quarta-feira, 5 de outubro de 2011

"Os Argonautas" de Caetano Veloso (1969)


[Navegar é Preciso] É um texto famoso de Fernando Pessoa, desses que se incorporam à memória cultural de um povo. Cito de memória: "Navegadores antigos tinham um lema: navegar é preciso, viver não é preciso. Quero para mim este lema, adaptando-o à minha vida e à minha missão no mundo: viver não é necessário, o que é necessário é criar."

Para a minha geração, a frase lembrada por Pessoa foi popularizada por Caetano Veloso em sua canção "Os argonautas", no seu "disco branco" saído em 1969, logo após sua prisão pelo regime militar.


Nenhum de nós tinha a menor ideia de quem fosse Fernando Pessoa. Era apenas um nome que Caetano tinha bradado, enfurecido, para a plateia que o vaiava durante sua interpretação de "É proibido proibir", num daqueles festivais.

Com a vaia, o cantor interrompeu o canto e disparou na direcção da plateia um monólogo a plenos pulmões com uns dez minutos de duração, no qual, a certa altura, gritava: "Hoje não tem Fernando Pessoa!" (*)

(*) [Caetano Veloso ia interpretar "É Proibido Proibir" com Os Mutantes, pretendendo, inicialmente, incluir um texto de Fernando Pessoa para homenagear a actriz Cacilda Becker que estava a ser pressionada para rescindir o seu contrato com a televisão]


Fernando Pessoa? Quem diabo é esse cara? Corremos todos para as enciclopédias e descobrimos que era um "poeta modernista português, falecido em 1935". Ficamos mais perplexos ainda. Oi... quer dizer que o Modernismo tinha chegado em Portugal?!

Pensávamos que Portugal tinha estacionado em Camões e Gil Vicente.
Aí saiu um compacto [single] simples, tendo no lado B a faixa "Ambiente de festival", com a vaia do teatro e a diatribe de Caetano, e no lado A a canção "É proibido proibir" ("A mãe da virgem diz que não... e o anúncio da televisão... e estava escrito no portão..."), na qual, a certa altura, brotava a voz surda e angustiada de Caetano recitando: "Esperai! Cai no areal e na hora adversa que Deus concede aos seus..."


Eram os versos do poema "D. Sebastião", na parte III de "Mensagem", único livro publicado em vida por Fernando Pessoa. Até hoje não sei o que diabo têm a ver Dom Sebastião e o slogan "É proibido proibir"; mas foi este talvez o primeiro link "pessoano" na obra de Caetano, retomado depois com "Os argonautas": "O barco... meu coração não aguenta tanta tormenta, alegria, meu coração não contenta..."

Era um fado nostálgico em tom menor, ao som de bandolins, onde se misturavam temas como a navegação sem rumo e o vampirismo ("O barulho do meu dente em tua veia... o sangue, o charco..."). E o refrão, em tom maior ascendente, triunfante: "Navegar é preciso... Viver não é preciso!"


Só muitos anos depois é que vi comentários sobre a ambiguidade da frase. "Precisão" pode significar necessidade: navegar é necessário, viver não é necessário. Mas pode significar também exactidão, e aí teríamos: navegar é uma ciência exacta, viver não o é.

O que está muito mais de acordo com os argonautas da Escola de Sagres, com suas bússolas, astrolábios e portulanos. Naufrágios, calmarias e tempestades, no entanto, nos mostram a ingenuidade dessa distinção. Viver e navegar estão submetidos ao mesmo princípio de incerteza. Não nos esqueçamos de que para navegar é preciso viver, não é preciso?

Fonte: Braulio Tavares (Publicado no Jornal da Paraíba, edição de 25 de julho de 2004)


Homenagem à cultura portuguesa

"Os Argonautas" foi interpretado por cantoras como Elis Regina, Maria Betânia e Ângela Maria.

Trata-se de um fado, em homenagem à cultura portuguesa, ao mar e à mítica viagem dos Argonautas comandados por Jasão [em metáfora aos navegadores portugueses].

Há quem tenha notado no modo de cantar de Veloso uma homenagem a Amália Rodrigues e uma homenagem a Fernando Pessoa, com a inclusão do verso "Navegar é preciso, viver não é preciso" que tem origem no general romano Pompeo (106-48 aC) "Navegar é necessário; viver não é necessário".

Além da menção ao mar (que é uma constante em Mensagem), fica claro o conteúdo sebastianista da letra, tal como acontece no livro de Pessoa.

Letra

o barco, meu coração não aguenta
tanta tormenta
alegria, meu coração não contenta
o dia, o marco, meu coração
o porto, não
navegar é preciso
viver não é preciso
o barco, noite no teu tão bonito
sorriso solto perdido
horizonte, madrugada
o riso, o arco, da madrugada
o porto, nada
navegar é preciso
viver não é preciso
o barco, o automóvel brilhante
o trilho solto, o barulho
do meu dente em tua veia
o sangue, o charco, barulho lento
o porto silêncio


"A Mensagem do Tropicalismo"

Uma conferência de Caetano Veloso e Antonio Cicero intitulada "A Mensagem do Tropicalismo", sobre a influência de Mensagem de Fernando Pessoa no movimento tropicalista, inaugurou o ciclo Livres Pensadores na Casa Fernando Pessoa, no dia 4 de Dezembro de 2009.

António Cícero estivera anteriormente no "I Congresso Internacional Fernando Pessoa". Segundo o ensaísta, "Caetano conta que uma das principais influências que sofreu foi de Agostinho da Silva, um professor português, um intelectual, um pensador, que havia emigrado para o Brasil, onde deu aulas, e em cujos ensaios ele reconhecia um certo messianismo que derivava imediatamente de Fernando Pessoa".

Caetano, que leu “Mensagem” na faculdade, impressionara-se sobretudo pelo facto de Fernando Pessoa ser capaz de dar vida digna a esse mito (ao parecer constituir a fundação da língua portuguesa).


Videos

(1) Caetano lê trecho da carta de Pêro Vaz de Caminha interpreta "Os Argonautas"

(2) Elis Regina canta "Os Argonautas" (de Caetano Veloso) no especial Sexta Nobre-Gloco 71/72.

(3) Caetano e Chico - Juntos e ao Vivo

(4) Maria Betânia [a música foi feita para ela cantar]

Outras fontes/mais informações: umbarco.blog / música e memória / fumacas.weblog / yahoo / Mundo pessoa / Caetano en detalle / Lusoleituras

Caetano Veloso colaborou na edição nº1 da revista "Pessoa"

1 comentário:

trf disse...

http://observador.pt/2017/04/24/caetano-veloso-a-presenca-da-cultura-portuguesa-esta-nas-minhas-cancoes/

Tem uma música, que Bethânia me pediu para fazer em 1968, com as frases “Navegar é Preciso / Viver não é Preciso”, que ela tinha encontrado num texto de Fernando Pessoa. A frase remonta à Grécia Antiga… O Fernando Pessoa atribui aos Argonautas e eu botei o título “Os Argonautas” por causa de Fernando Pessoa. Eu fiz para ela, ela gravou e a canção tem um pouco de fado e uma frase de “Ai Mouraria”, uma citação ao fado “Ai Mouraria”. [Começa a cantar]: “Navegar é preciso,/Viver não é preciso.” Esse é bem direto, mas há muitas coisas [na minha obra] indiretamente ligadas a Portugal.