terça-feira, 15 de julho de 2014

A emigração portuguesa em “O Salto” (“Voyage of Silence”) de Christian de Chalonge (1967)


Filme emblemático sobre a emigração portuguesa clandestina, “O Salto” está imbuído de uma forte carga política e ideológica, fruto do ambiente efervescente vivido em França na época. O crescente fluxo migratório, as condições em que partiam os emigrantes – a pé e em camionetas de carga – e a forma como eram recebidos em França são questões retratadas de forma crua e realista. Com esta primeira obra o francês Christian de Chalonge viria a arrecadar, em 1968, o prestigiado Prémio Jean Vigo.

“O Salto” é um filme francês estreado em 1968, sob direcção de Christian Chalonge, com a participação, entre outros, de Marco Pico (António Ferreira), Ludmila Mikaël (Dominique), António Passalia (Carlos), Américo Trindade (Américo), António Assunção e Henrique de Souza (Alberto).


 Carlos Saboga, hoje famoso argumentista do cinema português, era um jovem imigrante em Paris nessa altura, alguém que vivendo noutra realidade, a dos exilados políticos, viu de perto os bidonvilles por razões profissionais (participou na pesquisa para o filme "O Salto", de Christian de Chalonge, sobre a emigração clandestina portuguesa):

"Paris estava cercada de bidonvilles onde estavam os tipos que estavam a fazer a França. Estes tipos estavam escondidos, não se viam nas ruas. Trabalhavam na Renault, na Citroën, na construção civil, nas auto-estradas. Eu conhecia os bairros de lata lisboetas - Casal Ventoso, Vale Escuro -, porque enquanto militantes [comunistas] íamos lá falar com as pessoas, mas nunca tinha visto nada assim. As condições de vida eram pavorosas. Quando os franceses falam dos 30 anos de prosperidade a seguir à guerra, esquecem-se dessa outra face da moeda."


Sinopse 

António é um marceneiro português que, para fugir à guerra colonial e à pobreza, decide emigrar para França, respondendo ao desafio de um amigo. À dureza da travessia da fronteira, somam-se as dificuldades em Paris. Sem documentos, sem trabalho e sem falar francês, António deambula pela cidade em busca de Carlos, o amigo que lhe prometera ajuda. Neste seu percurso solitário, a esperança e o optimismo vão dando lugar à desilusão, sentimento partilhado por muitos portugueses com quem se vai cruzando.

Por não encontrar Carlos, e sem saber o que fazer, António pede ajuda a Dominique, uma jovem enfermeira francesa, que conhecera em Portugal, contudo a jovem não poderá ser de grande utilidade para um imigrante ilegal (que, ainda por cima, não fala francês), mas ainda lhe consegue arranjar um pequeno “biscate”, ajudando à mudança de casa de um médico.

Quando António encontra Carlos, sente-se traído, ao saber que o compatriota exige uma elevada quantia em dinheiro para lhe arranjar os documentos de trabalho e o pagamento de uma percentagem do seu salário durante cinco anos, acabando por ir parar a uma cidade com piores condições do que a vila portuguesa donde era originário.


Prémios 

Prémio OCIC do Festival de Veneza (1967)

Prémio Jean Vigo (1968)


Música de Luís Cília

Luís Cília foi para França forçado. Nos primeiros tempos tocava nas festas das associações de emigrantes. Apenas quando fez a música para o filme "O Salto" é que se dedicou só à música.

Em 1966 foi entrevistado pela televisão francesa no âmbito de um programa sobre a juventude que emigrou para França


Filmes sobre a emigração portuguesa 

O realizador José Vieira, a residir em França e autor de “Gente do Salto" (2005), que pretende ser um documento com memórias de portugueses que fugiram para França nos anos 60 que, no seu entender, França e Portugal continuam a ignorar, referiu por ocasião da apresentação do seu documentário, que “há poucos filmes sobre a emigração portuguesa em França, realidade que poderá ser alterada em breve com o surgimento de novas histórias feitas pelos filhos dos portugueses.”

Fontes/Mais informações: RTP / Films de France / Museu Emigrante / Textos da internet / Itacaproject  / Memória Viva  / Scoop.it (cinema e emigração) 

Videos: Genérico / Tema do filme em assobio

1 comentário:

cdr disse...

Hoje de manhã ouvi na TSF a falarem de Armando Rodrigues de Sá que foi o imigrante "um milhão" a chegar â Alemanha.