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sexta-feira, 15 de março de 2013

“A Casa da Rússia” de John le Carré (1989)


John Le Carré, pseudónimo do escritor britânico David Cornwell, publicou em 1989 “The Russia House”, um romance de espionagem que decorre no fim da Guerra Fria.

“A Casa da Rússia” conta-nos a história de Barley Blair num livro que nos leva de Moscovo a Leninegrado, a Londres e, finalmente, a Lisboa, onde se desenrola uma parte importante da história, pois é em Portugal que é interrogado pelos serviços secretos ingleses.

É famosa a referência ao Príncipe Real, e aos discursos de um velho místico que seria o professor Agostinho da Silva.

Le Carré

Sinopse

Katya Orlova, amiga e ex-amante de Dante, um famoso cientista soviético, tenta entregar um livro  do seu amigo a Bartholomew Blair, um editor inglês, para que este as publique no Ocidente.

A obra, que contém segredos militares que podem ser vitais para a defesa do Ocidente, é extraviada e fica na posse dos Serviços Secretos Britânicos. Estes, especialmente o sector conhecido como Casa da Rússia, pretendem que Blair se encontre com Katya para descobrir quem é o autor destas obras e se há veracidade nas informações.

Contudo, a aproximação de Katya com Blair, não só fisica mas também emocional, vai agitar com as instruções primeiramente dadas a Blair.

No fim, Katya e a sua família prosseguem a sua vida em tranquilidade, Goethe (Dante), que tinha estado hospitalizado, é considerado morto, por causa natural, e Blair instala-se em Lisboa, onde tinha casa e recomeça a sua vida.

Agostinho da Silva, filósofo português

Agostinho da Silva

Num dos vídeos de “Conversas Vadias”, Cáceres Monteiro, lê a Agostinho da Silva umas linhas de John Le Carré que, em “A Casa da Rússia”, tem uma famosa referência ao Jardim do Príncipe Real, e aos discursos de um velho místico que seria o professor Agostinho da Silva a ocasionais discípulos , “por vezes, durante o dia, [chegara a] ouvir os discursos de um velho místico, com rosto de santo, que gosta de receber os seus discípulos, discípulos de todas as idades…”.

Agostinho da Silva, escutando a leitura da citação, comenta: “Se fosse navio, não tinha jeito para ser rebocador, e em terra continua da mesma maneira”.

Acrescenta, combatendo a hipótese da sua santidade: “Depois, ele [John le Carré] fala no tal místico com cara de santo. Eu suponho que ele estava de lado, só viu metade da cara. Se tivesse visto a outra metade, talvez mudasse de opinião…”.


Adaptação ao cinema

O livro "A Casa da Rússia" foi adaptado para o cinema em 1990, cerca de um ano depois da sua publicação, com título homónimo, sob a direcção de Fred Schepisi e com a interpretação de Sean Connery e Michelle Pfeiffer.

As cenas finais foram filmadas em Lisboa.


Opinião  de Fred Schepisi

Amei Lisboa. Ainda mais depois de ter estado na Rússia durante meses, o que na altura era muito complicado, com racionamento de comida, roupa e outros bens. Achei Lisboa encantadora. Tivemos imenso apoio e ajuda para conseguir o melhor das cenas lá. E adorámos a comida e os vinhos. Ficámos muito seduzidos pela cultura.





Alcatifas Lusotufo :)

Fontes: Filipe d’Avillez, Revista “Os Meus Livros” (adaptado) / Infopedia  / Wikipedia (filme)  / C7nema.netC7nema.net / A viagem dos Argonautas (sobre Agostinho da Silva) / Captomente (cenas do filme)

domingo, 30 de dezembro de 2012

O sucesso "marginal" de Dick Haskins



Dick Haskins é o pseudónimo literário de António Andrade de Albuquerque, escritor português nascido em Lisboa em 18 de Novembro 1929.  O facto de os leitores portugueses não aceitarem bem os autores nacionais levou-o, por exigência editorial, a utilizar um pseudónimo com nomes ingleses, contudo nunca escondeu a sua nacionalidade portuguesa.

