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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Ligações de Dalida a Portugal


Yolande Christina Gigliotti, filha de imigrantes italianos da Calábria, nasceu no Egipto em 1933, onde o seu pai tocava violino na Cairo Opera House.

Após ser eleita Miss Egipto, em 1954, é convidada a participar em alguns filmes. Embora não tenha tido muito sucesso, é descoberta pelo realizador francês Marc de Gastyne que lhe sugere que tente carreira em França, para onde se muda na véspera do Natal de 1954, com a intenção de seguir carreira cinematográfica.

Sem grandes oportunidades no cinema, começa a cantar num cabaré em Itália, mas a sua grande oportunidade surge quando participa numa audição no Olympia, que pré-selecionava candidatos para a série de apresentações de jovens talentos, “Les Numéros Uns de Demain”, no então recentemente reformado e re-inaugurado Olympia de Paris.

"Aie ! Mon Coeur (La Portuguesa)"

Dalida interpretou a música "Étrangère Au Paradis" e Bruno Coquatrix, proprietário do Olympia, encantou-se com a interpretação da cantora que logo foi apresentada a Lucien Morisse (diretor artístico da Radio Europe 1) e Eddie Barclay (dono da editora Barclay), a dupla que desempenharia papel fundamental na carreira da artista.

O seu primeiro disco foi “Madonna”, versão francesa do tema “Barco Negro”, celebrizado por Amália Rodrigues. Mas foi com “Bambino” (versão da canção napolitana “Guaglione”), que se tornou um sucesso instantâneo em toda a França, tendo ocupado a primeira posição do top francês durante 39 semanas consecutivas, segundo dados da “Infodisc”.

Versão do tema "Sempre que Lisboa Canta"

Os três primeiros discos de Dalida são bastante homogéneos, tendo todos o mesmo plano de fundo. Canções de origem portuguesa, espanhola e italiana, remetendo-a directamente ao personagem cigano e boémio delineado para ela, a exemplo das músicas “Fado”, “Gitane” e “Flamenco Bleu”.

Outros títulos, como “Bambino” e “Por Favor”, expressam literalmente a latinidade das canções, que, mesmo adaptada para o francês, mantém nos títulos expressões ou palavras de outras línguas. Este seria um costume marcante na carreira de Dalida, o qual ela manteria durante toda a vida artística, assim como o sotaque italianado, com os Rs bem enrolados.

"Ay ! Mourir pour toi" com inspiração em "Ai Mouraria"

Influência de Amália

Na altura em que Amália triunfava no Olympia, Dalida começava a sua carreira, e se apresenta no Olympia em 1957 com artistas como Charles Aznavour e Gilbert Becáud.

Dalida sempre afirmou que Amália foi importante na sua afirmação como artista, pois Dalida cantou diversas canções do seu repertório como “Barco Negro” (versão da canção brasileira "Mãe Preta" com letra de David Mourão Ferreira), "Sempre que Lisboa canta" (da autoria de Carlos Rocha e Anibal Nazaré, com letra francesa de Jacques Plante) e “Aïe ! mourir por toi” (da autoria de Aznavour").


Ligações a Portugal

1º álbum “Son nom est Dalida” (1956) inclui “Madona” ("Barco Negro") e “Fado” (original de Henri Decker com letra de Michele Vendome)
2º álbum “Miguel” (1957), inclui "Aïe ! Mourir pour toi"
3º álbum “Gondolier” (1958), inclui “J'écoute chanter la brise (Sempre que Lisboa canta)"
4º álbum “Les Gitans” (1958), inclui “Aïe! Mon Coeu (La Portuguesa)”

E no tema "Le Vénitien de Levallois", da autoria de Didier Barbellivien e Eric Charden, existe uma referência a Portugal ("Le Portugais de Courbevois"), sendo curiosamente identificado no verso como "Le Venitien de Levallois, Le Portuguais de Courbevoie".



