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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

50 anos de personagens e actores portugueses em novelas brasileiras (1965-2015) (I)


Os portugueses, como parte importante na composição étnica brasileira, não poderiam estar ausentes do enredo das novelas brasileiras. Desde “Antônio Maria”, de 1968, a representação do imigrante português sempre esteve associada ao trabalho, muitas vezes em padarias e confeitarias, e o bom-humor com algumas doses de rispidez.

Actores portugueses aparecem nas produções brasileiras desde os anos 60 através de participações especiais e até papéis de protagonismo. Da mesma forma, muitos actores brasileiros deram vida a personagens portugueses. E em anos mais recentes actores portugueses como Ricardo Pereira e Paulo Rocha tornam-se presença assídua nas principais novelas da Rede Globo, inclusive interpretando personagens brasileiras.

“A Cor da Sua Pele” (Tupi, 1965)


O primeiro personagem português apresentado numa telenovela no Brasil é Dudu, representado por Leonardo Villar, na novela “A Cor da Sua Pele” de Walter George Durst, com base numa história do argentino Abel Santa Cruz.

Foi a primeira novela a falar sobre o preconceito racial. A história de amor, entre a mulata de olhos verdes Clotilde (Yolanda Braga) e o comerciante português Dudu (Leonardo Villar), trouxe para a pequena tela o primeiro beijo inter-racial da sua história e Yolanda Braga ficou para a história como a primeira protagonista negra de uma telenovela brasileira.

"Antônio Maria" (Tupi, 1968)


É em "Antônio Maria" que, pela primeira vez, um personagem português se destaca. Geraldo Vietri queria fazer uma homenagem aos imigrantes portugueses mas sem propagar o estereótipo anedótico. Foi justamente por isso que resolveu criar o personagem Antônio Maria D’Alencastro Figueiroa. Achava que já era mais do que hora de se homenagear um povo fundamental para o perfil sociológico da nação brasileira. Para isso, subverteu a tradição popular: ao invés de um português alvo de piadas, resolveu construir um português herói, desbravador, galante, que declamava Camões.

Para viver o personagem, o actor Sérgio Cardoso (juntamente com Geraldo Vietri, autor e diretcor) conversou com dezenas de portugueses de todas as categorias: desde o cônsul e o vice-cônsul de Portugal em São Paulo, até donos de bares e armazéns, todos contribuíram para que seu personagem tivesse o vocabulário e o sotaque lisboetas.


Antônio Maria chamava automóvel de "máquina", terno de "fato", as moças de "meninas" e o patrão de "vossa excelência". Mas por causa do seu sotaque, não conseguiu melhor emprego que o de motorista. Várias vezes, na novela, Antônio Maria repetia uma denúncia: "Os portugueses que chegam ao Brasil nunca encontram empregos compatíveis com seu grau de instrução".

Carlos Duval e Guiomar Gonçalves (ambos actores brasileiros) eram seus conterrâneos na novela. Fernando Nobre (Carlos Duval), dono de uma panificadora, oferece-lhe sociedade, mas “Antônio Maria”, inexplicavelmente, prefere continuar como empregado. Por que motivo “Antônio Maria” quer ficar na casa do Dr. Adalberto ? Que vida ele levava em Portugal ?


A cantora portuguesa Gilda Valença, radicada no Brasil, era Amália, a noiva de António Maria, que virá atrapalhar o amor que nasce entre o português e Heloísa (Aracy Balabanian).

A novela agradou à colónia portuguesa e, mesmo tendo baixa audiência no início, ao terceiro mês era líder no horário das 19 horas. Em “Antônio Maria” vivia-se uma evolução, já que não havia carruagens, bosques, ciganos – típicos das novelas anteriores mas sim um cenário urbano real.