Em 1961, foi editado pela primeira vez no estrangeiro – em Espanha e em diversos países da América do Sul – através da Editorial Molino. Em 1963, as editoras alemã Wilhelm Goldmann Verlag, de Munique, e Krimi Verlag AG, de Wollerau, Suíça, contratam oito dos seus livros já então escritos e publicados no idioma original, para publicação na Alemanha, Áustria e Suíça, e o editor Plaza & Janés, de Barcelona, publica dois títulos em Espanha e na América do Sul.



Seguir-se-iam outros países a partir de 1963, França, Itália, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Suécia1, Noruega, Dinamarca, Finlândia, Grã-Bretanha, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Estados Unidos, México, Colômbia, Argentina, Uruguai e Brasil.

Ainda na década dos anos sessenta, a RTP – Radiotelevisão Portuguesa – produz e apresenta no programa "Noite de Teatro" a adaptação da sua novela "Fim-de-Semana com a Morte" com o título de "O Caso Bardot".

Crítica ao filme com referência ao personagem Jack Haskins

A mesma novela, mantendo o título original, é adaptada ao cinema numa co-produção internacional – Portugal, Espanha e Alemanha – filme que foi protagonizado por António Vilar, Peter Van Eyck e a italiana Letícia Román, dobrado em diversos idiomas e apresentado em vários países, entre eles os Estados Unidos.

É homenageado em Paris em 1963, com a atribuição do cartão de membro do cartão de membro do "Intelligence club" e eleito membro do Clube dos Escritores Franceses de Literatura Policial e de Espionagem.


Em 1975, dada a boa aceitação dos seus livros traduzidos em alemão e publicados na Alemanha, Áustria e Suíça, tem um encontro em Frankfurt com o Director da Televisão da ARD - Süddeutscher Rundfunk Stuttgart, que estava interessada em comprar uma série de 13 episódios produzida por si e baseada nos seus livros publicados na Alemanha. 

Regressado ao seu país, o período de profundas mudanças de ordem política não o favorece no sentido de conseguir o apoio financeiro, técnico e artístico indispensável – inclusivamente da televisão oficial - para assumir a responsabilidade de uma produção que seria paga por cerca de cinco milhões de marcos.


Em 1979, assina um contrato como produtor externo com a RTP – Radiotelevisão Portuguesa – e produz uma série de 12 filmes baseados nas suas obras, que foram exibidos nos anos oitenta.

Publicado em 30 países estrangeiros desde a década dos anos sessenta pelos editores Editorial Molino, Plaza & Janés, Aldo Garzanti Editore, Wilhelm Goldmann Verlag, Krimi Verlag AG, Born Uitgeversmij, West Print AG, Angyra Publishing House, Presses Internationales, Columba Magazine, Howard Baker Publishers Limited, Malmborg & Hedström Förlags AB e Editora Record.

Fonte: Site oficial de Dick Haskins (adaptado)

Mais informações: Brinca Brincando (série TV portuguesa) / Novos Livros (entrevista) / Conta-me histórias            

sábado, 15 de dezembro de 2012

“Fim de Semana com a morte” de Julio Coll (Notícia da Emissora Nacional) (1966)


“Fim de Semana com a morte” ("Comando de asesinos" em Espanha ou "High season for spies" nos E.U.A.) assinala a estreia como produtor de António Vilar, o nosso actor mais internacional. É uma co-produção com a Espanha e a Alemanha, em que intervém técnicos e artistas dos três países, sob a direcção do realizador espanhol Julio Coll.

Baseia-se o filme numa obra do autor português Luís Albuquerque, por sinal conhecido pelo pseudónimo Dick Haskins. Além de António Vilar e dos portugueses Artur Semedo, Américo Coimbra e Carlos Teixeira, do elenco desta réplica luso-hispano-alemã aos filmes género James Bond fazem parte os alemães Peter Van Eyck e Kurt Jurgens, a italiana Leticia Roman e os espanhóis Ricardo Rubinstein, Mikaela e Ricardo Valle.  


“Fim de semana com a morte”, que foi quase inteiramente rodado em Portugal, é [era], segundo as intenções do actor-produtor António Vilar, o primeiro passo para um mercado comum cinematográfico com a Espanha, visando um mundo cinematográfico de mais de 300 milhões de espectadores. (…)

A película foi estrada com êxito na Alemanha, já o ano passado, em 42 salas simultaneamente, tendo sido exibida nas 30 principais alemãs e em quase 300 cinemas de província.

