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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

“O Reino Probido” de J. Slauerhoff (1932)

Em 1932, o escritor neerlandês J. Slauerhoff (1898-1936) publicou um romance no qual Macau e Camões surgem como dois dos protagonistas principais.

O romance revela um mundo em decomposição e em conflito, dominado pela animosidade entre chineses e portugueses e é constituído por três linhas narrativas que se entrecruzam e se sobrepõem.

Primeira linha narrativa – história de Macau

Uma primeira relata a história de Macau, desde os acontecimentos que por volta de 1540 levaram à sua fundação até ao início do século XX. A imagem dada segue a linha de ascensão e queda apresentada na obra de C. A. Montalto de Jesus, “Historic Macao. Internacional Traits in China old and new” (1926). (…) Logo após a sua publicação foi proibida e queimada pelas autoridades. Não obstante Slauerhoff adquiriu um exemplar do livro durante a sua primeira visita a Macau.

(…) encontramos no Prólogo que trata da fundação de Macau dois protagonistas chamados Farria e Mendes Pinto e um “remake” do episódio da vingança de António de Farria em resposta à destruição de Liampó pelos chineses como relatado por Fernão Mendes Pinto na sua “Peregrinação”. Slauerhoff baseou-se no resumo do episódio que encontrou em “Historic Macao”.


Segunda linha narrativa – vida de Luís de Camões

Uma segunda linha narrativa descreve a vida de Luís de Camões na corte de Lisboa, a viagem de navio para o desterro, o naufrágio (aqui situado em frente à baía de Macau), um segundo exílio – desta vez para a China - e a travessia pelo deserto chinês. As duas linhas juntam-se quando Camões chega a Macau.

Terceira linha narrativa – vida dum radiotelegrafista

A terceira linha narrativa conta a vida dum radiotelegrafista, que nos anos trinta do século XX se encontra embarcado no Mar da China. O radiotelegrafista apanha sinais misteriosos que mais tarde se mostram ligados à vida de Camões. Através dos sinais, o espírito do poeta consegue tomar conta do do espírito do radiotelegrafista. (…)

Romance simbólico

O que pode parecer um romance histórico é, pelo contrário, um complexo e arrojado romance simbólico que trata da identidade do homem moderno e da questão da inspiração poética. (…)

O texto que preverte “Os Lusíadas” é, ao mesmo tempo, construído à base de fragmentos da obra lírica de Camões, recorrendo a palavras, imagens ou motivos do poeta português. Este é o romance em que Slauerhoff é “possuído” por Camões, de quem, como um vampiro, extrai o canto.

Fonte: “Camões e Macau num romance neerlandês” de Patrícia Couto com Arie Pos (adaptado)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Camões e Macau na obra de Slauerhoff

(…) Antes de terminar o curso de medicina, [o escritor neerlandês J. Slauerhoff (1898-1936)] fez uma viagem de navio e conheceu o Porto. Da impressão que a cidade lhe causou, restaram um poema “Portugeesch Fort” (“Forte Português”), a vontade de voltar a Portugal e a certeza de querer passar o resto da vida no mar. (…)

“Oost Azië” (“Extremo Oriente”)

[Após embarcar para o Extremo Oriente] Em 1927 publicou um livro de poemas “Oost Azië” (“Extremo Oriente”) que inclui uma secção dedicada a Macau, constituída por cinco poemas: “De Jonken” (“Os juncos”), “Kathedraal S. Miguel” (“Catedral S. Miguel”), “Uitzicht op Macao van Monte af” (“Vista de Macau a partir da fortaleza do Monte”), “Ochtend Macao” (“Aurora Macau”) e “Camoës” (“Camões”).

“Solares”

De Março de 1928 a Fevereiro de 1931 (…) trabalhou como médico de bordo em navios da Lloyd Real Holandesa na carreira Amesterdão-Buenos Aires v.v., com escala obrigatória em Lisboa. Recordações das suas visitas à metrópole encontramos na colectânea de poesia “Solares” (1933), que contém uma secção intitulada “Saudades” onde encontramos poemas com títulos em português: “Lisboa”, “Fado’s”, “Vida triste”, “O engeitado”, “Saudade” e “Fado”.