 “A Muralha” (Excelsior, 1968)


Baseada na obra homónima de Dinah Silveira de Queiróz,  em “A Muralha” narra-se a história da família de Dom Brás de Olinto e, por extensão, os factos que levaram à Guerra dos Emboabas (luta por terras em Minas Gerais), nomeadamente o choque dos paulistas que conquistaram terras e minas e os forasteiros de diversas procedências, principalmente baianos e portugueses, que queriam se apossar delas.

A muralha significa a serra como obstáculo às incursões dos bandeirantes, nas suas buscas de novas terras e riquezas. A trama gira em redor da família de Dom Brás, especialmente com a chegada de Portugal de uma sobrinha, Cristina (Arlete Montenegro), que se apaixona por um dos seus filhos, Thiago.


Nesse relacionamento foram exploradas as diferenças culturais e de mentalidade entre os personagens, já que o rapaz tinha nascido no Brasil. A novela fora exibida anteriormente em duas versões mais simples, em 1958, na Tupi e em 1963, pela Cultura.

Em 2000, produziu-se um remake pela Globo, em forma de mini-série, com adaptação da dramaturga portuguesa radicada no Brasil, Maria Adelaide do Amaral.

"Irmãos Coragem (Globo, 1970)


Janet Claire revolucionou a novela brasileira com "Irmãos Coragem". No interior de Goiás, na fictícia cidade de Coroado, os moradores sobrevivem da principal actividade económica na região, o garimpo de ouro.

Na cidade, vive a família Coragem: a mãe Sinhana (Zilka Sallaberry) e os seus três filhos, João (Tarcísio Meira), Jerônimo (Cláudio Cavalcanti) e Duda (Cláudio Marzo). No meio da história da família de três irmãos humildes, que lutavam contra as injustiças cometidas pelo coronel da cidade, estavam dois personagens portugueses, ambos representados por actores brasileiros, Gentil Palhares (Arthur Costa Filho) e a sua esposa Manuela (Lourdinha Bittencourt), donos da pensão de Coroado. O companheirismo da esposa é evidente, principalmente no negócio familiar.

A novela foi regravada já no novo milénio pela Globo, sendo os personagens portugueses interpretados pelos actores brasileiros Chico Tenreiro e Zaira Zambelli.

"As Pupilas do Senhor Reitor" (Record, 1970)


A Record produziu em 1970 uma novela ambientada inteiramente em uma aldeia do Minho, em Portugal: "As Pupilas do Senhor Reitor". A adaptação do texto do escritor português Júlio Dinis, tratava dos conflitos dos moradores locais: um médico que perde o posto para outro mais jovem, recém-formado, e o envolvimento das “pupilas” Clara e Margarida, que estão sob o cuidado do reitor Padre Antônio, com os irmãos Das Dornas.

Em 1994, o SBT exibiu uma nova adaptação escrita por Lauro César Muniz.

"Meu Pé de Laranja Lima" (Tupi, 1970)


Escrita por Ivani Ribeiro, com base no livro de José Mauro de Vasconcelos, relata a história de Zezé (Haroldo Botta), um menino pobre que tem como amigo um pé de laranja lima. Ao conhecer Manuel Valadares, o Portuga (Cláudio Corrêa e Castro), nasce uma bonita amizade. Foi a primeira adaptação do livro que tinha sido campeão de vendas de livros e que havia recebido uma versão cinematográfica.

Dez anos mais tarde ganhou outra versão, dessa vez na Bandeirantes, onde Dionísio Azevedo interpreta o Portuga. Em 1998, a mesma emissora gravou uma terceira versão escrita por Ana Maria Moretzsohn onde o personagem português foi interpretado por Gianfrancesco Guarnieri.

"Os Deuses Estão Mortos (Record, 1971)


Amália participa na novela “Os Deuses estão mortos”, da TV Record, de Lauro César Muniz e Dionísio Azevedo, interpretando a artista portuguesa Eugênia Câmara, paixão do poeta brasileiro Castro Alves.