Foi igualmente vendido para os Estados Unidos, para exibição numa cadeia de salas de cinema naquele país, o que também acontece pela primeira vez com filmes nacionais.  

Fonte: Museu RTP (adaptado)

Nota: O filme não terá tido um sucesso tão estrondoso, pois António Vilar teve dificuldades no acesso a financiamento nos filmes seguintes 



Opinião do site MI6 community


"High Season for Spies" (1966) is an exception in the season, having been made in Portugal. It's perhaps the film most clearly inspired by the Swinging Sixties Bond movies.

But the sets expose the limited budgets available. Its take on what BBC Television Centre might look like if it were in a small street in Lisbon is an undoubted highlight.

Mais informações: Goethe institut 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

“A Mantilha de Beatriz” de Eduardo Garcia Maroto (1946)


A 16 de Agosto de 1946, estreava no cinema Trindade, a nova co-produção com Espanha, “A Mantilha de Beatriz”, filme realizado pelo espanhol Eduardo Garcia Maroto. O filme era uma adaptação do romance com o mesmo nome, de Manuel Pinheiro Chagas. 

Como habitual nestas co-produções, o filme contava com intérpretes de ambos os países, do lado de Portugal surgiam no ecrã António Vilar, Virgílio Teixeira, Paiva Raposo, Barroso Lopes, Helga Liné e Manuel Lereno; do lado dos espanhóis, surgiam Margarita Andrey, Juan Espantaleon e Maria Isbert.


O filme contava com um tema novo no cinema português. Os Franceses, os espanhóis, os Italianos e os Ingleses, haviam cultivado desde o século XIX, os chamados romances de capa e espada. O mais famoso desses romances foi sem duvida “Os Três Mosqueteiros” de Alexandre Dumas. 

Portugal, também não podia escapar a essa influência romântica, de heróis ousados e generosos. Por isso, Pinheiro Chagas, entre as muitas obras que escreveu, escreveu a obra de ficção, “A Mantilha de Beatriz”, seguindo o modelo dos romances de capa e espada. Desse belo romance, evocação da Lisboa galante do século XVII, com as suas paixões, os seus duelos e as suas intrigas, foi extraído o argumento deste filme apresentado pela Lisboa Filme.


Este filme marcou como um acontecimento na história do cinema Português. O filme foi um êxito tanto em Portugal como em Espanha. A crítica da altura dizia: “Acção, romance, amor e aventura são os motivos fortes, inabaláveis que fazem deste filme, original no seu género, um filme sensacional, um filme que não esquecerá.”

Eduardo Garcia disse no seu livro de memórias ("Aventuras e Desventuras do cinema espanhol") que "A mantilha de Beatriz" foi o produto de uma montagem desastrosa que fez do seu filme, que pretendia ser uma comédia agradável e aventureira, algo muito mal feito ("chapuza infecta").


Sinopse (Madragoa Filmes):

A acção passa-se no séc. XVIII. Um jovem aristocrata espanhol mata um homem em duelo e refugia-se em Lisboa. Apaixona-se por uma rapariga e pede ao amigo que tome o seu lugar, no momento em que é intimado pelo pai da amada.

Resumo do livro (infopédia)

Francisco de Mendonça, depois de assistir em Madrid à representação da comédia de Calderón, "Ni todos son ruyseñores", decide narrar aos amigos que com ele estão reunidos à mesa (incluindo o próprio poeta espanhol) a história atribulada do seu casamento com Beatriz, semelhante, pela sucessão de peripécias, a "uma verdadeira comédia de capa e espada", a qual irá inspirar Calderón a escrever a comédia "Ante que todo es mi dama". 

