quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

50 anos de personagens e actores portugueses em novelas brasileiras (1965-2015) (I)


Os portugueses, como parte importante na composição étnica brasileira, não poderiam estar ausentes do enredo das novelas brasileiras. Desde “Antônio Maria”, de 1968, a representação do imigrante português sempre esteve associada ao trabalho, muitas vezes em padarias e confeitarias, e o bom-humor com algumas doses de rispidez.

Actores portugueses aparecem nas produções brasileiras desde os anos 60 através de participações especiais e até papéis de protagonismo. Da mesma forma, muitos actores brasileiros deram vida a personagens portugueses. E em anos mais recentes actores portugueses como Ricardo Pereira e Paulo Rocha tornam-se presença assídua nas principais novelas da Rede Globo, inclusive interpretando personagens brasileiras.

“A Cor da Sua Pele” (Tupi, 1965)


O primeiro personagem português apresentado numa telenovela no Brasil é Dudu, representado por Leonardo Villar, na novela “A Cor da Sua Pele” de Walter George Durst, com base numa história do argentino Abel Santa Cruz.

Foi a primeira novela a falar sobre o preconceito racial. A história de amor, entre a mulata de olhos verdes Clotilde (Yolanda Braga) e o comerciante português Dudu (Leonardo Villar), trouxe para a pequena tela o primeiro beijo inter-racial da sua história e Yolanda Braga ficou para a história como a primeira protagonista negra de uma telenovela brasileira.

"Antônio Maria" (Tupi, 1968)


É em "Antônio Maria" que, pela primeira vez, um personagem português se destaca. Geraldo Vietri queria fazer uma homenagem aos imigrantes portugueses mas sem propagar o estereótipo anedótico. Foi justamente por isso que resolveu criar o personagem Antônio Maria D’Alencastro Figueiroa. Achava que já era mais do que hora de se homenagear um povo fundamental para o perfil sociológico da nação brasileira. Para isso, subverteu a tradição popular: ao invés de um português alvo de piadas, resolveu construir um português herói, desbravador, galante, que declamava Camões.

Para viver o personagem, o actor Sérgio Cardoso (juntamente com Geraldo Vietri, autor e diretcor) conversou com dezenas de portugueses de todas as categorias: desde o cônsul e o vice-cônsul de Portugal em São Paulo, até donos de bares e armazéns, todos contribuíram para que seu personagem tivesse o vocabulário e o sotaque lisboetas.


Antônio Maria chamava automóvel de "máquina", terno de "fato", as moças de "meninas" e o patrão de "vossa excelência". Mas por causa do seu sotaque, não conseguiu melhor emprego que o de motorista. Várias vezes, na novela, Antônio Maria repetia uma denúncia: "Os portugueses que chegam ao Brasil nunca encontram empregos compatíveis com seu grau de instrução".

Carlos Duval e Guiomar Gonçalves (ambos actores brasileiros) eram seus conterrâneos na novela. Fernando Nobre (Carlos Duval), dono de uma panificadora, oferece-lhe sociedade, mas “Antônio Maria”, inexplicavelmente, prefere continuar como empregado. Por que motivo “Antônio Maria” quer ficar na casa do Dr. Adalberto ? Que vida ele levava em Portugal ?


A cantora portuguesa Gilda Valença, radicada no Brasil, era Amália, a noiva de António Maria, que virá atrapalhar o amor que nasce entre o português e Heloísa (Aracy Balabanian).

A novela agradou à colónia portuguesa e, mesmo tendo baixa audiência no início, ao terceiro mês era líder no horário das 19 horas. Em “Antônio Maria” vivia-se uma evolução, já que não havia carruagens, bosques, ciganos – típicos das novelas anteriores mas sim um cenário urbano real.

 “A Muralha” (Excelsior, 1968)


Baseada na obra homónima de Dinah Silveira de Queiróz,  em “A Muralha” narra-se a história da família de Dom Brás de Olinto e, por extensão, os factos que levaram à Guerra dos Emboabas (luta por terras em Minas Gerais), nomeadamente o choque dos paulistas que conquistaram terras e minas e os forasteiros de diversas procedências, principalmente baianos e portugueses, que queriam se apossar delas.

A muralha significa a serra como obstáculo às incursões dos bandeirantes, nas suas buscas de novas terras e riquezas. A trama gira em redor da família de Dom Brás, especialmente com a chegada de Portugal de uma sobrinha, Cristina (Arlete Montenegro), que se apaixona por um dos seus filhos, Thiago.


Nesse relacionamento foram exploradas as diferenças culturais e de mentalidade entre os personagens, já que o rapaz tinha nascido no Brasil. A novela fora exibida anteriormente em duas versões mais simples, em 1958, na Tupi e em 1963, pela Cultura.

Em 2000, produziu-se um remake pela Globo, em forma de mini-série, com adaptação da dramaturga portuguesa radicada no Brasil, Maria Adelaide do Amaral.

