quarta-feira, 11 de maio de 2011

Jogo de espiões em "Tempestade em Lisboa" de George Sherman (1944)

Ponto nevrálgico de rotas marítimas e aéreas, Lisboa reforçou a sua posição no “mapa-mundo norte americano” a partir do momento em que na grande produção "Casablanca" (1942) de Michael Curtiz, a cidade constitui o destino onde muitos desejavam chegar desesperadamente.

"Storm over Lisbon” pode ser lido como uma continuação de "Casablanca", porque o espectador é levado finalmente à cidade à qual a maioria dos refugiados de Casablanca desejam chegar.

Uma cidade que é de novo um ninho de várias proles de espiões aliados e do Eixo, estabelecidos no entanto de forma menos improvisada. O bar Rick’s de Rick Blaine.(Humphrey Bogart) é substituído pelo casino de Deresco’s de Deresco (Eric von Stroheim), um escroque que vende pelo melhor preço informações de qualquer espécie que interesse a qualquer serviço secreto. Em "Casablanca" o herói é o dono de um "night club". Em Lisboa, o casino pertence ao vilão.


De novo, conseguir um bilhete de avião desta vez para Nova Iorque, é o destino mais ambicionado por qualquer refugiado europeu e o móbil dos crimes e dos jogos de interesse.

Em Casablanca, Victor Lazlo, importante líder da resistência checa, procurava obter “letters of transit” para poder voar para Lisboa.Em “Storm over Lisbon”, a dançarina checoslovaca Maritza (interpretada por Vera Ralston) também faz tudo para conseguir um bilhete para o “clipper” que parte de Lisboa para Nova Iorque.

O circuito de evasão europeu, segundo Hollywood, estava completo.


Sinopse

Deresco (Erich Von Stroheim) é proprietário de um casino em Lisboa. Apesar de Portugal ser um pais neutral, ele actua como espião free-lancer para quem lhe pagar o seu preço.

O escritório de Deresco está situado no alto de uma torre-prisão que comunica com o casino por um elevador digno de um arranha-céus de Nova Iorque donde são lançados os corpos dos espiões mais incómodos.

Deresco tenta impedir, com a ajuda da dançarina checa Maritza (Vera Ralston), que o jornalista americano John Craig (Richard Arlen) saia de Portugal com um microfilme secreto sobre as actividades japonesas na Birmânia.


Bill Flanagan (Robert Livingston), um piloto americano e Craig (Richard Arlen) são salvos por Maritza que se enamora do primeiro, depois de inúmeras aventuras.

Na verdade Maritza é um contra-agente enviado para desmascarar as actividades de Deresco.

Maritza dá a conhecer às autoridades portuguesas as actividades de Deresco, tendo o apoio do “Ministério da Justiça” nas suas actividades de contra-espionagem em favor dos Aliados.

No final, Bill e John embarcam num clipper para Nova Iorque e convidam Maritza para segui-los.

Na última cena do filme, Maritza recusa a oferta para permanecer na Europa ao serviço da contraespionagem e desaparece lentamente ao som de uma música melancólica de cavaquinhos, em jeito de fado.

É criada assim uma visão norte-americana da Europa ocupada constituída por um labirinto de cidades pelas quais têm que passar os felizes eleitos que chegam aos EUA. Cidades onde, apesar de oficialmente neutrais, o perigo nazi é bem presente.

Imagens de Portugal

À semelhança de “One Night in Lisbon”, Lisboa só é vista à luz do dia a partir de imagens retiradas de documentários da época que muito rapidamente oferecem algumas instântaneas da cidade.

Mais uma vez a Praça do Rossio, um detalhe de calçada à portuguesa e uma vista das grades da Praça Luis de Camões que com o seu desenho semelhante à Cruz de Cristo transmitem subliminarmente a impressão de que os protagonistas chegaram a uma cidade ibérica e católica.

Em tudo o que resta do filme, Lisboa é representada sempre à noite, o que terá ajudado certamente a limitar o budget do filme.


A acção desenrola-se em cinco lugares distintos da cidade: o Aeroporto Marítimo de Cabo Ruivo, o casino-torre de Deresco, o esconderijo subterrâneo de Craig, uma zona arborizada ao longo do Tejo e um bar típico.

Do alto da torre, Deresco explica ao espião Alexis Vandelyn antes de considerar matá-lo e lançá-lo ao rio Tejo, que dali é possível apreciar “one of the most exciting views of the world”.

No filme, duas americanas de meia idade que chegam ao casino do Estoril e exclamam: “It’s better than Montecarlo. Montecarlo never had a Deresco’s. Such a finesse!”.


A sala do casino e os cenários das coreografias das danças de Maritza não escapam a um gosto orientalizante, reminiscências da visão norte-americana de Portugal do século XIX e ao mesmo tempo da aproximação ao aspecto do Hotel do parque do Estoril da época.

O bar típico de Lisboa possui unicamente mesas com toalhas aos quadrados e o gerente, mais bem um taberneiro, tem colocado na cabeça um barrete parecido com os gorros típicos dos campinos do Ribatejo.

A todos estes elementos cenográficos é associado um elemento sonoro desconcertante pela sua ausência de relação com Lisboa. Um grupo de três rufias de bigode, lenço ao pescoço e boné, que não são mais do que agentes de segurança locais, passeia-se pelos bares. Tocam sempre, sem cantarem, o mesmo vira do Minho: “Meninas vamos ao vira!”. Uma canção oriunda de uma província bem distante mas que refere as “meninas de Lisboa”.


Recriação de Lisboa

Foi talvez para a recriação do primeiro lugar que os cenaristas da republic Pictures trabalharam mais detalhadamente. Na verdade, a ponte-embarcadouro e a fachada fluvial da estação são primorosamente imitadas.

Para esta reconstituição terá sido fundamental um documentário de actualidades da série "The March of Time" produzido em 1943 e hoje disponível no Steven Spielberg Movie and Film Archive destinado, entre outros objectivos, a dar conta da actividade da ligação da Pan American Airways em Lisboa.

A inspiração para a cenografia da torre do Deresco’s terá sido obtida a partir de outro documentário da série "The March of Time" hoje disponível no arquivo da HBO e provavelmente da interpretação livre a partir de postais ilustrados da Torre de São da Casa O’Neil (ou de Santa Marta) e do farol de Santa Marta em Cascais e mesmo da Torre de Belém.

Fontes: Dr. João Mascarenhas Mateus, “Uma Cidade de Espionagem Internacional. Lisboa segundo Hollywood” / Allmovie

2 comentários:

Francinete Mateus disse...

Muito bem este post!

Blogger disse...

Obrigado

Mas o mérito é das fontes indicadas