Extracto de Letra de "Le Vénitien de Levallois"


La France est devenu son pays
Quand on dit de lui que c'est un étranger
Il dit qu'on est tous des émigrés
C'est un vénitiens de Levallois
Un Français de cœur comme il y en a
Aventurier de l'aventura
C'est un baladin comme vous et moi
C'est un Portugais de Courbevois

Fado

Original de Henri Decker com letra de Michele Vendome, pseudónimo de Micheline Wrazkoff, tendo sido gravada quer por Henri Decker, quer por Dalida e pelo grupo Les Blues Stars.



Letra de "Fado"

Fado, fado
Le Portugal te doit ses nuits blanches
Quand au fond de l'ombre tu te penches
Offrant ta fraîcheur sous le ciel chaud

Fado, fado
Le soir sur la place on se rassemble
Et dès que ta voix se fait entendre
Toutes les mères rythment le fado

Tous les cœurs
Te confient leurs espoirs et leurs peines
Le bonheur se confond enfin avec les pleurs
Grâce au

Fado, fado
Quand la femme au châle noir te chante
C'est tout un monde que l'on invente
Rien que pour un refrain de fado

Fado, fado
Pour deux étrangers venus t'entendre
Le bonheur ne s'est pas fait attendre

Car l'amour aime bien le fado

Fado, fado
On s'est regardés sans rien se dire
Aussitôt tu fleuris en sourire
Nos cœurs se sont compris sans un mot
Dans ma main
En tremblant, il pose sa main douce
Et soudain pour nos deux cœurs Il ne dit plus rien
Que le

Fado, fado
Rythmons cet amour devenu nôtre
Nous sommes partis l'un contre l'autre
Tandis que s'éloigne le fado
Fado, fado, fado.

Fontes/Mais informações: Dalida toujours / Amalistas  / Conversa muita conversa / Roberto-musikal / wikipedia / kflem / Amália no mundo

terça-feira, 20 de agosto de 2013

“Le Fado” de Mistinguett (1925)


O compositor espanhol José Padilla, autor de temas mundialmente famosos, como "Valencia" ou "La Violetera", foi casado com uma portuguesa e era um apaixonado pela música lusa.

Padilla (1889-1960) dedicou várias composições a Portugal com destaque para "Symphonie Portugaise" e "Romance au Portugal", ambas estreadas em Paris; "Estudiantina Portuguesa", em Madrid; e "Menina baila o fado" e "Fado de meus amores", em Buenos Aires.


Entre as suas composições é igualmente de realçar o tema “Le Fado”, com letra de Lucien Boyer e Jacques-Charles, popularizado, em 1925, pela famosa cantora francesa Mistinguett no quadro “Tout au Fado” da Revista do Moulin Rouge em sua homenagem (“La Revue Mistinguett”).


“Le Fado” foi apresentado como a nova dança portuguesa lançada por Mistinguett e Earl Leslie na Revista do Moulin Rouge, sendo uma deliciosa dança nacional com um ritmo novo e característico, cuja partitura estava disponível, pelas editora de Francis Salabert, para piano e canto ou apenas para piano com a história (teoria) da dança.

Conhecido por “Fado Mistinguett” foi igualmente interpretado por outros artistas, como Vorelli e a famosa actriz portuguesa Lina Demoel.

Fontes: El Pais / El Comercio  / Fadistando 


domingo, 15 de janeiro de 2012

Sucesso de Carminho e Pablo Alborán com o tema "Perdóname" (2011)

Assim que as suas vozes se encontraram, Carminho, de 27 anos, e Pablo Alborán, de 22, perceberam de imediato que o seu dueto tinha tudo para dar certo. Ainda assim, dificilmente a fadista e o cantor espanhol imaginariam que "Perdóname" entraria de imediato para a liderança do top de singles do iTunes em Espanha e chegaria ao mesmo lugar em Portugal em poucos dias.

O tema faz parte de "En Acústico", CD do artista malaguenho editado no país vizinho a 14 de novembro e de imediato transformado num êxito estrondoso.

Como surgiu a ideia de trabalharem juntos ?

