domingo, 30 de setembro de 2012

"Crónica do Rei Pasmado" de Gonzalo Torrente Ballester (1989)


O escritor galego Gonzalo Torrente Ballester constrói, em pouco menos de 200 páginas, uma narrativa (*) bem humorada e repleta de críticas à pretensa moral e bons costumes da Igreja, com uma premissa imaginativa

(*) «sherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado» é como o autor lhe chama.

São numerosos os personagens e os factos históricos discretamente transfigurados ao longo da estória que os “institui pela palavra”. A começar pelo “rei pasmado”: Filipe IV (terceiro de Portugal), então com os seus 20 anos de idade e 4 ou 5 de reinado.
 


Certa noite, depois de uma visita “às meninas”, o jovem soberano não consegue tirar da cabeça o corpo da cortesã Marfisa.

Os severos costumes impostos pela inquisição impedem o Rei de manter um relacionamento intimo com a Rainha. Com o apoio de um padre jesuíta, um português chamado Almeida, o único dos presentes que justificou os devaneios do Rei, o Rei vai procurar rodear esta difícil situação.





Sinopse

A partir do pasmo extasiado do rei ao ver pela primeira vez uma mulher nua, e ao querer ver nua também a rainha, toda uma intriga se tece na corte, metendo nobres, inquisidores, uma afamada meretriz, um jesuíta português, a superiora do convento; toda uma tela de uma obra que bem justifica o qualificativo de pitoresca, num divertimento de primeira água.




Sucesso no Cinema (1991)

As aventuras do «rei pasmado» foram adaptadas ao cinema, num filme dirigido por Imanol Uribe, em que a figura do desenvolto jesuíta padre Almeida é interpretada pelo actor português Joaquim de Almeida.

O filme – uma co-produção hispano-franco-portuguesa - foi rodado em Espanha (Toledo, Ávila, Madrid, El Escorial, Salamanca) e em Guimarães (no coração histórico).

Videos: (1) (2) (3)




Padre Almeida (interpretado por Joaquim de Almeida)

"Nem todos os da procissão entraram, só os que tinham assento no Supremo, quer como membros titulares quer como teólogos convidados; ou seja, consultores, e entre estes figurava um jesuíta português, o padre Almeida, bastante novo ainda, mas de rosto queimado pelos sóis brasileiros.

O padre Almeida estava de passagem por Madrid: tinham-no destinado a capelão secreto de uma casa de Inglaterra, porque o outro capelão tinha sido justiçado, o que era o mesmo que admitir que não restava muito tempo de vida ao padre Almeida; mas não parecia acabrunhado nem entristecido, nem tão-pouco entusiasmado com o seu futuro martírio: comportava-se com naturalidade, muito mais do que os seus companheiros, apesar da reputação de teólogo sábio que o seu reitor proclamava na carta de apresentação para o Inquisidor-mor com que justificava a sua presença."




O padre Almeida chocava um pouco entre os restantes clérigos, porque usava por cima da sotaina um colarinho à francesa, e porque, ao desabotoá-la por causa do calor, se lhe tinham visto meias pretas e calção. Mas, como estrangeiro, não lho levavam a mal.

"O padre Almeida, sim. O padre Almeida é português, e sabe mais das coisas do mar do que Vossas Mercês".




D. Francisca de Távora

A rivalidade entre o rei e o o Conde de Villamediana (que terá inspirado a Gonzalo Torrente Ballester o seu da Peña Andrada) foi motivada pela inocente doña Francisca de Tavora, filha do português D. Martim Alonso de Castro, general das galeras de Portugal  e vice-rei da Índia, que o Rei também cortejava.




O Rei elogia a forma de dançar de D. Francisca, que o informa que aprendeu a dançar “em todas as ilhas perdidas desses mares onde os homens e as mulheres dançam, mas muito especialmente no Norte de Portugal“

D. Francisca de Távora (ou D. Paca, como é igualmente é identificada) foi interpretada no filme pela actriz espanhola Eulalia Ramón, que dança a chacona.





Camões e Ronsard

Deve ser essa doidivanas de Dona Paca de Távora.
O conde respondeu-lhe com uma ligeira inclinação de cabeça.
- É mui formosa, Majestade.
- A Rainha não nutre simpatia por ela.
- É natural, senhor. Uma refinada francesa e uma exuberante portuguesa não estão
destinadas a entender-se. É como se Vossa Majestade comparasse Camões com Ronsard.
- De Camões li muitos versos, mas a esse outro nunca o ouvi nomear.
- Certamente, senhor, Sua Majestade a Rainha sabê-lo-á de cor.

Fontes: Edição digital do livro / A minha estante / Passamos como o rio / El Pais / Tese Erica Myeko Ohara  


 

3 comentários:

Anónimo disse...

Tese

http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2006/anaisEvento/docs/CI-290-TC.pdf

Numa de Letra disse...

Lido de fresco :-)

Só me falta ver o filme...

http://numadeletra.com/cronica-do-rei-pasmado-de-gonzalo-65578


Numa de Letra disse...

Lido de fresco :-)

http://numadeletra.com/cronica-do-rei-pasmado-de-gonzalo-65578