Os actores portugueses João Lourenço, no papel de Paulo, e Irene Cruz, no papel de Tereza, também fizeram uma participação especial nesta novela que se passava em Ouro Negro, onde duas famílias disputavam a liderança política da cidade: uma monarquista e a outra, republicana.

"Os Fidalgos da Casa Mourisca" (Rede Record e TV Rio, 1972)


Baseada no romance homónimo de Júlio Diniz, foi adaptada por Dulce Santucci e dirigida por Randal Juliano, mas sem o sucesso de "As Pupilas do Senhor Reitor", do mesmo escritor. Rodolfo Mayer, no papel de Dom Luís, e Geraldo Del Rey e Ademir Rocha no papel dos filhos de Dom Luís, Jorge e Maurício, eram os Fidalgos do título, destacando-se igualmente as actrizes Maria Estela (no papel de Berta, uma plebeia que se casava com um dos filhos) e Laura Cardoso (que interpretara o papel de Tereza em "Pupilas do Senhor Reitor" como Gabriela).

"Semi-deus" (Globo, 1973)


O jornalista Alex Garcia (Francisco Cuoco) volta ao Brasil para realizar uma reportagem sobre o império industrial da família Leonardo, ao mesmo tempo em que o presidente das empresas, Hugo Leonardo (Tarcísio Meira), é vítima de uma conspiração armada por seus inimigos.

Havia cenas de exterior gravadas em Portugal, em locais como a Torre de Belém, Estoril, o Convento de São Jerónimo, o Castelo de São Jorge e Alfama.

"Meu rico português" (Tupi, 1975)


Em 1975, outro personagem lusitano ganhou destaque na telenovela brasileira. Em "Meu rico português", Geraldo Vietri repetiu a fórmula empregada em Antônio Maria e trouxe como personagem principal Severo Salgado Salles (Jonas Mello), recém-chegado de Portugal que faz amizade com a milionária Dona Veridiana Pires Camargo.

O actor Jonas Mello treinava seu sotaque português ouvindo discos com poesias de Fernando Pessoa e frequentando assiduamente a colónia portuguesa na sede da Portuguesa de Desportos, em São Paulo.

Amália Rodrigues fez uma participação especial na novela nos seus últimos capítulos, quando Severo e Walquíria vão ouvir Amália a uma casa de fados, aumentando ainda mais a audiência do folhetim

“Os Apóstolos de Judas” (Tupi, 1976)


Laura Cardoso, que venceu o troféu APCA para melhor actriz do ano, interpretava o papel de Fátima da Conceição, a bondosa vizinha de Jonas Mello (Judas, o protagonista), uma viúva portuguesa que trabalha na feira ao lado dos filhos Nando e Tonho.

Fátima não se dá bem com Domitília, a futura sogra de seus filhos, que namoram as irmãs Simone e Priscila. Domitília é uma viúva cheia de pompa, que se diz parente de Dona Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, a mais famosa amante do imperador D. Pedro I.

"O Casarão" (Globo, 1976)


A novela "O Casarão, exibida em horário nobre da Globo, às 20 horas, foi uma das poucas novelas narradas de modo não-linear, escrita por Lauro César Muniz. Participaram atores portugueses como Tony Correia, que viveu Jacinto de Souza, imigrante que chegou ao Brasil em 1895 em busca de uma vida melhor.

Analfabeto e carvoeiro desde menino, se dirigiu ao interior de São Paulo onde as plantações de café estavam em pleno progresso. Trabalhava na construção da estrada de ferro e também na Fazenda de Água Santa, para ajudar na construção do casarão, onde encontrou os compatriotas na lavoura de café.


"O Casarão" se passava em três momentos diferentes. A novidade desta trama era a apresentação dessas épocas de forma intercalada. Por isso, duas atrizes portuguesas faziam o papel da mesma personagem porém em épocas distintas. Ana Maria Grova e Laura Soveral interpretaram Francisca, com quem Jacinto tem um romance na cidade de Tangará, onde se passa a trama.