Conheci o disco da Carminho através da nossa editora, a EMI, e fiquei apaixonado pela voz, música e interpretação. Depois, desde pequeno que sou um amante de fado e, como estava a tratar do meu disco, surgiu a bela oportunidade de trabalhar com a Carminho.

Com muito respeito, ensinei-lhe a canção, perguntei-lhe se gostava e fizemos uma adaptação em português. Foi muito fácil. Encontrámo-nos em Madrid e em meia hora fizemos a canção. Foi tudo muito espontâneo e natural.

(...) Era um risco, pois era a primeira vez que uma artista portuguesa entrava na rádio comercial em Espanha, e não se sabia se funcionava ou não. Mas era-me igual, pois eu queria trabalhar com Carminho. E quando estivemos em estúdio foi muito emocionante, tanto para nós como para quem nos rodeava, até houve quem chorasse.

Mas jamais pensei que seria assim e fico muito feliz e agradecido, pois conseguimos que a camada jovem espanhola sinta a música de outra maneira. Muitas pessoas perguntam-me o que é o fado e alegra-me que se emocionem com a Carminho.


Paixão pelo fado

Em pequeno, ouvi um concerto da Dulce Pontes e aquela paixão com que os fadistas cantam é a mesma com que se canta o flamenco. E isso deixou-me encantado. No fado sente-se o mesmo que no flamenco, uma pessoa emociona-se e sente a alma rasgar-se. A nostalgia e a melancolia atraem-me e no fado sente-se isso. (...)

Video

O vídeo foi gravado em Lisboa em Setembro de 2011, nomeadamente no Terreiro do Paço.






Video: Youtube

Fonte: Revista Caras (Andreia Cardinalli / João Lima)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

"Salada Portuguesa" de Manoel Monteiro (1909-1990)


Manoel Monteiro nasceu em Portugal, em São Martinho de Cimbres, no concelho de Armamar, distrito de Viseu. Emigrou para o Brasil, em 1923, aos 14 anos de idade conjuntamente com o pai e um tio. Dois anos mais tarde, o pai e o tio regressaram a Portugal, e ele passou a viver sozinho na cidade do Rio de Janeiro.

Empregou-se no comércio, trabalhando como caixa. Ingressou na escola de ballet, onde estudou sob a orientação de Maria Olenewa. Em 1927, passou a integrar o corpo de balé do Teatro Municipal, onde se manteve até 1930, quando foi proibido de dançar devido a problemas cardíacos.



Estreou em disco em 1933, gravando na editora Odeon os fados "O teu olhar" e "O último fado", ambos compostos por Carlos Campos. Em seguida, gravou a "Marcha das rosas” e a canção "Chora a cantar", de motivo popular.

Teve seu primeiro grande sucesso, com a gravação do fado "Santa Cruz" (Caramés / D. Santos), editados no seu terceiro disco.


No repertório de Manuel Monteiro, destacavam-se géneros portugueses como fados, viras e marchas, tendo também gravado obras de autores brasileiros, principalmente do género carnavalesco.

Sua discografia em 78 rpm vai de 1933 a 1959, tendo gravado cerca de 65 discos com 127 músicas, a maior parte na Odeon.


Alguns dos seus sucessos:

"Rosas de Portugal"
"Amores de estudante"(1939);
"O último fado"
"Marcha das rosas" (1933);
"Rosas divinais" (1933);
"O canto do ceguinho" (1933);
"A morte da ceguinha" (1933);
"Heroísmo de bombeiro" (1933);
"Meu Portugal" (1933);
"Corações de Portugal" (1934);
"Salada Portuguesa" (1935)
"Maria morena"(1955)
"Nem às paredes confesso" (1955)


Primeiro cantor português a ter sucesso no Brasil

Em 1949, foi homenageado pela classe artística com um evento realizado no Teatro Carlos Gomes, por ter sido o primeiro cantor português a ter sucesso no Brasil.

Abriu, assim, o caminho para que outros cantores lusos se projectassem por intermédio das gravadoras nacionais, como José Lemos e Joaquim Pimentel, já em 1935, e vários outros posteriormente.


