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domingo, 10 de novembro de 2013

Yvette Giraud grava adaptações de canções popularizadas por Amália


Yvette Giraud nasceu em Paris em 1916, mas apenas tardiamente, em 1946, depois da guerra, iniciou a sua carreira musical, pois era secretária na “Radiodiffusion Française” até que um empresário a pôs em contacto com o compositor Jacques Plantes.

Em 1950 foram realizados diversos espectáculos no âmbito do Plano Marshall; um programa de apoio Americano à Europa do pós-guerra onde participam os mais importantes artistas de cada país.


Quando escolheram os cantores para representarem os vários países só queriam cantores clássicos, mas como em Portugal não havia grandes cantores clássicos, ouviram uns discos de Amália e preferiram escolher a fadista.

Só em Dublin é que havia também cantores ligeiros, entre os quais se destacava Yvette Giraud, que tinha lançado sucessos como “Mademoiselle Hortensia” e “La danseuse est créole”.


A cantora francesa pediu a Amália as músicas de “Coimbra” e “Lisboa não sejas Francesa”, ambas da autoria de Raul Ferrão, que Amália recuperara para o seu repertório.

Yvette Giraud cantou as duas cantigas com letra de Jacques Larue. “Lisboa não sejas Francesa” foi adaptada para “Raconte Grand-mére”, mas não teve tanto sucesso quanto “Coimbra“, que foi popularizado como “Avril au Portugal” e se tornou, até hoje, o maior sucesso da música portuguesa.

“Raconte Grand-mére” foi, mais tarde, gravado pela cantora francesa Sidonie.


Yvette Giraud gravou igualmente, em ritmo fado-fox, “Trop de Joie”, uma versão de “Canção do Mar”, da autoria do maestro Ferrer Trindade com letra francesa de Jacques Plante , e “Les Lavandiéres du Portugal”, da autoria dos franceses Roger Lucchesi (letra) e André Popp (música).

Amália nunca cantou “Les Lavandiéres du Portugal”, mas prepararam um filme baseado na cantiga no qual estava prevista a sua participação, mas Paquita Rico é que interpretou o papel que inicialmente fora escrito para Amália.


Colaborou igualmente com o grupo Compagnons de la Chanson no tema "Yvette Girollingstone" que faz referência a canções como "Avril au Portugal":

-Dites-nous Yvette Giraud, pour votre disque 
Il faudrait penser à vous rollingstoner 
Oui avec le new tempo, c'est maxi disque 
Il faudrait penser à vous jacquedutroner 
-J'aimerais vous faire plaisir avec ce disque 
Mais voilà, je suis fidèle en amitié 
C'est pourquoi, comprennez-le, même dans ce disque 
Je n'pourrai jamais tromper "Le p'tit cordonnier" 
-Je l'aimais plus que tout en somme 
Nous vivions d'un amour idéal 
Il m'aimait car un homme est un homme 
Nous passions "Avril au Portugal
-Dites-nous Yvette Giraud pour la rengaine 
Il faudrait penser à vous minijuper 

Fontes: Victor Pavão dos Santos / wikpedia / Encyclopedisque /  Compagnons de la chanson 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

"Uma Casa Portuguesa" de cariz internacional


“Uma Casa Portuguesa” é uma das canções mais conhecidas da música portuguesa. A música é do maestro Artur Fonseca, que dirigia a orquestra de salão do Rádio Clube de Moçambique, com letra de dois jovens poetas de Lourenço Marques, Reinaldo Ferreira e Vasco Matos Sequeira.

Cantado pela primeira vez pela angolana Sara Chaves, que estava de passagem em Moçambique, no Teatro Manuel Rodrigues em Lourenço Marques numa quase certamente quente noite de uma 4ª feira, 30 de Janeiro de 1952, num sarau em honra de uma delegação do Colégio Militar de Lisboa, que então visitava Moçambique. Mais tarde, João Maria Tudela mostrou a canção a Amália Rodrigues que a cantou e a celebrizou mundialmente, tendo sido incluída no álbum “Amália no Olympia”.

A canção tinha originalmente um ritmo lento, suave, expressivo, bem diferente do que todo o Portugal conhece na interpretação de Amália Rodrigues.



Percurso internacional de uma "Casa Portuguesa"

A cantora espanhola Gloria Lasso gravou, em 1955, versões de “Uma Casa Portuguesa”, em espanhol e francês, respectivamente com o título de “Una Casa Portuguesa”, com letra de G. Dasca, e “Quand Je Danse Dans Tes Bras “, com letra em francês de Max François.

Amália Rodrigues e Gloria Lasso receberam o troféu “Caravela de prata” em 1955. O tema foi gravado sob direcção de orquestra de Franck Pourcel, que igualmente lançou uma versão instrumental.


