segunda-feira, 15 de junho de 2015

O Vinho da Madeira na literatura mundial


O Vinho é um tema que atrai a atenção de todos, cativando, de forma especial, também poetas e literatos. O Vinho da Madeira é, como muito dos licorosos, um caso singular na História e na Literatura.

As referências literárias e artísticas ao vinho Madeira estão circunscritas aos principais espaços consumidores, em que se destacam os Estados Unidos da América e o Reino Unido. A sua referência tanto surge em textos, em prosa e verso, que descrevem épocas determinadas, ou através do testemunho de viajantes e de guias, que desde o Século XIX, que divulgam as potencialidades turísticas da ilha.


De todas a referência mais frequente e valorativa acontece na obra de Shakespeare, o que demonstra a importância que este vinho assumiu no quotidiano britânico, quer no meio da aristocracia, que na agitada vida dos pubs londrinos.

Na Europa, excepção feita ao Reino Unido, é na Rússia e na França que estas referências surgem com maior frequência, dando conta que o vinho estava presente nos ambientes mais requintados da sociedade.


 Reino Unido

Na peça "Henrique IV" de William Shakespeare, Falstaff é acusado de trocar a sua alma por uma perna de frango e um cálice de vinho da Madeira.

Outro caso dá-se em 1478 e é o da condenação à morte de George de York, Duque de Clarence, irmão de Eduardo IV e Ricardo III, que escolheu alegadamente ser afogado dentro de um tonel de vinho (que a lenda ser da Madeira, da casta Malvasia, contudo na peça "Ricardo III" apenas se refere malvásia, sem qualquer pista da sua proveniência).


Jane Austen (em “Mansfield Park” e “Emma”), Charles Dickens (em “Bleak house”, onde é referido que é agradável beber o vinho Madeira com pão doce e pudim, mas também em “Little Dorrit”, “Our Mutual Friend”, entre outros),  Robert Smith Surtees (em “Handley Cross” bastava uma garrafa de malvásia da Madeira) ou Walter Scott (em “The Antiquary”) são outros bons exemplos de referências literárias.


Rússia

No caso russo, Dostoievsky (1821-1881) ou Leon Tolstoi (1828-1910) são exemplo de referências literárias ao vinho Madeira.

Em “Crime e Castigo” lamenta-se a pouca variedade de vinhos e a falta imperdoável do “Madeira”, enquanto que Tolstoi faz referência a um "Madeira seco" em "Guerra e Paz" e na novela "Os Invasores" fala de um genuíno Madeira no casco, de 1842.



França

Mais abundantes são as incidências da literatura francesa do Século XIX, podendo-se associar o vinho Madeira a escritores famosos como Balzac (em “Les Paysans” e “La Peau de chagrin”), Jules Verne (em “Os filhos do Capitão Grant”), Sade (em “Justine”), Alexandre Dumas (em “20 anos depois”), Guy Maupassant (em “Bel-Ami” e “La parure e outros contos parisienses”), Flaubert (em “Correspondência”) ou Chateaubriand (“Mémoires d’Outre Tombe”).

Segundo Anatole France, em “Le Petit Pierre”, o vinho Madeira acompanha bolos secos e apenas “un doigt de vin de Madere anima les regards, fit sourire les levres”.

Victor Hugo faz referência, em "Os Miseráveis", ao vinho da Madeira, da colheita de "Curral das Freiras", a trezentas e dezassete toesas acima do nível do mar, que era bebido tranquilamente por umas senhoras.

Já para Alfred Musset o Madeira caia bem com uma asa de perdiz. Mas Proudhon queixa-se que este vinho e outros europeus não estão acessíveis a todo o povo.


Estados Unidos da América

A produção de vinho foi estimulada pela necessidade de abastecer os navios nas rotas do Atlântico para o Novo Mundo e para a Índia, e pela presença dos ingleses na ilha, que fizeram com que o vinho fosse conhecido em toda a Europa e América, tornando-se o vinho preferido em banquetes e mesas requintadas das cortes europeias e nas respectivas colónias. Por exemplo, foi com vinho da Madeira que em 4 de Julho de 1776 se brindou à independência dos Estados Unidos da América, provavelmente porque era o vinho de eleição do estadista Thomas Jefferson.

Segundo Nathaniel Parker Willis, em "Dashes at Life", o Vinho Madeira era conhecido como vinho de casamento.

Em "A Narrativa de A. Gordon Pym", Edgar Allain Poe refere o Capitão Joel Rice da escuna Firefly, que partiu de Richmond, Virginia, para a Madeira, no ano de 1825, com uma carga de milho. E fala de uma carga de "three gallons of excellent Cape Madeira wine".

Ricahard Penn Smith em “The Forsake: A tale” menciona "muitas pipas de bom vinho velho da Madeira".

James Fenimore Cooper, em “Afloat and Ashore” refere o “East India Madeira” que era conhecido na ilha como vinho de roda e era conhecido pela designação inglesa devido ao facto de fazer a viagem desde o Fuchal às Índias Ocidentais e o retorno a Londres. A dupla passagem pelos trópicos atribuía-lhe um envelhecimento prematuro que era do agrado dos ingleses. Já em”The Ways of the Hour” (1850) o vinho Madeira, certamente o “seco”, era bebido frio ou com pedra de gelo.

Herman Melville (em “White Jacket” de 1850) é outro dos exemplos.

Fontes/Mais informações: Alberto Vieira em "O Vinho Madeira. Valorização e importância económica e social através dos testemunhos da literatura e arte" / Revista Essential Madeira Islands / wikipedia / Looorock  

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