Em 1948, participou como actor e responsável pela coreografia do filme "Inconfidência Mineiroa", realizado por Carmen Santos”.

"Salada Portuguesa" ("Caninha verde")


Em 1935, lançou com grande sucesso a marcha "Salada Portuguesa" (V. Paiva / P. Barbosa), que se tornaria conhecida com o título "Caninha verde", mencionado no texto da música.

Esta marcha foi por si apresentada no filme 'carnavalesco' "Alô, alô, Brasil" (Fevereiro de 1935), de Wallace Downey, João de Barro e Alberto Ribeiro. Ainda neste ano, gravou as marchas "João, João, João", "Balãozinho multicor", "Olé, Carmen", em homenagem a Carmen Miranda; e "Sou da folia".


Letra de "Salada Portuguesa" ("Caninha verde")

A minha caninha verde já chegou de Portugal
A minha caninha verde já chegou de Portugal
Vamos todos, minha gente, festejar o carnaval
Vamos todos, minha gente, festejar o carnaval
Vai Manoel mais a Maria
Nos três dias de folia
Pierrot e Colombina
Vai João e negra Mina...
A minha caninha verde já chegou de Portugal
A minha caninha verde já chegou de Portugal
Vamos todos, minha gente, festejar o carnaval
Vamos todos, minha gente, festejar o carnaval
O vovô já me dizia
No Brasil há alegria
Desde o tempo de Cabral
Que existe o Carnaval...

(...)

"Fado Manoel Monteiro"


É um dos fados mais significativos do repertório de Manoel Monteiro da autoria de A. Ferreira e Gonçalves Dias, gravado em disco Odeon, em 1937.

Sou português e grito ao mundo inteiro
Filho de gente humilde, mas honrada
E se adoro o Brasil hospitaleiro
Jamais esquecerei a Pátria amada.
Brasil e Portugal trago-os no peito
Unidos pela amizade e pela história
Se devo a Portugal o meu respeito
Ao Brasil devo toda minha glória.
Sinto pela minha Pátria devoção
Mas amo tanto a Pátria brasileira
E chego a não saber se o coração
Ama a segunda mais do que a primeira
E por ser do Brasil um grande amigo
Sou brasileiro afirmo muita vez
E sinto orgulho igual de quando sinto
Nasci em Portugal, sou português.
Portugal é meu torrão natal
A Pátria mãe de heroís e de guerreiros
Mas se o Brasil nasceu de Portugal
Eu sou portanto irmão dos brasileiros.


Rádio

Iniciou sua actividade radiofónica no início da década de 30, quando se apresentou no programa "Luso brasileiro” da Rádio Educadora do Brasil. Na época, as rádios mantinham programas específicos de música portuguesa, para atender à procura da numerosa colónia que emigrou para o Brasil.

Teve um programa na Rádio Vera Cruz. Durante as décadas de 1960/70 esteve sempre presente em programas de rádio e TV relacionados com temas portugueses.



Outras Homenagens

Seu nome foi dado a uma das ruas de Cimbres (Portugal), para assim, perpetuar seu filho ilustre. No Brasil, o cantor conta com sete nome de ruas, espalhadas por diversas cidades do País.

Em 1992, J. Gonçalves Monteiro, lançou um livreto sobre a vida e carreira de Manoel Monteiro. Foi feita uma tiragem de 1000 exemplares para venda. Toda a receita seria revertida para fazer um busto e colocá-lo em Cimbres. Infelizmente não teve grande repercurssão.

O poeta e diplomata brasileiro Vinicius de Moraes no seu tema "Samba da Benção" faz referência a Manoel Monteiro: "A benção Manoel Monteiro, e a todos os fadistas deste mundo!"

Fontes: Thais Matarazzo (1)(2)(3) / Cifrantiga2 / Mundo Lusíada / Blog Manuel Monteiro FadistaDicionario MPB

Videos (com imensas fotos): Eradogramaphone ("Fado do Povo", "O Meu Barquinho" e "Amores de Aldeia") / "Madragoa" / "Minha bandeira"




quarta-feira, 5 de outubro de 2011

"Os Argonautas" de Caetano Veloso (1969)


[Navegar é Preciso] É um texto famoso de Fernando Pessoa, desses que se incorporam à memória cultural de um povo. Cito de memória: "Navegadores antigos tinham um lema: navegar é preciso, viver não é preciso. Quero para mim este lema, adaptando-o à minha vida e à minha missão no mundo: viver não é necessário, o que é necessário é criar."