A canção foi gravada em Espanha, ainda na década de 50, por cantores como o espanhol Jorge Sepulveda e a argentina Lydia Scott. E, mais tarde, nos anos 60, por Marisol.

E, em Itália, "Una Casa Portuguesa" foi gravada por Wilma de Angelis, pelo quarteto vocal Poker di voci ou por Gerardo e il suo complesso.


O maior número de versões registou-se, no entanto, em França, com cantoras como Frederica ou Lynda Gloria (do Casino de Paris) a interpretarem "Quand Je Danse Dans Tes Bras ...", e inúmeras versões instrumentais por orquestras como as de Jacques Hélian, Hubert Rostaing, Henri Rossotti , Eddie Barclay e Noel Chiboust Pourcel, ou músicos como o acordeonista  Marcel Azzola e o pianista Charlie Oleg.


"Uma Casa Portuguesa" tornou-se igualmente uma das canções portuguesas mais populares no Brasil, sendo gravadas, ainda na década de 50,  versões por artistas luso-brasileiros como Gilda Valença e Manoel Monteiro.  E foi cantada em 1984 por João Gilberto num concerto em Portugal.

E também foi recuperada por Caetano Veloso que incluiu "Uma Casa Portuguesa"  num pout-pourri conjuntamente com as canções brasileiras "Por causa de você" e "Felicidade".


Caetano Veloso afirmou ao jornal italiano "La Repubblica" que temas como "Lisboa Antiga" e "Uma Casa Portuguesa" são um presente para a história da música. E que temas como "Coimbra" não estão assim tão afastados da música do compositor italiano Nino Rota.

Nelson Riddle gravou igualmente "Uma Casa Portuguesa", também conhecido como "House in Portugal", em 1958, na sequência do sucesso de "Lisbon Antigua", que foi nº1 nos Estados Unidos em 1955.


O tema também foi gravado pela orquestra de Reginald Conway, em ritmo samba“, sob o título "Uma Casa Portuguesa (A Portuguese home)”.

E foi gravado, nos anos 70, pelo cabo-verdiano Johnny Rodrigues, que obteve bastante sucesso nos Países Baixos com versões de temas portugueses como "Hey Mal yo".


Videos: Gloria Lasso / Manoel Monteiro / João Gilberto / Caetano Veloso / Jorge SepúlvedaMarisol / Poker di voci / Amália no Olympia

Um fado moçambicano ? 

Este fado é alegre, musicalmente agradável, reprodutor de uma exo-saudade idílica e exageradamente generoso, em parte porque não tropeça nas muitas razões que fizeram com que Portugal, uma miserável pequena ditadura e uma sociedade em quase tudo parada no tempo, fosse um tão apetecível lugar de onde se emigrar.

Naquela altura, Portugal só era lindo para quem estava em Moçambique porque estava tão longe. O poema só pode ser interpretado como um dos mais sublimes exercícios de sarcasmo dos afectos concebidos na língua portuguesa.

João Maria Tudella também gravou "Uma Casa Portuguesa" em 1959

Mas este fado nunca foi visto nem apercebido como tal, em parte por se enquadrar tão precisamente na grelha popularucho-travestipoética prevalecente e imposta nos círculos de então. Nesse aspecto, para mim, será sempre um fado moçambicano, dos tempos em que alguns ali viviam uma forma muito peculiar de se ser português.

Em que a distância, a saudade e o isolamento se prestavam à alegoria. Enfim, este poema de moçambicano tem pouco, mas tem piada saber pois quase qualquer português a sabe cantar.

Fontes/Mais informações: Estado sentidoDelagoabayword / Margarida Navarro  / ratosreturn / Hitparade italiawikipedia 


Capas

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Canções de temática portuguesa na voz de Dalida


Yolande Christina Gigliotti, filha de imigrantes italianos da Calábria, nasceu no Egipto em 1933, onde o seu pai tocava violino na Cairo Opera House.

Após ser eleita Miss Egipto, em 1954, é convidada a participar em alguns filmes. Embora não tenha tido muito sucesso, é descoberta pelo realizador francês Marc de Gastyne que lhe sugere que tente carreira em França, para onde se muda na véspera do Natal de 1954, com a intenção de seguir carreira cinematográfica.

Sem grandes oportunidades no cinema, começa a cantar num cabaré em Itália, mas a sua grande oportunidade surge quando participa numa audição no Olympia, que pré-selecionava candidatos para a série de apresentações de jovens talentos, “Les Numéros Uns de Demain”, no então recentemente reformado e re-inaugurado Olympia de Paris.