Obsessão por Camões

Tal como faz de Lisboa e Macau projecções do seu próprio mal-estar, transforma também a figura de Camões. Reconhece nele um poeta maldito a seu modo e transfigura-o da mesma maneira que transfigurou os outros poetas com quem se identifcava, isto é, transpondo para eles as suas próprias obsessões. De todos estes poetas Camões é a personagem mais recorrente na obra de Slauerhoff.

Para além do poema já referido, publicado em “Oost Azië”, incluiu um poema intitulado "Camöes’ thuiskomst” (”Regresso de Camões") numa nova colectânea chamada “Eldorado” (1928).


Em 1932 é editado o seu primeiro romance “Het verboden rijk”, traduzido para português sob o nome “O Reino Proibido”. Aqui uma das duas personagens principais é baseada na figura de Luís de Camões.

Em 1935 é publicado o conto “Laatste verschijning van Camöes” ("A última aparição de Camões”). Neste conto surge novamente o protagonista de “O Reino Proibido”. Poucos meses antes da morte de Slauerhoff ainda foi publicado um outro poema intitulado “Camões”, na colectânea “Een eerlijk zeemansgraf” (“Um honroso jazigo de marinheiro”).

Personagem chamada Luís de Camões (em poemas, romance e conto)

Estamos assim perante um fenómeno curioso: nos poemas, no romance e no conto, Slauerhoff apresenta-nos uma personagem chamada Luís de Camões que é uma versão transfigurada da personagem histórica.

Dá-se, portanto, o caso algo contraditório de Slauerhoff denotar uma quase-obsessão pela figura de Camões, ao passo que a figura que apresenta tem pouco a ver com o verdadeiro Camões, mas pelo contrário muito mais com o próprio Slauerhoff.

Fonte: “Camões e Macau num romance neerlandês” de Patrícia Couto com Arie Pos (adaptado)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

"Camöens (Before)" e "Camöens in the Hospital (After)" de Herman Melville

“A frequente sugestão de que o épico "Moby Dick" não teria sido o mesmo se Herman Melville não tivesse lido os Lusíadas e a evocação em "White-Jacket" (“for the last time, hear Camoens, boys!”) seriam indícios suficientes do apreço de Melville pelos portugueses se não tivesse também dedicado dois sonetos ao autor do épico lusitano.

"Camöens (Before)" e "Camöens in the Hospital (After)" é um díptico poético sobre o processo de escrever, que, oscilando entre Tasso e Camões, Melville decidiu-se pela identificação com o poeta português.

Admirador de Camões, Melville lera os Lusíadas na tradução de William Mickle ("The Lusiad; or the Discovery of India", 1776) assim como os poemas de Camões traduzidos por Lord Viscount Strangford ("Poems, From the Portuguese of Luis de Camoens", 1803).

A presença camoniana em Melville e os paralelismos intertextuais e pessoais entre ambos há muito têm sido objeto de estudo em meios acadêmicos; considerem-se, a este propósito, as referências feitas por George Monteiro em “Melville’s Camões and the Figure of the Artist”, posteriormente desenvolvidas em seu livro "The Presence of Camões: Influences on the Literature of England, America, and Southern Africa".

Monteiro mostra um longo percurso de estudos sobre a conexão de Melville com Camões, encontrando já em 1924 um estudo de Merritt Y. Hughes associando a baleia branca com o gigante Adamastor.


Os dois sonetos a que a professora Irene Hirsch se refere em "Melville e os portugueses" foram traduzidos com esmero por Nelson Ascher e se encontram no seu Poesia Alheia (Imago, 1998).

Hei-los, na tradução e no original:

1. Camões (Antes)

Devo – incansável que descansaria –
sempre atiçar meu fogo? Não tem fim
o afã que, chama em chamas, arde em mim?
Sim, porque o Deus requer tua porfia.
O mundo exibe tal beleza, enquanto
mais mundos sonha a mente: vai, portanto,
caçar mil temas no ar para o teu canto.
E atiça, atiça o fogo até que, enfim,
comprove, acrisolado, o ouro sem par,
que o fogo é luz, mas sabe depurar.
Com árduo ardor, nobre vigor, ateia,
no alto mais alto, a chama epopéia.