Para a minha geração, a frase lembrada por Pessoa foi popularizada por Caetano Veloso em sua canção "Os argonautas", no seu "disco branco" saído em 1969, logo após sua prisão pelo regime militar.


Nenhum de nós tinha a menor ideia de quem fosse Fernando Pessoa. Era apenas um nome que Caetano tinha bradado, enfurecido, para a plateia que o vaiava durante sua interpretação de "É proibido proibir", num daqueles festivais.

Com a vaia, o cantor interrompeu o canto e disparou na direcção da plateia um monólogo a plenos pulmões com uns dez minutos de duração, no qual, a certa altura, gritava: "Hoje não tem Fernando Pessoa!" (*)

(*) [Caetano Veloso ia interpretar "É Proibido Proibir" com Os Mutantes, pretendendo, inicialmente, incluir um texto de Fernando Pessoa para homenagear a actriz Cacilda Becker que estava a ser pressionada para rescindir o seu contrato com a televisão]


Fernando Pessoa? Quem diabo é esse cara? Corremos todos para as enciclopédias e descobrimos que era um "poeta modernista português, falecido em 1935". Ficamos mais perplexos ainda. Oi... quer dizer que o Modernismo tinha chegado em Portugal?!

Pensávamos que Portugal tinha estacionado em Camões e Gil Vicente.
Aí saiu um compacto [single] simples, tendo no lado B a faixa "Ambiente de festival", com a vaia do teatro e a diatribe de Caetano, e no lado A a canção "É proibido proibir" ("A mãe da virgem diz que não... e o anúncio da televisão... e estava escrito no portão..."), na qual, a certa altura, brotava a voz surda e angustiada de Caetano recitando: "Esperai! Cai no areal e na hora adversa que Deus concede aos seus..."


Eram os versos do poema "D. Sebastião", na parte III de "Mensagem", único livro publicado em vida por Fernando Pessoa. Até hoje não sei o que diabo têm a ver Dom Sebastião e o slogan "É proibido proibir"; mas foi este talvez o primeiro link "pessoano" na obra de Caetano, retomado depois com "Os argonautas": "O barco... meu coração não aguenta tanta tormenta, alegria, meu coração não contenta..."

Era um fado nostálgico em tom menor, ao som de bandolins, onde se misturavam temas como a navegação sem rumo e o vampirismo ("O barulho do meu dente em tua veia... o sangue, o charco..."). E o refrão, em tom maior ascendente, triunfante: "Navegar é preciso... Viver não é preciso!"


Só muitos anos depois é que vi comentários sobre a ambiguidade da frase. "Precisão" pode significar necessidade: navegar é necessário, viver não é necessário. Mas pode significar também exactidão, e aí teríamos: navegar é uma ciência exacta, viver não o é.

O que está muito mais de acordo com os argonautas da Escola de Sagres, com suas bússolas, astrolábios e portulanos. Naufrágios, calmarias e tempestades, no entanto, nos mostram a ingenuidade dessa distinção. Viver e navegar estão submetidos ao mesmo princípio de incerteza. Não nos esqueçamos de que para navegar é preciso viver, não é preciso?

Fonte: Braulio Tavares (Publicado no Jornal da Paraíba, edição de 25 de julho de 2004)


Homenagem à cultura portuguesa

"Os Argonautas" foi interpretado por cantoras como Elis Regina, Maria Betânia e Ângela Maria.

Trata-se de um fado, em homenagem à cultura portuguesa, ao mar e à mítica viagem dos Argonautas comandados por Jasão [em metáfora aos navegadores portugueses].