"Aie ! Mon Coeur (La Portuguesa)"

Dalida interpretou a música "Étrangère Au Paradis" e Bruno Coquatrix, proprietário do Olympia, encantou-se com a interpretação da cantora que logo foi apresentada a Lucien Morisse (diretor artístico da Radio Europe 1) e Eddie Barclay (dono da editora Barclay), a dupla que desempenharia papel fundamental na carreira da artista.

O seu primeiro disco foi “Madonna”, versão francesa do tema “Barco Negro”, celebrizado por Amália Rodrigues. Mas foi com “Bambino” (versão da canção napolitana “Guaglione”), que se tornou um sucesso instantâneo em toda a França, tendo ocupado a primeira posição do top francês durante 39 semanas consecutivas, segundo dados da “Infodisc”.

Versão do tema "Sempre que Lisboa Canta"

Os três primeiros discos de Dalida são bastante homogéneos, tendo todos o mesmo plano de fundo. Canções de origem portuguesa, espanhola e italiana, remetendo-a directamente ao personagem cigano e boémio delineado para ela, a exemplo das músicas “Fado”, “Gitane” e “Flamenco Bleu”.

Outros títulos, como “Bambino” e “Por Favor”, expressam literalmente a latinidade das canções, que, mesmo adaptada para o francês, mantém nos títulos expressões ou palavras de outras línguas. Este seria um costume marcante na carreira de Dalida, o qual ela manteria durante toda a vida artística, assim como o sotaque italianado, com os Rs bem enrolados.

"Ay ! Mourir pour toi" com inspiração em "Ai Mouraria"

Influência de Amália

Na altura em que Amália triunfava no Olympia, Dalida começava a sua carreira, e se apresenta no Olympia em 1957 com artistas como Charles Aznavour e Gilbert Becáud.

Dalida sempre afirmou que Amália foi importante na sua afirmação como artista, pois Dalida cantou diversas canções do seu repertório como “Barco Negro” (versão da canção brasileira "Mãe Preta" com letra de David Mourão Ferreira), "Sempre que Lisboa canta" (da autoria de Carlos Rocha e Anibal Nazaré, com letra francesa de Jacques Plante) e “Aïe ! mourir por toi” (da autoria de Aznavour").


Ligações a Portugal

1º álbum “Son nom est Dalida” (1956) inclui “Madona” ("Barco Negro") e “Fado” (original de Henri Decker com letra de Michele Vendome)
2º álbum “Miguel” (1957), inclui "Aïe ! Mourir pour toi"
3º álbum “Gondolier” (1958), inclui “J'écoute chanter la brise (Sempre que Lisboa canta)"
4º álbum “Les Gitans” (1958), inclui “Aïe! Mon Coeur (La Portuguesa)”

E no tema "Le Vénitien de Levallois", da autoria de Didier Barbellivien e Eric Charden, existe uma referência a Portugal ("Le Portugais de Courbevois"), sendo curiosamente identificado no verso como "Le Venitien de Levallois, Le Portuguais de Courbevoie".



Extracto de Letra de "Le Vénitien de Levallois"


La France est devenu son pays
Quand on dit de lui que c'est un étranger
Il dit qu'on est tous des émigrés
C'est un vénitiens de Levallois
Un Français de cœur comme il y en a
Aventurier de l'aventura
C'est un baladin comme vous et moi
C'est un Portugais de Courbevois

Fado

Original de Henri Decker com letra de Michele Vendome, pseudónimo de Micheline Wrazkoff, tendo sido gravada quer por Henri Decker, quer por Dalida e pelo grupo Les Blues Stars.



Letra de "Fado"

Fado, fado
Le Portugal te doit ses nuits blanches
Quand au fond de l'ombre tu te penches
Offrant ta fraîcheur sous le ciel chaud

Fado, fado
Le soir sur la place on se rassemble
Et dès que ta voix se fait entendre
Toutes les mères rythment le fado

Tous les cœurs
Te confient leurs espoirs et leurs peines
Le bonheur se confond enfin avec les pleurs
Grâce au

Fado, fado
Quand la femme au châle noir te chante
C'est tout un monde que l'on invente
Rien que pour un refrain de fado

Fado, fado
Pour deux étrangers venus t'entendre
Le bonheur ne s'est pas fait attendre

Car l'amour aime bien le fado

Fado, fado
On s'est regardés sans rien se dire
Aussitôt tu fleuris en sourire
Nos cœurs se sont compris sans un mot
Dans ma main
En tremblant, il pose sa main douce
Et soudain pour nos deux cœurs Il ne dit plus rien
Que le

Fado, fado
Rythmons cet amour devenu nôtre
Nous sommes partis l'un contre l'autre
Tandis que s'éloigne le fado
Fado, fado, fado.