"Irmãos Coragem (Globo, 1970)


Janet Claire revolucionou a novela brasileira com "Irmãos Coragem". No interior de Goiás, na fictícia cidade de Coroado, os moradores sobrevivem da principal actividade económica na região, o garimpo de ouro.

Na cidade, vive a família Coragem: a mãe Sinhana (Zilka Sallaberry) e os seus três filhos, João (Tarcísio Meira), Jerônimo (Cláudio Cavalcanti) e Duda (Cláudio Marzo). No meio da história da família de três irmãos humildes, que lutavam contra as injustiças cometidas pelo coronel da cidade, estavam dois personagens portugueses, ambos representados por actores brasileiros, Gentil Palhares (Arthur Costa Filho) e a sua esposa Manuela (Lourdinha Bittencourt), donos da pensão de Coroado. O companheirismo da esposa é evidente, principalmente no negócio familiar.

A novela foi regravada já no novo milénio pela Globo, sendo os personagens portugueses interpretados pelos actores brasileiros Chico Tenreiro e Zaira Zambelli.

"As Pupilas do Senhor Reitor" (Record, 1970)


A Record produziu em 1970 uma novela ambientada inteiramente em uma aldeia do Minho, em Portugal: "As Pupilas do Senhor Reitor". A adaptação do texto do escritor português Júlio Dinis, tratava dos conflitos dos moradores locais: um médico que perde o posto para outro mais jovem, recém-formado, e o envolvimento das “pupilas” Clara e Margarida, que estão sob o cuidado do reitor Padre Antônio, com os irmãos Das Dornas.

Em 1994, o SBT exibiu uma nova adaptação escrita por Lauro César Muniz.

"Meu Pé de Laranja Lima" (Tupi, 1970)


Escrita por Ivani Ribeiro, com base no livro de José Mauro de Vasconcelos, relata a história de Zezé (Haroldo Botta), um menino pobre que tem como amigo um pé de laranja lima. Ao conhecer Manuel Valadares, o Portuga (Cláudio Corrêa e Castro), nasce uma bonita amizade. Foi a primeira adaptação do livro que tinha sido campeão de vendas de livros e que havia recebido uma versão cinematográfica.

Dez anos mais tarde ganhou outra versão, dessa vez na Bandeirantes, onde Dionísio Azevedo interpreta o Portuga. Em 1998, a mesma emissora gravou uma terceira versão escrita por Ana Maria Moretzsohn onde o personagem português foi interpretado por Gianfrancesco Guarnieri.

"Os Deuses Estão Mortos (Record, 1971)


Amália participa na novela “Os Deuses estão mortos”, da TV Record, de Lauro César Muniz e Dionísio Azevedo, interpretando a artista portuguesa Eugênia Câmara, paixão do poeta brasileiro Castro Alves.

Os actores portugueses João Lourenço, no papel de Paulo, e Irene Cruz, no papel de Tereza, também fizeram uma participação especial nesta novela que se passava em Ouro Negro, onde duas famílias disputavam a liderança política da cidade: uma monarquista e a outra, republicana.

"Os Fidalgos da Casa Mourisca" (Rede Record e TV Rio, 1972)


Baseada no romance homónimo de Júlio Diniz, foi adaptada por Dulce Santucci e dirigida por Randal Juliano, mas sem o sucesso de "As Pupilas do Senhor Reitor", do mesmo escritor. Rodolfo Mayer, no papel de Dom Luís, e Geraldo Del Rey e Ademir Rocha no papel dos filhos de Dom Luís, Jorge e Maurício, eram os Fidalgos do título, destacando-se igualmente as actrizes Maria Estela (no papel de Berta, uma plebeia que se casava com um dos filhos) e Laura Cardoso (que interpretara o papel de Tereza em "Pupilas do Senhor Reitor" como Gabriela).

"Semi-deus" (Globo, 1973)


O jornalista Alex Garcia (Francisco Cuoco) volta ao Brasil para realizar uma reportagem sobre o império industrial da família Leonardo, ao mesmo tempo em que o presidente das empresas, Hugo Leonardo (Tarcísio Meira), é vítima de uma conspiração armada por seus inimigos.

Havia cenas de exterior gravadas em Portugal, em locais como a Torre de Belém, Estoril, o Convento de São Jerónimo, o Castelo de São Jorge e Alfama.

"Meu rico português" (Tupi, 1975)


Em 1975, outro personagem lusitano ganhou destaque na telenovela brasileira. Em "Meu rico português", Geraldo Vietri repetiu a fórmula empregada em Antônio Maria e trouxe como personagem principal Severo Salgado Salles (Jonas Mello), recém-chegado de Portugal que faz amizade com a milionária Dona Veridiana Pires Camargo.

O actor Jonas Mello treinava seu sotaque português ouvindo discos com poesias de Fernando Pessoa e frequentando assiduamente a colónia portuguesa na sede da Portuguesa de Desportos, em São Paulo.