"Escrava Isaura" (Globo, 1976)


A actriz Ana Maria Grova, que interpretara a jovem Francisca em "O Casarão", participou, também em 1976, em "Escrava Isaura", da Globo, no papel de Eneida. A novela de época, escrita por Gilberto Braga, foi adaptada do romance de Bernardo Guimarães e esteve entre as novelas mais exportadas do mundo. Foi vendida para mais de cem países.

A atriz portuguesa interpretou uma mulher interesseira que revela a Leôncio o paradeiro de Isaura quando ela estava escondida em Barbacena, interior de Minas Gerais.

"Duas Vidas" (Globo, 1976)


Laura Soveral também fez uma participação em 1976 em "Duas Vidas", de Janete Clair, com a personagem Leonor, dona da gravadora Danúbio, que perdeu o filho em um acidente e passa o tempo a lembrar-se dele. A novela da Globo, que se passava no Rio de Janeiro, tinha como tema a tragédia urbana.

"Locomotivas" (Globo, 1977)


Tony Correia participou em diversas novelas no fim da década de 70, com destaque também para o seu  trabalho em "Locomotivas", de 1977, na Globo, onde interpretou Machadinho, um jovem ingénuo que, vindo de Portugal, hospeda-se na casa de Victor (Isaac Bardavid), dono de um bar. Com seus dotes culinários, Machadinho transformou o pequeno bar num restaurante.

O personagem, que abrasileira o sotaque, viveu também alguns casos de amor. Inicia-se uma nova fase da representação do homem português: jovem galanteador, sensível, bonito, inteligente, sem o uso de artifícios como bigode ou boina das novelas anteriores. Essa contemporaneidade também se deve à própria temática da novela, dedicada à juventude. E também era a primeira vez que algumas cenas eram gravadas em Portugal, com a participação de artistas locais como a fadista Márcia Condessa.

"Aritana" (Tupi, 1978)


Em 1978, Tony Correia trabalhou também em "Aritana", de Ivani Ribeiro, como Nicolau Seabra, o Lalau, gerente do hotel das termas, que era de propriedade de seu pai, o Comendador Seabra, português interpretado pelo actor brasileiro Serafim Gonzalez. A novela narrava a luta do índio Aritana por suas terras.

 "Maria, Maria" (Globo, 1978)

A novela de Manoel Carlos também incluía um personagem português, José Moitinho, que era um simpático comerciante da região de diamantes no interior da Bahia, interpretado pelo actor brasileiro Carlos Brasileiro que se especializou no papel de personagens portuguesas (pois já fora Fernando Nobre em "Antônio Maria e voltou a interpretar um português em "Pacto de Sangue").

Fontes principais: “De Antônio Maria a Balacobaco: panorama da presença portuguesa na telenovela brasileira” de Elaine Javorski (Encontro Nacional da História de Mídia) / "A influência das relações comerciais e culturais entre Brasil e Portugal na inserção de personagens portugueses nas telenovelas" de Elaine Javorski e Isabel Ferin Cunha (Universidade de Coimbra)

Outras Fontes: Ualmédia / Mundo das novelas / Astros em revista / Bandeirantes start / Teledramaturgia / wikipedia / Mundo das novelas / Todo dia um texto novo  / Imgrum / Novelas e mundo  / Memória Globo / Movenotícias / Gshow / Correio da Manhã (Tony Correia)

terça-feira, 15 de março de 2016

Colónias portuguesas em "Exile" (1917) e "Burn" (1969)


"Exile" (1917)

Filme realizado por Maurice Tourneur para a Jesse L. Lasky Feature Play Co. (com distribuição da Paramount), protagonizado por Wyndham Standing (no papel de Vincento Perez) e Madame Olga Petrova (como Claudia Perez), sendo o argumento da autoria de Charles E. Whittaker, com base no livro "Exile, An Outpost of Empire" de Dolf Wyllarde (publicado em 1916).