Há quem tenha notado no modo de cantar de Veloso uma homenagem a Amália Rodrigues e uma homenagem a Fernando Pessoa, com a inclusão do verso "Navegar é preciso, viver não é preciso" que tem origem no general romano Pompeo (106-48 aC) "Navegar é necessário; viver não é necessário".

Além da menção ao mar (que é uma constante em Mensagem), fica claro o conteúdo sebastianista da letra, tal como acontece no livro de Pessoa.

Letra

o barco, meu coração não aguenta
tanta tormenta
alegria, meu coração não contenta
o dia, o marco, meu coração
o porto, não
navegar é preciso
viver não é preciso
o barco, noite no teu tão bonito
sorriso solto perdido
horizonte, madrugada
o riso, o arco, da madrugada
o porto, nada
navegar é preciso
viver não é preciso
o barco, o automóvel brilhante
o trilho solto, o barulho
do meu dente em tua veia
o sangue, o charco, barulho lento
o porto silêncio


"A Mensagem do Tropicalismo"

Uma conferência de Caetano Veloso e Antonio Cicero intitulada "A Mensagem do Tropicalismo", sobre a influência de Mensagem de Fernando Pessoa no movimento tropicalista, inaugurou o ciclo Livres Pensadores na Casa Fernando Pessoa, no dia 4 de Dezembro de 2009.

António Cícero estivera anteriormente no "I Congresso Internacional Fernando Pessoa". Segundo o ensaísta, "Caetano conta que uma das principais influências que sofreu foi de Agostinho da Silva, um professor português, um intelectual, um pensador, que havia emigrado para o Brasil, onde deu aulas, e em cujos ensaios ele reconhecia um certo messianismo que derivava imediatamente de Fernando Pessoa".

Caetano, que leu “Mensagem” na faculdade, impressionara-se sobretudo pelo facto de Fernando Pessoa ser capaz de dar vida digna a esse mito (ao parecer constituir a fundação da língua portuguesa).


Videos

(1) Caetano lê trecho da carta de Pêro Vaz de Caminha interpreta "Os Argonautas"

(2) Elis Regina canta "Os Argonautas" (de Caetano Veloso) no especial Sexta Nobre-Gloco 71/72.

(3) Caetano e Chico - Juntos e ao Vivo

(4) Maria Betânia [a música foi feita para ela cantar]

Outras fontes/mais informações: umbarco.blog / música e memória / fumacas.weblog / yahoo / Mundo pessoa / Caetano en detalle / Lusoleituras

Caetano Veloso colaborou na edição nº1 da revista "Pessoa"

quarta-feira, 2 de março de 2011

"Onda Sonora Red Hot + Lisbon" (1998)


"Onda Sonora Red Hot + Lisbon" foi o décimo primeiro disco da série de álbuns (de compilação) Red Hot criados pela Red Hot Organization (RHO), uma organização internacional cujo objectivo, neste 11º disco, foi aumentar a consciencialização sobre a SIDA no mundo que fala Português e em outros lugares devastados pela síndrome.

"Onda Sonora" inclui músicas de 40 artistas, representando 11 países. O resultado é uma fusão de elementos - uma colecção de canções executadas em sete línguas diferentes, a partir de uma variedade de culturas, com diversas origens e estilos - tudo o que tem sido influenciado pela cultura Português.

Fonte: wikipedia

Alinhamento

1. David Byrne + Caetano Veloso — Dreamworld: Marco de Canavezes
2. Ketama + Djavan + Banda Feminina Didá — Dukeles
3. Bonga + Marisa Monte + Carlinhos Brown — Mulemba Xangóla
4. General D + Funk N’ Lata — Sobi Esse Pano, Mano
5. Lura — Nha Vida
6. Moreno Veloso + Sadjo Djolo Koiate — Coral
7. k.d. lang — Fado Hilario
8. Madredeus — Os Dias São a Noite (Suso Saiz Remix)
9. Interlude — DJ Wally + Lura
10. Simentera + DJ Soul Slinger — A Mar (Storm Mix)
11. Naná Vasconcelos + Vinícius Cantuária — Luz de Candeeiro
12. António Chainho — Variações Em Mi Menor
13. Delfins + Tó Ricciardi — Canção de Engate (In Variações Memory Remix)
14. Smoke City — O Cara Lindo (Mr. Gorgeous)
15. Filipe Mukenga + Underground Sound of Lisbon — Hailwa Yange Oike Mbela
16. Netos do N’Gumbe — Tchon Di Na Lú
17. Arto Lindsay + Arnaldo Antunes + Daví Moraes — Sem Você
18. Paulo Bragança + Carlos Maria Trindade — A Névoa
19. Filipa Pais + António Chainho — Fado da Adiça
20. Ekvat — Babu Amgeló
21. Durutti Column — It’s Your Life, Babe