Amália Rodrigues fez uma participação especial na novela nos seus últimos capítulos, quando Severo e Walquíria vão ouvir Amália a uma casa de fados, aumentando ainda mais a audiência do folhetim

“Os Apóstolos de Judas” (Tupi, 1976)


Laura Cardoso, que venceu o troféu APCA para melhor actriz do ano, interpretava o papel de Fátima da Conceição, a bondosa vizinha de Jonas Mello (Judas, o protagonista), uma viúva portuguesa que trabalha na feira ao lado dos filhos Nando e Tonho.

Fátima não se dá bem com Domitília, a futura sogra de seus filhos, que namoram as irmãs Simone e Priscila. Domitília é uma viúva cheia de pompa, que se diz parente de Dona Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, a mais famosa amante do imperador D. Pedro I.

"O Casarão" (Globo, 1976)


A novela "O Casarão, exibida em horário nobre da Globo, às 20 horas, foi uma das poucas novelas narradas de modo não-linear, escrita por Lauro César Muniz. Participaram atores portugueses como Tony Correia, que viveu Jacinto de Souza, imigrante que chegou ao Brasil em 1895 em busca de uma vida melhor.

Analfabeto e carvoeiro desde menino, se dirigiu ao interior de São Paulo onde as plantações de café estavam em pleno progresso. Trabalhava na construção da estrada de ferro e também na Fazenda de Água Santa, para ajudar na construção do casarão, onde encontrou os compatriotas na lavoura de café.


"O Casarão" se passava em três momentos diferentes. A novidade desta trama era a apresentação dessas épocas de forma intercalada. Por isso, duas atrizes portuguesas faziam o papel da mesma personagem porém em épocas distintas. Ana Maria Grova e Laura Soveral interpretaram Francisca, com quem Jacinto tem um romance na cidade de Tangará, onde se passa a trama.

"Escrava Isaura" (Globo, 1976)


A actriz Ana Maria Grova, que interpretara a jovem Francisca em "O Casarão", participou, também em 1976, em "Escrava Isaura", da Globo, no papel de Eneida. A novela de época, escrita por Gilberto Braga, foi adaptada do romance de Bernardo Guimarães e esteve entre as novelas mais exportadas do mundo. Foi vendida para mais de cem países.

A atriz portuguesa interpretou uma mulher interesseira que revela a Leôncio o paradeiro de Isaura quando ela estava escondida em Barbacena, interior de Minas Gerais.

"Duas Vidas" (Globo, 1976)


Laura Soveral também fez uma participação em 1976 em "Duas Vidas", de Janete Clair, com a personagem Leonor, dona da gravadora Danúbio, que perdeu o filho em um acidente e passa o tempo a lembrar-se dele. A novela da Globo, que se passava no Rio de Janeiro, tinha como tema a tragédia urbana.

"Locomotivas" (Globo, 1977)


Tony Correia participou em diversas novelas no fim da década de 70, com destaque também para o seu  trabalho em "Locomotivas", de 1977, na Globo, onde interpretou Machadinho, um jovem ingénuo que, vindo de Portugal, hospeda-se na casa de Victor (Isaac Bardavid), dono de um bar. Com seus dotes culinários, Machadinho transformou o pequeno bar num restaurante.

O personagem, que abrasileira o sotaque, viveu também alguns casos de amor. Inicia-se uma nova fase da representação do homem português: jovem galanteador, sensível, bonito, inteligente, sem o uso de artifícios como bigode ou boina das novelas anteriores. Essa contemporaneidade também se deve à própria temática da novela, dedicada à juventude. E também era a primeira vez que algumas cenas eram gravadas em Portugal, com a participação de artistas locais como a fadista Márcia Condessa.

"Aritana" (Tupi, 1978)


Em 1978, Tony Correia trabalhou também em "Aritana", de Ivani Ribeiro, como Nicolau Seabra, o Lalau, gerente do hotel das termas, que era de propriedade de seu pai, o Comendador Seabra, português interpretado pelo actor brasileiro Serafim Gonzalez. A novela narrava a luta do índio Aritana por suas terras.

 "Maria, Maria" (Globo, 1978)

A novela de Manoel Carlos também incluía um personagem português, José Moitinho, que era um simpático comerciante da região de diamantes no interior da Bahia, interpretado pelo actor brasileiro Carlos Brasileiro que se especializou no papel de personagens portuguesas (pois já fora Fernando Nobre em "Antônio Maria e voltou a interpretar um português em "Pacto de Sangue").

Fontes principais: “De Antônio Maria a Balacobaco: panorama da presença portuguesa na telenovela brasileira” de Elaine Javorski (Encontro Nacional da História de Mídia) / "A influência das relações comerciais e culturais entre Brasil e Portugal na inserção de personagens portugueses nas telenovelas" de Elaine Javorski e Isabel Ferin Cunha (Universidade de Coimbra)

Outras Fontes: Ualmédia / Mundo das novelas / Astros em revista / Bandeirantes start / Teledramaturgia / wikipedia / Mundo das novelas / Todo dia um texto novo  / Imgrum / Novelas e mundo  / Memória Globo / Movenotícias / Gshow / Correio da Manhã (Tony Correia)

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