Assim resulta provada a lição de que "a vida [...] é nesse ponto como em todos a mestra da arte dramática. Julga talvez inverosímeis, porque não são vulgares, os enredos que resultam de um equívoco, e contudo bastantes ocasiões na existência em que de um engano resultam complicações tão emaranhadas, que mal se imagina como se lhes de pôr termo."
Fontes: Blogue Pessoal de Paulo Borges  / Ladyfilstrup / Madragoa Filmes

domingo, 30 de setembro de 2012

"Crónica do Rei Pasmado" de Gonzalo Torrente Ballester (1989)


O escritor galego Gonzalo Torrente Ballester constrói, em pouco menos de 200 páginas, uma narrativa (*) bem humorada e repleta de críticas à pretensa moral e bons costumes da Igreja, com uma premissa imaginativa

(*) «sherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado» é como o autor lhe chama.

São numerosos os personagens e os factos históricos discretamente transfigurados ao longo da estória que os “institui pela palavra”. A começar pelo “rei pasmado”: Filipe IV (terceiro de Portugal), então com os seus 20 anos de idade e 4 ou 5 de reinado.
 


Certa noite, depois de uma visita “às meninas”, o jovem soberano não consegue tirar da cabeça o corpo da cortesã Marfisa.

Os severos costumes impostos pela inquisição impedem o Rei de manter um relacionamento intimo com a Rainha. Com o apoio de um padre jesuíta, um português chamado Almeida, o único dos presentes que justificou os devaneios do Rei, o Rei vai procurar rodear esta difícil situação.





Sinopse

A partir do pasmo extasiado do rei ao ver pela primeira vez uma mulher nua, e ao querer ver nua também a rainha, toda uma intriga se tece na corte, metendo nobres, inquisidores, uma afamada meretriz, um jesuíta português, a superiora do convento; toda uma tela de uma obra que bem justifica o qualificativo de pitoresca, num divertimento de primeira água.




Sucesso no Cinema (1991)

As aventuras do «rei pasmado» foram adaptadas ao cinema, num filme dirigido por Imanol Uribe, em que a figura do desenvolto jesuíta padre Almeida é interpretada pelo actor português Joaquim de Almeida.

O filme – uma co-produção hispano-franco-portuguesa - foi rodado em Espanha (Toledo, Ávila, Madrid, El Escorial, Salamanca) e em Guimarães (no coração histórico).

Videos: (1) (2) (3)




Padre Almeida (interpretado por Joaquim de Almeida)

"Nem todos os da procissão entraram, só os que tinham assento no Supremo, quer como membros titulares quer como teólogos convidados; ou seja, consultores, e entre estes figurava um jesuíta português, o padre Almeida, bastante novo ainda, mas de rosto queimado pelos sóis brasileiros.

O padre Almeida estava de passagem por Madrid: tinham-no destinado a capelão secreto de uma casa de Inglaterra, porque o outro capelão tinha sido justiçado, o que era o mesmo que admitir que não restava muito tempo de vida ao padre Almeida; mas não parecia acabrunhado nem entristecido, nem tão-pouco entusiasmado com o seu futuro martírio: comportava-se com naturalidade, muito mais do que os seus companheiros, apesar da reputação de teólogo sábio que o seu reitor proclamava na carta de apresentação para o Inquisidor-mor com que justificava a sua presença."




O padre Almeida chocava um pouco entre os restantes clérigos, porque usava por cima da sotaina um colarinho à francesa, e porque, ao desabotoá-la por causa do calor, se lhe tinham visto meias pretas e calção. Mas, como estrangeiro, não lho levavam a mal.

"O padre Almeida, sim. O padre Almeida é português, e sabe mais das coisas do mar do que Vossas Mercês".




D. Francisca de Távora

A rivalidade entre o rei e o o Conde de Villamediana (que terá inspirado a Gonzalo Torrente Ballester o seu da Peña Andrada) foi motivada pela inocente doña Francisca de Tavora, filha do português D. Martim Alonso de Castro, general das galeras de Portugal  e vice-rei da Índia, que o Rei também cortejava.




O Rei elogia a forma de dançar de D. Francisca, que o informa que aprendeu a dançar “em todas as ilhas perdidas desses mares onde os homens e as mulheres dançam, mas muito especialmente no Norte de Portugal“

D. Francisca de Távora (ou D. Paca, como é igualmente é identificada) foi interpretada no filme pela actriz espanhola Eulalia Ramón, que dança a chacona.