Fontes/Mais informações: Dalida toujours / Amalistas  / Conversa muita conversa / Roberto-musikal / wikipedia / kflem / Amália no mundo

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

"Os Argonautas" de Caetano Veloso (1969)


[Navegar é Preciso] É um texto famoso de Fernando Pessoa, desses que se incorporam à memória cultural de um povo. Cito de memória: "Navegadores antigos tinham um lema: navegar é preciso, viver não é preciso. Quero para mim este lema, adaptando-o à minha vida e à minha missão no mundo: viver não é necessário, o que é necessário é criar."

Para a minha geração, a frase lembrada por Pessoa foi popularizada por Caetano Veloso em sua canção "Os argonautas", no seu "disco branco" saído em 1969, logo após sua prisão pelo regime militar.


Nenhum de nós tinha a menor ideia de quem fosse Fernando Pessoa. Era apenas um nome que Caetano tinha bradado, enfurecido, para a plateia que o vaiava durante sua interpretação de "É proibido proibir", num daqueles festivais.

Com a vaia, o cantor interrompeu o canto e disparou na direcção da plateia um monólogo a plenos pulmões com uns dez minutos de duração, no qual, a certa altura, gritava: "Hoje não tem Fernando Pessoa!" (*)

(*) [Caetano Veloso ia interpretar "É Proibido Proibir" com Os Mutantes, pretendendo, inicialmente, incluir um texto de Fernando Pessoa para homenagear a actriz Cacilda Becker que estava a ser pressionada para rescindir o seu contrato com a televisão]


Fernando Pessoa? Quem diabo é esse cara? Corremos todos para as enciclopédias e descobrimos que era um "poeta modernista português, falecido em 1935". Ficamos mais perplexos ainda. Oi... quer dizer que o Modernismo tinha chegado em Portugal?!

Pensávamos que Portugal tinha estacionado em Camões e Gil Vicente.
Aí saiu um compacto [single] simples, tendo no lado B a faixa "Ambiente de festival", com a vaia do teatro e a diatribe de Caetano, e no lado A a canção "É proibido proibir" ("A mãe da virgem diz que não... e o anúncio da televisão... e estava escrito no portão..."), na qual, a certa altura, brotava a voz surda e angustiada de Caetano recitando: "Esperai! Cai no areal e na hora adversa que Deus concede aos seus..."


Eram os versos do poema "D. Sebastião", na parte III de "Mensagem", único livro publicado em vida por Fernando Pessoa. Até hoje não sei o que diabo têm a ver Dom Sebastião e o slogan "É proibido proibir"; mas foi este talvez o primeiro link "pessoano" na obra de Caetano, retomado depois com "Os argonautas": "O barco... meu coração não aguenta tanta tormenta, alegria, meu coração não contenta..."

Era um fado nostálgico em tom menor, ao som de bandolins, onde se misturavam temas como a navegação sem rumo e o vampirismo ("O barulho do meu dente em tua veia... o sangue, o charco..."). E o refrão, em tom maior ascendente, triunfante: "Navegar é preciso... Viver não é preciso!"


Só muitos anos depois é que vi comentários sobre a ambiguidade da frase. "Precisão" pode significar necessidade: navegar é necessário, viver não é necessário. Mas pode significar também exactidão, e aí teríamos: navegar é uma ciência exacta, viver não o é.

O que está muito mais de acordo com os argonautas da Escola de Sagres, com suas bússolas, astrolábios e portulanos. Naufrágios, calmarias e tempestades, no entanto, nos mostram a ingenuidade dessa distinção. Viver e navegar estão submetidos ao mesmo princípio de incerteza. Não nos esqueçamos de que para navegar é preciso viver, não é preciso?

Fonte: Braulio Tavares (Publicado no Jornal da Paraíba, edição de 25 de julho de 2004)


Homenagem à cultura portuguesa

"Os Argonautas" foi interpretado por cantoras como Elis Regina, Maria Betânia e Ângela Maria.

Trata-se de um fado, em homenagem à cultura portuguesa, ao mar e à mítica viagem dos Argonautas comandados por Jasão [em metáfora aos navegadores portugueses].

Há quem tenha notado no modo de cantar de Veloso uma homenagem a Amália Rodrigues e uma homenagem a Fernando Pessoa, com a inclusão do verso "Navegar é preciso, viver não é preciso" que tem origem no general romano Pompeo (106-48 aC) "Navegar é necessário; viver não é necessário".

Além da menção ao mar (que é uma constante em Mensagem), fica claro o conteúdo sebastianista da letra, tal como acontece no livro de Pessoa.

