quinta-feira, 10 de outubro de 2013

“Uma Casa Portuguesa” de cariz internacional


“Uma Casa Portuguesa” é uma das canções mais conhecidas da música portuguesa. A música é do maestro Artur Fonseca, que dirigia a orquestra de salão do Rádio Clube de Moçambique, com letra de dois jovens poetas de Lourenço Marques, Reinaldo Ferreira e Vasco Matos Sequeira.

Cantado pela primeira vez pela angolana Sara Chaves, que estava de passagem em Moçambique, no Teatro Manuel Rodrigues em Lourenço Marques numa quase certamente quente noite de uma 4ª feira, 30 de Janeiro de 1952, num sarau em honra de uma delegação do Colégio Militar de Lisboa, que então visitava Moçambique. Mais tarde, João Maria Tudela mostrou a canção a Amália Rodrigues que a cantou e a celebrizou mundialmente, tendo sido incluída no álbum “Amália no Olympia”.

A canção tinha originalmente um ritmo lento, suave, expressivo, bem diferente do que todo o Portugal conhece na interpretação de Amália Rodrigues.



Percurso internacional de uma "Casa Portuguesa"

A cantora espanhola Gloria Lasso gravou, em 1955, versões de “Uma Casa Portuguesa”, em espanhol e francês, respectivamente com o título de “Una Casa Portuguesa”, com letra de G. Dasca, e “Quand Je Danse Dans Tes Bras “, com letra em francês de Max François.

Amália Rodrigues e Gloria Lasso receberam o troféu “Caravela de prata” em 1955. O tema foi gravado sob direcção de orquestra de Franck Pourcel, que igualmente lançou uma versão instrumental.


A canção foi gravada em Espanha, ainda na década de 50, por cantores como o espanhol Jorge Sepulveda e e a argentina Lydia Scott. E, mais tarde, nos anos 60, por Marisol.

E, e em itália, "Una Casa Portuguesa" foi gravada por Wilma de Angelis, pelo quarteto vocal Poker di voci ou por Gerardo e il suo complesso.


O maior número de versões registou-se, no entanto, em França, com cantores como Frederica, Lynda Gloria (do Casino de Paris) e Jacques Hélian a interpretarem "Quand Je Danse Dans Tes Bras ...", e inúmeras versões instrumentais por orquestras como as de Hubert Rostaing, Henri Rossotti , Eddie Barclay e Noel Chiboust Pourcel, ou músicos como o acordeonista  Marcel Azzola e o pianista Charlie Oleg.


"Uma Casa Portuguesa" tornou-se igualmente uma das canções portuguesas mais populares no Brasil, sendo gravadas, ainda na década de 50,  versões por artistas luso-brasileiros como Gilda Valença e Manoel Monteiro.  E foi cantada em 1984 por João Gilberto num concerto em Portugal.

E também foi recuperada por Caetano Veloso que incluiu "Uma Casa Portuguesa"  num pout-pourri conjuntamente com as canções brasileiras "Por causa de você" e "Felicidade".



Caetano Veloso afirmou ao jornal italiano "La Repubblica" que temas como "Lisboa Antiga" e "Uma Casa Portuguesa" são um presente para a história da música. E que temas como "Coimbra" não estão assim tão afastados da música do compositor italiano Nino Rota.

Nelson Riddle gravou igualmente "Uma Casa Portuguesa", também conhecido como "House in Portugal", em 1958, na sequência do sucesso de "Lisbon Antigua", que foi nº1 nos Estados Unidos em 1955.


O tema também foi gravado pela orquestra de Reginald Conway, em ritmo samba“, sob o título "Uma Casa Portuguesa (A Portuguese home)”.

E foi gravado, nos anos 70, pelo cabo-verdiano Johnny Rodrigues, que obteve bastante sucesso nos Países Baixos com versões de temas portugueses como "Hey Mal yo".


Videos: Gloria Lasso / Manoel Monteiro / João Gilberto / Caetano Veloso / Jorge SepúlvedaMarisol / Poker di voci / Amália no Olympia

Um fado moçambicano ? 

