quinta-feira, 22 de abril de 2010

"Fado Tropical" de Chico Buarque (1973)


"Fado tropical" foi composto em 1973 para a peça "Calabar ou o elogio da traição".

Sugerindo painéis de azulejo à moda portuguesa do século XVIII, Chico Buarque e Ruy Guerra [cineasta moçambicano] propõem nesta canção um retrato crítico do Brasil colonial, que corresponde em filigrana ao país tal como se encontrava sob a ditadura civil-militar.

Na confluência entre pintura, história e literatura, os dois artistas compõem uma série de paisagens e de naturezas mortas lusotropicais.

Através deste jogo metafórico, tornado ainda mais complexo pela censura, (...) "Fado Tropical", ao recorrer à arte pictórica, esboça uma nova "aquarela do Brasil", ambivalente e irónica, que sugere a permanência do autoritarismo ibérico em nossa formação histórica e cultural.


"Calabar ou o elogio da traição" (Teatro)

A peça conta a história de Domingos Fernandes Calabar, soldado mulato membro das tropas portuguesas. Desde 1624, os portugueses buscavam expulsar os holandeses que desejavam instalar-se na zona açucareira do nordeste.

O governador de Pernambuco Mathias de Albuquerque, português nascido no Brasil, conquista várias vitórias, graças à colaboração de Henrique Dias, escravo africano alforriado, e de Felipe Camarão, indígena que se converteu ao catolicismo.

(..) Calabar decidiu mudar de campo, pondo os seus conhecimentos do território a serviço da Companhia das Indias Orientais (ou "C.I.O.", como está dito na peça). (...)

Mas Calabar, capturado em 1635 por Mathias de Albuquerque, é condenado e executado pelo crime de alta traição, sem que houvesse qualquer protesto emitido pelos holandeses. (...)


Alegorias lusotropicais

Na sequência dos versos anteriores, a última estrofe se desdobra em alegorias dos cinco sentidos, semelhantes àquelas representadas no claustro do convento da ordem terceira de São Francisco, em Salvador (Simões, 1963):

Guitarras e sanfonas
Jardins, coqueiros, fontes,
Sardinhas, mandiocas,
Num suave azulejo.
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-montes
E numa pororoca
Desagua no Tejo.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um império colonial. (Buarque, 1973)

Fonte: Adriana Coelho Florent

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