Letra

o barco, meu coração não aguenta
tanta tormenta
alegria, meu coração não contenta
o dia, o marco, meu coração
o porto, não
navegar é preciso
viver não é preciso
o barco, noite no teu tão bonito
sorriso solto perdido
horizonte, madrugada
o riso, o arco, da madrugada
o porto, nada
navegar é preciso
viver não é preciso
o barco, o automóvel brilhante
o trilho solto, o barulho
do meu dente em tua veia
o sangue, o charco, barulho lento
o porto silêncio


"A Mensagem do Tropicalismo"

Uma conferência de Caetano Veloso e Antonio Cicero intitulada "A Mensagem do Tropicalismo", sobre a influência de Mensagem de Fernando Pessoa no movimento tropicalista, inaugurou o ciclo Livres Pensadores na Casa Fernando Pessoa, no dia 4 de Dezembro de 2009.

António Cícero estivera anteriormente no "I Congresso Internacional Fernando Pessoa". Segundo o ensaísta, "Caetano conta que uma das principais influências que sofreu foi de Agostinho da Silva, um professor português, um intelectual, um pensador, que havia emigrado para o Brasil, onde deu aulas, e em cujos ensaios ele reconhecia um certo messianismo que derivava imediatamente de Fernando Pessoa".

Caetano, que leu “Mensagem” na faculdade, impressionara-se sobretudo pelo facto de Fernando Pessoa ser capaz de dar vida digna a esse mito (ao parecer constituir a fundação da língua portuguesa).


Videos

(1) Caetano lê trecho da carta de Pêro Vaz de Caminha interpreta "Os Argonautas"

(2) Elis Regina canta "Os Argonautas" (de Caetano Veloso) no especial Sexta Nobre-Gloco 71/72.

(3) Caetano e Chico - Juntos e ao Vivo

(4) Maria Betânia [a música foi feita para ela cantar]

Outras fontes/mais informações: umbarco.blog / música e memória / fumacas.weblog / yahoo / Mundo pessoa / Caetano en detalle / Lusoleituras

Caetano Veloso colaborou na edição nº1 da revista "Pessoa"

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

"Lisbonne Dernier Tour" de Aude Samama e Jorge Zentner (2010)


"Lisbonne Dernier Tour", com desenhos da francesa Aude Samama e argumento do argentino Jorge Zentner, traça a biografia de um prestidigitador chamado Tosechi, que após atingir o zénite da fama acaba por resvalar para uma situação decadente.

A concretização gráfica serve-se de um estilo pictórico próximo da pintura, atingindo grande beleza plástica.

Sinopse

É com a vida e a as experiências de pessoas vulgares que se escrevem as histórias. É com a vida e a as experiências de alguém como o mago Tosechi que se escrevem as lendas.


Entre o passado e o presente

Habitamos um mundo em que o mago Tosechi já ocupou o imaginário de um público alargadíssimo. As imagens que nos surgem desse tempo glorioso parece-nos indicar a década de 1920, mas esses saltos no passado servem apenas para contrastar o presente, possivelmente na nossa actualidade, numa Lisboa ribeirinha.

O contraste é palpável pela falta de acompanhamento dos tempos pela parte de Tosechi, a lenta ultrapassagem pelos novos espectáculos, novas velocidades, novos entretenimentos.


Moreno, o seu agente, companheiro, gentleman’s gentleman, é quem lança os fios que ligam a glória ao declínio, o passado na ribalta e a quase desesperada natureza das errâncias na cidade a que vieram dar, e onde ocupam um pequeno hotel de terceira, longe dos hotéis de cinco estrelas de outros tempos.

São os pensamentos de Moreno e as suas acções que encaixam os momentos e as projecções dos acontecimentos. E é através das palavras de Zentner e de belos jogos linguísticos, e metáforas (por vezes, mas poucas, corroboradas pelas imagens), que nos vamos dando conta dessa lenta mas inexorável descida.

Fontes: Geraldes Lino (Divulgando BD) / Pedro Moura (Ler BD)/ wook

Aude Samama é igualmente autora de um CD livro sobre Amália Rodrigues publicado em 2008.



Fonte: página oficial de Aude Samama

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

"Meu Fado" de Fafá de Belém (1992)

Em 1990 foi feita uma pesquisa, em Portugal, sobre quem o povo português gostaria que gravasse um disco de fados e canções portuguesas. O nome Fafa de Belém foi o escolhido. Aí nasceu este "Meu Fado".

O produtor, Mário Martins, era o produtor preferido de Amália Rodrigues e junto com Tozé Brito e Pedro Oliveira, começamos a trabalhar num repertório abrangente. Por um ano trocamos cartas, cassestes, fax e horas de telefonemas infindáveis e maravilhosos ! Não havia e-mails a esta altura ...

De cada canção vinham várias leituras e um resumo da época e da situação em que ela foi gravada. (...)


