam nove peças de teatro de revista, em espectáculos por sessões, todos os dias às 20h e 22h, com "matiné" aos sábados às 16h e às 15h, aos domingos. Além de se apresentar com sua companhia no Rio de Janeiro, faz incursões teatrais às cidades de São Paulo e Campinas.

Beatriz participa em três grandes campanhas publicitárias numa nova estratégia comercial que envolvia a imprensa, o rádio e o cinema. A primeira delas é uma promoção da Sociedade Rádio Nacional – PRE-8 e do jornal "A Noite" para um concurso popular de caricaturas da actriz, cujos traços devem ressaltar a sua famosa franja.

Após o encerramento do prazo do concurso, uma exposição com os 135 desenhos originais do concurso é inaugurada em 25 de maio nas instalações da Rádio Nacional.


Em 1939 é estreado no Brasil o filme português "Aldeia da roupa branca", de Chianca de Garcia, com Beatriz Costa no papel de protagonista.

A imprensa da época assinalou a presença do realizador português no Rio de Janeiro aquando da estreia no cinema Odeon, sendo referido o sucesso do filme em Inglaterra, Espanha, Suécia e Noruega (sendo o primeiro filme falado em língua portuguesa que atravessa essas fronteiras) . Chianca de Garcia radicou-se no Brasil onde realizou os filmes "Pureza" (1940) e "Vinte horas de sonho" (1941).

De fevereiro a abril de 1940, a actriz faz uma "tournée" ao Rio Grande do Sul apresentando-se nas cidades de Porto Alegre e Pelotas.

Entre outubro de 1940 e fevereiro de 1941, contratada pelo empresário Joaquim Rolla, realiza espectáculos no Grill do Cassino da Urca junto a Grande Otelo e outros artistas nacionais e internacionais.


Em 1941, actua nas casas de diversões do empresário Felix Rocque, em Belém, no Pará. Ainda no mesmo ano, participa em programas de rádios e grava discos na RCA Victor e na Columbia interpretando marchas, sambas e canções típicas portuguesas.

O seu primeiro disco incluía a marcha "Não te cases Beatriz", de Antônio Almeida, Alberto Ribeiro e Arlindo Marques Jr., em dueto com Leo Vilar, com acompanhamento do conjunto de Benedito Lacerda e do grupo vocal Anjos do Inferno e "Beatrizinha", temas que faziam parte da banda sonora do filme "Portuguesinha" de Chianca de Garcia (que foi rodado no Brasil, com Beatriz Costa como protagonista, mas não chegou a ser concluído).

O disco incluía igualmente gravações de canções como "Tiroliro", "A Cachopa Não é Sopa" e "Ai! Joaquim".


Referência à exibição em Portugal de "Portuguesinha" que não chegou a ser concluído

Em 1942, a actriz constitui a Companhia de Revistas Beatriz Costa com Oscarito, em parceria com o empresário português Celestino Moreira, que actuou inicialmente no Teatro República e posteriormente no Teatro João Caetano, onde permaneceu até 1945.

A companhia inclui no seu repertório revistas, operetas e "burletas" (comédias musicais ligeiras). A estratégia empresarial é atingir não só o público brasileiro, mas principalmente os espectadores de nacionalidade portuguesa, distantes de seu país de origem e repletos de sentimento nostálgico pela pátria longínqua (pois as companhias portuguesas estavam impedidas de se deslocar ao Brasil devido à guerra).

Em 1945, no intervalo da peça "A Cobra tá Fumando" foi inaugurada no "hall" do Teatro João Caetano uma placa de bronze oferecida a Beatriz Costa e Oscarito pelos cronistas e autores teatrais em homenagem aos 19 meses de triunfos dos dois actores.


Em setembro de 1942, O Globo publica uma entrevista de Bandeira Duarte com Beatriz Costa com a sugestiva manchete: "Beatriz nasceu duas vezes". Na ocasião, a actriz declara: "Eu nasci em Portugal [...] Mas a Beatriz Costa que vocês conhecem nasceu aqui, no Brasil. Foi baptizada num palco brasileiro... O primeiro punhado de sal português e a primeira salva de palmas brasileira são as minhas duas certidões de nascimento, dando-me direito a duas pátrias".

Em 1950 realiza a sua última digressão ao Brasil, com direcção geral de Chianca de Garcia, na Revista "Mão Bôba" no novo Teatro Carlos Gomes, mas a crítica não é tão positiva devido à menor qualidade dos textos.




Considerada uma sedutora de plateias, Beatriz Costa divertiu o público carioca e se afirmou como uma profissional da alegria, como ela mesma se intitulou num dos seus livros autobiográficos.

Do alto de seu 1,53 m de altura, a vedeta dos dois países somou o amor do público português ao do brasileiro e construiu uma trajectória digna de respeito.

Fontes/Mais informações: Aplauso  / Christine Medeiros  (1)(2) / Blog "Histórias do Cinema" / Dicionário do Cinema Português de Jorge Leitão Ramos / Blog "Mulheres Ilustres" Fabulásticas / Miguel Catarino (discos) / Heloísa Helena Paulo (cinema)  / Citi