Vincento Perez (interpretado por Wyndham Standing), governador da colónia portuguesa de Exile (na Arábia), é um homem sem escrúpulos e brutal que é odiado pelos nativos. Algo megalómano, Perez tenta controlar o mercado da seda, enviando uma carta ao engenheiro Harvey Richmond a revelar os seus planos.


Harvey ameaça divulgar as intenções de Perez, o que a ser publicado significaria a ruína de Perez, pelo que este decide enviar a sua esposa Claudia para o quarto de Harvey para o seduzir e tentar resgatar a carta.

Claudia entrega a carta ao marido, mas abandona-o. Depois de muito abuso, os nativos revoltam-se  contra o governador que é linchado pela multidão. Claudia é resgatada por Harvey e os dois enfrentam um futuro feliz juntos.

Entre os outros personagens que poderão ter origem portuguesa poderemos destacar Charles Martin como Manuel D'Alfrache.

Fontes: TCM / Wikipedia / America.pink 


"Burn !" ("Queimada !") (1969)

Filme italiano rodado em inglês sob direção de Gillo Pontecorvo com Marlon Brando no papel de Sir William Walker. O guião original referia-se a uma ilha espanhola, mas foi alterado para Portugal porque Espanha passava por um regime militar e o realizador tinha receio do filme ser censurado.

Grande parte dos personagens mantiveram os seus nomes espanhóis, como José Dolores em vez do correcto José das Dores. Assim o filme pode ser apontado como um exemplo de estereotipização étnica e linguística relativamente a Espanha e Portugal.


A acção decorre no século XIX quando um representante inglês é enviado para uma ilha (ficcional) do Caribe, que tem o sugestivo nome de "Queimada" (aludindo a um sangrento episódio do seu passado), que se encontra sob domínio português, para incentivar uma revolta para favorecer os negócios da coroa inglesa. Dez anos depois ele retorna, para depor quem ele colocou no poder, pois o momento económico exige um novo quadro político na região.

Fontes: Wikipedia / Youtube / Blog "Memória sindical"

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Os luso-americanos no cinema de Hollywood (II) - cinema mudo


A época do cinema mudo foi a que apresentou uma maior presença de luso-americanos, no entanto nos filmes “Martin Eden” (1914) e “Footfalls” (1921) os personagens de origem luso-americana na literatura passaram a não ter qualquer ligação a Portugal nas adaptações cinematográficas.

“Martin Eden” (1914)

Em “Martin Eden”, com base num dos romances mais autobiográficos de Jack London (publicado em 1909), a senhoria de Martin, enquanto este era um aspirante a escritor na zona de San Francisco, chamava-se Maria Silva, uma viúva trabalhadora com muitos filhos (entre as quais Mary, de 8 anos, e Teresa de 9) a quem Martin oferece uma quinta quando se torna rico.

No livro de Jack London a personagem tinha raízes portuguesas (1), mas passou a ser italiana no filme produzido pela Bosworth Film co. em 1914.

(1) "Ele pagava 2 dólares e meio por semana de renda por um pequeno quarto que pertencia a uma senhoria portuguesa, uma viúva trabalhadora e algo agreste, que ia aumentando a sua ninhada de alguma forma, e afogando a tristeza e fadiga num galão de vinho que adquiria na loja da esquina"


“The Paliser Case” ("Caso Paliser") de 1920

Um dos primeiros filmes mudos, a abordar a comunidade lusa (neste caso de Nova Iorque), foi “The Paliser Case” de 1920, dirigido por William Parke, adaptado do livro policial de Edgar Saltus (publicado em 1919).

O filme conta a história de Cassy Cara (interpretada por Pauline Frederick), que é uma jovem aspirante a cantora de ópera,  filha de Angelo Cara, um violinista de origem portuguesa (2), com uma deficiência física (3), que é acusada de matar o homem por quem se apaixonara, que está noivo de uma jovem da alta sociedade.