O repertório era praticamente o mesmo, com excepção de "Canção Grata",que abre o cd. É uma letra sobre um poema de Florbela Espanca e havia uma outra "Amar", igualmente deslumbrante e aí as opiniões dividiam-se. Ganhou "Canção Grata", para minha alegria...

Uma semana de ensaios e, à maneira do Fado, entramos em estudio para gravarmos directo, sem canais a mais, a guitarra e o tempo a partir da respiração da cantora.

No fado, não há emendas nem "protools", nem vozes a serem refeitas. É a voz que dá o tempo e o sentimento. Os instrumentos vestem-na.

Um grande desafio para quem ama o Fado mas sabe que “fadista nasce-se, é em Portugal!”.


Um trabalho de mestre de Mário Martins, grande produtor; e Mestre António Chainho dominando sua guitarra portuguesa como se uma mulher fosse a cobrir-lhe de carinhos!!!

A partir de "Canção Grata" seguimos pelas águas deste Tejo e da democracia com Canoas do Tejo, emblemática canção imortalizada por Carlos do Carmo que canta a "embarcação" chamada Revolução dos Cravos, que devolveu ao povo português a liberdade e o Estado Democrático.

Seguem-se "Nem às Paredes Confesso", canção tradicional e muito popular aqui e em Portugal na voz de Amalia, Francisco José e tantos outros fadistas.


Em "Sombras da Madrugada" e "Sempre que Lisboa Canta" a alegria e a brejeirice tomam conta e cantam um lado menos conhecido, para nós brasileiros, desta canção portuguesa.

Mergulhamos, então no universo denso do Fado em "Procuro e Não te Encontro", grande canção de Nobrega e Souza e António José, e "Confesso", grande clássico de Frederico Valério e Galhardo, imortalizado por Amália.

Vamos, então para o "Fado das Queixas", Fado Malandro, o fado das ruas de Alfama e Mouraria, alegre e brincalhão!


Passeamos pelo repertório de Francisco José com "Olhos Castanhos" e "Só Nós Dois", de grande força popular para mesgulharmos em "Só à Noitinha", de novo Frederico Valério escrevendo para sua musa maior – Amália.

Achamos apropriado ter no repertório a canção "Memórias" que, embora composta no Brasil sem intenção de Fado, foi gravada por mais de 4 fadistas como se um Fado fosse. Como é um grande sucesso meu no Brasil e em Portugal, achamos por bem coloca-la.

Finalizamos com "Tudo Isto é Fado", outro clássico, que resume e traduz este sentimento que não se explica, esta saudade do que não se sabe bem, esta angústia que por vezes nos toma a alma e que está nas ruas,nos becos,nos infortunios, no que não se diz, nas meias mentiras, nos amores mal resolvidos, na esperança do retorno, em nossa almas fadadas àos amores que não se tem certeza!

Fonte: Fafá de Belém



Motivo do relançamento

"Estou fazendo 35 anos de carreira e esse disco é muito importante para mim. É o único disco de fado feito em Portugal por uma cantora brasileira. Foi feito a pedido do mercado português e produzido pelo produtor da Amália Rodrigues.

Quando recebi esse convite, fiz um ano de pesquisa, e naquela época não havia internet. Era fita cassete pra cá e pra lá (Risos). Foram cartas, faxes, trabalhando num repertório que fosse representativo. A ideia era revitalizar o fado, que estava fechado num gueto antigo e não chegava ao público mais jovem.

Fui escolhida entre três cantoras brasileiras e torci muito para que isso acontecesse. Em uma semana, conseguimos o disco de ouro.

No Brasil, vendeu perto de 500 mil cópias. Depois de um ano e pouco, a Som Livre tirou do mercado, e desde então me pedem que relance. A Sony, que tem o fonograma, topou e negociamos por dois anos. Em janeiro, chegou a autorização."

Fonte: Embaixada Portugal Brasil

Entrevista: RTP "Olha Que Dois" (1992)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Alma "Fadista" de Lenny Kuhr (2001)


Lenny Kuhr, que em 1969 era uma muito jovem cantora com 19 anos de idade e apenas dois anos de carreira, ganhou nesse ano o Festival da Eurovisão, ex-equo com outros três concorrentes, interpretando a canção "De Troubadour".

Desde aí, Portugal tem estado de algum modo alheio a esta cantora, mas o mais curioso é que ela não se tem alheado de Portugal.

Anos 70

Nos inícios da década de 1970, Kuhr foi mais bem sucedida em França que no seu próprio país. Tendo como base Paris, associou-se ao grande cantor francês Georges Brassens, fazendo durante anos espectáculos conjuntos.