1. Camöens (Before)

Ever restless, restless, craving rest –
Forever must I fan this fire,
Forever in flame on flame aspire?
Yea, for the God demands thy best.
The world with endless beauty teems,
And thought evokes new worlds of dreams:
Hunt then the flying herds of themes!
And fan, yet fan thy fervid fire,
Until the crucible gold shall show
That fire can purge as well as glow.
In ordered ardor, nobly strong,
Flame to the height of epic song.

2. Camões no hospital (Depois)

De que vale – cortejo triunfante
de armas, troféus e música o teu verso?
O mundo é vil; há quem, no entanto, cante
que o fado do mais nobre é sempre adverso.
Inúteis já, teu fogo e ardor contínuo
reduzem-se a delírio e desatino:
rasgou-te a lira, o gume do destino.
Exausto da exigente trova, agora
te tornas presa fácil da pletora
de enganos traiçoeiros e do engodo;
mas quem finge virtude e os trama é gente
que ainda preserva num lugar prudente,
a força e diz viver mais dignamente
servindo em tudo a Deus no melhor modo.

2. Camöens in the Hospital (After)

What now avails the pageant verse,
Trophies and arms with music borne?
Base is the world; and some rehearse
How noblest meet ignoble scorn.
Vain now the ardor, vain thy fire,
Delirium mere, unsound desire:
Fate’s knife hath ripped thy chorded lyre.
Exhausted by the exacting lay,
Thou dost but fall a surer pray
To vile and guile ill understood;
While they who work them, fair in face,
Still keep their strength in prudent place,
And claim they worthier run life’s race,
Serving high God with useful good.
“Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundal-a decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.”

Fonte: Tácito Costa (adaptado de "Substantivo Plural")

quinta-feira, 18 de março de 2010

"Lisbonne, voyage imaginaire" de Nicolas De Crécy e Raphael Meltz (2002)

Em "Lisbonne, voyage imaginaire", o traço de Nicolas De Crécy ilustra uma composição de textos (Camões, Voltaire, Alberto Caeiro ou Almada Negreiros) feita por Raphael Meltz.

Protocolo entre o Festival da Amadora e a AFAA

As belíssimas ilustrações de De Crecy foram feitas ao abrigo de um protocolo entre o Festival da Amadora e a AFAA (Association Francaise d'action artistique) que deu ao desenhador a oportunidade de passar um mês em Portugal, recolhendo material para um livro a escrever por Nuno Artur Silva, com edição simultânea prevista para Portugal e França.

A verdade é que, por razões nunca bem explicadas (as versões das diferentes partes estão longe de ser coincidentes...) esse livro, tal como foi inicialmente pensado, nunca chegou a sair, tendo sido convidado o escritor francês Raphael Meltz para escrever as palavras que acompanham as belíssimas imagens de De Crécy.

Viagem Imaginária

Em oposição às pequenas histórias das gentes de Lisboa escritas por Nuno Artur Silva, Meltz optou por uma viagem imaginária, feita a partir dos testemunhos indirectos da inúmera literatura de viagem dedicada à capital portuguesa, onde as (inevitáveis) evocações de Fernando Pessoa dão a caução literária a um texto mais próximo da reportagem da National Geographic do que da ficção de Nuno Artur Silva.

Prova do talento do artista, que evita ao máximo o efeito bilhete postal, as notáveis imagens de um Lisboa despida de gente que De Crecy criou, adaptam-se perfeitamente ao ensaio/reportagem de Meltz.

Fontes: Diário As Beiras; João Miguel Lameiras (em Bedeteca) / Pedro Cleto

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

“Qualquer coisa de intermédio” com Adriana Calcanhoto

Em 1995, a Editora brasileira Nova Aguilar convidou Adriana Calcanhoto para musicar alguns poemas do poeta português Mário de Sá-Carneiro e, posteriormente, apresentar essas canções numa "performance" realizada na Livraria Argumento, no Rio, no lançamento das obras completas do poeta no Brasil.

Uma das canções, "O outro", acabou por entrar no CD "Público" (2000), que trazia regravações dos antigos sucessos (entre outras canções consagradas), dando origem a um DVD, lançado no ano seguinte pela BMG.

