quarta-feira, 23 de abril de 2008

"Tanto Mar" de Chico Buarque

"Tanto mar" comemora a vitória do Estado democrático, em festa. E não só o reencontro com a liberdade. É a alegria, a esperança cantada. Esta música - que festejava a Revolução dos Cravos, em Portugal - foi proibida. Tem uma 1ª versão de 1975 e uma segunda em 1978. A letra da canção tinha um destinatário especial ("Sei que estás em festa, pá"), o português José Nuno Martins (que na altura era um dos melhores amigos de Chico Buarque.


Quando o disco foi editado, em 1975, vivia-se em Portugal a euforia da Revolução de Abril. Como sempre solidário, Chico quis homenagear esse tempo de liberdade e compôs uma das suas melhores e mais emblemáticas canções.

A canção foi incluída (e naturalmente cantada) no concerto que deu origem ao álbum "Chico Buarque & Maria Bethânia ao vivo", mas a censura brasileira da altura proibiu a sua divulgação e apenas foi autorizada a sua inclusão no album como tema instrumental.

É claro que em Portugal a versão original cantada foi a que apareceu editada, tornando-se rapidamente um dos maiores êxitos da época. Dois anos depois, já com a revolução dos cravos em “banho-maria”, Chico alterou (compreensivelmente) a letra e a nova versão, intitulada “Tanto Mar II” viu a luz do dia no album “Chico Buarque”, editado em 1978.

Estranhamente, porém, mesmo com o avançar dos anos e a modificação das mentalidades esse “erro” nunca foi corrigido: as sucessivas edições do album em cd continuaram a trazer sempre a versão instrumental.

Fontes: RRB / Pressrelease

Video: versão original


Mais recentemente, Fafá de Belém registou no seu álbum “Tanto Mar” (2004) ambas as versões e Maria de Medeiros gravou a 1ª das versões.



Letra "Tanto Mar":

Sei que estás em festa, pá
fico contente
e enquanto estou ausente
guarda um cravo para mim.
Eu queria estar na festa, pá
com a tua gente
e colher pessoalmente
uma flor do teu jardim.
Sei que há léguas a nos separar
tanto mar, tanto mar
sei também que é preciso, pá
navegar, navegar.
Lá faz primavera, pá
cá estou doente
manda urgentemente
algum cheirinho de alecrim.

Letra "Tanto Mar II":

Foi bonita a festa, pá
fiquei contente
'inda guardo renitente
um velho cravo para mim.
Já murcharam tua festa, pá
mas, certamente
esqueceram uma semente
nalgum canto de jardim.
Sei que há leguas a nos separar
tanto mar, tanto mar
sei também como é preciso, pá
navegar, navegar.
Canta a Primavera, pá
cá estou carente
manda novamente

2 comentários:

mc disse...

Encontrei uma entrevista do José Nuno Martins que refere a sua amizade - nos anos '60/'70 - com Chico Buarque:

"Chico passou por Portugal e eu entrevistei-o no Estoril Sol para a Rádio Universidade. Eu tinha 17 ou 18 anos, chamava-lhe Francisco e ele corrigia sempre "Francisco não, Chico". Ficámos amigos. Uma amizade intensa. Abriu-me as portas de sua casa, onde tantas vezes fiquei instalado. Senti-me também seu confidente. Vi-o muitas vezes a escrever. Assisti a gravações suas. Coisas únicas. O Chico Buarque deu-me a possibilidade de ter uma perspectiva do Brasil, da sua música, da sua cultura, que nunca teria sido possível sem ele. Proporcionou coisas incríveis: abriu-me as portas ao convívio com o seu pai, Sérgio Buarque, com o Vinicius - o meu pai espiritual até hoje - com o João Gilberto, o Tom Jobim, o Carlos Drummond de Andrade."

Anónimo disse...

O Chico Buarque tem outro tema sobre Portugal chamado "Fado Tropical" que foi utilizado numa peça pelo luso-moçambicano, radicado no Brasil, Ruy Guerra