Camões e Ronsard

Deve ser essa doidivanas de Dona Paca de Távora.
O conde respondeu-lhe com uma ligeira inclinação de cabeça.
- É mui formosa, Majestade.
- A Rainha não nutre simpatia por ela.
- É natural, senhor. Uma refinada francesa e uma exuberante portuguesa não estão
destinadas a entender-se. É como se Vossa Majestade comparasse Camões com Ronsard.
- De Camões li muitos versos, mas a esse outro nunca o ouvi nomear.
- Certamente, senhor, Sua Majestade a Rainha sabê-lo-á de cor.

Fontes: Edição digital do livro / A minha estante / Passamos como o rio / El Pais / Tese Erica Myeko Ohara  


 

domingo, 15 de julho de 2012

Memórias de António José da Silva, O Judeu em "Masmorras da Inquisição" de Isolina Bresolin Vianna (1997)


Embora classificado como romance, "Masmorras da Inquisição – Memórias de António José da Silva, o Judeu", apoia-se sobre factos e documentos históricos, entre eles os autos do processo de António José. Nada foi inventado ou falsificado. O que ali está é a triste e dura verdade configurada naqueles depoimentos, todos verdadeiros na sua essência.

É verdade que um gesto de amor livrou-o da morte infamante pelo garrote e da tortura da fogueira inquisitorial, como é verdade que ele sempre foi muito amado, querido e admirado, mas, infelizmente, também muito invejado, uma das causas prováveis da sua injusta morte. António José da Silva, o Judeu, foi uma das mais ilustres vítimas da Inquisição, sacrificado pela “culpa de não ter culpa”.


Tradição literária

A Ficção histórica não antagoniza os factos históricos, ao contrário, desperta o interesse, mobiliza as atenções e abre caminhos para novas pesquisas e descobertas. A peça teatral “António José, ou o Poeta e a Inquisição” de Domingos José Gonçalves de Magalhães (1983) abriu o caminho para o romance histórico “O Judeu” de Camilo Castello Branco (1866), que estimulou a publicação de uma parte da documentação inquisitorial do comediógrafo brasileiro (Revista do IHGB, Tomo LIX, 1896) que, por sua vez, levou Teófilo Braga, o primeiro Presidente da República Portuguesa, ao opúsculo "O Mártir da Inquisição Portuguesa" (1910).

António Baião avançou com novas pesquisas em “Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguesa (2º volume, 1924) que, finalmente, desembocaram no trabalho seminal de J. Lúcio Azevedo, em “Novas Epanáforas” (1932).

A listagem, evidentemente incompleta, não poderia deixar de registar a narrativa dramática de Bernardo Santareno, "O Judeu" (1968), a monumental pesquisa académica de José de Oliveira Barata, "António José da Silva, Criação e Realidade" (1983) e o filme "O Judeu" de Jom Tob Azulay (1988-1996).

Ao longo da história da cultura percebe-se, nítida, uma interpelação e interlocução entre narração e conhecimento, entre facto e ficção, entre criação e realidade que, longe de se excluírem, acrescentam-se num processo vital, de grande riqueza.

Estas memórias ficcionais, “Masmorras da Inquisição“, da historiadora Isolina Bresolin Vianna, são o mais novo elo de um fertilíssimo encadeamento que está longe de ser concluído.

Fonte: Judaica Portugal / Alberto Dines

Mais informações sobre a vida de António José da Silva: Morasha

sábado, 30 de junho de 2012

A vida de António José da Silva em “O Judeu” (1986-1995)



O filme é baseado na história real de António José da Silva, poeta e o mais célebre autor de teatro de Portugal do século 18, que ficou conhecido como “O Judeu”, nascido no Brasil, de origem judaica.


Para Jom Tob Azulay, o realizador, são várias as razões que motivaram o interesse de levar a cabo este projecto: o dramatismo da história, por exemplo, é uma delas, acrescido do facto de proporcionar um bom tratamento cinematográfico; o ser um tema luso-brasileiro e, simultaneamente, uma homenagem a um artista fundamental na evolução da Literatura e da Cultura dos dois países.