(2) No romance de Edgar Saltus, Angelo é descrito como sendo natural de Lisboa, tendo emigrado ainda jovem para a América.

(3) "Nós somos portugueses" diz Cassy, "ou pelo menos o meu pai é. Ele tocava no Metropolitan. Mas pôs-se a 'jeito' e numa noite em que regressava de uma casa privada, onde actuara, foi atacado por duas pessoas que o empurraram.

Cassy e Angelo Cara
Cassy está apaixonada por Keith Lennox, que está noivo de Margaret Austen, uma jovem da alta-sociedade. Margaret rompe com o noivado por julgar, erradamente, que Keith teria uma relação com Cassy. Mas, entretanto, Cassy fica noiva de Monty Paliser, sacrificando a sua felicidade pessoal por causa do seu mesquinho pai.

Cassy descobre que as intenções de Paliser não eram as melhores e que a cerimónia do seu casamento foi falsa, pois o padre era o jardineiro de Paliser disfarçado. Cassy abandona Paliser e relata a sua humilhação a Lennox.


Paliser acaba por ser assassinado à facada e as suspeitas recaem sobre Lennox. Para protege-lo, Cassy confessa que é autora do crime.

No fim descobre-se que o autor do crime foi o pai de Cassy, o violinista português, que acaba por morrer de ataque de coração.



“The Forbidden thing” de 1920

O primeiro filme realizado por Alain Dway para a Associated Productions foi adaptado de um conto de Mary Mears, publicado na revista Metropolitan Magazine em Abril de 1920.

“The Forbidden thing” conta a história de Abel Blake, um puritano da Nova Inglaterra (New England), que está apaixonado por Joan, mas que se deixa seduzir por Glory Prada, uma jovem portuguesa interpretada por Marcia Manon, descobrindo mais tarde que esta lhe era infiel.

Outros personagens de origem portuguesa são José Silva (proprietário de um circo ambulante que se envolve com Glory e que acaba por a matar) e Joe Portega, interpretados pelos actores Jack Roseleigh e Arthur Thalasso.



“Outside the Law” (1921)

“Outside the Law”, filme mudo de 1921, realizado por Tod Browning para a Universal Pictures, com argumento de Lucien Hubbard e Tod Browning.

Relata a história de um crime que decorre em San Francisco, sendo o filme protagonizado por Lon Chaney (o homem das mil caras) que interpreta dois papeis, um criminoso de origem portuguesa, “Black Mike” Sylva, e Ah Wing, de etnia chinesa.


"Footfalls" (1921)

Em “Footfalls” (William Fox Studios, filme mudo de 1921), tendo por base uma história de Wilbur Daniel Steele (que ganhou o prémio O. Henry Memorial Award em 1920), o protagonista era natural de São Miguel, Açores, na obra literária, com o improvável nome de Boaz Negro.

Boaz é um sapateiro cego da Nova Inglaterra que tem a capacidade de identificar as pessoas pelos seus passos. O seu filho chamava-se Manuel. Mas na adaptação cinematográfica passam a se chamar Hiram Scudder, o pai, e Tommy, o filho.

Tommy é suspeito de matar um empregado bancário, que era hóspede do seu pai, mas é o empregado bancário que acaba por ser identificado pelo protagonista como sendo o autor do crime (pois afinal o morto não era o empregado bancário).


“My son” (1925)

“My son” (First Nacional, filme mudo de 1925), com Alla Nazimova no papel de Ana Silva. Com base numa peça de Martha M. Stanley.

(Mais informações)


“The Yankee Clipper” (1927)

"The Yankee Clipper” (DeMille Pictures, filme mudo de 1927), realizado por Rupert Julian, adaptado de uma história de Denison Clift, relata uma corrida de barco desde a China até Boston, entre um norte-americano, Hal Winslow, e um inglês, Richard, que é o principal vilão da história.