Em 1972, em França, esteve várias semanas no 1º lugar das tabelas de vendas com a versão gaulesa da canção de Roberto Carlos "Jesus Cristo".


Anos 80

E na Holanda, no inicio da década de 80, tornou-se praticamente um símbolo nacional, com direito a reconhecimento governamental, por causa de uma canção infantil que compôs e interpretou com um conjunto francês de crianças chamado Les Poppys.

Esta canção viria também, entre nós, a ser muito popular junto do publico mais pequeno, após ter sido gravada em português por….. Suzy Paula.

Posteriormente, a sua vida pessoal levou-a ao casamento, à conversão ao Judaísmo e a uma ida para Israel, onde viveu vários anos da década de 80.


Versões de Franz Schubert e colaboração com Freek Dicke

A sua carreira entretanto foi-se consolidando, tendo-se tornado num dos nomes mais prestigiados da Holanda, quer através de bem sucedidas interpretações das canções de Franz Schubert, que ficaram belíssimas na sua voz. Quer através de colaborações com o guitarrista Freek Dicke.

Num dos seus melhores trabalhos, feito em colaboração com aquele instrumentista, chamado "Heilig Vuur" (1991), Lenny Kuhr resolve deixar libertar a sua paixão por um género musical que muito admira, o "Fado".


Ligações ao Fado

Admiradora de Amália Rodrigues, compõe a canção "Ik Zal Altijd Om Je Blijven Geven (Dar-te-ei sempre"), onde a influência do fado se encontra muito presente.

Mas a sua admiração ao fado não se ficaria por aqui, a pouco e pouco ele irá fazer parte integrante do seu repertório! Primeiro grava "Grof Schaandal", uma versão em holandês do “Fadinho da Ti Maria Benta” de Amália. Mais tarde, assumindo a sua paixão por este género musical, grava um disco com o nome de "Fadista", em que presta uma bela homenagem à “canção nacional” portuguesa.


Nesse trabalho, além de canções originais, onde a melancolia e a saudade são temas de referência e onde as sonoridades fadistas estão sempre presentes, Lenny Kuhr interpreta, na sua lingua natal, dois fados de Amália, sendo um deles “Solidão” de Frederico de Brito, Ferrer Trindade e David Mourão Ferreira.

Lenny Kuhr encontra-se actualmente a celebrar os seus 40 anos de carreira, dando frequentes espectáculos pelos Países Baixos, nos quais já se tornou inevitável a apresentação de “Portugese Lente (Uma Casa Portuguesa)”, o outro fado do seu disco “Fadista”.

Fontes: In-Senso (adaptado) / wikipedia / Página oficial

Videos: "Fadista" / "Portugese Lente" / "Ik Zal Altijd Om Je Blijven Geven"

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Patrizia Laquidara edita "Indirizzo portoghese" (2003)

Nascida em Catania mas "vicentina" [de Vicenza] de adopção, Patrizia Laquidara é conhecida do público italiano desde há pouco tempo, sobretudo depois da sua participação no 53° Festival de Sanremo (2003) com a canção "Agisce".

Namorada dos tropicalistas brasileiros (Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa e sobretudo Caetano Veloso, a quem a cantora dedicou o seu primeiro CD, "Para você querido Cae"), consegue criar um estilo originalíssimo e de extraordinária intensidade, que funde o sound brasileiro (mais explicitamente no trecho "Uirapuro" do artista brasileiro Valdemar Henrique, cantado em português) com ecos mediterrâneos e de outras tradições musicais (o fado português).

O álbum "Indirizzo portoghese"

"Indirizzo portoghese", o seu segundo álbum, é um disco encantador, que acrescenta ainda mais um capítulo à história passional entre a canção italiana e a música lusófona

O título do álbum deve-se ao grande amor de Patrizia por Portugal, país que já a recebeu muitas vezes e que para ela é fonte de inspiração para muitas das suas letras e músicas.

Patrizia Liquidara já esteve várias vezes em Portugal e colaborou com Rodrigo Leão.

Fontes: Página Oficial / The Place / Festa do Cinema Italiano / Altervista

Video: Youtube

Letra

Incontro chimico linguistico latino un po’ bambino
Complicità europea
Ti ho incontrato nella piazza con i libri sottobraccio
Seduto sui gradini della Fondazione Amado
Camicia di cotone
Io ti guardavo ma ai tuoi occhi ancora non ci avevo fatto caso
E ci scambiammo i nomi ignari che un incontro casuale
Improvviso minimale
Ci può portare altrove

Lettere e.mail e un indirizzo portoghese la la la la la
Lettere e.mail e un indirizzo portoghese la la la la la
E la radio del paese salutava Amalia


Sembrava tutto così intatto puro pratico perfetto
Complicità mondiale
sotto una luce cristallina di una luna nordestina
Noi due ci chiamavamo con lo stesso nome amore
Senza immaginare
Quello che adesso mi rimane

(...)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Julio Iglesias e Amália Rodrigues

Tive ocasião de actuar três ou quatro vezes com Amália Rodrigues e foi um autêntico privilégio. Tenho o fado dentro de mim e incluo-o no meu repertório, talvez pelas minhas raízes galegas.