Sinopse

Torturado aos 20 anos pela Inquisição por crime de judaísmo, António José da Silva (1704-1736), nascido no Brasil e chamado de 'o judeu', redescobre o sentido da vida graças ao teatro de marionetes. Casa com Leonor de Carvalho, cristã-nova como ele, e frequenta os salões aristocráticos dos Estrangeirados (Iluministas) que o apoiam.

Uma denúncia de heresia contra sua prima Brites Eugênia e o espírito irreverente das comédias desse Molière português do século XVIII, o conduzem mais uma vez aos cárceres do Santo Ofício junto com a mãe, Lourença Coutinho e a mulher.


Secretário do Rei, D. João V, o brasileiro Alexandre de Gusmão, tenta libertá-lo, enquanto seu inquisidor, o jovem dominicano D. Marcos, sofre dúvidas de consciência sobre a legitimidade do processo inquisitorial. Mesmo assim, Lourença e Leonor são torturadas.

Mas, no jogo de pressões, que opõe o Rei ao Inquisidor Geral, D. Nuno de Athayde e Mello, um outro destino é reservado ao poeta: o martírio pelo fogo, que fez dele um dos mitos da história de Portugal e do Brasil.


Retrato de António José da Silva e da sua época

O objectivo fundamental é o de apresentar um retrato de António José da Silva e da sua época (o Século das Luzes, sob o reinado de D. João V): realçar, por um lado, o carácter luso-brasileiro da formação do poeta, advogado e dramaturgo nascido no Brasil e filho de pais brasileiros, e cuja obra conheceu ampla popularidade durante os séculos XVIII e XIX nos dois países, e, por outro lado, recriar um painel da época, em que sobressaem não só a trajectória pessoal do poeta e da sua família (cristãos novos perseguidos pelo Santo Ofício), como também um autêntico mosaico de personagens típicas da nobreza, clero e povo.

 
Co-produção

A produção do filme foi inicialmente assumida pelo produtor português António Vaz da Silva que não chega a concluí-la pela morte do protagonista, Felipe Pinheiro, e por problemas financeiros subsequentes. Só passados vários anos é que outro produtor português, António da Cunha Telles, aceita conclui-lo, recorrendo a um duplo para o papel do protagonista.


 
Locais de rodagem

Os primeiros dias de rodagem efectuaram-se na Sé Patriarcal de Lisboa e no Museu do Azulejo (“transformado” no gabinete do inquisidor-geral), sendo as etapas seguintes Mafra (Convento de Mafra), Óbidos, Alcobaça e Nazaré.



Elenco luso-brasileiro

O elenco luso-brasileiro é muito vasto. Entre os actores brasileiros, cerca de meia dúzia, contam-se: Filipe Pinheiro (António José da Silva), Cristina Aché (Leonor), Dina Sfat (Lourença), José Lewgoy, Edwin Luisi (Alexandre de Gusmão) , Fernanda Abreu (Brites) e Ruth Escobar (rainha D. Maria).


Dos portugueses, quase meia centena de participantes, citamos, apenas, alguns: José Neto (D. Marcos, inquisidor), Rogério Paulo (Promotor do Santo Ofício), Rui de Carvalho (padre Pantoja), Antonino Solmer (André), Mário Viegas (D. João V), Nicolau Breyner (D. Câmara, inquisidor), Laura Soveral (Maria Coutinho), e Varela Silva (João Mendes).


 Prémios

Melhor Filme; Melhor Actor Secundário (Coadjuvante) para José Lewgoy; Melhor Direcção de Arte para Adrian Cooper e Melhor Som no Festival de Brasília
 Melhor Actor Secudário (Coadjuvante) para José Lewgoy no Festival de Cartagena 
Primeiro Prémio no HBO Brasil
 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

"Os Sermões - a história de Antônio Vieira" de Júlio Bressane (1989)


Júlio Bressane, um cineasta brasileiro mais apreciado pela crítica do que pelo público, estreou em 1989 o seu 20º filme, "Os Sermões - a história de Antônio Vieira".

Só que desta vez, após sua apresentação em Brasília (onde obteve dois importantes prémios, o de melhor realizador e o de melhor actor), seu filme atingirá um público fantástico: de 3 a 5 milhões de espectadores.


 Obviamente não no cinema - onde estes números só são atingidos por filmes mais comerciais (como os Trapalhões e Xuxa), mas na televisão (na rede de emissoras da TV-E - TV Educativa).