Este fado é alegre, musicalmente agradável, reprodutor de uma exo-saudade idílica e exageradamente generoso, em parte porque não tropeça nas muitas razões que fizeram com que Portugal, uma miserável pequena ditadura e uma sociedade em quase tudo parada no tempo, fosse um tão apetecível lugar de onde se emigrar.

Naquela altura, Portugal só era lindo para quem estava em Moçambique porque estava tão longe. O poema só pode ser interpretado como um dos mais sublimes exercícios de sarcasmo dos afectos concebidos na língua portuguesa.

João Maria Tudella também gravou "Uma Casa Portuguesa" em 1959

Mas este fado nunca foi visto nem apercebido como tal, em parte por se enquadrar tão precisamente na grelha popularucho-travestipoética prevalecente e imposta nos círculos de então. Nesse aspecto, para mim, será sempre um fado moçambicano, dos tempos em que alguns ali viviam uma forma muito peculiar de se ser português.

Em que a distância, a saudade e o isolamento se prestavam à alegoria. Enfim, este poema de moçambicano tem pouco, mas tem piada saber pois quase qualquer português a sabe cantar.

Fontes/Mais informações: Estado sentidoDelagoabayword / Margarida Navarro  / ratosreturn / Hitparade italiawikipedia 


Capas

4 comentários:

João Pedro Gouveia Gouveia disse...

Parabéns por este trabalho sobre "Uma Casa Portuguesa", porque embora eu esteja informado ainda aprendi muita coisa. Algumas datas não estão muito certas mas isso é o que menor importância tem.Na Onda Pop nº13 tem a origem da Casa Portuguesa pela Sara Chaves. Vim aqui parar quando procurava a foto do disco com o Dan Hill que também está na <Get Back Radio.
Virei procurar mais coisas. Gosto de trabalhos sérios.

Blogger disse...

Obrigado.

Link para Onda pop nº 13:

http://www.ondapop.pt/nordm13.html

Todas as noites, após a saída dos clientes que vinham jantar à Taverna do Girassol, havia tertúlia.
O grande poeta Reinaldo Ferreira (filho do grande Reporter X - jornalista, dramaturgo e realizador de cinema) contava anedotas bem "apaladadas", e um belo dia havia iniciado uma quando entra no restaurante um casal. Aí o maestro Artur Fonseca, que já conhecia o estilo dessas anedotas, avisa "atenção Reinaldo isto é uma casa portuguesa" ao que este responde "concerteza". De seguida todos quase em coro dizem "uma casa portuguesa concerteza".
Artur Fonseca senta-se ao piano e começa a dedilhar uma frases musicais. Pouco tempo depois Reinaldo coloca-lhe no piano um poema, dizendo "está feito". O maestro vai desenvolvendo a imaginação com as frases musicais a bailarem nos dedos e Vasco Matos Sequeira também vai dando ideias e uma meia-hora depois diz "terminei, e é a Sara quem a vai cantar". Acabava de nascer um dos maiores êxitos da canção portuguesa. Sara foi ensaiada pelo próprio maestro e estreou a canção no RCM em 1951. Só no final da década ela vem a ser gravada em disco pelo João Maria Tudela, que do Artur Fonseca gravou mais de 30 lindas canções. Mas é Amália Rodrigues quem a torna num dos maiores sucessos internacionais da música portuguesa, infelizmente só vilipendiada pelos pseudo intelectuais portugueses que consideram a letra fascisante, mostrando toda a sua ignorância histórica e não entendendo os valores da fraternidade e honestidade porque se regia o bom povo português independente da política e não conhecendo o grande poeta que foi Reinaldo Ferreira e que entre centenas de poesias cépticas e de gosto tão amargo quanto ao status quo da época, também escreveu "Menina Dos Olhos Tristes", musicada e cantada pelo enorme Zeca Afonso ou interpretada pelo insuspeito Adriano Correia de Oliveira.

ar disse...

Nas emissões anteriores falou-se de Sara Chaves mas a partir de ontem falou-se na Casa Portuguesa - http://www.rtp.pt/play/p955/e253085/david-ferreira-a-contar http://www.rtp.pt/play/p955/david-ferreira-a-contar

sd disse...

http://fadocravo.blogspot.pt/2016/01/uma-casa-portuguesa-quand-je-danse-dans.html