Outro dos vilões é um dos homens da tripulação, conhecido como Portuguese Joe (interpretado por Walter Long), que além de ser um dos responsáveis por um motim, também tem interesse romântico por Jocelyn, que era noiva de Richard, mas que acaba por se enamorar por Winslow.


“Beware of Blondes” (1928)

Em “Beware of Blondes” (Columbia Pictures, filme mudo de 1928), realizado por George B. Seitz, que decorre num barco a vapor que transporta uma esmeralda preciosa para o Hawaii, que vai ser alvo de tentativa de roubo. O actor Harry Semels interpreta o papel de Portugee Joe, um dos personagens suspeitos que vão a bordo.

Fontes/Mais informações: Geoffrey L. Gomes "Cinematic portayals of Portuguese-Americans" / Mamie Caro / The moving Picture world

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Os luso-americanos no cinema de Hollywood (I)


Os luso americanos estiveram frequentemente ausentes do cinema norte-americano. Contudo os raros filmes que falaram dos luso-americanos apresentaram-nos em papeis de protagonista ou em papeis de suporte com alguma relevância e foram interpretados por algumas das grandes estrelas de Hollywood, como Spencer Tracy (em "Captain Courageous" de 1937), Edward G. Robinson (em "Tiger Shark" de 1932), Anthony Quinn (em "The World in his arms" de 1952) e Julia Roberts (em "Mystic Pizza" de 1988).


Uma das razões dessa escassez de papeis resulta da relativamente reduzida presença da comunidade lusa na literatura internacional, havendo de realçar clássicos como “Lobos do Mar” ou “Tortilla Flat”, adaptados de famosos escritores como Rudyard Kypling e John Steinbeck, contudo muitas das obras eram mais obscuras e menos eternas.

Curiosamente, a época do cinema mudo foi a que apresentou uma maior presença de luso-americanos, no entanto nos filmes “Martin Eden” (1914) e “Footfalls” (1921) os personagens de origem luso-americana (nas obras literárias) passaram a não ter qualquer ligação a Portugal.



A caracterização dos grupos étnicos, de uma forma negativa ou estereotipada, sempre fez parte da cultura popular, pelo que, sem surpresa, acabou por ser transposta para o entretimento, incluído o cinema.

A caracterização dos luso-americanos é, assim, também, muito diversificada, alternando aspectos positivos com negativos, como é o caso de Manuel, que se torna um exemplo de vida positivo para um menino mimado em “Lobos do Mar” (1937), ou Big Joe Portagee que passa os dias a mendigar por vinho de má qualidade em “Tortilla Flat” (1942), ambos os filmes sob direcção de Victor Fleming.

Fontes/Mais informações: Geoffrey L. Gomes "Cinematic portayals of Portuguese-Americans" / Mamie Caro / Portugees

Além dos filmes já referenciados, podemos igualmente destacar:


"I Cover the Waterfront" ("Ao longo do cais") (1933)
 
Filme realizado por James Cruze, com Ben Lyon no papel do jovem jornalista Joe Miller e Claudette Colbert como filha de um pescador pouco escruploso (Eli Kirk interpretado por Ernest Torrence).

A acção decorre em San Diego e envolve a entrada ilegal de imigrantes chineses. Eli Kirk é o responsável por este negócio, que é apoiado - ainda que de forma reluctante - por Tony Silva, um pescador de origem portuguesa, que é interpretado pelo actor George Humbert, que também desempenhou o papel de Manuel Lopez no filme "Daughters Courageous" (de 1939).

Mrs. Silva é interpretada pela actriz francesa Rosita Marstini.


O filme é baseado no livro de Max Miller que relata diversas histórias reais que lhe aconteceram enquanto era repórter que cobria os embarques e desembarques num porto californiano.