k.d. lang canta "Fado Hilário"


Uma das participações mais inesperadas foi a da cantora canadiana k.d. lang que ousou cantar o tema "Fado Hilário" com a colaboração, na guitarra portuguesa, de António Chaínho.

Video: Youtube

"Nha Vida" de Lura


O tema da luso-caboverdeana Lura (Maria de Lurdes Assunção), "Nha Vida", incluído em "Onda Sonora", numa nova versão, foi regravado, em 2002, pelo cantor brasileiro André Gabeh (que participou no 1º Big Brother Brasil) com o título "Hoje no Mar".

Video: Youtube

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

"Lisboa Rio" de António Chaínho (2000)

Distante de uma visão ortodoxa da Guitarra Portuguesa, António Chaínho há muito que procura a fusão deste instrumento com outras culturas, procurando desenvolver um certo experimentalismo à volta da Guitarra tradicionalmente ligada ao Fado.

Um marco importante disso mesmo foi a sua participação num disco de Maria Dollores Pradera, uma das maiores referências da música espanhola, ao lado de José Luís Alto e Carlos Cano.

A sua dedicação à divulgação da Guitarra Portuguesa evidenciou-se com o muito bem sucedido "A Guitarra e Outras Mulheres", um disco com a participação de Teresa Salgueiro, Filipa Pais, Marta Dias, Sofia Varela e das brasileiras Elba Ramalho e Nina Miranda.

Este "Lisboa-Rio" é, novamente, uma incursão nas capacidades tímbricas e rítmicas deste instrumento ligado ao fado, desta vez a servir de suporte aos sons vindos do Brasil.

Vários Nomes consagrados da Música do outro lado do atlântico emprestam a voz e a mestria nos arranjos destes doze temas, com autorias distribuídas pelo poróprio Chaínho, Caetano veloso, Celso Fonseca, Gilberto Gil, entre outros.

É de destacar a participação de Virgínia Rodrigues no tema "Fado Moderno" - com versos de Ronaldo Bastos e Celso Fonseca - que de resto assumem grande parte das letras cantadas neste disco. Igualmente interessante é a participação de Ney Matogrosso no tema "Os argonautas", um original de Caetano Veloso.

Instrumentalmente este disco é também extraordinário. "Asa Branca", de Luiz Gonzaga transveste-se aqui de contemporaniedade, enquanto a famosa "Valsinha" de Vinícius de Morais e Chico Buarque, revisita de certa forma o ambiente da sua versão original.

Os temas instrumentais Rio 6:30 e Lisboa 23 H (originais de António Chaínho), mostram definitivamente que a Guitarra Portuguesa é, antes de mais, um instrumento extraordináriamente versátil e belo. Nas mãos do mestre.

Fonte: Portal do Fado

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

"Meu Fado" de Fafá de Belém (1992)

Em 1990 foi feita uma pesquisa, em Portugal, sobre quem o povo português gostaria que gravasse um disco de fados e canções portuguesas. O nome Fafa de Belém foi o escolhido. Aí nasceu este "Meu Fado".

O produtor, Mário Martins, era o produtor preferido de Amália Rodrigues e junto com Tozé Brito e Pedro Oliveira, começamos a trabalhar num repertório abrangente. Por um ano trocamos cartas, cassestes, fax e horas de telefonemas infindáveis e maravilhosos ! Não havia e-mails a esta altura ...

