sábado, 15 de dezembro de 2018

Chaby Pinheiro entre Portugal e o Brasil (início do século XX)

Revista "Ilustração Portuguesa" (1923)

Foi com a peça "Casa de Bonecas" de Ibsen que Chaby Pinheiro (1873-1933) fez a primeira das 28 travessias ao Atlântico. O actor conta no seu livro de memórias que, naquele tempo, a chegada de uma companhia portuguesa no Brasil era um grande acontecimento: "em geral, ia uma por ano; o máximo duas – uma de comédia, outra de opereta - que foi o que aconteceu então, indo depois de nós a Companhia de Sousa Bastos, do Trindade".

Estrearam no Rio de Janeiro, no Teatro Santana (hoje Carlos Gomes). A peça ficou em cartaz por 33 noites consecutivas e, segundo Chaby, "todo o Rio intelectual e artístico foi admirar a peça do Ibsen, na interpretação portuguesa".

No prazo de uma semana, Chaby diz ter conhecido pessoalmente as maiores celebridades das letras, artes e do jornalismo.
Parceira com Aura Abranches (1919)

No segundo mês no Rio, apresentaram as peças "Teresa de Raquin" (com base na obra de Zola), "O Cabelo Branco", "O Lenço Branco", além dos monólogos do repertório de Chaby.

Com este programa, o actor afirma que os jornais cariocas o elegeram como destaque da companhia.

No terceiro mês, a companhia encena a peça "A Lagartixa", recusada pela Companhia Sousa Bastos, recém-chegada ao Rio. Chaby interpretava um pequeno papel, porém os risos que provocava no público faziam o teatro vir abaixo. Por essa razão, o actor afirma que não existem pequenos papéis.

Do Rio, a companhia seguiu para São Paulo, onde apresentou o "Kean", de Alexandre Dumas, pai.

Revista "Ilustração Portuguesa" (1919)

Após a temporada em São Paulo, desceram para Santos, onde permanecem por 30 dias. Durante esse período, Chaby diz ter relido obras de autores portugueses e construído conhecimento das obras brasileiras de Machado de Assis e Coelho Neto, uma clara ocorrência da circulação cultural existente entre o Brasil e Portugal.

De Santos, seguiram para Buenos Aires e, mesmo apresentando as peças em português, impressionaram o público argentino com os cenários, pois, segundo Chaby, as companhias que passavam por lá não se importavam com a montagem dos espectáculos.

Os críticos argentinos destacaram a interpretação e a dicção do actor, tanto em verso quanto em prosa. E é sempre citada a questão do seu físico de 140 quilos não interferir na elegância e no desempenho dos seus personagens.


De Buenos Aires, seguiram para Montevidéu, e novamente para o Brasil, até chegar a Pelotas. De lá, seguiram novamente para o Rio, onde Chaby deu apoio a Serra, um actor português que actuava na opereta brasileira "A Viúva Clark", de Artur Azevedo, com Hermínia Adelaide como protagonista e João Silva. Ficaram em cartaz no Rio e em São Paulo com a peça "Mancha que limpa", por alguns meses, antes de regressarem a Portugal.

É igualmente dado destaque, no seu livro de memórias, a duas digressões ao Brasil, sendo que numa delas percorreu as regiões Norte e Nordeste, e na outra o Sul do país. Numa dessas digressões, o actor desempenhou o papel de director de cena (encenador) ao lado de Eduardo Brasão, o que, segundo Chaby, foi um grande passo na sua própria carreira.

O actor regressou à companhia Rosas & Brasão, por duas ocasiões, sendo que, na segunda, permaneceu por onze anos. Após esse tempo, organizou, juntamente com Aura Abranches, a companhia Aura-Chaby, com a qual fez outra notável digressão pelo Brasil, onde permaneceu por mais de um ano, seguindo posteriormente para a Argentina.


Companhia Leopoldo Fróes - Chaby Pinheiro (1928)

Em 1927 é constituída a Companhia Leopoldo Fróes–Chaby Pinheiro, em parceria com o actor brasileiro Leopoldo Froes. Nessa temporada, a companhia apresentou sete peças, sendo uma delas, encenação de um texto brasileiro: "o Gigolô". Essa digressão pelo Brasil teve grande êxito, segundo críticas de jornais transcritas no livro de memórias. Uma das críticas considera Chaby como a maior expressão artística do teatro lusitano.

Das peças representadas é de realçar "O Leão da Estrela", que deu origem ao clássico do cinema português com António Silva, e "O Conde Barão" (ambas da autoria de Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e João Bastos) e "O Café do Felisberto" (do autor brasileiro Gastão Tojeiro), no qual o comediante português se limitou a fazer um papel relativamente curto e sem importância (o patrão do "garçon" Alberto), tendo no entanto o prazer de arrancar numa cena curta, magistralmente representada, uma ovação tão vigorosa quanto a que Fróes recebia no final da peça.

Fontes: "Chaby Pinheiro e o fluxo cultural entre Brasil e Portugal" de Richard Bertolin de Oliveira e Albeto Ferreira da Rocha Junior (adaptado) / Blog "Histórias de Cinema" (parceria com Leopoldo Fróes) / Revista "Ilustração Portuguesa" (fotos) / wikiwand


1 comentário:

Blogger disse...

Extracto do artigo da Revista "Ilustração Portuguesa" de 24 de fevereiro de 1923 "A próxima tournée ao Brasil da Companhia dirigida por Chaby Pinheiro":

Em poucas palavras, pôs-nos Chaby ao facto dos planos estabelecidos, afirmando-nos que
a companhia partirá no dia 20 do próximo mês com os mesmos elementos com que trabalhou esta temporada; dirigindo-se para a capital brasileira, seguirá, depois, para S. Paulo e, em seguida, para Santos. Conta demorar-se cinco meses, devendo estrear-se, em Outubro deste ano, no Porto (...)

Quanto a peças, além das do antigo repertório da companhia e das desta ultima época, algumas das quais, como "Cama, mesa e roupa lavada", obtiveram grande êxito, ainda leva: "Ser ou não ser", original de Arnaldo Leite e Carvalho Barbosa; "Segunda noite de núpcias", traduzida por José Paulo da Câmara; "O marido de minha mulher"», adaptação de Mário Duarte, duma peça húngara; e em "reprise" "O grande mágico» e "Abade Constantino".