(Fonte/Mais informações: Pop corn time movies  / Movie classics / Youtube  )


"He Was Her Man" ("O Homem que eu perdi") (1934)

Filme realizado por Lloyd Bacon, com James Cagney no principal papel, Flicker Hayes, um arrombador de cofres recém-saído da prisão, que se quer vingar dos homens que o incriminaram. Quando se esconde em San Francisco, conhece Rose Lawrence, uma antiga prostituta, que está prestes a casar com Nick Gardella (interpretado por Victor Jory), um pescador português que vive numa pequena cidade mais a sul, onde Flicker, que adopta o nome de Jerry Allen, acaba por se esconder.  

Flicker é reconhecido por Pop Sims, mas não se apercebe dessa situação, sendo seguido até a essa pequena cidade, onde Pop arrenda um quarto na casa dos Gardella.


Rose pretende que Flicker/Jerry se vá embora, mas os Gardella convidam-no para o casamento. Rose pretende desistir do casamento, por se ter apaixonado por Flicker/Jerry, mas Nick acredita que podem passar um pano sobre tudo o que aconteceu e que poderão ser felizes (pois Flicker entrega-se às autoridades para salvar Rose). 

A mãe de Nick, creditada como Mrs. Gardella, é interpretada por Sarah Padden.


(Fonte/Mais informações: Histórias de CinemaTCM  / Mupi )


"Prison break" ("Feras humanas") (1938)

Filme de série B realizado por Arthur Lubin para a Universal Pictures, com argumento de Norton S. Parker e Dorothy Reid, adaptado do conto "The Walls of San Quentin" de Norton S. Parker.

A acção decorre na Califórnia, sendo o filme protagonizado pelo actor Barton MacLane, que desempenha o papel de Joaquin Shannon, um pescador de atum, de origem portuguesa e islandesa, que é injustamente acusado de matar o irmão da sua namorada (a família da namorada não aprovava o seu relacionamento com um "Portuga").

Maria, a irmã de Joaquin, era interpretada pela actriz Constance Moore.

 
(Fontes/Mais informações: WikipediaImdb / Geoffrey L. Gomes "Cinematic portayals of Portuguese-Americans" / Youtube )

"Daughters Courageous" ("Filhas corajosas") (1939)


Segundo dos quatro filmes protagonizados pelas três irmâs Lane (Lola, Rosemary e Priscilla), sendo a quarta irmã interpretada por Gale Page. Os principais actores masculinos são John Garfield, no papel de Gabriel Lopez, o filho de um pescador português, e Claude Rains.

Realizado por Michael Curtiz, com argumento dos gémeos Julius J. Epstein e Philip G. Epstein (que viriam a colaborar em "Casablanca"),  adaptado da peça "Fly Away Home" de Dorothy Bennett e Irving White, "Daughters courageous" não é uma sequela, pois trata-se de uma família distinta dos outros filmes ("Quatro irmãs", "Quatro noivas" e "Quatro mães").


Nan Masters, uma mãe "solteira", vive com as suas quatro filhas casadoiras e planeia casar-se com Sam, um empresário. Mas é surpreendida pelo regresso de Jim, o seu primeiro marido, que abandonara a sua família durante vinte anos. O errante e irresponsável Jim é recebido friamente pela sua família, mas a sua personalidade cativa as quatro filhas.

Uma das irmãs, Buff, está enamorada por Gabriel, um pescador de origem portuguesa algo cínico e irresponsável (como o pai das jovens), mas tem a oposição da sua mãe, Nan, que sabe da conturbada história do jovem e teme que a filha sofra o mesmo que ela. Gabriel acaba por perceber que o seu feitio não se ajustará a uma vida familiar convencional, pois tem o mesmo espírito errante de Jim, pelo que decidem viajar juntos pelo mundo, deixando assim o caminho livre para Nan se casar com Sam e impedindo Buff de repetir o erro de sua mãe.

Gabriel é admoestado pelo pai
Manuel Lopez, pai de Gabriel, é interpretado por George Humbert (que interpretou outro pescador português em "I cover the waterfront" de 1933).

Fontes/Mais informações: Wikipedia / Memorial da Fama / American Film Institut  / Excerto / Trailer