(…) Do ponto de vista artístico pareceu-me sempre uma das mulheres com maior estilo no mundo da música universal. Não só da música portuguesa.

Fonte: Maite Gonzalez e J. Frisuelos in Revista “Visão” (2003)

Videos: Admiração por Amália / Duetos com Amália (I); Duetos (II)

Num dos videos, Julio Iglesias refere o seguinte: "Sabes, Amália as pessoas não sabem que, quando comecei a cantar, cantava fados, porque é muito semelhante à nossa música folclórica"

Nota: A primeira vez que Julio Iglesias cantou o tema "Coimbra" foi, em 1980, em dueto com Amália no Festival de Newport.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O fado de Maria Berasarte (2009)


Maria Berasarte, nascida em 1978, estudou canto lírico e deixou-se seduzir por outras sonoridades e acaba de editar o seu primeiro álbum.

Com direcção musical de José Peixoto e letras originais de Tiago Torres da Silva, "Todas Las Horas Son Viejas" pega em fados tradicionais e, sem pretensiosismo, apresenta uma visão diferente deste género musical tão tipicamente português.

"Espero que as pessoas oiçam o disco com o mesmo carinho com que eu o fiz. Não é mostrar como a espanhola canta fado, não é uma coisa de 'ah, eu sou fadista'... Eu sou uma espanhola, basca, cantora, e que fez uma homenagem ao fado porque o fado fez muito por mim, e Portugal também", explicou.

Primeiro contacto com o Fado

Apesar de ser Filha de Galegos, não tinha tido grandes contactos com o fado. Até que um dia ouve Amália na televisão espanhola:

"Ouvi cantar de uma maneira que nunca tinha ouvido. Parecia com o flamengo, mas noutro plano, muito diferente, mas muito visceral" (…)

"Precisava mesmo de ouvir algo assim. Queria deixar a escola de canto, mas ainda não sabia qual o rumo que queria seguir."

Primeiro disco

Queria gravar um disco que recolhesse canções de diversos géneros, quando a sua mãe lhe fala da possibilidade de gravar fados. Após contactar José Peixoto (Madredeus) por e-mail, o músico português aceita ser o produtor do disco, sendo convidado Tiago Torres da Silva para ser o autor das letras em espanhol.


Depoimento de Tiago Torres da Silva

O disco da Maria Berasarte foi um acontecimento. Nada fiz para que acontecesse, mas a Maria, que é uma cantora extraordinária, apaixonou-se pelo Fado e veio a Portugal com o intuito de encontrar os parceiros certos para esta viagem.

Quando me encontrou, pediu-me que escrevesse letras em português para ela e fui eu que lhe propus que, se era para cantar fado, tinha de cantar com as palavras que aprendeu desde criança. Eu sou um letrista de vozes, para vozes! Tento sempre escrever como se fosse o cantor que vai interpretar aquelas palavras.

Por isso, fez-me sentido escrever em castelhano e foi um desafio muito grande, porque tive de comprar dicionários de rimas em espanhol, de expressões... durante meses a fio só li livros em castelhano e, por fim, escrevi aquelas letras de fados tradicionais, o que não é nada directo, porque a poesia popular portuguesa (e, por isso, quase todos os fados tradicionais) é maioritariamente em redondilha maior.

E as sete sílabas não calham bem ao espanhol... tive de as fazer caber... mas acho que isto foi um episódio que eu tenho muita vontade de repetir... mas nada mais que isso...por exemplo, gostava imenso de fazer um disco com fados tradicionais em francês... e até sei quem seria a cantora...

Quanto à questão de se estas experiências são fado ou não, confesso que não me interessa muito. Eu faço o que tenho de fazer, Existe alguma coisa inominável que me impele a fazer as coisas. Por isso, do ponto de vista da intimidade, claro que isto tudo é fado. Do ponto de vista da catalogação pública, talvez nada disto seja fado. Pelo menos, para os puristas, não é, de certeza!

Uma letra fala de se sentir como portuguesa

Palavra triste
Quando a guitarra beija
Não importa a tristeza
Eu sinto-me portuguesa
Eu também digo saudade

Fontes: Programa Bairro Alto (RTP2) / Portal do Fado / Blogue de Letras

Video: "Cosas que no sé"