De cada canção vinham várias leituras e um resumo da época e da situação em que ela foi gravada. (...)


O repertório era praticamente o mesmo, com excepção de "Canção Grata",que abre o cd. É uma letra sobre um poema de Florbela Espanca e havia uma outra "Amar", igualmente deslumbrante e aí as opiniões dividiam-se. Ganhou "Canção Grata", para minha alegria...

Uma semana de ensaios e, à maneira do Fado, entramos em estudio para gravarmos directo, sem canais a mais, a guitarra e o tempo a partir da respiração da cantora.

No fado, não há emendas nem "protools", nem vozes a serem refeitas. É a voz que dá o tempo e o sentimento. Os instrumentos vestem-na.

Um grande desafio para quem ama o Fado mas sabe que “fadista nasce-se, é em Portugal!”.


Um trabalho de mestre de Mário Martins, grande produtor; e Mestre António Chainho dominando sua guitarra portuguesa como se uma mulher fosse a cobrir-lhe de carinhos!!!

A partir de "Canção Grata" seguimos pelas águas deste Tejo e da democracia com Canoas do Tejo, emblemática canção imortalizada por Carlos do Carmo que canta a "embarcação" chamada Revolução dos Cravos, que devolveu ao povo português a liberdade e o Estado Democrático.

Seguem-se "Nem às Paredes Confesso", canção tradicional e muito popular aqui e em Portugal na voz de Amalia, Francisco José e tantos outros fadistas.


Em "Sombras da Madrugada" e "Sempre que Lisboa Canta" a alegria e a brejeirice tomam conta e cantam um lado menos conhecido, para nós brasileiros, desta canção portuguesa.

Mergulhamos, então no universo denso do Fado em "Procuro e Não te Encontro", grande canção de Nobrega e Souza e António José, e "Confesso", grande clássico de Frederico Valério e Galhardo, imortalizado por Amália.

Vamos, então para o "Fado das Queixas", Fado Malandro, o fado das ruas de Alfama e Mouraria, alegre e brincalhão!


Passeamos pelo repertório de Francisco José com "Olhos Castanhos" e "Só Nós Dois", de grande força popular para mesgulharmos em "Só à Noitinha", de novo Frederico Valério escrevendo para sua musa maior – Amália.

Achamos apropriado ter no repertório a canção "Memórias" que, embora composta no Brasil sem intenção de Fado, foi gravada por mais de 4 fadistas como se um Fado fosse. Como é um grande sucesso meu no Brasil e em Portugal, achamos por bem coloca-la.

Finalizamos com "Tudo Isto é Fado", outro clássico, que resume e traduz este sentimento que não se explica, esta saudade do que não se sabe bem, esta angústia que por vezes nos toma a alma e que está nas ruas,nos becos,nos infortunios, no que não se diz, nas meias mentiras, nos amores mal resolvidos, na esperança do retorno, em nossa almas fadadas àos amores que não se tem certeza!

Fonte: Fafá de Belém



Motivo do relançamento

"Estou fazendo 35 anos de carreira e esse disco é muito importante para mim. É o único disco de fado feito em Portugal por uma cantora brasileira. Foi feito a pedido do mercado português e produzido pelo produtor da Amália Rodrigues.

Quando recebi esse convite, fiz um ano de pesquisa, e naquela época não havia internet. Era fita cassete pra cá e pra lá (Risos). Foram cartas, faxes, trabalhando num repertório que fosse representativo. A ideia era revitalizar o fado, que estava fechado num gueto antigo e não chegava ao público mais jovem.

Fui escolhida entre três cantoras brasileiras e torci muito para que isso acontecesse. Em uma semana, conseguimos o disco de ouro.

No Brasil, vendeu perto de 500 mil cópias. Depois de um ano e pouco, a Som Livre tirou do mercado, e desde então me pedem que relance. A Sony, que tem o fonograma, topou e negociamos por dois anos. Em janeiro, chegou a autorização."

Fonte: Embaixada Portugal Brasil

Entrevista: RTP "Olha Que Dois" (1992)