"Qualquer Coisa de Intermédio"

Em 2007, Adriana Calcanhoto é convidada pela fundação Gulbenkian de Paris para "fazer uma noite única com um repertório de língua portuguesa". Apresentado apenas em Lisboa e Paris, o show “Qualquer coisa de intermédio” fez sua estreia no Brasil, em 2009, no 16º Festival "Porto Alegre em Cena".

O nome do espectáculo é uma alusão a um poema português de Mário de Sá Carneiro (1890-1916) que inclui em sua letra o seguinte trecho: “Eu não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio: pilar da ponte de tédio que vai de mim para o outro”.

Repertório

No repertório, a poesia portuguesa de Camões e Fernando Pessoa, o fado, a canção provençal de Arnaut Daniel, a expressão artística portuguesa moderna de Amália Rodrigues, os versos de Fiama Hasse Pais Brandão, e ainda a reverência à musa luso-brasileira Carmen Miranda

Destaque para o texto da portuguesa Fiama Hasse Pais Brandão, "Poética do Heremita", musicado pelo cantora gaúcha, que consta do seu mais recente álbum "Maré".


"Saga Lusa"

Em 2008, Adriana lançou seu primeiro livro, "Saga Lusa". O livro é um relato da viagem a Portugal durante a digressão do disco "Maré". O relato mostra como foram as 120 horas sem dormir e os efeitos causados por uma mistura de remédios para curar uma forte gripe.

A escrita feita nos momentos de delírio, insónia e medo torna-se a única actividade que Adriana, sentada em frente ao seu computador, realiza com muito bom humor. O livro está repleto de passagens engraçadas, onde a própria escritora ri de si mesma.

O livro foi lançado pela Editora Cobogó (Brasil) com capa em 4 cores diferentes e pela Quasi Edições (Portugal).

Fontes: wikipedia / clicrbs

Video: "O Outro"

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

"Ode Sinfónica Vasco da Gama" de Bizet (1859)

 
Foi durante a sua estadia na Villa de Medicis no ano de 1859, como bolseiro, que Georges Bizet (na imagem) iniciou a composição da Ode Sinfónica Vasco da Gama. Estavam então na moda os nacionalismos, os quais ocupavam um importante papel na produção artística em geral.

Neste contexto de atracção pelas culturas alheias e pelo seu elemento exótico e misterioso, porque desconhecido, numerosas traduções de obras literárias circulavam por toda a Europa.

Não é de espantar que os Lusíadas fosse uma das obras mais traduzidas de todo o século XIX, tendo então chegado ás mão do jovem Bizet.

Encantado com a heróica odisseia dos descobrimentos, com a figura de Vasco da Gama e com a inconfundível arte de Camões, compôs esta Ode Sinfónica para Coro, solistas e narrador, com libreto de Louis Delâtre.

Todos os papeis são masculinos embora o jovem oficial Leonardo e o Vigia sejam interpretados por sopranos. A impressionante voz de adamastor foi originalmente escritra para seis baixos.

Fonte: Mezza Voce

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

"Sonnets from the Portuguese" de Elizabeth Barrett Browning (1847)


Elisabeth Barrett, mais tarde Browning, por casamento com o poeta Robert Browning, é o nome mais alto da poesia inglesa vitoriana. Numa época de austeridade, tornou-se a poeta do amor por excelência, legando aos vindouros alguns dos mais belos sonetos escritos em língua inglesa.

Os "Sonetos Portugueses" reflectem todo o alvoroço da sua paixão por Robert, as incertezas, as dúvida e a felicidade que esse amor lhe trouxe. Dado o carácter tão pessoal da obra, Elisabeth não desejava publicar estes sonetos, mas Robert persuadiu-a e sugeriu-lhe um título que indiciasse que os poemas eram simples traduções do português...

A primeira edição é de 1847 e é anónima, só após a sua morte os poemas foram publicados com o seu nome.

Fonte: Paula Cruz

Influência de Camões

Elizabett Barrett Browning foi a autora do famoso poema "Caterina to Camoens", um dos preferidos de Robert, o que a terá influenciado a escrever os "Sonetos Portugues" com base na tradição camoniana.