Tratando-se de um filme de Bressane, naturalmente que não é uma narrativa convencional. Rodado durante apenas 13 dias entre Rio e Salvador, Bressane filmou "Os Sermões" do padre António Vieira (1608-1697) escritos nos seus três últimos anos de vida.


A inventividade de Bressane vai ao ponto de raciocinar que se Vieira "botou a língua portuguesa em sintonia com o mundo", ele colocará o filme sobre Vieira em sintonia com o cinema brasileiro e mundial. Assim, 18 trechos de obras-primas como "Citizen Kane" e "Joana D'Arc" são trazidos para o universo do padre, e os lábios em close de Orson Welles (1915-1985) murmuram "Vieira" e não mais "rosebud" na cena de abertura de "Citizen Kane" (1940).

O "estalo de Vieira" é representado por uma cena de "o homem da cabeça de borracha", de Georges Meliés (1861-1938) e Vieira criança é representado pelo filho de Othon Bastos.

Sinopse

Narrativa que mistura o figurativo e o histórico sobre a vida do padre jesuíta António Vieira, que nasceu em Lisboa em 1608 e foi assassinado na Capitania Hereditária de Salvador, em 1697. O cineasta brasileiro faz aqui uma “transcriação visual” do texto de Vieira.


Curiosidades

Prémios de Melhor Realização (Júlio Bressane) e Melhor Actor (Othon Bastos) no XXII Festival de Brasília do Cinema Brasileiro(1989)

O enredo é sobre os famosos sermões do Padre António Vieira, os quais não são apresentados directamente através de uma linguagem convencional, típica dos filmes biográficos, mas num estudo experimental editado com diversas cenas de clássicos do cinema universal dos anos 20 e 30.

O filme foi idealizado durante doze anos, realizado em treze dias e estreou na televisão antes de entrar no circuito comercial.


 Depoimento de Othon Bastos sobre a participação do seu filho Pedro como o jovem Vieira

"No dia [da rodagem] o Pedro chegou lá e fez numa boa. O Julinho [Júlio Bressane] ficou abismado, ficou apaixonado e na dublagem também. (...)

O António Abujamra [actor, que não sabia que Pedro era filho de Othon] que estava sentado vendo e perguntou para o Julinho se o Pedro tinha feito de primeira." [Estupefacto, Abujamra disse] 'O outro ator [Othon Bastos] levou horas fazendo aquilo, e esse menino chegou e fez de primeira? '. 'Fez de primeira'. 'Mas esse menino é filho de quem ?'. 'Do Othon Bastos'.

E o Abujamra falou: 'Eu tenho que aturar o pai, agora eu vou ter que aturar o filho também' (risos)"

Fontes/Mais informações: Aramis Milarch / Meu cinema brasileiro / o cinema de Othon Bastos / Literatura no cinema / Ton pelage / Fotos de Renato Menezes

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

“Língua” de Caetano Veloso e Elza Soares (1984)


“Língua” é uma canção composta por um conjunto de expressões que constroem e refazem a língua portuguesa, revisada pelas inovações brasileiras, diluídas em estrangeirismos e variações regionalistas.

É uma provocação constante e total, que rabisca a língua de Camões e de Fernando Pessoa, arrastando-a pelos vícios da linguagem das praias brasileiras e impostas pela televisão.

Na gravação original, em 1984, Caetano Veloso dividia os refrões com Elza Soares, numa composição que nos arrastava a um samba-enredo que parecia explodir nas avenidas.

“Flor do Lácio sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer o que pode esta língua?”

Letra

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”

Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

(...)

Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?


Gal Costa


Gal Costa - que regravou o tema - aguenta sozinha, em um só fôlego, o desafio de uma das mais complicadas letras do autor, que se ancora nos neologismos que nos parecem instransponíveis.

"O Cinema Falado"

No filme "O Cinema Falado", de Caetano Veloso, é referido que "Não é por acaso que, em português coloquial, Prosa quer dizer conversa, rap, charla, …"



Videos: Caetano & Elza Soares (Video pessoal) / "O Cinema Falado"

Fonte: virtualiaomanifesto